O Território Indígena que a Poderosa Hidroituango Afogou

Repleta de problemas de planejamento e construção, a que seria a maior usina elétrica da história da Colômbia enterrou o lar dos últimos Nutabe, filhos do Rio Cauca. Agora eles estão sendo consultados de antemão.

A Hidroituango, que seria a maior usina elétrica da história da Colômbia, por enquanto é destaque nas manchetes por seus problemas de planejamento e construção, com uma área de influência na qual vivem pelo menos 167.000 pessoas, e o segundo maior rio do país, à beira de uma eventual tragédia humana e ambiental.

Estes problemas têm gerado custos superiores a cerca de três trilhões de pesos colombianos, segundo a empresa responsável do projeto, Empresas Públicas de Medellín (EPM), o que motivou uma investigação da Procuradoria Geral, da Controladoria e do Ministério Público, além da suspensão preventiva de alguns trabalhos por parte da autoridade ambiental ANLA (Veja documento).

Este assunto já é conhecido. E também, em contraste, a conveniência da obra, de um custo total estimado de 14 bilhões de pesos colombianos, que proporcionaria o equivalente a 24% da demanda energética atual em um país que há 27 anos sofreu um apagão nacional devido ao fenômeno climático El Niño.

já que seu território ancestral já foi enterrado abaixo de 2.720 milhões de metros cúbicos de água em um reservatório.

Porém, ainda não foram abordadas em profundidade as histórias de todo o dinheiro que foi movimentado no projeto e exatamente nas mãos das empresas em que ficou, e da comunidade indígena quase extinta que depois de ser afetada está exercendo seu direito à consulta prévia.

Na prática, o direito coletivo das minorias étnicas à consulta livre e informada não será prévio – como determina a Constituição – mas posterior, já que seu território ancestral já foi enterrado abaixo de 2.720 milhões de metros cúbicos de água em um reservatório.

Duas caras que mostram o contraste de força. O elefante e a formiga. Golias e mais um David. O peso dos negócios na poderosa região “paisa” da Colômbia e nos últimos Nutabe: os filhos do rio Cauca.  

Um rio que eles chamam de “papai macaco”.

***

Quem não gostaria de um pai assim? Um pai como esse. O pai macaco. O pai que tudo dá. Macaco pela cor de chocolate ao leite.

Todas as manhãs, o rio Cauca viajava desde sua nascente nas alturas do páramo de Sotará, entre os departamentos de Cauca e Huila, 1.076 quilômetros através das Cordilheiras Central e Ocidental dos Andes, até a aldeia de Orobajo, no município de Sabanalarga, em Antioquia, para dar sustento a seus filhos.

O papa macaco era o sustento diário dos indígenas Nutabe desde que há registro de sua existência

Ouro e peixe. Peixe e ouro. Peixe às 4 horas da manhã, quando homens e mulheres em grupos de 10 ou 15 vinham para a praia com seus anzóis e redes. E também depois das 10 horas, quando os mais animados continuavam em jangadas artesanais – dois troncos amarrados com cordas de fibra vegetal- a caminho para a aldeia vizinha Ituango.  

Sempre ouro. Mesmo no verão, com o fluxo de água diminuído. Na verdade, muito mais nessas condições, nas quais a coleta e a lavagem da areia para extrair o metal se tornam menos complicadas.

O papa macaco era o sustento diário dos indígenas Nutabe desde que há registro de sua existência: nas expedições espanholas da década de 1540, que deram origem ao atual território de Antioquia.

Sempre pescadores e barequeros, que é como são chamados aqueles que extraem ouro dos rios de maneira artesanal, geralmente com bateias de madeira redondas. Sempre à beira de seu pai cor de chocolate. Com uma vocação transumante em toda a área do chamado desfiladeiro do Cauca, onde o rio desce cerca de 800 metros para serpentear entre as montanhas, principalmente em Orobajo e seus arredores, a área mais isolada da aldeia de Sabanalarga.

Antes e depois de ir ao rio todos os dias, bebem café na casa do vizinho e perguntam: “Quantas gramas você pegou hoje?” Foi uma boa pesca. Amanhã iremos mais longe.

Dependendo das necessidades de cada um, ocasionalmente viajam de mula até Sabanalarga ou Ituango para vender ouro e comprar arroz, batatas, feijão, leite, óleo, artigos de higiene pessoal.

