O segredo que a mina engoliu

José Tendetza foi um líder da etnia shuar. Era um bravo opositor da mineração em sua terra, a Cordilheira do Condor, no sul do Equador. Após cinco anos do assassinato do líder ambientalista, ainda não foi esclarecido quem foram os autores intelectuais e materiais do crime.

Descalço e encostado a uma das paredes de sua casa de madeira, Carlos Tendetza fala de José, seu irmão morto. Através das rachaduras nas tábuas, o sol do meio-dia entra e marca com claro-escuro o celeste pálido e o friso com desenhos de animais, números e rabiscos infantis na parede. Carlos Tendetza, de os cabelos pretos como petróleo, a camisa listrada horizontalmente, as calças ocres – diz que após o assassinato de seu irmão usou ayahuasca, a planta medicinal sagrada dos povos amazônicos, e o viu novamente. José Tendetza apontava com seu dedo para um homem com botas amarelas e disse a Carlos: “Olhe, irmão, foi ele quem me matou”.

Cinco anos depois, em agosto de 2019, Carlos Tendetza disse que não sabia identificar quem estava usando essas botas. Em Tundayme, uma comunidade rural na Cordilheira do Condo onde convivem os índios Shuar e mestiços, as botas amarelas se multiplicaram: não só são usadas pelos trabalhadores da empresa mineira Ecuacorriente, mas também pelos agricultores. Tundayme pertence à localidade El Pangui, na província de Zamora Chinchipe, no sul da Amazônia equatoriana. E a Tundayme pertencem, administrativamente, populações rurais ainda menores, como a comunidade Numpaim San Carlos, a comunidade Churuwia e Yanua Kim, onde José Tendetza era o síndico (líder administrativo).

FOTO: DIEGO AYALA LEÓN

Assim como Tundayme e suas comunidades, dezenas de outras cidades têm um cinturão de cobre que, segundo ministros e presidentes, empresários e investidores, é o novo bilhete de ouro do Equador para a prosperidade: o primeiro projeto de mineração em grande escala do Equador, Mirador, está sendo explorado na região. De acordo com uma nota informativa da Agência de Controle e Regulamentação Mineira (Arcom), a Ecuacorriente, a empresa responsável pelo projeto, terá que pagar ao Estado US$ 30 milhões por ano em royalties provenientes da extração principalmente de cobre, mas também de ouro, prata e molibdênio.

A exploração da Ecuacorriente – que tem capital chinês – começou com um teste de produção de três milhões de toneladas por ano. A estimativa até 2020 era de 15 milhões. A partir de 2021, a exploração poderia chegar a 21 milhões de toneladas de minerais por ano.

Apesar de todas as promessas, na superfície, a pobreza não mudou muito, e os conflitos sociais se tornaram mais agudos

Apesar de todas as promessas, na superfície, a pobreza não mudou muito, e os conflitos sociais se tornaram mais agudos. Conforme ambientalistas e líderes comunitários, a mineração poderia causar efeitos negativos tais como envenenar as fontes de água, mudar o curso dos rios, desmatar florestas inteiras e até causar tragédias como as de Brumadinho e Mariana no Brasil, onde o rompimento da barragem de mineração devastou vilarejos, matou centenas de pessoas e contaminou e acabou com rios.

É por isso que José Tendetza, o shuar que seu irmão vê novamente em uma visão mística, se opôs à mina em sua terra. É por isso, muitos acreditam, que José Tendetza foi morto.

DURANTE TODO O DIA OS CAMINHÕES BASCULANTES E CAMINHONETES DA MINERADORA ENTRAM E SAEM DE TUNDAYME. FOTO DE DIEGO AYALA LEÓN.

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O assassinato de José Tendetza ainda está impune. A mineração à qual ele tanto se opôs está avançando na região. A família de José Tendetza e as poucas pessoas que se lembram dele dizem que ele falava forte, era muito corajoso e capaz de persuadir e conscientizar sobre a defesa do território e a oposição à mineração. “Ele não tinha estudos acadêmicos, mas tinha capacidade de liderança”, diz Manuel Sánchez, um mestiço membro da Comunidade Amazônica de Ação Social da Cordilheira do Condor Mirador (Cascomi).

