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“Ataques contra comunidades indígenas buscam militarizar nosso território”









Por Lisseth Boon – Lorena Meléndez | RUNRUN.ES

Publicação: Abril 22 de 2020

Lisa Lynn Henrito Percy, guardiã do povo pemon

Ela foi acusada de secessionista e de traidora à pátria pelo alto comando militar venezuelano, o que ativou uma ação urgente da Anistia Internacional. Em um contexto de liderança predominantemente masculina, a dirigente se destaca não somente pela singularidade de ser uma mulher indígena em uma região ameaçada pelo garimpo e pelo contrabando, mas também por sua tenacidade na defesa da terra e da autodeterminação do seu povo.









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Lisa Henrito defende a integridade de seu povo e território indígena. Foto de Lorena Meléndez





Uma mulher baixinha de cabelos longos e escuros faz frente a um major do Exército venezuelano que é custodiado por três militares fardados. Nem as insígnias nem a estatura dos homens parecem coibir a mulher. “Se vocês querem fazer neste município o que vocês estão fazendo em todo o país, estão muito enganados. Porque aqui tem um povo e não vamos permitir isso”, ela diz para eles. Com gestos fortes, ela aparece na discussão com o militar que estava querendo evitar uma blitz indígena em uma autoestrada da Gran Sabana, no sudeste da Venezuela.  “Vocês estão cuidando de seus interesses. Nós estamos defendendo os nossos. Você sabe bem quem são os corruptos aqui e agora pretende acusar todo um povo”, destaca ela em um vídeo anônimo. 

A mulher que, com tom firme, conseguiu que os militares se retirassem da via é Lisa Lynn Henrito Percy, liderança proveniente do povo pemon, que desde tempos ancestrais habita no território onde foi demarcado o sulino estado Bolívar que limita com a Guiana e o Brasil.

O vídeo, que termina com vivas e aplausos de um grupo de indígenas, mostrou um dos tantos confrontos que a dirigente já teve com militares nos últimos quatro anos. Não está posto no YouTube nem se viralizou nas redes sociais. É  compartilhado entre as comunidades indígenas mediante modestos celulares como se fosse um amuleto de coragem e orgulho em uma região sem conexão à Internet nem serviço de eletricidade, onde escasseia a gasolina para se deslocar pela Troncal 10, uma autoestrada que atravessa o setor oriental do Parque Nacional Canaima, que liga a Venezuela ao Brasil.

Aos seus 46 anos, Lisa Henrito está convencida de que a luta que travou desde finais dos anos 90 vai levá-la à morte ou à cadeia. Ela não tem medo disso. Ele vê isso como parte de um futuro iniludível. 

“Sempre digo para minha gente: se eu tenho que morrer nisto, não quero que seja em vão. Quero ter certeza de que vocês vão continuar nesta luta. E caso eu for presa, não tentem me libertar. Entendam que o que eles querem (os militares) são as terras, não eu. Não percam esse tempo tentando me tirar de lá, pois a luta é aqui”, diz aos seus conterrâneos pemons enquanto estende ambos os braços e as mãos para frente, como se tentasse cercar o caminho que devem tomar seus companheiros caso aconteça alguma coisa com ela.

Lisa passou mais da metade de sua vida enfrentando o poder e esse exercício tem sido tão intenso que talvez por isso ela acha que o tempo já começou a fazer sentir seus efeitos. “Sinto como se tivesse vivido mil anos”, ela diz. 

Ela afirma que, nessa luta, desenvolveu uma “mentalidade coletiva” que não a deixa pensar em si mesma quando recebe alguma ameaça. Isso aconteceu quando ela ficou sabendo que, em um programa de horário nobre, o canal de televisão do Estado venezuelano, VTV, emitido em 23 de julho de 2018, um alto funcionário militar, o general de brigada, Roberto González Cárdenas, a acusou de ser a liderança de um movimento secessionista dentro do grupo étnico pemon e de “trair a pátria”. Nesse momento, Lisa se lembrou dos seus pais e ficou preocupada por saber como essa notícia sobre ela, que tinha aparecido na televisão, poderia afetá-los. Esse fato também serviu para que ela refletisse sobre a verdadeira intenção dessa calúnia.









VÍDEO DO GERAL DA BRIGADA ROBERTO GONZÁLEZ CÁRDENAS EM QUE ACUSA LISA HENRITO DE “SECESSIONISTA” E “TRAITORA A LA PATRIA”.





Documento apresentado pelo Brigadeiro-General Roberto González Corderos no programa nacional de televisão em que acusa Lisa Henrito de “secessionista” e “traidora da pátria”.









“Começou o ataque e estão tentando justificar a intervenção militar”, foi o que eu pensei. Tento ser racional quando acontecem coisas desse tipo. O ataque foi contra mim, mas era para criar uma matriz de opinião –reflete. Também era óbvio que eles não tinham provas de nada e, se apareciam com provas, seriam inventadas. O que queriam era justificar uma intervenção militar para poder continuar com o tráfico de ouro e armas. O objetivo de tudo isso é militarizar nosso território”, acrescenta. 