Entre oito e dez horas na ida e, dependendo da carga da mula, isso ou mais na volta a Orobajo, que tinha três ruas, casas construídas com bambu, lama e telhados de zinco; uma escola rural, uma quadra na qual jogavam principalmente futsal, um cemitério, encanamento com água não tratada que descia da montanha e um trapiche comunitário para fazer rapadura.

35 famílias, 140 pessoas, viviam ali permanentemente.

Alguns tinham cultivo de mandioca ou banana da terra. E galinhas e perus. Eles caçavam pacas, quatis e coelhos.

Antes e depois de comer o peixe do dia, para as redes. ‘O que você está falando?’ ‘Ele não me devolveu minha mula’. ‘Vamos jogar um pequeno jogo’ (futsal, provavelmente com um vilarejo vizinho).

A cada oito dias, mais ou menos, dançar. Com cerveja e chicha, e vallenato, reggaeton, salsa e rancheras.

Mas os momentos mais importantes da vida naqueles dias eram, principalmente, estes três: a pesca, a mineração (artesanal) e ou descanso.

“O rio sempre foi tudo para nós”

Abelardo David Chanci

Tudo isso quase sempre em calções e sem camisa nem sapatos, no caso dos homens, com o vento que corre pelo desfiladeiro do Cauca como uma carícia permanente no rosto.

– Com este vento…

Um suspiro.

– Nós não precisávamos de uma conta bancária: nosso pai era nosso caixa, só bastava meter a mão na água que ele nos dava o dinheiro. O rio sempre foi tudo para nós.

Abelardo David Chanci, guarda Nutabe, suspira novamente e entrefecha seus olhos enquanto me conta parte desta história.

Estamos atravessando em um ferry-boat, junto com outras 27 pessoas, um ônibus, um táxi e várias motos, pelo reservatório de Hidroituango – a usina construída para obter energia por força hidráulica – que começou a destempo a encher em 28 de abril de 2018, após a primeira emergência que foi registrada na construção.

Foi o dia em que esta mega obra do país, que até agora avançava sem muito barulho a nível nacional (embora, localmente, um engenheiro especialista que não queria ser citado me diz que o projeto sempre foi criticado), começou a ser contada como uma espiral descendente em efeito dominó.

A EPM, a empresa de serviços públicos de Medellín, a capital de Antioquia, que está liderando o projeto, desde então se referiu à questão como “a contingência“, que começou assim:

O túnel principal para desviar o rio Cauca, e permitir o trabalho a seco na barragem, foi obstruído por um deslizamento de terra. Isto fez com que a água começasse a encher o reservatório, ameaçando passar sobre a barragem, que não estava terminada.

Ou seja, ameaçando destruí-la e causar uma das avalanches do apocalipse.

Imagine o medo: os 2,72 bilhões de metros cúbicos de água do reservatório, que cobre 3.800 hectares e tem 70 quilômetros de extensão, derramando-se com a violência de seu peso sobre uma barragem inacabada projetada a 225 metros de altura (29 a mais que a Torre Colpatria de Bogotá, por muitos anos o edifício mais alto da Colômbia) e 20 milhões de metros cúbicos de volume, rumo às comunidades ribeirinhas de três departamentos.

Imagine o medo por um mês, o tempo que as peças do dominó caíram com velocidade inesperada durante aqueles primeiros dias da emergência, uma com cada má notícia:

Mais dois deslizamentos de terra no mesmo túnel auxiliar, que acabou completamente obstruído.

A EPM decidiu inundar a caverna subterrânea (chamada de casa de força), o coração do projeto que conta com as turbinas que geram a energia, para evitar que a água passe sobre a barragem. (Na casa de força, as turbinas e os geradores de energia foram completamente destruídos e submersos).

Depois, houve uma inundação repentina rio abaixo, após a evacuação da casa de força, que deixou 600 pessoas afetadas.

O governo de Antioquia declarou uma situação de calamidade pública.

Um bloqueio na casa de força impediu temporariamente o escoamento da água que estava sendo evacuada. 

A Unidade Nacional de Gestão de Riscos de Desastres emitiu uma ordem de alerta de evacuação nas cidades de Antioquia, Sucre, Córdoba e Bolívar, afetadas pela cheia do Cauca.

Um novo deslizamento de terra, no cume da montanha, obrigou ao fechamento de uma estrada, e um alerta de movimento na rocha, que levou à evacuação de trabalhadores na barragem. 

Quase 24.000 pessoas em abrigos temporários.

Um cidadão deu uma estatua da virgem Maria Auxiliadora à EPM para cuidar das obras, enquanto os trabalhadores terminavam a barragem contra o tempo. 