No início da década de 2000, o pai de Manuel Sánchez lhe deu uma fazenda que ele possuía em Tundayme para que a vendesse e pagasse as dívidas que estavam o afogando, depois que sua loja de eletrodomésticos faliu. Eram os tempos da maior crise econômica e social do Equador, gerando  milhões de emigrantes e deixando o país sem moeda própria e com seu sistema financeiro quase extinto. “O único comprador potencial era a empresa mineradora”, lembra Sánchez.

“Nem eu nem outros proprietários recebemos um pagamento justo pela terra”

Manuel Sánchez.

Pela fazenda, ele recebeu mil dólares da empresa Ecuacorriente. Posteriormente, Manuel Sánchez falou com um amigo seu, que trabalhava nessa empresa e lhe informou que a empresa iria começar a extrair cobre, ouro, prata e outros materiais do subsolo. Ele recomendou que Sánchez lesse alguns documentos do Ministério do Meio Ambiente. Quando os leu, ele se sentiu enganado. “Nem eu nem outros proprietários recebemos um pagamento justo pela terra”, diz ele. 

A partir desse momento, Sánchez começou a defender mais os direitos dos proprietários das terras de Tundayme. “Todos concordavam comigo, mas ninguém apresentava uma solução”, disse ele. Em 2015, a empresa mineira Ecuacorriente demoliu a escola, a capela e as casas da comunidade de San Marcos para construir depósitos para os resíduos da mina.

AO LONGO DA ESTRADA QUE LEVA PARA TUNDAYME NÃO HÁ PLANTIOS. FOTOGRAFIA DE DIEGO AYALA LEÓN.

Em sua luta, Manuel conheceu José Tendetza. Em suas falas nas reuniões, José advertiu as pessoas sobre o que poderia acontecer, e o que a empresa estava fazendo na comunidade. Manuel disse que após várias discussões, José Tendetza entendeu que mestiços e shuar tinham que lutar juntos. Se eles lutarem lá, e nós lutarmos aqui, não conseguiremos alcançar nossos objetivos, ele entendeu e aceitou isso, disse Manuel.

—Uma pessoa humilde, mas corajosa, diz Sánchez em um sábado de feira em Gualaquiza.

Por seu assassinato havia dois homens sob investigação, mas eles foram absolvidos.

Por seu assassinato havia dois homens sob investigação, mas eles foram absolvidos. Ninguém sabe quem estrangulou até a morte o líder shuar da comunidade Yanua Kim, vice-presidente da Federação Shuar de Zamora, militante ativo da Confederação de Nacionalidades Indígenas da Amazônia Equatoriana e da Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador, e palestrante do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, mas não chegou a Lima.

Quando morreu, José Tendetza tinha 49 anos e sete filhos com Carlota María Ushap. Em 2008, eles se separaram: ela começou a trabalhar na Ecuacorriente, e José Tendetza não gostou disso. José Tendetza nasceu em Yanua Kim, outra pequena cidade na Cordilheira do Condor, na província de Zamora Chinchipe, a mais de seiscentos quilômetros de Quito, a capital do Equador. No dia de sua morte, 29 de novembro de 2014, José Tendetza estava voltando para Yanua Kim.

Alguns dias depois, ele planejava viajar para Lima e participar do Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza, no âmbito da Conferência Internacional sobre Mudança Climática (COP20), realizada na capital peruana nos dias 5 e 6 de dezembro de 2014. Ele tinha sido convidado por organizações de direitos da natureza. Mas José Tendetza nunca entrou naquele avião. José Tendetza nem sequer chegou a Yanua Kim.

FOTO: DIEGO AYALA LEÓN

Sua morte foi o início do lento declínio da resistência contra a mineração na área. Seus irmãos dizem que onde quer que houvesse assembleias contra a mineração, José Tendetza estava presente. Ele era um agricultor de mãos duras e temperamento ainda mais forte. Seu irmão Alfonso se lembra de quando José viu alguns funcionários da Ecuacorriente em frente a sua comunidade fazendo medições para começar a pavimentar a estrada. José Tendetza se aproximou deles e sem dizer nada tirou o capacete de um deles, jogou-o no chão e o quebrou com uma grande pedra. “Ficou em pedaços”, diz Alfonso Tendetza. Antes de tornar-se um líder, José Tendetza trabalhou na mina de 2002 a 2006.

Mas José Tendetza não quis continuar na indústria do cobre. Ele preferiu caçar e pescar no rio, como todos os idosos de sua família, e como eles, ele só completou o ensino primário. Para participar nas assembleias contra a mineração – em Quito, Puyo, Loja ou Cuenca, todas as cidades a centenas de quilômetros de distância – ele vendia as bananas, o milho e a papaia que plantava. Com o pouco que ele arrecadava, ele viajava.

