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Chocó: Chava não veio para se apaixonar

Chava tem mais de 20 anos como liderança das comunidades negras do sul do Chocó. Sua luta tem sido a defesa da vida e do território no rio San Juan. Embora não esteja ameaçada de morte, sua vida está em um constante risco. Todos os dias ela deve se deslocar em áreas atacadas por grupos armados e afetadas pelo garimpo, plantações de coca e o desmatamento.

Por: Juan Miguel Álvarez | EL MALPENSANTE

Publicação: Abril 22 de 2020













Dia 1. As ameaças

A chegada ao ponto de embarque é no meio da manhã. O céu está encoberto e o chão está molhado. Choveu e vai chover, embora o tempo todos estes dias tenha sido de sol intenso. Os típicos raios de sol ardentes de inícios de janeiro. No barco, feito de um grande pedaço de fibra de vidro, viajamos bem apertados uns trinta passageiros. Em nossa frente, vemos a água marrom do rio Calima, o percurso direto até o leito do maravilhoso rio San Juan. Se a partir daqui a gente pudesse traçar uma linha reta em direção ao nordeste, Bogotá estaria a quase 500 quilômetros de distância.

Acompanhamos Elizabeth Moreno Barco, uma mulher negra de 52 anos, uma das lideranças mais importantes e amadas das comunidades negras que vivem no sudoeste do país. Ela se sentou no lugar mais confortável: na frente, na segunda fila, logo atrás do barqueiro, para que suas pernas pudessem entrar. Desde que chegamos a este pequeno porto chamado Bajo Calima – quatro lojas, um celeiro, uma rua – todas as pessoas cumprimentaram Elizabeth. Eles a chamam de Chava ou Chavita. Esse diminutivo é por puro afeto porque ela, na verdade, é enorme: 1,75 metros, costas largas, braços e pernas longas, e mãos como um macete.

Estima-se que esta viagem demore quatro dias pelo rio San Juan com a corrente contra nós até chegarmos ao município de Istmina. É uma viagem de aproximadamente 250 quilômetros – dos 380 que o rio tem – através das bacias baixa e média que são, em conjunto, a vertente fundamental da parte sul do Departamento do Chocó. E o Chocó, embora também seja habitado por povos indígenas, é a região colombiana com maior predominância de negros. Devido à sua pobreza e à negligência por parte do Estado, já é comum dizer que o Chocó, junto com o estado da Bahia, no Brasil, são as regiões mais parecidas à África deste lado do mundo.

Além da extração de ouro, a bacia de San Juan é hoje uma terra fértil para a plantação de coca e uma área não regulamentada para a extração de madeira. Embora nos municípios haja comércio e negócios de serviços básicos – restaurantes e bares-, a economia da região é permeada por prata de origem ilícita. Essa prata é disputada por grupos armados ilegais. Tem havido presença de quadrilhas de tráfico de drogas que, às vezes, atuam como paramilitares, como Los Rastrojos ou El Clan del Golfo. E guerrilheiros. Até mesmo antes da sua desmobilização após o acordo de paz assinado em novembro de 2016, as Farc costumavam se deslocar pelo rio e era comum pendurarem cartazes de apresentação na entrada de um pequeno riacho dizendo BEM-VINDOS À FRENTE 30 DAS FARCS, como se esse fosse o ponto para eles atenderem o público.

No entanto, a guerrilha predominante nesta região é o Exército de Libertação Nacional (eln). Trata-se de um grupo que, inicialmente, afirmou ser guevarista e estar motivado pela Revolução Cubana, porém, seu funcionamento pressupunha uma rede de autonomias de ação regional que causou múltiplas tendências e correntes ideológicas. A frente que prosperou em San Juan se chama “Ernesto Che Guevara” e seu comandante mais reconhecido, chamado coloquialmente de “Uriel”, informou, através de sua conta no Twitter, que se sente um maoísta e que é um praticante da “guerra popular prolongada”.

Soltam as amarras e partimos. O barco chega rapidamente a quase 60 quilômetros por hora. Toda a carga – caixas, sacos, sacolas e bagagens – é colocada sobre o banco no meio para afirmar o centro de gravidade sobre a água. Chava faz carinhos em uma menina que estava sentada à direita, penteia o cabelo dela com a mão e a abraça. Ela é sua sobrinha e a está levando até sua mãe. Seus colegas de trabalho e as pessoas a conhecem como uma liderança comunitária e dizem que Chava é a “mulher de ferro”. Eles destacam seu carisma, ser capaz de ouvir todas as vozes sem perder a paciência; sua coragem para manter, inclusive, discussões políticas com chefes armados; e sua vontade de trabalhar pelo bem-estar das comunidades que representa. Para sua família, além disso, Chava é a matriarca. Ela é a guia e a fonte. Ela é mãe solteira de quatro filhos, avó de dois netos, filha encarregada de zelar pela mãe, a terceira de cinco irmãos, a tia mais admirada e amada.

Já prestes a chegar ao cais de Docordó, a duas horas de distância e a toda a velocidade, um posto de controle militar parou o barco. É um barco fluvial de tamanho médio, com antenas e artilharia, do qual pendem dois rápidos botes armados, conhecidos como piranhas. Os fuzileiros navais pedem identificações e me perguntam o que estou fazendo aí. Chava resolve a situação dizendo que eu vou, vamos visitar o cinegrafista Hernando Sánchez e eu – visitar o Conselho Comunitário Geral de San Juan (Acadesan), do qual ela é a representante legal. Eles lhe pedem que prove o que está dizendo e ela apresenta um documento administrativo do Conselho.

Acima de tudo, a desconfiança. Nas áreas vermelhas da Colômbia, as forças públicas sempre anotam os visitantes: quem são, o que vêm fazer, quando vão embora. Além disso, perguntam aos jornalistas quando será transmitida a reportagem. Nada muito diferente do controle exercido pelos grupos armados ilegais. Ontem, sexta-feira à tarde, Chava teve que chamar alguns camponeses que vivem no meio da floresta para lhes dizer que ia passar pelo território com uma equipe de jornalistas para documentar as ameaças contra San Juan e seus ecossistemas. Eles lhe agradeceram por ter avisado, isto é, por ela ter sido obrigada a considerá-los uma autoridade. “Nós somos os donos do território”, disse Chava, um pouco indignada, fazendo referência ao Acadesan. “Mas não podemos ignorar o fato de estas pessoas estarem lá dentro e armadas, e não podemos fazer nada para resolver isso”.





Elizabeth Moreno Barco, “Chava”, com seu colete do Acadesan. Foto: Hernando Sánchez





Docordó é um povoado de menos de mil habitantes que é a sede municipal do Litoral de San Juan, o município localizado mais ao sul do Chocó. É uma comunidade que vem se expandindo de lado a lado em uma autoestrada pavimentada de cerca de dez quarteirões paralelos ao rio e que começa e termina na floresta sem ter nenhum contato com nada mais. Passam motos, bicicletas e, até mesmo, um carro que alguém trouxe para exibi-lo naquela linha reta que não leva a lugar nenhum. Chava vem com frequência para resolver questões do Acadesan e para visitar uma parte da sua família. Aqui ela mantém atracado um pequeno barco de fibra de vidro, que ela usa para exercer sua função e no qual vamos continuar a partir de agora. A gasolina que utilizaremos para percorrer estes 250 quilômetros vem em dois tambores com os quais chegaremos depois de quatro dias e a volta será feita em três. Cada tambor contém sessenta galões. Um galão custa, em média, 14.000 pesos, um pouco mais de três dólares, enquanto que em qualquer cidade da Colômbia, por mais caro que seja, um galão não custa nunca três dólares, o equivalente a menos de 10.000 pesos. Aqui não tem postos de gasolina com medidores e tanques digitais; a gasolina vem em recipientes de medidas absolutas -de dez ou vinte galões, e tambores- que são comprados em um lugar específico nas margens do rio.

Como não há autoestradas, todos dependem da capacidade de se moverem através da água. A primeira coisa que aprendem as crianças é a se jogarem nos rios e a nadar, depois a controlarem uma canoa a remo e, finalmente, a fazer funcionar e reparar um motor fora de borda. O que depende de cada um deles é a perspicácia para entenderem as formas do rio e as rotas até o leito do rio, saber como evitar um trecho de pouca profundidade que possa atingir o motor, escolher o lado certo para seguir um meandro, entender quando devem acelerar ou diminuir a velocidade. Tudo isto me foi explicado por Dagoberto Mondragón, “Dago”, 48 anos, o braço direito de Chava no Acadesan e quem vai conduzir o barco daqui para a frente.