A acusação infundada do militar de uma alta hierarquia provocou uma série de ações de repúdio. A Anistia Internacional gerou uma alerta em relação ao ataque e fez um apelo aos ministérios do Interior, Justiça e Paz, dos Povos Indígenas e à Ouvidoria do Povo.













“Lisa Henrito está sendo estigmatizada por seu trabalho como ativista de organizações de mulheres indígenas pemonas que exigem o fim da militarização e do garimpo em seus territórios ancestrais sem consulta informada ou estudos prévios do impacto social”, afirma-se no comunicado enviado pela organização em agosto desse mesmo ano. “O Estado deve garantir a proteção da integridade física de Lisa Henrito e pôr fim a sua difamação e à estigmatização de suas ações de defesa dos direitos de suas comunidades”.

A Anistia Internacional fundamentou seu alerta na Constituição venezuelana e nos mecanismos internacionais que protegem os povos indígenas e seu território e, ao mesmo tempo, instou as autoridades a “se absterem de utilizar expressões que os desabonem, estigmatizem, insultem ou discriminem”.

As acusações contra Lisa também foram criticadas pelo Conselho de Caciques Gerais, a autoridade representativa do povo pemon que, em um comunicado do dia 25 de julho de 2018, rejeitou a “campanha de desacreditação das lutas indígenas e dos seus porta-vozes”, ratificando, ao mesmo tempo, a identidade ancestral do povo pemon e seus direitos territoriais por serem legítimos habitantes. 

Porém, além da cadeia e da morte, há coisas as quais Lisa Henrito tem bastante medo. Ela se preocupa com que seu povo, a etnia pemona, se desintegre. Que seus sobrinhos, com trauma por causa da perseguição dos militares contra os indígenas, nunca mais possam voltar para sua casa após terem sido obrigados a fugir ao Brasil depois do massacre de Kumarakapay, em fevereiro de 2019. Que os jovens que se manifestam contra o governo de Nicolás Maduro vejam, para sempre, suas esperanças frustradas. “Estão destruindo uma geração completa e algumas lideranças (pemonas) não veem isso”, ela pronuncia em um tom frágil, bem diferente ao que ela usa para levantar a voz na frente dos militares fardados. 





Kumarakapay (San Francisco de Yuruaní), a cidade de Pemón em Gran Sabana, onde em 22 de fevereiro de 2020 ocorreu o ataque militar que deixou quatro indígenas mortos e 13 feridos. Foto: Lorena Meléndez





Há pelo menos duas décadas, esta ativista de 46 anos decidiu apoiar a defesa da terra dos seus antepassados e enfrentar toda a ingerência sem importar sua origem. Isso lhe custou hoje não poder sair do sul do estado Bolívar pelo risco de ser presa ou ficar com medo quando viaja para Caracas, Ciudad Bolívar ou Puerto Ordaz para expor as ameaças e riscos aos que seus companheiros estão expostos. 

Lisa é acusada pelo poder apesar de ela, durante o governo de Hugo Chávez, ter ocupado cargos no Ministério da Saúde. “Somente pelo fato de falar inglês e de ter nascido na Guiana, os militares me acusam de trabalhar para o Departamento de Estado dos Estados Unidos e, até mesmo, de estar atrás do levantamento das barracas do Acnur”, ela diz. Ela faz referência aos acampamentos assistenciais estabelecidos pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados na fronteira brasileira que abrigam os venezuelanos deslocados que fogem da miséria. Além disso, eles são toda uma prova da emergência humanitária que está havendo na Venezuela que o governo de Nicolás Maduro demorou meses para admitir.





OS HABITANTES DE KUMARAKAPAY (SAN FRANCISCO DE YURUANÍ), VIVEM COM MEDO DESDE O ASSALTO MILITAR QUE DEIXOU QUATRO MORTOS INDÍGENAS E 13 FERIDOS, O POVO PEDE JUSTIÇA. FOTO: LISSETH BOON





“Lisa Henrito é uma liderança reconhecida não somente pela comunidade pemona local, mas também no âmbito internacional. Ela se formou em faculdades estrangeiras como especialista em povos indígenas, foi apoiada pela ONU e foi assessora do Conselho de Caciques do setor 6 do território pemon. Por isso, a Anistia Internacional emitiu o alerta de proteção logo depois de um militar tê-la criminalizado em um programa do canal do Estado”, destaca Olnar Ortiz, defensor de direitos humanos e coordenador do Foro Penal dos Povos Indígenas. 

Lexys Rendón, ativista e pesquisadora da ONG Provea sobre direitos indígenas, explica que o treinamento que Lisa recebeu permitiu que ela fosse diferente das outras lideranças indígenas e que tivesse “uma aptidão adicional para analisar e entender os fatos”. Além disso, ela também a descreve como uma mulher comprometida, orgulhosa de sua cultura e “uma referência para as lideranças mulheres indígenas pemonas”.

Recorrendo às ferramentas legais e constitucionais, Lisa se orgulha de defender o território e a autodeterminação do povo pemon, o quarto maior da Venezuela, de acordo com o último censo de 2011. A população dos “filhos do sol”, como eles são descritos em seu mito de origem, ultrapassa os 30 mil indígenas, cuja maioria mora na parte sul do estado Bolívar. 