E assim, notícia após notícia, peça por peça, o dominó Hidroituango se moveu entre abril e maio de 2018 – os meses que marcaram a ruptura.

“Eles mexeram com a natureza e hoje a natureza está cobrando”.

Abelardo David Chanci

No ferry-boat que pertence ao projeto e que foi batizado ‘La Tranquilidad’, Abelardo David Chanci, com seus 43 anos, olhos tão bonitos quanto o rio e pele de bronze, diz com simplicidade uma frase complexa: “Eles mexeram com a natureza e hoje a natureza está cobrando”.

Chega fevereiro de 2019.

Outra peça do dominó da Hidroituango cai:

Para evitar o possível colapso da estrutura na casa de força inundada, a EPM decidiu fechar antes do previsto a última comporta que permite a entrada de água, que agora será capaz de encher o reservatório e passar com segurança por um vertedouro (que já está terminado, assim como a barragem), e depois retomar o curso do rio.

O problema é que ainda não está chovendo o suficiente. Serão necessários três dias para que a água no reservatório se eleve o suficiente para chegar ao aterro. E, como resultado, o fluxo diminuirá rio abaixo até que o Cauca se torne temporariamente um fiozinho de água.

85.248 peixes morreram em consequência do declínio do rio

Efetivamente, nesses três dias, o Cauca passou de 650 para 40 metros cúbicos ou menos por segundo. Segundo a própria EPM, que na época relatou ter contratado 1.000 pessoas para resgatar espécies, 85.248 peixes morreram em consequência do declínio do rio. Brigitte Baptiste, ecologista e diretora do Instituto de Pesquisa de Recursos Biológicos Alexander Von Humboldt, escreveu que a discussão sobre os impactos desta catástrofe “exigirá anos de trabalho”.

Eu e Abelardo vamos de um porto chamado de Brujas para outro conhecido como El Bombillo, uma viagem de 20 minutos. Depois continuaremos por terra por mais uma hora até Ituango, o município de onde a usina tirou seu nome.

Viemos de Medellín. Cinco horas de estrada em direção ao norte de Antioquia para Puerto Brujas. Há alguns minutos, passamos por um dos dois acampamentos onde moram os trabalhadores do projeto.

Um se chama Tacuí e o outro Cuní, como as fazendas onde eles foram construídos. Em um vivem 2.500 pessoas e no outro cerca de quatro mil, incluindo trabalhadores da EPM, a empresa que realizou os projetos (Integral SA), da responsável pela auditoria (Ingetec) e do consórcio que ganhou o contrato para fazer as obras principais (CCC).  

O consórcio CCC é formado pelas empresas colombianas Coninsa Ramón H e Conconcreto, e a brasileira Camargo Correa, investigada na Lava Jato, e cujos executivos reconheceram ter participado de pagamentos de suborno por obras públicas no Brasil, embora tenham dito que “não há nada” sobre a Colômbia.

Eles têm escritórios e acomodações em vários blocos de edifícios brancos. Um centro de monitoramento permanente. Auditório, salas de reuniões, restaurantes. Biblioteca. Academia. Piscina.

Abelardo os conhece por dentro, assim como muitas das pessoas da área que trabalharam ou prestaram serviços à Hidroituango.

Quando o plano de contingência foi iniciado, seu barco foi usado para resgatar alguns animais das margens – como cães e cobras – em risco devido às inundações repentinas.

Abelardo diz que já trabalhou para a Hidroituango muitas vezes com seu barco. Um barco a motor que alguns pequenos mineiros lhe deram há sete anos em troca de ouro. Foi chamado de ‘La Consentida’, e transportou engenheiros e outros funcionários.  Quando o plano de contingência foi iniciado, seu barco foi usado para resgatar alguns animais das margens – como cães e cobras – em risco devido às inundações repentinas.

Em Orobajo costumavam usá-lo como ambulância quando alguém estava gravemente doente.

Mas Abelardo não nasceu em Orobajo, ele mesmo me disse pouco antes de descer do ferry-boat. Viveu e criou sua família em Orobajo, mas nasceu na praia de Iracal, uma pequena praia em Cauca, com 11 irmãos, e venda peixe desde os 15 anos entre Ituango e Sabanalarga.

Eles o chamavam de “o Índio”. ‘Lá veio o índio com o peixe’. E também de “Cañonero”, como todos aqueles que vivem no desfiladeiro do rio.