O primeiro destino é uma comunidade localizada na margem direita de uma das sete bocas do rio San Juan no Oceano Pacífico. Ela se chama Togoromá. Até 1999 este povoado estava localizado na esquina do rio que se torna uma costa. Foi aí que Chava e seus filhos mais velhos e seus irmãos nasceram. As pessoas levavam uma vida sem complicações – pesca no mar ou no rio, caça e venda de madeira – que terminou quando a erosão do mar começou a furar a beira da costa e a enfraquecer as fundações das casas, e toda a comunidade foi obrigada a se mudar a esta área, dois ou três quilômetros de distância antes de ter contato com o mar.

-Lá estavam soterrados meu umbigo e minha placenta”, me contou Chava enquanto caminhávamos ao longo do cais.

Na cultura do Pacífico colombiano, é um hábito soterrar o umbigo e a placenta das mulheres na parte posterior da casa, para forçar o enraizamento e a permanência no território. No caso dos homens, o umbigo e a placenta são ensacados e atirados no mar como uma tentativa de fazê-los progredir.

-O que você acha disso? -Chava me pergunta com uma gargalhada. As mulheres temos que ficar em casa.

Em seu novo lugar, Togoromá se tornou um povoado de 185 famílias satisfeitas. Ninguém passaria fome e ninguém pensaria em sair ou se mudar para procurar fortuna. Havia um posto de saúde equipado com suprimentos médicos suficientes para o atendimento básico; uma escola, frequentada por mais de cem crianças para chegarem à 9º série do ensino médio; e uma pequena igreja católica com sua respectiva concorrência evangélica.

Chava começou aqui seu papel de liderança social. De 1993 até 2010, ela foi a “mãe comunitária” que estava encarregada de cuidar e alimentar as crianças menores de cinco anos enquanto suas mães trabalhavam ou saíam do povoado. Ela também fazia parte do conselho comunitário local até se tornar sua presidente. Ela era uma ótima liderança para essas 185 famílias, habitantes ancestrais desta área costeira. Caso surgisse alguma discussão entre dois vizinhos, ela devia mediar para chegar a uma conciliação; caso ocorresse algum evento no povoado que colocasse as pessoas em risco, ela era a primeira em procurar ajuda.

-Nós vivíamos muito tranquilos aqui; éramos muito próximos.

Em 5 de janeiro de 2013, a guerra acabou com o mundo deles. O chamado “Clan del Golfo” tinha travado um combate na floresta contra “Los Rastrojos” para obter o controle de uma rota de saída da cocaína até o oceano. Quando chegaram a Togoromá, houve disparos de fuzil que iam e vinham sem importar que os camponeses estivessem no lugar. Felizmente, ninguém na comunidade foi morto nem gravemente ferido. O problema apareceu nas horas seguintes. Como as forças públicas nunca chegaram, os camponeses não sabiam o que fazer pois não entendiam a razão dos combates: não sabiam se tinham acabado, se estavam acontecendo, se os homens armados estavam perto do lugar. Como a única opção parecia permanecerem trancados em suas casas sem poder sair para caçar, pescar ou cortar madeira, os camponeses preferiram sair do lugar. Como aconteceu com todos os outros, esta foi uma decisão que Chava teve que apoiar por medo. Em menos de uma semana, Togoromá foi deixado em um vazio fantasmagórico.

-Aqui tenho minhas raízes, minha juventude, diz ela com algo de saudade, ao lado de uma grande árvore que fica a poucos metros da margem. Pensei que aqui estaria meu futuro até que tivemos que fugir.

Depois de receberem pouca ajuda humanitária do Estado nos primeiros meses de deslocamento -alimentos, dinheiro vivo, abrigos temporários- menos da metade dos habitantes voltaram para suas casas. Foi um grande movimento que terminou se agravando porque, quando perceberam que o lugar nunca mais seria como antes, muitos dos que retornaram optaram por saírem completamente até deixarem o povoado praticamente desabitado. Hoje, existem apenas 23 famílias, algumas delas com um único membro.

As instalações públicas foram abandonadas e caíram no chão: no que antes tinha sido um centro médico, os instrumentos ficaram inservíveis e cheios de mofo, as seringas estavam jogadas no chão de onde afloraram raízes e as macas viraram espumas pantanosas; não há mais igrejas e onde antes havia casas, só restam os espaços invadidos pelo capim; na escola, as cadeiras estão uma encima da outra e todas enferrujadas e na louça ficaram os textos que tinham se escrito antes do deslocamento.

 Chava foi uma das que não voltou. Depois de ter passado um tempo em Docordó, ela queria começar a viver do zero em Buenaventura – o porto marítimo mais importante da Colômbia, localizado a duas horas de distância por uma rota combinada de rios e autoestradas, que não faz parte do Chocó, mas sim do departamento Valle del Cauca – mas não queria perder seu papel de liderança social. Naquela época e desde 2007, ela já fazia parte do Conselho de Administração do Acadesan; em outras palavras, Chava já era uma das lideranças mais destacadas do território das bacias média e baixa do rio San Juan. Ela já tinha transitado os 250 quilômetros navegáveis e diferenciava claramente as ameaças da vida no rio: o abandono do Estado, o conflito armado, a fumigação com glifosato nas plantações de coca que terminam afetando as plantações estabelecidas no “Pancoger” e envenenando a massa florestal, provocando derrubadas indiscriminadas de árvores para o comércio de madeira, o garimpo ilegal que polui os solos e a água com produtos químicos residuais, e a gestão inexistente dos dejetos domésticos nas nascentes do rio.

-O rio San Juan é uma lixeira”, diz ela. Nesta parte inferior chega todo tipo de dejetos: geladeiras, fogões, móveis, animais mortos, pessoas mortas que secam em uma praia porque ninguém consegue levantar esses corpos por medo.





Cartão postal de Togoromá como um território de paz. Foto: Juan Miguel Álvarez.





Aqui em Togoromá, Chava deixou o esqueleto em madeira polida do que ia ser sua casa: um bangalô de dois andares sobre palafitas, tradicional ao longo da costa do Pacífico colombiano. Quando começou a construí-la, em 2012, Chava queria três coisas: que fosse espaçosa para acomodar as três crianças que ela tinha -seu primogênito já morava sozinho-, que tivesse uma varanda no segundo andar, e janelas nas paredes laterais para observar à distância tudo o que pudesse acontecer na comunidade. Agora, de pé naquela varanda, ele olha o leito marrom do rio San Juan: sua margem está cheia de árvores da floresta e seu caudal de águas pacientes.

-Eu nem consegui terminar nem estrear minha casa -diz ela-. Foi um investimento que perdi.

Uma das queixas frequentes de Chava é que os habitantes de Togoromá nunca receberam nenhum atendimento por parte do Estado para além da ajuda humanitária. Como o retorno desses poucos habitantes ocorreu sem qualquer garantia de que seus direitos fossem respeitados, a desocupação foi inevitável. Hoje em dia, muitas pessoas acreditam que o povoado irá desaparecer a médio prazo. Quando os idosos morrerem, é muito provável que os jovens, por não terem ninguém para reverenciar, saiam em busca de uma vida na qual possam formar ou se integrar a uma comunidade.

Dia 2. A organização social

O cemitério de Docordó é um colorido jardim com uma inclinação, um pedaço de terra roubado da floresta na margem direita do rio, que desce da borda arborizada até chegar à água. Túmulos, cruzes e mausoléus estão espalhados por caminhos ascendentes. Protegido por um telhado de chapas de zinco, tem um túmulo retangular de três metros de comprimento por um metro de alto no qual descansam as cinco vítimas do massacre de Carrá. É um caixão forrado com porcelanato branco e cinza. Em cima deles estão vasos caídos com flores sintéticas derramadas. Chava marcou esta parada no itinerário, após ter reiniciado a viagem nesta manhã do segundo dia, depois de termos conversado, ontem à noite, com algumas famílias que sobreviveram ao massacre.

A história foi assim: após sairmos de Togoromá, passamos por um esteiro que é uma região estreita e pantanosa do rio San Juan, cercada de manguezais e cujas raízes parece que fossem tentáculos de polvo, para chegar a outro povoado costeiro chamado Pichimá. Ali a comunidade se queixou com Chava de que o posto de saúde estava em ruínas, que a promotora não tem contrato, que trabalha só por vocação e que, nestes dez dias de janeiro, houve doze casos confirmados de malária. Depois fomos para Docordó para passar a noite em um hotel mas, antes de fechar os olhos, Chava nos levou a uma casa que fica bem longe onde há vários sobreviventes do massacre de Carrá vivendo em sobrelotação.