 Um cerco mineiro









A criação do Arco Mineiro do Orinoco, em fevereiro de 2016, piorou os conflitos que atingem o povo pemon. Para esse mega projeto oficial de mineração, que ocupa 12% do território nacional e voltado à exploração de minerais estratégicos como ouro, diamante, coltan, ferro e bauxita, o governo de Nicolás Maduro não realizou a devida consulta prévia, livre e informada dos habitantes originários das terras ancestrais afetadas, conforme se estabelece na Constituição venezuelana e na Lei dos Povos e Comunidades Indígenas. Também não realizou estudos de impacto ambiental em uma área de biodiversidade única, onde existem 151 espécies de mamíferos, 587 de aves, 111 de répteis e 95 de anfíbios, segundo os inventários da Fundação La Salle. 

Embora a poligonal do Arco Mineiro do Orinoco esteja teoricamente confinada ao norte do estado de Bolívar, ela afeta o município vizinho à Gran Sabana, onde está localizado o Parque Nacional Canaima, declarado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1974 por seu imenso valor natural. Dentro de 3 milhões de hectares de bosques, rios, vales, savanas e tepuis, as formações rochosas mais antigas do planeta, é praticado o garimpo ilegal apesar de ser proibido por se tratar de uma Área Sob Regime de Proteção Especial (Abrae). Isto é feito, em grande parte, pelos seus habitantes originários, os pemons, que são obrigados devido ao colapso econômico e à queda do turismo, a principal fonte de recursos deste ambiente paradisíaco.









Esta é a paisagem do Gran Sabana, localizado no setor leste do Parque Nacional Canaima, declarado Patrimônio Natural pela Unesco em 1974





Os efeitos perniciosos do Arco Mineiro do Orinoco foram destacados no relatório atualizado do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos de dezembro de 2019, que registra “os altos níveis de violência e a presença de grupos armados irregulares no estado Bolívar, envolvidos na exploração ilegal de recursos naturais”. O documento afirma que, entre 22 e 23 de novembro de 2019, na comunidade de Ikabarú, localizada no território indígena pemon, oito pessoas foram mortas com armas de fogo, entre elas um sargento da Guarda Nacional Bolivariana, um indígena pemon e um adolescente.

Em relação à presença de forças militares, quadrilhas de delinquentes e grupos armados no território pemon como uma das causas da perda de controle das terras indígenas, o Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU, em um relatório prévio de julho de 2019 dedicado à Venezuela, já tinha advertido esta situação. No documento se destaca que “a extração de minerais, especialmente nos estados Amazonas e Bolívar, provocou a violação de diferentes direitos coletivos, entre outros os direitos a manter os costumes, os meios de vida tradicionais e uma relação espiritual com sua terra”. 

Tudo isso é denunciado por Lisa Henrito, forte liderança do povo pemon.

Inícios de uma luta

Lisa se lembra dos seus inícios como ativista no terraço de uma casa com muros de pedra em Mana-krü, um assentamento indígena localizado na cidade fronteiriça de Santa Elena de Uairén, capital do município Gran Sabana, que foi atacado por militares e grupos armados entre 22 e 28 de fevereiro de 2019, impedindo a entrada de ajuda humanitária promovida pela Assembleia Nacional e pelo presidente interino, Juan Guaidó. A incursão deixou 7 mortos, 57 feridos por balas, 65 presos e 960 deslocados que tiveram que fugir da repressão e das balas. 





Lisa Henrito: “Meu pai me disse: você vai estudar, mas para apoiar e ajudar seu povo. E eu segui o conselho dele. Foto: Lorena Meléndez





“Meu nome não é indígena, é mais como americano, mas meu nome realmente resume tudo o que aconteceu em minha vida: a influência dos missionários nos meus pais, esse encontro quando os missionários adventistas entraram nas terras do que é hoje a Gran Sabana, o confronto com os católicos”, diz Lisa Henrito, a filha mais velha do primeiro pastor adventista pemon que se formou em teologia.

Ela nasceu em Paruima, na Guiana, uma área de fronteira que faz parte do vasto território pemon dividido entre aquele país, a Venezuela e o Brasil. Embora sua mãe provenha dessa comunidade localizada às margens do rio Kamarang, seus avós são indígenas taurepanes de Kavanayén, no coração do Parque Nacional Canaima, na Venezuela.

“Minha linhagem é de lideranças”, diz ela, levantando o corpo. Devido aos estudos de seu pai, os Henrito Percy moraram durante um tempo em Trinidad e Tobago e, depois, voltaram para a Guiana, onde Lisa estudou o ensino médio. O inglês e o dialeto taurepano foram suas primeiras línguas. Foi só quando atingiu a maioria de idade que ela e sua família se mudaram para a Venezuela e, então, ela aprendeu espanhol. Em uma universidade adventista em Nirgua, estado Yaracuy, ela estudou e se formou em administração de empresas.