Os dados são incertos porque, no julgamento pela sua morte, uma testemunha declarou que Tendetza não estava na reunião.

Naquele dia, ele estava voltando de Gualaquiza, uma cidade da província de Morona Santiago. Segundo sua família, estava voltando de uma reunião com a Associação Shuar da comunidade Bomboiza e a Agência de Controle e Regulamentação Mineira (Arcom). Os dados são incertos porque, no julgamento pela sua morte, uma testemunha declarou que Tendetza não estava na reunião.

—O dia estava ensolarado e de repente choveu, lembra Alfonso Tendetza.

Duas testemunhas disseram no julgamento que o viram pela estrada que leva para as comunidades e que atrás dele ia um homem de botas amarelas, funcionário da empresa mineira

José Tendetza desceu da rancheira, um ônibus rudimentar sem portas nem janelas, em Chuchumbletza, muito perto de Yanua Kim. Aqueles que o viram descer afirmaram que ele não tinha dinheiro para pagar e disse ao motorista que ia ficar devendo. Yanua Kim fica a quarenta e cinco minutos caminhando. Duas testemunhas disseram no julgamento que o viram pela estrada que leva para as comunidades e que atrás dele ia um homem de botas amarelas, funcionário da empresa mineira, mas não sabiam quem ele era. Essa foi a última vez que alguém o viu vivo. Ele nunca chegou.

Em Yanua Kim, as pessoas começaram a dizer que talvez ele se tivesse perdido no caminho de volta, mas seu irmão Alfonso não acreditou. “Somente crianças se perdem”, ele se lembra.  Seus sobrinhos não estavam muito preocupados porque seu pai José Tendetza tinha muitos amigos em Gualaquiza, e às vezes ele ficava e bebia chicha com eles. A verdade é que a espera de 45 minutos já tinha se transformado em horas, e as horas em dias. Sua família soube que ele estava morto, enterrado e marcado como um corpo não identificado, apenas quatro dias depois.

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FOTO: DIEGO AYALA LEÓN

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Na manhã de dois de dezembro de 2014,  um homem passando pela ponte sobre o rio Zamora, que une Tundayme a Chuchumbletza, viu algo flutuando no rio e pensou que era um porco morto. Ele chamou outros vizinhos para resgatá-lo e assá-lo.

Mas ao se aproximarem em um pequeno barco de madeira, perceberam que não era um animal para alimentar-se, mas sim uma pessoa. Era o corpo de José Tendetza. A ponte sob a qual ele foi encontrado foi construída pela Ecuacorriente entre 2014 e 2016. Nenhuma das pessoas que o encontraram o reconheceu.

Mas Alfonso não acredita neles e diz que eles fingiram não saber quem era. O corpo foi levado para um hospital próximo, onde foi marcado como NN e enterrado no mesmo dia, no cemitério de outro pequeno vilarejo da província, El Pangui. “Eles o enterram como se ele não tivesse família”, diz Alfonso com uma voz cheia de raiva.

“Sua luta pelo respeito aos direitos territoriais da floresta não é compartilhada por toda a população local”

Roberto Narváez.

Roberto Narvaez, o especialista que fez um estudo do ambiente cultural e social da comunidade Yanua Kim como parte da investigação do assassinato de José Tendetza, diz que o corpo do líder shuar foi achado em estado de decomposição e, portanto, ninguém o reconheceu. Ele também diz que, a partir da cosmovisão shuar, a liderança de José Tendetza estava crescendo e era reconhecida não apenas em sua comunidade, mas na região da Cordilheira do Condor. “Sua luta pelo respeito aos direitos territoriais da floresta não é compartilhada por toda a população local”, explica Narváez, porque muitos dos habitantes da área trabalham na grande empresa mineradora, Ecuacorriente, ou em outras menores.

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É a primeira segunda-feira de setembro de 2019 e alguns jovens caminham por Tundayme com envelopes e pastas esperando conseguir um emprego na empresa de mineração. Seus sotaques têm mais importância do que suas palavras: eles são da costa e das montanhas, vieram de longe. Esta não é a primeira vez na história cíclica – reciclada? – equatoriana que o que está sob a terra impulsiona a migração interna.