O massacre teve lugar em 25 de março de 2017. Por volta das dezessete horas, alguns guerrilheiros do ELN submeteram as dezessete famílias que viviam na comunidade, localizada a uns quinze minutos rio acima de Docordó. Eles entraram em cada casa à procura de membros de grupos paramilitares que, aparentemente, estavam escondidos naquele lugar. Eles não encontraram ninguém e atiraram até matar. Os que estavam com as botas no pescoço levavam um único tiro na cabeça. Os que correram aterrorizados levaram tiros de fuzil nas costas. Aterrorizado, um jovem se jogou no rio querendo fugir, mas sua testa bateu contra um pedaço de madeira escondido nas ondas de água. Estripado e afogado, ele se tornou a quinta vítima. Depois desse dia o povoado foi completamente esvaziado e, até hoje, quase três anos depois, nenhuma família voltou. A razão é simples: o grupo responsável pelo massacre não deixou a região; muito pelo contrário, está enraizado nela.

O ELN apareceu em San Juan no final dos anos oitenta. Vinha se espalhando a partir da área montanhosa do centro do Chocó e o seu objetivo era criar um certo nacionalismo simbólico entre a população negra para que ela se considerasse como excepcional e ameaçada pelos planos de desenvolvimento propostos pelo governo no poder naquele momento. O conceito de “libertação nacional” consistia no fato de que, uma vez que as comunidades estivessem conscientes da sua submissão a um Estado colonialista, seriam motivadas a se juntarem à luta armada para conquistarem sua libertação definitiva. Como não têm grilhões estatais aos seus projetos comunitários, eles apoiariam a guerra popular prolongada para ajudar a libertar o resto das comunidades camponesas do país e conseguirem chegar ao poder.

Para a aplicação desta estratégia, o ELN deveria promover o enraizamento no território, isto é, conseguir criar uma força nativa com homens recrutados das comunidades, conhecedores da topografia e formados na cultura ancestral, bem como ter o apoio moral e político das famílias. Até certo ponto este modelo da guerrilha deu certo para eles pois, até este momento, parecem inexpugnáveis.

Nas últimas três décadas, as FARC e vários grupos paramilitares passaram pelo sul do Chocó e nenhum deles conseguiu se adaptar com a mesma versatilidade. Os paramilitares, porque esse não é o método deles e eles só aparecem se lhes for dada a ordem. Já as Farc não se adaptaram, porque o modelo deles não era de enraizamento, mas sim de repovoamento. Quando as áreas do país que eles tinham sob seu controle foram atacadas com fumigações nas plantações de coca e com operações militares, esta guerrilha se deslocou para outras áreas trazendo consigo camponeses colonos especialistas na cadeia produtiva da planta. A linha de barcos de transporte público que navegam através da parte inferior do rio San Juan, para citar apenas um caso, é propriedade de mestiços da Amazônia que chegaram nesta região há cerca de 15 anos trazidos pela guerrilha.

O massacre deixou Carrá sem lideranças formadas pela organização social. As pessoas tiveram que sair da região por terem sido ameaçadas. Desde então, Hamilton Guaitotó, um mulato musculoso de trinta anos, é quem tem a responsabilidade de guiar os sobreviventes. Ontem à noite, ele me disse que, se dependesse deles, voltariam a sua terra imediatamente, demorariam apenas o tempo necessário para guardarem suas coisas. Se não voltarem e permanecerem como nômades, perderão o título de propriedade coletiva da terra que detém o conselho comunitário local de Carrá.

-Nós não queremos isso”, insistiu ele, Somos poucos, apenas dez famílias, e precisamos voltar para não desaparecermos.





Mapa do território que abrange o Conselho Comunitário Geral de San Juan. Foto: Juan Miguel Álvarez.





Malaguita é a próxima parada da viagem. São dez horas da manhã e avançamos menos de uma hora após o cemitério de Docordó, sob um sol inclemente em brasas. Chava me diz que esta comunidade não teve violência grave devido ao conflito armado, apesar de ser um “lugar estratégico de subida ou descida do rio”. A liderança mais destacada é Dago mas, depois de começar a trabalhar no Acadesan, sua voz foi assumida por Esciober Vanegas. Ele é um homem de 43 anos que se expressa com pausa e domínio da conversa. Estamos sentados sob a sombra de uma série de galhos de onde a comunidade pode ver barcos e canoas passando à distância.

Esciober diz que os peixes estão doentes. Que quando ele era criança o rio corria escuro e limpo, mas que durante cerca de vinte anos se tornou obscuro e ocre. Este é o momento em que, se as pessoas tomam banho no rio San Juan, “aparecem espinhos e ficam com coceira”; espécies como o timo e o barbudo sofrem de chagas.

-Tiramos os peixes saudáveis dos riachos”, ele diz. Se a gente come algo que vem do rio San Juan, você não sabe o que está comendo. De cinco ou seis peixes, dois ou três saem com chagas. Duas vezes já nos aconteceu que tiramos um barbudo saudável, colocamos ele para cozinhar e dele saiam minhocas. Aqui ninguém sabe por que está acontecendo isto. O que sabemos é que as pessoas na nascente estão atirando produtos químicos e lixo ao rio.

Após uma pausa, Esciober me conta dos planos da comunidade para oferecer turismo ecológico. Ele descreve as atrações naturais que eles ofereceriam: cachoeiras, lagoas, pássaros, trilhas. Ele diz que, tendo em vista o avanço dos megaprojetos do Estado na região, eles querem estar preparados para o número de visitantes que eles acham que vão chegar.

-Parece que falta muito tempo para isso, diz ele, mas se a gente pensar realmente dez ou vinte anos não são muitos na vida de uma comunidade. O que queremos é nos preparar para que possamos oferecer serviços turísticos às pessoas que nos visitem e que não seja alguém de fora que apareça aqui para montar um negócio.

O curioso é que os megaprojetos citados por Esciober são os que, no final dos anos 80, impulsionaram as comunidades negras de San Juan a se organizarem como uma estrutura política no Acadesan: a base naval de Bahía Málaga, localizada nos prédios de Buenaventura; a autoestrada que chega até a floresta para mobilizar tropas da base e que também aproxima o Parque Natural Nacional Uramba Bahía Málaga; um poliduto que sai desde esse mesmo ponto até o município de Buga no Valle del Cauca; a canalização dos esteiros que cortam os manguezais para abrirem mais portas ao oceano – uma coisa que nunca antes se fez-; o porto de águas profundas que ainda está em discussão; o plano das hidrelétricas Calima II, III e IV, todos eles descartados na atualidade.

A sigla Acadesan significa Associação Camponesa de San Juan. Nos documentos oficiais aparece sua origem entre os anos 1988 e 1990. Embora coincida com a chegada do eln – em cronologia e na ideia de que o desenvolvimento proposto a partir do centro do país não está levando em conta a cultura ancestral – foram as Lauritas – Irmãs Missionárias da Mãe Laura – e várias organizações indígenas do Chocó que explicaram aos negros o perigo que representava o desenvolvimento desses megaprojetos para a vida de suas comunidades. Em seu escritório, em uma universidade ao sul de Cali, o antropólogo e exsacerdote Jesús Flórez me explicou o seguinte: “Nós missionários mostramos às comunidades os mapas das concessões mineiras e os planos das concessões madeireiras e lhes dissemos: “percebam o que está acontecendo”. Os camponeses estavam sendo contratados pelas empresas madeireiras para ajudarem a abrir caminhos para trazer máquinas e derrubar as árvores mais valiosas da floresta. Em troca disso, eles recebiam um salário diário infimamente baixo. A maior concessão na área estava em mãos da Pulpapel, uma filial do Grupo Carton de Colombia – agora Smurfit Kappa. Essa concessão começou em 1959 com 15 mil hectares e teve a sua terceira expansão em 1974, com a qual chegou a uma extensão de 54 mil hectares, com autorização para derrubar 84 mil toneladas anuais de madeira durante trinta anos.

Os religiosos fizeram ver aos negros que se essa exploração não parava, eles logo ficariam sem recursos naturais para sobreviver, que o território deveria pertencer a eles simplesmente porque eles o habitavam há mais de um século e que deveriam ser eles que tomassem as decisões sobre como usar a terra.