Depois dessa experiência, Lisa chegou à terra dos seus antepassados e se estabeleceu em Maurak, uma comunidade indígena que fica a 30 minutos aproximadamente de Santa Elena de Uairén, a capital do município Gran Sabana, que faz fronteira com o Brasil. Em sua mente, ela guardava o conselho que sempre repetiu seu pai: “você vai estudar, mas para apoiar e ajudar seu povo”. Ela fez exatamente isso.









Lisa não demorou em apoiar a defesa do território. Em 1995, ela criticou a edificação do Complexo Hoteleiro Empresa Nacional de Turismo do Sul (Turisur), um projeto privado que teve o apoio do Instituto Nacional de Parques (Inparques), mas não dos indígenas, para a construção de um hotel na Serra de Lema, porta de entrada da Gran Sabana. Portanto, o direito das comunidades indígenas a decidirem e participarem da administração e da utilização dos recursos naturais existentes em seu hábitat foi violado.

Lisa, com vinte anos, se juntou aos dirigentes pemons que reclamavam dessa construção e, justamente nesse momento, se inspirou em lideranças indígenas como Juvencio Gómez, Silviano Castro e Alexis Romero, que ainda hoje os considera como seu “modelo de luta” por suas posições frontais e firmes. As manifestações em Ciudad Bolívar e Caracas contra Turisur fizeram com que os indígenas fossem ouvidos em uma audiência no Ministério do Ambiente, a instituição que deteve o projeto em outubro de 1996 quando, após uma auditoria de gestão, foi determinado que as licenças que tinha outorgado Inparques não eram válidas por terem violado o Plano de Demarcação de Canaima. 

Com essa mesma força, Lisa participou dos lendários protestos contra as linhas de transmissão elétrica na Gran Sabana a finais dos anos 90, que também levaram à paralisação do Decreto 1850 que autorizou o garimpo na Reserva Florestal de Imataca.

Não obstante, ambas as lutas foram infrutíferas e os projetos foram executados, levando-a a recuar e a trabalhar como administradora na mineradora canadense Crystallex que, nesse momento, funcionava na área de exploração de ouro do estado Bolívar. Aí ela conheceu as terríveis condições dos operários do garimpo. Depois, trabalhou como encarregada da administração de um colégio privado adventista de Maurak, uma das 119 comunidades indígenas do município Gran Sabana.

Pouco depois, Lisa se tornou a capitã de Maurak, a comunidade indígena onde ela ainda está morando. Seu caráter forte, seu trabalho em favor da defesa do território, sua preparação acadêmica e o conhecimento que ela tinha para elaborar projetos que beneficiassem os indígenas foram as razões que as lideranças deram para por seu nome entre os candidatos, em 2002, a esse cargo por três anos. Até agora, ela é a única mulher que chegou a ser capitã em Maurak. Ela tinha 29 anos.

Lisa se destaca como liderança do povo pemon em um contexto no qual o papel das mulheres, protetoras da cultura indígena e da permanência dos seus povos, que inclui a maternidade, os roçados, a preparação do casabe, kachiri e tumá, a sopa típica pemona que é comida coletivamente. Ela ganhou o respeito de seus irmãos e irmãs no contexto latino-americano, onde apenas uma de cada 10 meninas indígenas conclui o ensino médio, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. 

Porém, o fato de ser uma liderança a levou a ter que fazer frente à discriminação. Um dos idosos de sua comunidade lhe confessou que não estava de acordo com que ela fosse capitã, simplesmente, porque era mulher. 

Ela sentiu essa mesma resistência até mesmo de suas próprias vizinhas. “Uma vez questionaram minha participação em uma assembleia que era para discutir sobre o problema da gravidez precoce nas comunidades indígenas, porque o que eu podia saber sobre essa questão se não tinha nem marido nem filhos?”, conta Lisa. 

Há pessoas que criticam Lisa por seu caráter forte e combativo, mas poderia ser isso o que gera essa sensação de rompimento nos mesmos costumes e nos papeis de sua cultura. “Eu acho que ela é uma mulher muito frontal, muito beligerante e, quando alguma coisa a incomoda, ela o diz diretamente. Isso pode ser muito difícil de compreender em um povo no qual a mulher não é a que tem esse poder, porque os que o tem são os caciques homens”, afirma Lexys Rendón, diretora da organização Laboratório de Paz.

A especialista explica que essa rejeição de algumas pessoas poderia ter também outra explicação. “É mais fácil culpar ela e manter a posição da não confrontação porque sabem que são vulneráveis e porque as lideranças apoiam o governo nos assuntos políticos ou se engajam com ele em áreas comerciais, econômicas, mineiras. O indígena pemon passou por uma mudança cultural muito forte, devido à cooptação e intervenção do governo. Lisa é diferente a muitas mulheres lideranças e homens indígenas. É verdade, ela tem um caráter forte, sei disso, e é possível que, em algumas discussões, pareça saturada pelos problemas do seu povo. No entanto, eu posso entender da minha perspectiva, porque ela está consciente de que uma parte do povo pemon não tem a vontade para apoiar nessa luta”, afirma.