No início da década de 60, milhares pessoas de Loja se mudaram para o norte da Amazônia equatoriana para fazer parte do boom petrolífero equatoriano. Foram tantos que a cidade que fundaram se chama Nueva Loja – embora, seu nome original fosse Lago Agrio, em homenagem a Sour Lake, a cidade texana onde pela primeira vez, no início do século XX, foi explorado o primeiro poço de petróleo da Texaco, a mesma empresa que está operando no Equador.

No começo era o petróleo bruto; hoje, milhares de anos depois, é o cobre.

No começo era o petróleo bruto; hoje, milhares de anos depois, é o cobre. O cobre foi o metal que os seres humanos usaram pela primeira vez, há dez mil anos. No início da mineração de cobre, nas minas hispânicas da pré-história, os mineiros retiravam o cobre misturado com arsênico, que era solicitado pelos povos do Mediterrâneo oriental.

No século XXI, o cobre é um deus: ele está em toda parte. Está nos telefones celulares com que falamos, nos fios pelos quais passa a eletricidade (15% mais rápido que o alumínio), nos tubos por onde passa a água, nos dispositivos intrauterinos que impem a reprodução, nas moedas que continuam se multiplicando, nas colheres que colocamos na boca, nos móveis onde tiramos uma soneca, na maquiagem com que escondemos imperfeições, nas pinturas com que cobrimos nossas paredes e nos fungicidas com que matamos pragas. O cobre pode ser misturado com ouro e bronze para fazer as joias que penduram de nossas orelhas, pescoços, pulsos e dedos.

No princípio, era o norte. Hoje é o sul. A extração de matérias primas nos percorre como uma cruz. A Cordilheira do Condor é seu Gólgota, onde opera a Ecuacorriente, que embora seja a subsidiária equatoriana da empresa canadense Corriente Resources Inc., é controlada pela China Railway Construction Corporation e pelo grupo chinês Tongling Nonferrous Metals. No país, a Corriente Resources Inc também tem como subsidiárias a ExplorCobres S.A-EXSA, a Hidrocruz S.A e a PuertoCobre S.A.

FOTO: DIEGO AYALA LEÓN

com os tanques não é uma questão de se vão se romper, como em Mariana ou Brumadinho, mas quando.

A exploração de mineiros em Mirador durará trinta anos, e o contrato garante a renovação. As atividades de exploração começaram em julho de 2019, sete anos após da concessão ter sido assinada. Será a céu aberto, um tipo de mineração em grande escala na qual a exploração é feita de forma descendente: escavações de 300 a 500 metros de profundidade são realizadas para extrair os minerais. Para cada tonelada de cobre obtida, duas toneladas de resíduos (como pedras e areia) são geradas e que acabam em um tanque de rejeitos. Adán Guzmán, professor de mineração da Universidade Central, em seu minúsculo escritório cheio de colunas de teses e livros, explica que um tanque de rejeitos é uma espécie de piscina que tem drenagem em sua base e é feita com impermeabilização para que as substâncias nela contidas não saiam. Mirador recebe detritos moídos para serem reutilizados no caso de terem cobre. Os resíduos líquidos da água que vem do solo, chamados lixiviados, também chegam ao tanque.  Um tanque de rejeitos cresce gradualmente, podendo atingir 170 ou 200 metros de altura.  Alguns especialistas que dizem que com os tanques não é uma questão de se vão se romper, como em Mariana ou Brumadinho, mas quando.

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Um conjunto de chamadas foi a única prova que a acusação teve para apontar Guido Yankur e Carlos Benito Unup como os possíveis culpados da morte de José Tendetza. Em maio de 2016, ambos foram absolvidos do crime de assassinato de José Tendetza. 

Quando eles foram presos, ambos eram trabalhadores de campo na Ecuacorriente. “Ambos ainda estão trabalhando na empresa de mineração”, diz Alfonso Tendetza. Em algumas ocasiões, quando Alfonso vai a Gualaquiza para vender ayampacos (um prato típico de peixe de rio enrolado em folhas da maranta charuto, junto com cebolas picadas que é cozido a lenha), ele já os viu, mas não sabe mais nada deles. “Apesar de os ter procurado insistentemente – em Tundayme, por telefone, através de seus conhecidos – tem sido impossível encontrá-los.