Logo no início do seu governo, em 1983, o Presidente Belisario Bentacur promulgou o Plano de Desenvolvimento Integral da Costa do Pacífico, com o qual se pretendia modernizar esta região em termos de centros econômicos do país: Medellín e Antioquia, como o lugar de poder mais próximo do centro e do norte do Chocó, uma região atravessada pelo rio Atrato; Pereira e o Eixo Cafeeiro, como a região que tem contato direto com a bacia alta do rio San Juan; e Cali e Buenaventura, com as bacias média e sul. “E esta relação tem se tornado mais extrema”, acrescenta Flórez. Nessa mesma época, o plano era se integrar com os países chamados “tigres asiáticos”. E agora com a China. Há também planos para o Brasil e a Venezuela se conectarem por vias 4G com o Pacífico, passando pela Colômbia. As comunidades negras foram deixadas em uma espécie de sanduíche de múltiplos interesses.

Com a emissão da Lei 70 de 1993, o Estado reconheceu a posse da terra por comunidades negras, suas práticas tradicionais de produção nos solos ribeirinhos e seu direito como minorias étnicas protegidas pela Constituição a terem a propriedade coletiva do território. Esta lei permitiu o processo técnico para a criação dos conselhos comunitários locais e gerais, e estabeleceu suas estruturas hierárquicas. As organizações previamente constituídas, como o Acadesan e a Acia -Asociación Campesina Integral del Atrato-, tiveram sua capacidade de funcionamento ampliada se tornando conselhos gerais. Se como associações os camponeses mal conseguiam chegar a acordo para fazerem reivindicações ou produzir, como conselhos comunitários começaram a ser donos e proprietários do território, especialmente em aspectos relacionados com seus planos de desenvolvimento.

O Conselho Comunitário Geral de San Juan – Acadesan recebeu o título de propriedade coletiva em dezembro de 2001, em um número de terras localizadas ao redor das bacias baixa e média do rio equivalente a 683.591 hectares, distribuídos em cinco municípios do Chocó: Litoral do San Juan, Médio San Juan, Itsmina, Sipí e Nóvita – e em três do departamento do Valle del Cauca: Buenaventura, El Dovio e Bolívar. Este conselho é dirigido por um conselho de administração composto por oito membros mais o representante legal. Cada membro é responsável por uma das oito áreas geográficas nas quais está dividido o território, habitado na sua totalidade por 72 comunidades que comparecem à assembleia com a representação de três delegados cada uma. Chava foi eleita duas vezes como representante legal neste estrito sistema organizacional.





Cais em Corriente Palo. Foto: Juan Miguel Álvarez.





Nossa quinta parada do dia é na comunidade de Corriente Palo. O ponto mais remoto até onde chegamos até agora: duas horas neste barco pelo Copomá, um afluente na margem esquerda do rio San Juan. São dezesseis horas.

Quando saímos de Malaguita, Chava nos levou a uma comunidade chamada Coco para nos demonstrar que o povo ainda está esperando que o Estado os ajude a resolver a falta de um aqueduto e de eletricidade. Depois, paramos no Taparal, um lugarejo com mais casas abandonadas do que ocupadas. Desde finais dos anos 90, existe lá uma fábrica que produz o que se chama em espanhol “triplex”, um aglomerado de folhas de madeira usado para fazer móveis de escritório e residenciais. A empresa teve que encerrar a produção em 2018, depois que o eln ordenasse não cortar madeira da floresta durante seis meses, sob pena de assassinato. Dezenas de operários de San Juan ficaram desempregados e abandonaram o lugarejo. Embaixo do galpão do que costumava ser a fábrica vi máquinas que podiam ter uma segunda vida, mesmo que estivessem bem afetadas pela umidade. E vi, espalhados ao ar livre, troncos de madeira que iam ser processados antes do fechamento, mas que já não prestam mais para serem usados como matéria-prima.

Aqui em Corriente Palo, um dos problemas mais delicados e evidentes do território do Acadesan é a plantação de folhas de coca. Pequenos campos plantados com este arbusto são perceptíveis em ambos os lados do rio minutos antes de entrar no povoado. Seu verde brilhante e uniforme se destaca dos verdes opacos das árvores. Já nas casas – debaixo delas, entre as palafitas – repousam os precursores aos olhos do mundo inteiro: sacolas de uréia e tambores de gasolina. Uma pessoa do local me explica que, se eu entrasse por alguns minutos na floresta desta comunidade, encontraria grandes plantações junto ao que eles chamam “cambuyones” – lugares onde é processada a folha de coca para a tornar uma pasta. De acordo com o mais recente estudo das Nações Unidas sobre a plantação de coca na Colômbia – UNODC 2018 – no território do Acadesan, estima-se que existam 1.116 hectares de coca.

Chava me apresenta duas lideranças locais: Carlos Alberto Victoria, 42 anos; e José Diaz, 39. Eles parecem nervosos e um pouco tímidos, embora sejam altos e fortes. Eles cobrem suas cabeças carecas com um boné. Hernando os filma com a câmera e Chava os motiva: “Falem porque todos nós sabemos o que acontece aqui! Carlos Victoria decide falar e o faz entre a confissão e a reclamação:

-A verdade é que aqui nos dedicamos à madeira e à folha de coca. A madeira por si só não é suficiente e a única saída para o sustento das nossas famílias é a folha de coca. Embora o governo saiba disso, somos nós os atropelados. Os que se enriquecem são outros, os que traficam. Nós somente a plantamos e nos operativos todos estão contra nós: fumigam-nos, tiram a gasolina e os suprimentos da gente e queimam nossos “cambuyones”. E se apanham algum de nós, nos incriminam por coisas que não são. O mundo inteiro sabe que a economia da Colômbia é isso mesmo e eles tentam esconder isso. Veja: a gente trabalha com madeira, temos que vendê-la em parcelas e eles pagam quando ficam com vontade. A gente planta bananas e ninguém pode comprar; você cria porcos e galinhas, e acontece a mesma coisa. A única coisa que eles compram de você é coca.

-O que vocês esperam do Estado? -eu pergunto. Victoria duvida para dar a resposta. Outras pessoas se juntaram à entrevista e estão cercando essas duas lideranças. Chava está os vendo se defenderem da imprensa como se fosse uma prova que fazem para se formarem como “lideranças comunitárias”.

-Qualquer coisa para não ter que continuar plantando coca -responde Victoria finalmente. É claro que ele não pode imaginar um futuro diferente desse, mas não vão continuar nos enganando com propostas de porcos e mandioca, porque sabemos perfeitamente que essas plantações não deixam suficientes lucros para nem sequer comprar uns shorts. Se o estado nos oferecer uma solução real, nós a aceitaremos. Ninguém aqui quer continuar plantando coca.

-Vocês estão conscientes de que nada legal vai ser tão lucrativo quanto a coca? -Victoria fica em silêncio e os outros também não respondem nada. Estariam dispostos a desistir da coca, mesmo que a solução proposta pelo Estado gerasse menos dinheiro para vocês? Mais um silêncio, por isso eu faço a próxima pergunta: Já pensaram que tipo de atividades vocês poderiam fazer para substituir as plantações de coca que os deixassem satisfeitos?

-Projetos produtivos voltados à produção e comercialização, -responde Chava ao ver estas lideranças face a face, mas em voz muito baixa, como se não quisesse interferir na entrevista. Eu lhe peço que explique melhor: aqui o arroz pode ser plantado muito facilmente. Um dos projetos é instalar um moinho e a maquinaria necessária para plantar arroz, processá-lo, embalá-lo, rotulá-lo com nosso nome da região de San Juan e colocá-lo no mercado até que ele seja vendido ao consumidor. Temos a mesma ideia com colorau, cacau e os produtos derivados da cana-de-açúcar.

O dinheiro para que esses planos se tornem verdadeiros modelos de trabalho deve vir de uma política estatal, resultante do acordo de paz com as FARC, chamada Programas de Desenvolvimento Voltados ao Território (PDET). Dentre esses programas que são destinados aos 170 municípios do país mais afetados pelo conflito armado, o sul do Chocó foi priorizado com os outros cinco que constituem o Acadesan. A própria Chava participou da dinâmica de formulação dos programas.

-Estamos prontos, como organização social, para fazer as contribuições necessárias, tanto pessoais quanto dos conselhos, para que esses PDET se tornem uma realidade. Esta é a única oportunidade que temos de deixarmos as plantações de uso ilícito e sairmos deste atraso.





Troncos de madeira inutilizável nas margens do rio San Juan, na comunidade de Taparal. Foto: Juan Miguel Álvarez





Há duas razões pelas quais estas comunidades dizem estar dispostas a deixar de lado a coca, caso consigam encontrar um modelo de produção que considerem justo:

A primeira delas é que a coca e a maconha não são simbólicas, nem contam com misticismo dentro da cosmogonia afro-colombiana, como acontece em alguns povos indígenas. Se não a plantassem novamente, as comunidades negras não estariam sendo contra os fundamentos míticos da sua cultura. A outra razão é que esses povoados já comprovaram com seu próprio sangue que todo benefício econômico concedido pela coca vem acompanhado de violência.