Lisa também sofreu com o machismo além das fronteiras de Maurak. O fato de ter sido capitã durante três anos lhe permite usar a pluma nas cerimônias. Quando ela usa a pluma nas reuniões indígenas fora da Venezuela, as lideranças mulheres olham para ela surpresas. O privilégio de vestir essa peça está reservado aos homens em vários países da América Latina.

Lisa reprova que, no Conselho de Caciques Gerais do Povo Pemon, nunca tenha participado uma mulher. Ela admite já ter pensado em se candidatar, mas ela sabe que essa é uma tarefa complexa. “Essa é a máxima autoridade. É muita responsabilidade. Eu sei que posso fazer isso mas, se eu for fazer, vou fazê-lo bem”, assevera.

Entre seus interesses também não está levar adiante uma carreira política. Ela não está interessada em virar prefeita e, muito menos, governadora. “Como indígena, a lei ampara meus direitos constitucionais. Mas, se me meto na política, me prendem”, afirma. 

Proximidade com o poder

Depois de ser capitã, Lisa foi designada tesoureira da Federação Indígena do estado Bolívar em 2005. Este foi um cargo público que a entusiasmou até que começou a ver como as redes da corrupção tinham começado a cercar a instituição que, hoje, é considerada como cooptada pelo governo chavista. 

Esses eram os dias do projeto Canaima-GEF, um plano de gestão de recursos naturais dentro do parque nacional para harmonizar as atividades econômicas e sociais da bacia do rio Caroní com os direitos originários dos indígenas pemons sobre essas terras. Esses fundos vinham do Banco Mundial, depois de terem sido fornecidos pelo Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF). “O dinheiro que caiu nas mãos da Federação jamais foi utilizado para o fim que tinha se previsto”, garante Lisa.









Mapa global de Forrest: processo de desmatamento no estado de Bolívar





A liderança decidiu demitir somente nove meses depois de ter assumido o cargo. Seis anos depois, o governo lhe abriu um procedimento administrativo por, aparentemente, ter aprovado movimentos de dinheiro relacionados com o Fundo, mas nunca conseguiram provar sua culpabilidade.

Posteriormente, Lisa começou a trabalhar, em 2006, no programa de Saúde Indígena do Ministério da Saúde. Desde pequena teve uma inclinação por atender os doentes, por isso costumava ir ao hospital de sua comunidade para falar com os pacientes. Quando ficou adulta, continuou indo nos domingos à tarde para cantar para eles e, assim, animá-los.

As lideranças das comunidades lhe propuseram que apresentasse e controlasse uma associação de saúde para seus conterrâneos, que se tornou o Serviço de Atendimento e Orientação ao Indígena (SAOI), que foi estabelecido nos principais centros de saúde dos estados venezuelanos onde tem assentamentos indígenas. O Ministério da Saúde a comissionou como coordenadora regional operacional do estado Bolívar de um novo departamento que, hoje, em meio da emergência humanitária complexa que está atravessando o país, desapareceu dos hospitais.

A emergência humanitária complexa pode ser vista como o resultado de vários itens: a instabilidade política, conflitos e violência, desigualdades sociais e pobreza que, no setor da saúde, se traduz no êxodo de médicos, a falta de tratamentos, escassez de medicinas e condições precárias no atendimento na rede hospitalar pública.

A aproximação ao serviço público durou pouco. Lisa relata que, em 2007,  um ano depois de ter iniciado seu trabalho na administração pública, ela se retirou. “Começaram os ataques políticos”, ela assegura. Diante da incapacidade do governo para oferecer aos indígenas medicamentos e suprimentos médicos, ela pediu a colaboração de médicos adventistas americanos, que foram expulsos pelo governo logo depois de terem chegado. Lisa começou a ser chamada de “agente do império”.

Lisa é uma liderança que também se formou na academia. Em 2010, ela fez o diplomado de Fortalecimento para a Liderança da Mulher Indígena, pertencente ao Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC) e à Universidade Indígena Intercultural (UII), que lhe permitiu viajar, em 2010, para a Guatemala e o México para sua capacitação. Seis anos depois,  ela se formou como especialista em direitos humanos dos povos indígenas por ter cursado o programa do Instituto de Direitos Humanos da Universidade de Deusto, em Bilbao, que permitiu que ela viajasse à Europa e fizesse estágios no Escritório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas (OACDH), em Genebra. 

Quando voltou à Venezuela, em julho de 2016, em plena crise econômica e social, recebeu um golpe baixo.

Lisa viu, no centro de Caracas, como os venezuelanos procuravam comida no lixo, como pediam alimentos para ela toda vez que ela se sentava à mesa de um restaurante. Quando chegou a Santa Elena de Uairén, viu como o terminal rodoviário era controlado por delinquentes. Cada cena a descreve com a face atribulada, impactada com o que viu. Imediatamente, ela começou a enviar mensagens às lideranças indígenas que ela conhecia perguntando: “O que aconteceu aqui? Como foi que vocês permitiram isto?”. 