Vicente Romero, um morador de Tundayme, testemunhou na investigação criminal e disse que Yankur o chamou em 29 de novembro de 2014 para avisá-lo de que José Tendetza tinha sido morto, embora a notícia da morte de José Tendetza só fosse conhecida três dias depois, quando seu corpo foi encontrado no rio Zamora. De acordo com um relatório da operadora telefônica, a chamada foi feita do telefone celular do Guido Yankur. Outra testemunha, Angel Tsukanka, afirmou que Unup lhe disse que José foi obrigado a sofrer e que ele foi morto entre cinco pessoas.

Mas Guido Yankur e Carlos Benito Unup se defenderam dizendo que, de 21 de novembro a 5 de dezembro de 2014, estiveram de férias durante 15 dias em suas casas. Yankur na comunidade de Campana Etnsa; Unup na comunidade shuar Jaime Narváez. Yankur disse que no dia da morte de José Tendetza, sua esposa estava doente e um curandeiro estava cuidando dela. Unup disse que durante aqueles 15 dias de férias, ele estava dedicado à agricultura em suas terras com sua família.

A cabeça, o rosto, a boca, as orelhas, o nariz, os braços, as pernas, o tórax, o abdômen, a pélvis estavam em estado de putrefação. No dia anterior, o filho mais velho de José Tendetza, Jorge, chegou a Yantzaza para reconhecer o corpo. Seus outros filhos, os irmãos e a mãe do líder shuar, também chegaram. A autópsia determinou asfixia por estrangulamento, e certifica que o corpo de José foi introduzido na água quando ele já estava morto. O relatório do especialista explica que ele foi amarrado na cintura e pescoço a uma árvore ou algo grande com uma corda azul. Alfonso conta que se podia dizer que se tratava de uma corda nova.

processo judicial disse que a investigação conduzida pelo Ministério Público sobre a morte de José Tendetza não tinha direção, nem era uma investigação eficiente.

Yankur esclarece que ele ligou para Romero, mas o fez em 1 de dezembro de 2014, não para o avisar, mas para lhe perguntar se era verdade que o corpo encontrado no rio era o de José Tendetza. De acordo com a investigação do Ministério Público, o chip do telefone de Carlos Benito Unup foi inserido no celular de José. Com esse telefone celular, Carlos Benito Unup supostamente ligou para Fernando Israel Abad, Máximo Alcívar, Tinitana Benítez e Guido Yankur em 29 de novembro. O juiz que resolveu o processo judicial disse que a investigação conduzida pelo Ministério Público sobre a morte de José Tendetza não tinha direção, nem era uma investigação eficiente. Como resultado, a inocência de ambos os homens foi reiterada.

O assassinato de José Tendetza continua sem solução. A Comissão Ecumênica de Direitos Humanos (CEDHU), juntamente com a família de José Tendetza, apresentou um relatório sobre o caso em julho de 2017 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, explicando as irregularidades da investigação do assassinato. Dizem que a investigação do Ministério Público foi “deficiente e apressada”, que o que estava sendo investigado era um crime passional, porque Tendetza estava separado de sua esposa e não viviam juntos. Esse relatório ainda não foi lido, nem analisado pela CIDH, diz Patricia Carrión, advogada da CEDHU.

Os advogados da CEDHU também questionam que, como parte das investigações, não houve busca e apreensão na casa nem no acampamento da empresa onde os suspeitos viviam

Os advogados da CEDHU também questionam que, como parte das investigações, não houve busca e apreensão na casa nem no acampamento da empresa onde os suspeitos viviam. Pelo contrário: as autoridades invadiram a casa de José Tendetza em busca de provas. O caso também foi apresentado na Comissão da Verdade e da Justiça que preparou o relatório Perseguidos Políticos Nunca Mais. Publicado em 2018, analisa todos os casos de perseguição política durante o governo de Rafael Correa contra defensores da natureza, dos direitos humanos, da liberdade de expressão, e os envolvidos na revolta policial de 30 de setembro de 2019. Mas a investigação formal sobre o assassinato de José Tendetza foi encerrada. Ninguém sabe quem matou José Tendetza. Ninguém parece querer descobrir.

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José Tendetza pressentia sua morte. Alfonso Tendetza conta: “Uma vez, enquanto bebia um pouco de licor, ele disse ‘alguém vai me matar’, mas ele disse que não tinha medo. Ele também disse que iria para outro país para denunciar as atividades da empresa mineradora. José era um sonhador”.