O inventário dos atos de guerra sofridos pela população de San Juan é extenso e vem de todos os lados. Nas mãos das forças públicas estas pessoas sofreram atrocidades e abusos por parte da autoridade: a Marinha tira deles gasolina, mercadorias e até o motor do barco se não tiverem uma nota fiscal em seu próprio nome com a desculpa de que “isso” poderia ser para a guerrilha. Entre 2012 e 2015, os anos de intenso interesse pelo glifosato, o avião passou largando o herbicida depois que os helicópteros armados atirassem com metralhadoras a floresta. O veneno caiu sobre a coca ao mesmo tempo que sobre as plantações estabelecidas no Pancoger e sobre fontes de água. Embora o governo sempre tenha dito que não polui a água e que os danos colaterais são menores, há pesquisas publicadas em revistas acadêmicas reconhecidas que afirmam que houve um aumento nos abortos nas áreas nas quais se jogou o glifosato. Chava e estes lideranças me dizem que é verdade isso dos abortos, bem como que houve muitas pessoas que tiveram surtos, manchas, fungos, diarreia e problemas respiratórios por causa disso também.

-O que acontece neste território é desconhecido no resto do país -diz Chava com um sentido de reclamação. Ninguém nos defende. A gente ouve coisas que acontecem na costa de Nariño, no Atrato, ou em Bojayá, na parte norte do Cauca, mas nada sobre San Juan.

Durante o período em que as Farc estiveram no poder- cerca de dez anos antes do acordo de paz – durante os operativos antiguerrilha das forças públicas, os camponeses eram retidos e eram feitos assaltos muito fortes em pequenos povoados onde somente havia pessoas sem armas. Os bombardeamentos eram semanais e cada explosão destruía porções colossais da floresta. Os que não foram praticados pelas forças públicas se consideram que foram levados a cabo pelos paramilitares e foram muito piores: assassinatos seletivos e massacres, torturas, desaparecimentos.

A guerrilha é responsável pelo resto: recrutamento forçado de menores, ocupação de povoados, confinamento de comunidades inteiras através do plantio de minas antipessoais, mais massacres, mais deslocamentos e assassinatos seletivos de lideranças comunitários que se opunham às ideologias políticas subversivas, bem como às economias de financiamento ilegal.

Os idosos se lembram de quando não havia essa violência e contam histórias que parecem de um mundo que não existe mais, um mundo no qual eles viveram sem medo. Parte disso foi narrado pelo poeta colombiano Eduardo Cote Lamus em seu Diario del Alto San Juan y del Atrato, escrito em 1958. Já Chava conta que, em sua adolescência, andava em barcos de carga com casco de aço que navegavam de Docordó até Istmina, deixando mercadorias e pessoas em cada parada. Passavam quatro dias para fazer o percurso e navegavam até altas horas da noite. Sem luz solar, os barcos eram guiados pela sombra lançada pelas copas das árvores sobre a água, pelo brilho da lua. Depois da guerra, ninguém mais pôde navegar à noite, pois foi proibido pelos grupos armados. A guerrilha ameaçou com atacar qualquer barco, mesmo sendo de camponeses, alegando que poderia ser uma ação militar encoberta. As forças públicas, por outro lado, embora não apoiem esta restrição de uma forma tão rigorosa, falaram às comunidades que, devido à dificuldade de reconhecer os navegadores à noite, eles podiam atacar preventivamente e que era melhor não sair à noite.

-O que eles pedem aos grupos armados ilegais? -eu prossigo com a entrevista em Corriente Palo. Victoria cede a palavra para Díaz que começa dizendo que essa violência “não existe porque simplesmente existe”, e que ela tem uma razão de ser.

-Eu sou um dos que se recusa a deixar que pessoas armadas venham no meu povoado, mas quando eu reclamo da guerrilha, eles dizem que estão lutando pela educação, saúde, trabalho digno e saneamento básico. Eu olho à minha volta e meu povo não tem nenhuma dessas coisas satisfeitas. Então, peço ao governo que nos dê argumentos para dizer aos grupos armados para irem embora. Quais os argumentos do governo? Que tenhamos saúde, educação, moradia decente, etc., e assim por diante. Ouso dizer que os grupos armados vivem de uma mentira verdadeira: eles dizem que precisamos de educação e eu digo que precisamos de educação, mas se eu não a obtenho pelos meios legais e não parece que fôssemos recebê-la nunca, então, como eu posso reclamar dos ilegais? Seria muito bom que um dia, quando um ator armado chegar, eu pudesse lhe dizer: o que você está procurando com esse fuzil? Moradia? Aí está. Saúde? Já temos saúde. Educação? Já temos educação. Então não há nenhuma razão para você carregar esse fuzil.

-Então, eu aceito o raciocínio e entendo também que com fuzis também não vão receber nada, mas vocês devem dizer isso ao governo. O que vocês diriam aos grupos armados ilegais? Aos guerrilheiros do ELN que estão por aqui? Vocês lhes pediriam, por exemplo, que parassem de recrutar menores?

-Isto vai soar como se fosse contra nós -diz Diaz, com um pouco de medo. O ELN não leva ninguém à força. Há pessoas que vão lá porque veem que eles têm um estilo de vida muito alto. Eles dão argumentos e há pessoas que apoiam esses argumentos.

-Se o governo não nos deixasse tão abandonados, ninguém sairia daqui em busca de uma vida na guerrilha -acrescenta Victoria, sem me dar tempo de fazer outra pergunta ou de dizer que, segundo as leis internacionais, o recrutamento de um menor será sempre forçado, sejam quais forem as condições. Porém, aqui não temos opções e a gente os vê com gasolina para atravessar o rio, com dinheiro, tendo uma boa vida, e a gente quase morrendo… Então, quem não tiver suficientes conhecimentos irá com eles porque acredita no que eles têm.

Impulsionada pela força da minha pergunta, Chava termina dando a seguinte resposta:

-Para o Estado tudo o que fazemos os negros, os índios e os camponeses é ilegal. E, na verdade, é o próprio Estado quem nos leva a essas condições.

Dia 3. A defesa do território

É madrugada em Cucurrupí.

Um galo cantou de madrugada e um cão latiu bem longe. Em geral, foi uma noite tranquila e renovadora. Todos dormimos na casa de uma família e nos levantamos bem cedinho para tomar banho no rio. Com exceção de alguns prédios em Docordó e Malaguita, em nenhuma das comunidades que visitamos até agora há um aqueduto. As pessoas têm que recolher a água da chuva para cozinhar os alimentos e para higiene pessoal, mas somos muitos nesta casa e está muito seco. A caixa d´água onde se armazena a água da chuva tem menos da metade da sua capacidade.

Cucurrupí está na margem esquerda do rio San Juan, bem perto da foz do Copomá. E este lado do rio leva hoje uma espuma coalhada que parece creme de leite. É assustador. Eu posso ver que todos, incluindo Chava, evitam tomar banho. Tento afastar essa espuma com a mão e me lembro do que me disse Esciober lá em Malaguita: coceira e grãos, chagas e minhocas nos peixes. Se a simples ação de tomar banho pela manhã é um ato de ousadia e coragem, então o que são as outras atividades do dia?

Depois do café da manhã, Chava e eu nos sentamos para conversar; colocamos duas cadeiras na entrada da casa. Ela me conta que dormiu bem e que, enquanto está em seu território, ela passa uma boa noite. Que quando ela tem que viajar para outras cidades, ela se hospeda em hotéis confortáveis e bonitos, “com ótimas camas”, mas não consegue dormir bem.

-Eu só durmo bem quando estou aqui -ela sorri mostrando seus dentes brancos, polidos e maravilhosos. Não sei se é o ar, o som do rio, as pessoas, o tempo ou tudo isso junto.

Durante os diálogos entre o Governo Nacional e as FARC, Chava foi levada para Havana como parte do grupo de lideranças de minorias étnicas para discutir como os mecanismos de paz deviam ser implantados em seus territórios. Depois, ela foi levada para Quito para entregar o documento “Acordo Humanitário Já no Chocó”, com o qual se pretendia propor um cesse ao fogo e proteção para a sociedade civil enquanto se realizavam as negociações para a paz com o ELN – que nunca deram certo. Durante essas viagens, Chava se reuniu em Bogotá com delegados das embaixadas dos países europeus que colaboraram com a Colômbia.