Esse foi o início da ação mais rebelde que ela dirigiu em toda sua trajetória ativista: a criação de um escritório focado especialmente nos indígenas, figura contemplada na Lei Orgânica dos Povos e das Comunidades Indígenas, que lhes permite solucionar seus próprios conflitos de forma autônoma, sempre mantendo a proteção aos direitos humanos.

A Tuenkaron da Savana

“Tuenkaron é uma personagem que mora nas águas, rios e lagoas.

É uma pessoa baixinha, normalmente, uma mulher de

cabelos longos muito bonitos. Ela cuida da natureza dos

profanadores do meio onde ela mora, zela seu hábitat,

pune quem o profana e a pessoa que a vê fica doente ou se desmaia”.

História dos pemons de Kumarakapay

Roroimókok Damúk

Ediciones Ivic, 2010





Uma das primeiras tarefas desse escritório especial foi criar uma Guarda Territorial Pemona em 2016, cujo intuito é garantir a segurança do território. Isto foi decidido devido à presença cada vez mais evidente de grupos armados no território indígena e ao assassinato da mãe e dos filhos de uma família não indígena que estava estabelecida em Santa Elena de Uairén. Nesse caso, foi envolvida a polícia da governação do estado  Bolívar junto com grupos criminosos. Lisa foi uma de suas organizadoras e de suas principais dirigentes. 

O aumento da violência na idílica Gran Sabana começou justamente em 2016, ano em que também o governo de Maduro oficializou o Arco Mineiro do Orinoco. 

A Guarda Territorial Pemona também surgiu pela inação das autoridades militares diante de crimes contra os indígenas, apesar das denúncias dos caciques gerais em relação às ações de quadrilhas armadas na região. Desmentindo as acusações oficiais, Lisa insiste em que seus membros (mais de 300) nunca tiveram armas. “Se nós tivéssemos estado lá, o resultado seria outro”, ela afirma, insistindo em que, nos três ataques militares a comunidades indígenas dos últimos dois anos, as vítimas foram indígenas, nunca militares. 

Sob o abrigo desse escritório especial, os grupos indígenas instalaram blitz nas autoestradas para reduzir o contrabando de gasolina, um bem escasso que, na Gran Sabana, tem um preço internacional, enquanto que, no resto do país, é praticamente gratuito. Com essas blitz eles também recebem uma espécie de imposto dos garimpeiros pelo ouro extraído na região, devido a que eles não recebem nenhum tipo de ajuda do Estado venezuelano. “Antes nos amparava a lei de Povos Indígenas, na qual se estabelece que qualquer atividade econômica que seja realizada no território deve beneficiar as comunidades”, assegura Lisa.  Ela adiciona que, contrário ao que acontece nas blitz ilegais da Guarda Nacional Bolivariana, “nas nossas, os recursos chegam realmente às comunidades indígenas. Temos direitos, mas também deveres. Nós fazemos uma lista detalhada das despesas, tais como medicinas; inclusive, compramos pneus para os carros da Guarda Nacional Bolivariana”.





Parque Nacional Salto Soroape Gran Sabana Canaima. Foto: Lorena Meléndez





A Guarda Territorial Pemona se tornou uma espécie de promotoria que leva justiça à área. “Quando se cometiam certos crimes como roubo, tráfico de drogas e prostituição, aplicávamos sanções decorrentes da normativa indígena: rapar o cabelo “ficar careca”, confinamento de 72 horas dentro de um silo, chicotadas, câmaras de pimenta e trabalho comunitário”. Lisa acha que o principal problema da Venezuela não é a corrupção, mas sim a impunidade. “Se não são aplicadas sanções, a pessoa continua roubando”. 

Lina Henrito: “A Guarda Territorial de Pemón nasceu da necessidade de defesa e segurança”

Durante quase dois anos, a Guarda Territorial tomou o lugar da polícia regional em Santa Elena de Uairén. A Guarda Territorial se “livrou” dos delinquentes em Ikabarú, uma comunidade indígena historicamente mineira, localizada a uns 70 quilômetros da capital do município Gran Sabana. “Não íamos permitir a existência de grupos armados em nosso território, venham de onde vierem. Os indígenas adquiriram prestígio porque as pessoas viam que estávamos fazendo alguma coisa pela segurança da região”, afirma. 

Porém, três anos após sua criação, o rádio de ação da Guarda Territorial Pemona foi reduzido às comunidades indígenas após o ataque militar à comunidade de Kumaracapay (também conhecida como San Francisco de Yuruaní) em 22 de fevereiro de 2019, que provocou a morte de três indígenas pemons, habitantes desse povoado que serve de acampamento base no caminho em direção ao mítico tepui Roraima, montanha sagrada para eles e um dos ícones turísticos mais famosos da Venezuela. 

 “A maior ameaça contra o povo pemon é a militar”, afirma Lisa, sem dúvida nenhuma. 