Seu desaparecimento e morte o impediram de chegar ao Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza em Lima, onde iria denunciar o projeto Mirador. “Mas lhe tiraram a vida”, disse Alfonso. A apresentação que José Tendetza ia fazer foi feita por Luis Coral, outro defensor dos direitos. A advogada Patricia Carrión, da CEDHU, disse que Mirador é um caso emblemático de defesa ambiental: é o primeiro de mineração em grande escala, “o maior, o de maior impacto e o de maior poluição e violação dos direitos da natureza”, disse ela. Na investigação do assassinato de José Tendetza, o especialista Roberto Narváez confirmou que o conflito social na Cordilheira do Condor é alto devido à falta de reconhecimento dos direitos da população shuar sobre seu território ancestral.

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DESDE A CHEGADA DA EMPRESA ECUACORRIENTE, CHINESES, SHUAR E MESTIÇOS CONVIVEM EM TUNDAYME. FOTO DE DIEGO AYALA LEÓN.

Os caminhões basculantes passam rapidamente e desaparecem na poeira que levantam. No centro de Tundayme, há casas de cimento de dois e três andares, recém pintadas, e algumas são anunciadas para venda em espanhol e chinês.

Na única rua principal há dois restaurante de comida chifa (chinesa com toque peruano) e outros restaurantes. São onze horas da manhã do dia 2 de setembro de 2019. Delfa Placencia está limpando a entrada de um dos chifas, ela trabalha nesse lugar há um ano, recebe seu salário básico e diz ter aprendido a preparar chaulafan e outros pratos asiáticos.

“Nossas exigências, as da Cascomi, estão no limbo”

Manuel Sánchez.

Outra residente de Tundayme, María, diz que a mineradora Ecuacorriente lhe deu uma bolsa de estudos para estudar administração de empresas em uma universidade de Cuenca, a maior cidade do sul do Equador. María diz que não concorda com a exploração mineira, mas como tem a bolsa de estudos, não participou mais das reuniões contra as atividades de mineração organizadas pela Cascomi. Maria diz que seu padrasto foi uma das pessoas despejadas da comunidade de San Marcos, que desapareceu. Aquele terreno é onde está agora a piscina de rejeitos, de acordo com o plano do projeto Mirador. “Nossas exigências, as da Cascomi, estão no limbo”, diz Manuel Sánchez.

Por causa da destruição de San Marcos, Maria participou de uma marcha de protesto. Quando os funcionários da empresa descobriram, eles lhe tiraram a bolsa de estudos. Eles lhe devolveram com um aviso: ela deve apoiar as atividades de mineração.

-Vou desistir dos protestos até terminar meus estudos, diz ela.

A empresa de mineração tem mais aprovação das pessoas já que tem as autoridades como aliadas

Enquanto isso, Cascomi continua lutando pelos direitos de seu território. A empresa de mineração tem mais aprovação das pessoas já que tem as autoridades como aliadas. Luis Urdiales é o novo presidente do Conselho Paroquial de Tundayme desde março de 2019. Ele tem um relacionamento muito próximo com a empresa. Luis tem projetos de iluminação pública para a comunidade, de adaptação do parque principal, de entrega de kits escolares e de promoção de empreendimentos para as pessoas que apoiam a exploração mineira. Urdiales disse que o projeto de mineração já está em andamento, e que opor-se a ele é muito difícil.

Nos escritórios de relações comunitárias da Ecuacorriente em Tundayme, os comunicadores Juan Ignacio Eguiguren e Hugo Jumbo responderam que não podem dar entrevistas sobre o caso de José Tendetza. Por e-mail, Dunia Armijos, coordenador de relações comunitárias, respondeu que não pode comentar a morte de José Tendetza porque não tem nada a ver com suas atividades ou responsabilidades.

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“É hora de dizer basta”

José Tendetza.

Um dos últimos registros gráficos de José Tendetza é um vídeo de dezembro de 2013. No meio de uma assembleia, ele diz ao público “É hora de dizer basta”, referindo-se às atividades de mineração da Ecuacorriente em Tundayme. Após sua morte, a mídia nacional e internacional mostrou uma foto dele com um largo sorriso, que provavelmente nunca mostrou aos funcionários da Ecuacorriente ou a funcionários da agência de controle de mineração.

Alfonso Tendetza diz que após a morte de José Tendetza, nada mudou em Yanua Kim. O filho de José Jorge deixou a comunidade Yanua Kim antes de seu pai morrer. Outro de seus filhos morreu meses mais tarde. Maribel e Rosa Tendetza, as filhas de José, ainda vivem na casa de bloco e telhas que pertencia a seu pai.