-Todos os dias acordo sonhando com um território melhor. É por isso que bato nas portas que me ajudam a tornar nossas necessidades visíveis, para que o Estado olhe para nós e perceba que somos extremamente esquecidos. Essa é a minha luta constante.

Ao mesmo tempo que faz seu trabalho no Acadesan, Chava faz parte também da Comissão Interétnica da Verdade da Região do Pacífico. Este órgão foi criado por mais de trinta organizações sociais e, desde maio de 2019, vem trabalhando para fazer um relatório no qual se fale sobre os graves danos que causou o conflito armado na região do Pacífico colombiano. Há dez comissionados e cada um deles é responsável por um caso representativo em uma área concreta do território. Chava documentou como a plantação da folha de coca e o garimpo de ouro têm afetado as comunidades de San Juan. Além disso, esses comissionados também representaram o Darién – norte do Chocó – e foram encarregados da avaliação dos danos causados pela monocultura da palma africana; os de Buenaventura e os da área costeira do Valle del Cauca, bem como o impacto dos megaprojetos marítimos e portuários e assim por diante até ser concluída a avaliação das dez áreas.

“O dano ao território é o conceito que abrange este trabalho, pois o território é visto como o conjunto de vida que inclui recursos naturais, comunidades e relações de produção com a terra”, explicou Camilo Alzate, um jovem jornalista ligado à estratégia de comunicação da Comissão. “Um exemplo hipotético: Chava descobriu que o garimpo sedimentou um rio e, por isso, foi impossível para a comunidade encontrar peixes nas margens. Não podendo continuar com a pesca com uma técnica ancestral, ocorre a perda de um valor étnico. O documento desta comissão quer mostrar que o conflito armado provocou um etnocídio no Pacífico colombiano, porque deteriorou a relação das comunidades com seu território”.

Quando estávamos em Togoromá, perguntei para Chava sobre as ameaças contra o rio San Juan. Antes de mais nada, ela citou dois que poderiam virar um só: o abandono do Estado e o conflito armado. O raciocínio empírico que ela e suas comunidades fazem, levando em conta o objetivo que pretende atingir esta comissão, é que o dano ao território é o dano ambiental; que território e meio ambiente são a mesma coisa.

O antropólogo Jesús Flórez me explicou o seguinte: “Sempre medimos o dano ambiental como o que é causado pelo homem à natureza, mas nunca dizemos o mesmo sobre os danos que o homem faz ao homem no contexto destes territórios”. Antes de mais nada, o conflito armado tem causado sérios danos ambientais porque tem causado sérios danos à sobrevivência das comunidades”. Quando as pessoas não podem navegar à noite, quando não podem se mover em suas terras porque há minas antipessoais, quando não podem caçar com a espingarda -chamada em espanhol “machomalo” ou “machosolo”- porque as forças públicas as pegam, quando não podem pescar porque o rio está poluído, quando não podem derrubar árvores por causa de uma proibição da guerrilha, sua sobrevivência está em risco porque não podem se alimentar ou manter a continuidade do seu grupo étnico. “A meados dos anos 2000, em muitas regiões do Chocó, pessoas passaram fome por causa do conflito armado”, acrescentou Flórez. “Um absurdo total. O normal é que as pessoas passem fome no deserto, mas em um meio onde existem tantos recursos da floresta é um absurdo. Portanto, na medida em que as comunidades protegem os recursos naturais, elas estão protegendo simultaneamente sua existência.





Chava caminha com as lideranças de Cucurrupí. Foto: Hernando Sánchez.





As lideranças do Cucurrupí nos deram uma visita guiada por sua comunidade. Faltam as mesmas coisas que nas outras: água potável, interligação elétrica para não depender de pequenas instalações de combustão, centro de saúde e uma melhor localização para a escola. O refeitório das crianças é uma ruína. Perto dele há uma quadra múltipla -futebol de salão, basquetebol e voleibol em um mesmo espaço – construída em cimento, mas que não foi acabada.

Cucurrupí tem sido um fator determinante na história do Acadesan. Luis Granados, um dos seus fundadores, nasceu aqui. Foi aqui onde se realizaram as primeiras reuniões, a partir de 1988, entre as lideranças e as congregações religiosas que ajudaram na organização social. Anos depois, quando o Acadesan virou o conselho geral da comunidade, Chava foi eleita aqui como sua representante legal. Ela foi a primeira mulher em chegar a essa posição. A única liderança que fez frente às Farc quando esta guerrilha pretendia se encarregar da organização.

A história dessa eleição é mais ou menos esta: as quase trezentas lideranças e os delegados das 72 comunidades de San Juan se reuniram na sala comunitária -uma sala com chão e paredes de tábuas com cadeiras de plástico- para uma assembleia que procurava revogar o conselho de administração daquele momento. Era outubro de 2012. Chava fazia parte desse conselho de administração. O argumento para a revogação era apenas um: que o Conselho estava vendendo o território a particulares. O conselho de administração mostrou documentos, atas de reuniões e provou que isso não era verdade. Que era uma fofoca que tinham espalhado com a única intenção de nomear um outro conselho de administração. Os participantes aceitaram as explicações e levantaram a assembleia. Todos começaram a sair da sala mas, sem terem dado cinco passos no caminho de saída, chegou um comandante das Farc e os fez voltar para a sala de novo. Era o conhecido “Mamajuana” que estava escoltado por seus homens.

O insurgente confrontou o conselho de administração não somente em relação à suposta venda do território, mas também sobre outra fofoca segundo a qual a guerrilha estava sendo acusada de ter destruído a infraestrutura em alguma comunidade do rio. Sem soltar seu fuzil, “Mamajuana” negou essas acusações e se mostrou como um revolucionário indignado, como que estivesse defendendo as pessoas e quem achava que estas lideranças eram uns vendidos. As nove lideranças do Conselho de Administração ficaram surpresos. Ambas as questões podiam lhes custar a vida. O normal nesses casos, segundo a justiça fariana, era a morte dos traidores. Naquela sala ninguém era capaz de levantar um dedo, até que Chava, cheia de coragem e bravura, ousou se levantar da mesa e dizer para “Mamajuana” que nada disso era verdade, que todas as reuniões do conselho estavam documentadas, que ninguém estava dando o território de presente por ambição pessoal e que as acusações dos danos às infraestruturas causados pelas Farc também eram mentira. Mas não foi porque o conselho não fosse capaz de denunciar os crimes desta guerrilha, mas sim porque nada disso tinha acontecido. Ao vê-la tão decidida e desafiante, alguns dos presentes apoiaram Chava, enquanto que outros continuaram intimidados e silenciosos. O fato é que a reunião forçada por “Mamajuana” terminou sem nenhuma mudança no conselho de administração.

Três anos depois, em 19 de setembro de 2015, foi realizada a assembleia para eleger o representante legal do período 2015-2019. Chava se candidatou. A coragem que ela demonstrou na situação com o comandante guerrilheiro tinha chegado às lideranças locais e despertado a admiração e o respeito por ela. Nas eleições, Chava obteve 85% dos votos.

Após a desmobilização das FARC, as lideranças comunitárias em todo o Chocó tiveram a oportunidade de conversar informalmente com os que antes tinham sido comandantes guerrilheiros e começaram a entender alguns dos movimentos da guerra. As do Acadesan ficaram sabendo que naquela assembleia revogatória tinha acontecido exatamente o contrário: as Farc tinham feito um pacto com uma sociedade de mineiros de ouro para trazer máquinas e a única maneira de começar as escavações, sem usar armas, era desabonando o conselho de administração atual para conseguir sua revogação e assim implantar uma diretoria que desse a autorização. O pior para a organização comunitária de San Juan foi que algumas lideranças locais tenham se deixado convencer e tenham aceitado essa grande mentira.

São quinze horas e acabamos de chegar à comunidade Noanamá. Já estamos nos prédios do município do Médio San Juan; Cucurrupí foi a última estação do município costeiro. O fim desta viagem está próximo.

Chava nos leva à casa dos missionários Lauritas, uma congregação de freiras que chegou aqui nos anos 50. Estas freiras, juntamente com os sacerdotes claretianos e diocesanos, têm sido o apoio moral e técnico da organização camponesa do Chocó. A casa é um prédio com tetos altos, corredores como passagens, quartos enormes, um pátio gigante com árvores de frutas e aves de quintal, vasos com flores e o canto de pequenos papagaios.