A dirigente não faz referência unicamente aos assaltos mais recentes, como o do setor 2 de Canaima (dezembro de 2018), Kumarakapay e Santa Elena de Uairén (fevereiro de 2019) e Ikabarú (novembro de 2019), nos quais  cinco indígenas perderam a vida de forma violenta. Ela também se refere aos homicídios de cinco pemons cometidos por grupos criminosos que operavam nas áreas mineiras do estado Bolívar entre 2016 e 2017

Em 26 de setembro de 2018, foi assassinado José Vásquez, comandante da Guarda Territorial Pemona na comunidade de Tusaren. As investigações policiais indicaram o ex-funcionário das Forças Armadas Nacionais, Edward Frederick Curuma, como autor do homicídio agravado intencional.

As tensões entre pemons e militares apareceram a final da década de 1990 com as linhas de transmissão elétrica que foram instaladas no território onde as comunidades pemonas estão estabelecidas para levar o serviço da hidrelétrica no estado Bolívar na Venezuela até o Brasil. Em alguns episódios, os indígenas ativaram o escritório especial indígena e alguns funcionários militares foram presos por terem feito práticas consideradas como abusivas e infratoras da lei. O caso ocorrido em outubro de 2011 no setor mineiro Amanaimü de La Paragua, contíguo ao Parque Nacional Canaima, onde cerca de 550 membros de 13 comunidades de indígenas pemons capturaram e desarmaram 19 funcionários das Forças Armadas, que foram apanhados praticando garimpo ilegal em uma jazida que tinha sido fechada dois meses antes, demonstra a situação. 

Dois anos depois, representantes de 12 comunidades indígenas do setor 3 de Urimán, no município Gran Sabana, prenderam e tiraram as armas de 43 efetivos do Exército, depois de a Região Estratégica de Defesa Integrada da Guayana (Redi Guayana) ter suspenso as autorizações de voos de aviões que tinham sido considerados ilegais pois, na verdade, esses voos facilitavam o envio de alimentos e o deslocamento de pacientes das comunidades remotas do sul do país até os hospitais.

“A ameaça aos dirigentes indígenas é proporcional à luta pela resistência dos seus povos e à reivindicação dos seus territórios”, insiste Vladimir Aguilar, advogado especialista em direito indígena e diretor do Grupo de Trabalho sobre Assuntos Indígenas (GTAI) da Universidade de Los Andes, na cidade de Mérida. 

O povo pemon não pode ser considerado como um conglomerado compacto, homogêneo, afirma o sociólogo e pesquisador Isaam Madi. Além das diferenças das religiões, ele explica que, dentro do território pemon, há lideranças e setores que têm sido cooptados pelo chavismo e já aplicam seus preceitos, enquanto que outros continuam defendendo sua identidade e sua autonomia, razão pela qual costumam ser os mais atacados pelo poder. Esse é o grupo ao que pertence Lisa Henrito. 

Aguilar completa a ideia do sociólogo e destaca que os pemons ficaram separados por causa da divisão política. “É óbvio que aqueles que se mantêm na primeira linha de luta pela reivindicação territorial têm sido alvo de todo tipo de zombaria pública. Porém, esta é uma dura realidade que não só padecem os indígenas pemons que se resistem, mas também qualquer dirigente indígena de qualquer povo, afirma.

O governo negou a participação da Guarda Nacional Bolivariana e do Exército no ataque contra os Kumarakapay. Longe de reconhecer a morte de três pemons, Diosdado Cabello, presidente do partido chavista chamado Partido Socialista Unido da Venezuela (Psuv), ele alegou que tinha sido um “falso positivo” e acusou membros do partido de oposição, denominado Voluntad Popular, de serem autores desses fatos, bem como ao deputado Américo de Grazia, permanente denunciante do Arco Mineiro do Orinoco e dos abusos militares contra a população do estado Bolívar.  Por sua vez, a ministra dos Povos Indígenas, Aloha Nuñez, condenou o ataque ao povo pemon de fevereiro de 2019. Após um mês do massacre de Kumarakapay e de Santa Elena de Uairén, a funcionária reduziu esses eventos ao que ela chamou um “enfrentamento entre contrabandistas de ouro e as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB)”, que foi provocado por “grupos mercenários contratados pelo prefeito da Gran Sabana que tentaram gerar violência”

Sangue em Kumarakapay 

Lisa ficou chocada com o massacre de Kumarakapay como se ela tivesse nascido nesse povoado indígena localizado nessa autoestrada que atravessa o setor oriental do Parque Nacional Canaima. 

Ela sente dor pelos mortos e pela terra ferida que deixou o ataque militar ocorrido na madrugada do dia 22 de fevereiro do ano passado, quando a Assembleia Nacional e o presidente interino, Juan Guaidó, ativaram uma operação para que entrasse ao país, da Colômbia, das ilhas do Caribe e do Brasil, ajuda humanitária para aliviar a maior crise de sua história. 









Galeria de fotos de Kumarakapay





Os indígenas de Kumarakapay esperavam ansiosos a chegada de suprimentos médicos, medicamentos e alimentos e, por isso, bloquearam a passagem de quatro comboios militares que pretendiam fechar a fronteira por ordem do governo de Nicolás Maduro. A resposta dos militares do Exército diante da ação da comunidade foi atirar neles com seus fuzis. Dessa forma mataram três indígenas e feriram outros 14. Alguns deles ainda têm balas alojadas em seus corpos, outros ficaram com deficiências motoras ou paraplégicos. 