FOTO: DIEGO AYALA LEÓN

Carlos Tendetza sustenta que ele é o novo líder comunitário e contra a mineração, que tomou o lugar de seu irmão assassinado, com quem aprendeu sobre leis e direitos de seu território. “Carlos não é o líder comunitário. Ele só busca é interesse pessoal, e isso não é ser um líder”, diz seu irmão Alfonso. “Carlos viaja para Quito e outros lugares, para pedir ajuda econômica para sua mãe, mas ele não lhe deu nada. Ele fica com tudo em nome de minha mãe”, diz o Tendetza mais velho.

Rosa Antún está sentada na pequena varanda de sua casa de madeira, os únicos que fazem barulho são dois cachorros pequenos e magros como um espeto que a acompanham, algumas galinhas que comem milho do chão de sua casa, e um par de patos que andam em volta de uma lagoa suja com uma ponte de ferro enferrujada, quando chove muito e a lagoa cresce. Rosa Antún é a mãe dos Tendetza, fala com uma mistura quase incompreensível de shuar e espanhol, tem rugas na testa e ao redor de sua boca e tem as marcas geométricas em suas maçãs do rosto das pinturas faciais de sua nacionalidade.

Como podemos esquecer, diz Rosa Antún.

Quando seu filho lhe disse que iria à reunião em Bomboiza, Rosa Antún lhe disse para não ir porque não tinha dinheiro. Ela sempre pensou que o dia 29 de novembro José Tendetza estava trabalhando na agricultura. Ela perguntou por ele às quatro horas da tarde e foi informada de que ele não tinha retornado. Às seis horas, seu filho Alfonso veio perguntar-lhe por ele. Ele ainda não tinha retornado. As pessoas começaram a dizer que ele estava perdido.

ROSA ANTÚN, A MÃE DE JOSÉ TENDETZA, VIVE SOZINHA EM UMA CASA DE MADEIRA. FOTO DE DIEGO AYALA LEÓN.

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“E assim eles querem que eu apoie a mineração”

Alfonso Tendetza.

Alfonso, o mais velho dos irmãos Tendetza, caminha com um facão na mão, tem uma camisa azul manchada de lama e suor. Ele diz que não usa ayahuasca há muito tempo, mas em seus sonhos ele também viu seu irmão assassinado. “Ele não me diz nada, ele está calmo, mas às vezes sofre, porque não morreu de uma doença, mas porque tiraram sua vida”. Ele diz que, embora tenha ido à empresa para pedir trabalho, sempre negam dizendo que só dão trabalho a pessoas que estão preparadas. Mas estas pessoas são de outras províncias. “E assim eles querem que eu apoie a mineração”, diz Alfonso.

Na porta de sua casa, ele tem um banco de madeira com teto de zinco que queima por causa do sol amazônico. No banco, ele tem quatro cachos de bananas verdes, cada um é vendido por um dólar. Alfonso diz que tenta ajudar sua mãe, mas o dinheiro não é suficiente. Quando José Tendetza era vivo, trazia alimentos ou lenha para sua mãe.

ALFONSO TENDETZA APONTA OS SINAIS DE PROPRIEDADE PRIVADA QUE A MINERADORA COLOCOU EM TORNO DE YANUA KIM. FOTO DE DIEGO AYALA LEÓN.

A mina divide a terra. A mina divide uma família. A mina divide uma comunidade. A mina divide um país.

Carlos Tendetza diz que não viaja há muito tempo para Quito ou outros lugares para reuniões contra a mineração, porque não tem dinheiro. Ele diz que mesmo assim, permanece firme na luta por seu território. Ele diz que a empresa oferece progresso, mas só dá fósforos, frangos, porquinhos-da-Índia e balas de doce. “Isso é zombaria para pessoas que não sabem”, diz ele. Ele comenta que, apesar do que eles oferecem, não se deixa comprar. Segundo a Ecuacorriente, sete parentes de José Tendetza trabalham para a empresa.  No final de setembro de 2019, funcionários da Ecuacorriente visitaram Yanua Kim para entregar vacas. Em um vídeo, Alfonso Tendetza aparece agradecendo à empresa por sempre apoiar a comunidade e dizendo que o povo shuar é dono da mineração. A mina divide a terra. A mina divide uma família. A mina divide uma comunidade. A mina divide um país.

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