A freira mais amada e respeitada é a Irmã Carmen Palacios. Ela tem 87 anos de idade e está no Chocó desde 1959. Como missionária, ela testemunhou as grandes fases de modernização do território, que resume da seguinte forma: o boom da mineração da platina e do ouro de meados do século XX, o boom da madeira dos anos setenta e oitenta, a guerrilha de guerrilhas, das Forças Públicas e dos paramilitares dos anos noventa, o consequente boom das plantações de coca e o segundo boom mineiro a partir do século XXI. Além de ser compreensiva e generosa, sua fama é a de uma mulher que tem o dom de curar pessoas usando a medicina tradicional dos índios Wounaan. Abundam as histórias de pessoas moribundas que ela tirou da morte: de pessoas com doenças tropicais, como a malária, até feridos de guerra.

A Irmã Carmen conheceu Chava na época da sua primeira eleição como representante legal do Acadesan.

-Ela era uma mulher costeira que falava muito, ela se lembra rindo daquele momento. Ela não era muito conhecida como liderança local, a gente via que ela participava da assembleia, mas parecia não ter muita capacidade para isso. Eu achava: “Para ela chegar ao nível da Marina ou de Luis Granados, ainda tem um longo caminho pela frente. Marina é uma liderança de Corriente Palo. Uma irmã acreditava nela e me disse que Chava era um futuro para a organização, mas eu não sabia como isso podia acontecer. Eu dizia: “Esta menina da costa não vai conseguir nem chegar aos joelhos dos outros”. E veja agora, Chava é mais corajosa que todos eles.

Depois de ser eleita, Chava começou a visitar Irmã Carmen para ouvir seus conselhos mas, em 2019, no final da Páscoa, ela veio para ser curada de uma crise de ansiedade que a tinha levado a uma depressão. Chava acordava depois da meia-noite e não conseguia mais dormir. Se ela estivesse em um hotel, sairia do quarto e ficaria andando pelo corredor. Em sua casa, em Buenaventura, Chava subia e descia as escadas até o segundo andar dez ou vinte vezes antes do amanhecer. Enquanto navegava pelo rio San Juan, ficava com vontade de se jogar na água com o barco a toda velocidade, como se quisesse fugir do seu lugar no mundo.

-Aqui a tratamos com plantas e nossas coisas curativas -diz Irmã Carmen. Ela tinha muita tensão com questões do conselho, porque já ouvi que pessoas lhe pedem o que ela não tem, o que ela não poderia obter. Eles a fazem sentir mal e isso a magoa muito.

Chava me disse algo semelhante hoje de manhã em Cucurrupí: que as lideranças sempre pensam nos outros, mas “esse pessoal nunca pensa nas lideranças”. Se ela bota uns sapatos novos, ela me disse, há pessoas que a acusam de “roubar o dinheiro das comunidades”. Ela também me disse que sua responsabilidade familiar era muito alta, que ela não tinha um salário fixo e que tinha que sustentar uma casa com quatro filhos, dois netos e sua mãe. Além disso, os filhos não tinham querido estudar na faculdade, apesar de ela ter lhes oferecido isso e ela se sentia um pouco frustrada com essa situação.

-Sim, a questão da família também -confirma Irmã Carmen. Os filhos não querem que ela se envolva nisto, porque sabem que quem entra nisso pode morrer a qualquer momento. -A irmã toca sua jugular com o dedo direito. -Ela sabe o que quer e ama seu povo, por isso não a mataram ainda, continua ela. Quando ela foi eleita pela primeira vez, as pessoas diziam: “Ela está cheirando a morto, mas isso não aconteceu porque seu objetivo ao ser eleita não era ganhar dinheiro, mas sim trabalhar pelas pessoas. De qualquer jeito, rezamos todos os dias para que ela não seja morta neste país no qual as lideranças sociais são assassinadas todos os dias.





Chava e Irmã Carmen Palacios. Foto: Hernando Sánchez.





Dia 4. O risco

Quase chegando a Istmina, o rio San Juan traz a suas margens lixo doméstico. Os galhos das árvores que tocam a água estão cheios de panos, embalagens, sacolas e garrafas. Esses galhos estão tão coloridos que parecem uma árvore de Natal. No porto, o maior do rio, estão amontoados barcos de diferentes tamanhos. De canoas indígenas longas e finas fabricadas com madeira, até barcos de fibra de vidro de alta velocidade e barcos de passageiros como onde iniciamos esta viagem.

Istmina é um município que está localizado no primeiro vale do Chocó, depois de a cordilheira ocidental se diluir na floresta. A população negra continua sendo a maioria, mas nas ruas há muitos mulatos. E o mesmo acontece na cultura: enquanto nas comunidades do Litoral de San Juan tudo está relacionado com a proximidade do oceano, aqui em Istmina a idiossincrasia vem da influência da montanha. O rio também parece diferente. Se no Litoral é largo, profundo e caudaloso, e um nadador acha quase impossível ir de uma margem à outra; aqui em Istmina o rio é tranquilo e quieto, tem uma ponte para carros que faz parte da estrada que comunica o Chocó com o interior do país.

Ontem à noite, dormimos em Sipí, um município longínquo até onde pode se chegar depois de subir pelo rio San Agustín por duas horas, outro dos maiores afluentes do rio San Juan. Hoje de manhã, assim que saímos do hotel, Chava nos mostrou o que significa que um povoado fique confinado por causa das ameaças das minas antipessoais.

Há cerca de dez anos, as FARC e o ELN – não em parceira, mas cada um por seu lado – colocaram cercos protetores contra o avanço das Forças Públicas. Embora tenham afirmado estar muito preocupados com a comunidade, estes guerrilheiros não se importaram com ter impedido a livre passagem dos camponeses pelas suas terras de trabalho. Falei com um homem de 39 anos que perdeu a perna direita abaixo do joelho pela explosão de uma mina uma manhã, enquanto andava por um caminho perto do seu povoado. Eu conheci do caso de duas crianças que morreram dentro de sua casa depois de um morteiro ter caído sobre elas durante uns combates. Fui ao cemitério já oculto pela floresta, depois de o ELN ter enchido o lugar de minas três anos antes. Desde então, os mortos são enterrados no chão da entrada, que não tem mais de três metros quadrados. Os túmulos das pessoas enterradas para além desse espaço que não podem ser mais visitados por ninguém. Jackson Arboleda, uma jovem liderança local, disse que já tinha perdido a conta dos domingos que passaram sem colocar flores na lápide de sua mãe.

Depois de Sipí, visitamos rapidamente um povoado chamado San Miguel. No trajeto de San Juan, uma hora a jusante de Istmina, pode se ver a destruição da cobertura vegetal e a deformação da margem esquerda do rio por causa da mineração mecanizada. As dragas estão comendo as bordas da margem e vão avançando em direção às entranhas da floresta. Entretanto, as retroescavadeiras derrubam as árvores e desenraízam a vegetação para nivelar o solo. É um dos danos mais sensíveis aos ecossistemas, uma perda irreparável para a natureza. A floresta tropical úmida biogeográfica do Chocó é considerada um dos 36 hotspots de biodiversidade do mundo. Existem registros de quase 1.700 espécies de animais e cerca de 6.000 plantas vasculares das quais, pelo menos, 1.500 são endêmicas: elas não nascem em nenhum outro lugar do planeta.

A devastação vai a uma velocidade alarmante: em média, uma tonelada de terra deve ser moída para extrair um grama de ouro. Uma draga de bom tamanho é capaz de produzir uma tonelada por hora de trabalho. E hoje, em San Miguel, existem três dragas ativas, mas na zona circundante deve haver mais de dez. Em todo o Chocó elas são chamadas de “dragões”.

A familiaridade das comunidades da bacia média do rio San Juan com este tipo de garimpo está historicamente enraizada. Foi em Andagoya, uma comunidade perto de San Miguel, onde operava a Chocó Pacífico Mining Company, pertencente a um consórcio de capital americano e britânico chamado South American Gold and Platinum Company. Aproveitando o fato de não existir aqui nenhuma regulamentação legal sólida para a extração de metais preciosos, esta empresa lucrou durante décadas sem dar nada em troca às comunidades. Quando saiu em 1974, deixou apenas máquinas e alguns moradores locais eram capazes de fazê-las funcionar.