A repressão militar não ficou por aí só. Nos dias seguintes, os militares fardados também abriram fogo contra os que estavam exigindo a entrada da ajuda humanitária em Santa Elena de Uairén. A  perseguição continuou em Kumarakapay, porque essa mesma noite do ataque houve invasões ilegais nesse povoado. Os indígenas tinham muito medo e se refugiaram nas montanhas próximas ou ficaram escondidos em suas casas durante dias sem sequer poderem sair aos seus roçados para procurar alimentos. Pelo menos oitenta habitantes da comunidade fugiram ao Brasil devido ao assédio militar. Em Kumarakapay nada voltou a ser igual.

Uma parte da família de Lisa também decidiu cruzar a fronteira para nunca mais voltar. Ela chora quando se lembra do seu irmão e dos sobrinhos que tiveram que fugir pelas trilhas ilegais ao Brasil, por causa da perseguição armada da qual foram alvo os pemons. Ela perde a voz quando conta que as crianças indígenas nos refúgios das fronteiras desenham suas casas que foram deixadas para trás com a bandeira da Venezuela e sempre perguntando quando vão voltar.





As crianças pemon brincam nas ruas de Kumarakapay. Dezenas de famílias indígenas tiveram que fugir após o ataque militar a essa cidade em fevereiro de 2019 e estão em abrigos na fronteira com o Brasil. Foto: Lorena Meléndez





Isto não é só sobre o povo de Kumarakapay, que conta com as medidas cautelares de proteção que outorgou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 28 de fevereiro de 2019, depois de ter se determinado que havia uma “situação de gravidade ou urgência”, porque os direitos à vida e à integridade pessoal de seus habitantes estavam em “risco de dano irreparável”. Também por causa do assalto da Guarda Nacional Bolivariana no setor 2 de Canaima, onde foi assassinado o indígena pemon kamarakoto Charly Peñaloza em dezembro de 2018, enquanto trabalhava como mineiro no rio Carrao. E, mais recentemente, do massacre da comunidade mineira Ikabarú em novembro de 2019, quando oito pessoas perderam a vida, entre elas um indígena pemon, Edison Ramón Soto Suárez.





Medida Cautelar CIDH No. 18… by Open Data 2019 on Scribd

Seis dias após o massacre de Kumarakapay, a CIDH emitiu uma medida de precaução para proteger os habitantes dessa comunidade indígena no Gran Sabana





“Todos esses ataques fazem parte da militarização progressiva do território pemon”, afirma Lisa. 

Ela acha que “com o massacre de Kumarakapay e Ikabarú, se abriram umas feridas muito profundas no povo pemon”.  Após um ano da primeira tragédia, ela está convencida de que o suposto bloqueio à ajuda humanitária foi uma desculpa qualquer para atacar os pemons e militarizar a Gran Sabana. “Todos somos vítimas. O tiroteio e a tomada do povoado foram feitos para obter o controle dos nossos recursos: ouro, água e madeira, além do controle da fronteira por onde se faz o contrabando de mercadorias e de materiais estratégicos”. 

Lisa Henrito: “O ataque militar a Kumarakapay foi uma desculpa para nos atacar”

Lisa acredita que Kumarakapay sempre foi uma comunidade “organizada, uma referência” que não foi perdoada pela sua posição política independente. “Bem sabemos que, para o governo, não pode existir ninguém independente: ou você é vermelho ou você não é deles. Como nos defendemos, estamos atingindo muitos dos interesses deles, tais como o tráfico de dinheiro, ouro, armas, combustível”. 

Ela admite que, depois do assalto militar em Canaima, alguns capitães negociaram com o poder. Ela acha que o ataque de 8 de dezembro de 2018, no qual morreu Charly Peñaloza não foi um acidente, mas sim uma forma de medirem sua força. “Eles convenceram algumas lideranças indígenas e botaram toda essa luta a perder”, ela diz.









  Lisa é abertamente contra o garimpo no território pemon, embora entenda que é uma atividade à qual os povos indígenas recorreram ancestralmente para subsistirem, não para se enriquecerem, como acontece na concepção ocidental. “Algumas comunidades continuam tendo essa visão, outras menos, especialmente algumas instâncias superiores, que não são do povo. É claro que tem pessoas que não se importam com acabar com o rio só porque querem ter os últimos tênis Nike. Eu não apoio o garimpo de ouro, a menos que o povo decida participar, mas só se fosse como parceiro do Estado, porque este é o nosso território.













As ameaças não minimizam Lisa Henrito, muito pelo contrário. “Tem algum militar preso pelo massacre em Kumarakapay? Eles estão matando índios e não há justiça. Nós pemons não somos os culpados dos ataques, mas temos a responsabilidade de ser críticos e de defender a nossa agenda. Devemos valorizar o que somos, o que temos e continuar com nossa luta. Se eles vierem para nos dividir, comigo estão bem enganados. Não estou aqui para ser amada pelo povo, mas sim para lutar por ele.        

  

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