A cadeia de empregos em uma draga é como se diz a seguir: o chefe pode receber um pagamento mensal de quatro milhões de pesos, que são cerca de 1000 dólares; já seus operadores recebem cerca de 500 dólares cada um. A senhora da cozinha, 700. Por sua vez, os proprietários, que são os que vendem o ouro, ganham de acordo com a quantidade de metal extraído. Em um solo bem carregado, como o do Médio San Juan, um “dragão” extrai entre 20 e 30 gramas de ouro por dia. No mercado, uma grama de 18 quilates vale cerca de 170.000 pesos, uns 40 dólares. As contas dizem que os donos embolsam mais de mil dólares por dia. E todos pagam ao ELN uma taxa que não é fácil de estimar, mas que pode chegar a 10 por cento da produção. Extraoficialmente, algumas pessoas da comunidade me disseram que esta guerrilha também possui 50% de uma das três dragas de San Miguel.

Misgley Murillo, uma liderança local de 43 anos, nos levou por uma estrada de pedra britada até o ponto de extração. Eu vi a draga em pleno funcionamento: em uma ponta engolia terra e na outra expelia os resíduos; no interior armazena o precipitado com ouro e platina. Tanto a montagem – uma máquina que lava o ouro – como este animal voraz são propriedade da comunidade. Misgley me explicou que eles começaram a trabalhar com essa maquinaria quando as tecnologias ancestrais – a alavanca e o almocafre – deixaram de servir porque o ouro já estava a muita profundidade.

A degradação do solo é deprimente: em volta do dragão se erguem colinas de terra moída e cascalho que antes pertenciam à floresta. As lideranças locais e os habitantes de San Miguel, em geral, sabem disso: esse modelo de produção não é um consumo sustentável dos recursos naturais. Eles estão engolindo seu próprio solo. No fundo, esse modelo contradiz a missão dos conselhos comunitários que é defender o território.





Cratera aberta pela draga comunitária em San Miguel. Foto: Juan Miguel Álvarez.





Talvez isto explique por que Misgley e outra lideranças locais tenham tentado acrescentar qualidades em favor do garimpo, dizendo que é uma fonte estável de emprego em uma região onde mais de 90 por cento das pessoas não continuam o ensino superior e onde a maioria das pessoas não sabem ler ou escrever. E mesmo que pudessem terminar uma graduação, não poderiam ser contratados como profissionais em San Miguel porque não há nada para isso. Também me disseram que eles doam seus lucros ao Conselho Comunitário Local e para um asilo de idosos. Chava me falou do preenchimento, uma estratégia que evita que o solo dragado se torne uma cratera do deserto. Eles despejam o material processado nos buracos da escavação, o aplanam e plantam novas árvores. Não fica nada igual ao que era antes esse ecossistema, mas a comunidade diz que, pelo menos, está tentando recuperar um pouco a vegetação.

Contrário às comunidades dedicadas à plantação da coca que me manifestaram sua intenção de abandonarem as plantações, as comunidades que praticam o garimpo com dragas e retroescavadeiras não parecem estar dispostas a fazer o mesmo. Elas não consideram sua atividade um grande problema. Outra liderança chamada Hermencia Marmolejo, conhecida como “Chocoana, a popular”, me disse o seguinte: “Eu não vou passar por isso porque já sou velha, mas aqui sabemos que, no futuro, vamos ter que levar a cidade mais para dentro, para poder continuarmos extraindo o ouro da margem do rio”.





Chava navega o rio San Juan. Foto: Hernando Sánchez





Istmina ferve com o calor da floresta. À meia tarde, quando o sol já está se pondo, a temperatura chega a quase 28 graus. Este é o maior município que tem no curso do rio San Juan e sua história está ligada à exploração do ouro do final do século XIX. Seu nome é uma composição que enfatiza neste fato: “Ist” porque este povoado é um istmo sobre o rio San Juan e “mina” por razões óbvias.

O Acadesan tem aqui uma sede auxiliar; a principal está em Buenaventura. E nas últimas ocasiões em que houve deslocamentos em massa de comunidades de camponeses e de indígenas perto de Noanamá, devido a confrontos entre a guerrilha e o Exército e bombardeios da Força Aérea, Chava tem recebido esses deslocados nessa casa e tem procurado alimentos e suprimentos para eles sobreviverem.

Antes da despedida, bebemos uma cerveja em um terraço sobre o rio. Ela e seus colaboradores vão passar esta noite aqui e amanhã bem cedo vão navegar de volta a suas comunidades, mas desta vez com a corrente a seu favor. Ainda tenho duas perguntas para lhe fazer. Uma tem a ver com sua condição de mulher e de liderança. Como tem sido ocupar essa posição? Quantas críticas você tem recebido somente pelo fato de ser uma mulher e ter que se encarregar de guiar povoados cheios de problemas que parecem não ter solução? Chava sorri antes de responder.

-Essa é uma pergunta que sempre me fazem -diz ela. Nesta cultura há muito machismo masculino, mas não só dos homens. Às vezes são as mesmas mulheres as que me dizem: você não pode, você não é capaz, e são os homens os que me dão apoio: faça isso, vá em frente. Há organizações locais que me disseram que eu não sou capaz, que eles acreditam que eu sou do sexo fraco. Porém, as mulheres não são o sexo mais fraco. Somos nós que damos à luz crianças e temos essa força no sangue, como mulheres negras, como mulheres da costa.

Chava me conta que, antes de ser eleita pela primeira vez, alguns dos participantes se levantaram da cadeira e disseram em voz alta que ela não podia ser a representante legal do Acadesan, por ser uma mulher costeira, bonita e jovem. “Pode ser que ela se apaixone”.

-Já tenho quase onze anos no Conselho de Administração, estou separada há dez anos e não estive em um relacionamento amoroso desde então. Fui reeleita em setembro de 2019 e demonstrei a essa pessoa e à comunidade que eu podia. Demonstrei que ser mulher, jovem e bonita não é um impedimento para liderar estes processos. Ninguém veio aqui para se apaixonar.

A outra pergunta eu já fiz em outra ocasião, mas sem ênfase suficiente. Estávamos no barco com o sol de frente e tínhamos acabado de sair de Cucurrupí. Já tínhamos passado por lugares devastados pela guerra, como Togoromá e Carrá, e outros sendo vítimas do tráfico de drogas e da guerrilha, como Corriente Palo. Ela já me tinha contado sobre o momento do confronto com o comandante fariano, conhecido como “Mamajuana”. Então pensei que era urgente lhe perguntar se ela estava ameaçada de morte. Ela me respondeu com tanta serenidade que não me deu uma chance para poder reformular a pergunta. Já em Noanamá, aquela pergunta voltou para minha mente quando vi Irmã Carmen preocupada a advertindo: “Se cuida, mulher de ferro, porque você pode morrer a qualquer momento”. Chava a abraçou e disse: “Sim. senhora, estamos todos aqui até qualquer dia, mas eu vou com Deus na minha frente e que aconteça o que Ele quiser”. E ontem à noite, assim que coloquei os pés na cama do hotel em Sipí, li no meu celular que até este momento de 2020, em que ainda não tinha chegado a primeira quinzena de janeiro, a Defensoria do Povo tinha mais de 550 lideranças sociais assassinadas em todo o país após a assinatura do acordo de paz no final de 2016. A Indepaz, uma ONG que se dedica a quantificar essa violência, diz que já vão 750. De qualquer jeito, com qualquer uma das duas cifras, a situação é horrorosa.

No seu escritório em Cali, o antropólogo Jesús Flórez tinha me dado sua opinião em relação a esta questão. Ele conhece o Chocó como poucos e também Chava há muitos anos e, pelo seu trabalho acadêmico, ele entende perfeitamente o perigo em que se encontram as lideranças sociais no país. Ele disse que, devido ao número de atores armados no território, o Chocó é um dos lugares mais perigosos para o trabalho de uma liderança. No entanto, ele qualificou a situação: “Chava não faz seu trabalho para ganhar dinheiro e isso lhe dá uma proteção extra. Ela está lá porque quer ajudar a comunidade e os atores armados no território captam tudo isso. Se dependesse da guerrilha, eles já a teriam assassinado. A ameaça que pode cair sobre ela vem do Estado, de uma ação paramilitar ou de alguma coisa desse tipo.

-Você está ameaçada de morte? -perguntei para Chava agora pela segunda vez, sentados neste terraço junto do rio, tomando um gole de cerveja e temendo que ela dissesse sim. Não é preciso ser médium para prever que seu assassinato, além do valor intrínseco de sua vida, prejudicaria seriamente o tecido social das comunidades do rio San Juan e destruiria a pouca confiança que ela lhes ensinou a ter no Estado.  

-Não ou, pelo menos, não que eu saiba -diz ela com a mesma calma da primeira vez. Se alguém estiver planejando minha morte, essa pessoa não me avisou. Estará planejando isso sem eu saber.

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