Ele não pesca mais nem vende peixe. Agora ele ganha a vida como um cotero

Ele não vive mais no desfiladeiro do rio. Depois que Orobajo ficou submerso pelo reservatório, ele se mudou com sua esposa e três filhos para Bello, um município na área metropolitana do Vale do Aburrá, vizinho de Medellín. Ou seja, cinco horas longe do papai macaco e no meio da cidade.

Ele não pesca mais nem vende peixe. Agora ele ganha a vida como um cotero (como são chamados os que descarregam caminhões com mercadorias) em Medellín. Ou pelo menos ele tenta fazê-lo. Para poder trabalhar, ele tem que ir a um bairro do centro, famoso por estar repleto de comércio e oficinas de automóveis, para esperar na fila aos transportadores para ver se eles têm um lugar e lhe dão um dia de trabalho.

O bairro se chama Coração de Jesus, mas chamam-no de Bairro Triste.

Do ouro ao Barrio Triste.

Passar de comer um peixe barbudo, um dourado, um bocachico, uma sabaleta, sempre que quisesse, a ter que comprá-lo.

“Desmantelem a Hidroituango já”

Pouco depois de sair do ferry-boat, Abelardo o mostra. Aponta seu dedo para ele. Queimado pelo sol. Enferrujado, inutilizável. Estacionado em um pedaço de estrada rachado que o reservatório interrompeu: uma estrada que parece que está prestes a quebrar como biscoito. É La Consentida, seu barco a motor. 

Só que não tem mais motor. E não é nem mesmo bom para uma canoa, já que até as chapas estão quebradas.

– Há seis meses tive que deixá-lo aqui, não tinha dinheiro para mandar a consertar, vendi o motor.

La Consentida poderia muito bem ser o símbolo do drama dos Nutabe, cujos líderes nos esperam em Ituango, onde quase todos estes indígenas vivem agora, dispersos:

Machucado, carente. Feito para o rio, mas incapaz de estar nele.

Em algum momento de abandono, alguém pintou um grafite em letras azuis e pretas em um de seus lados: 

“Desmantelem a Hidroituango já”.

***

‘Os nutabe não existiam’. ‘Os índios do desfiladeiro, os índios de Orobajo’. ‘Aí vem o índio’. Tudo era dito nas estradas e ruas dos vilarejos e cidades vizinhas. Mas eles não existiam.

Eles sabiam que eram índios. Eles sentiam que eram índios. Eles aprenderam com os idosos que, por sua vez, tinham aprendido com os mais idosos. Eles sabiam que acreditavam nas fases da lua. Que suas mães moíam milho com as mesmas pedras e lhes alimentavam com as mesmas ervas. Que eles tinham uma vida coletiva. Mas eles não existiam.      

Eles nem sequer existiam quando foram mortos.

Isso foi em 12 de julho de 1998. Durante o período que houve o maior número de massacres na Colômbia, entre meados da década de 1990 e 2000.

Os paramilitares, os “cortacabeças”, como se chamavam por suas práticas aterrorizantes, tinham cometido dois dos massacres mais tristemente lembrados na região e no país: os de La Granja (em 1996) e El Aro (em 1997), duas aldeias do município vizinho de Ituango.

Em ambos, as chamadas Autodefesas Campesinas de Córdoba e Urabá (ACCU) acusaram os camponeses de supostamente ter ajudado a guerrilha. As ACCU mataram 22 no total e causaram o deslocamento de outras 700, como registrado pelo portal especializado Rutas del Conflicto.

Esses dois massacres são relevantes na história da Colômbia, além disso, porque a Corte Interamericana de Direitos Humanos considerou o Estado colombiano responsável por ambos, porque a Suprema Corte colombiana os declarou crimes contra a humanidade, e porque os tribunais colombianos pediram para investigar o poderoso ex-presidente Álvaro Uribe, que na época era governador de Antioquia.

Eles nem sequer existiam quando foram mortos.

O horror, então, paira na região. E no país. E chegou a Orobajo, também vestido de paramilitar como em La Granja e El Aro, em uma manhã de domingo.

O alerta de que algo iria acontecer foi lançado por algumas vacas que começaram a correr.

O grupo de homens fardados e armados invadiu a comunidade, Orobajo e outra aldeia vizinha chamada La Aurora. Eles afirmavam ser das Farc, embora tivessem braçadeiras das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), o nome que os paramilitares levaram em todo o país. Eles forçaram as pessoas a entrar em uma pequena escola. “Para uma reunião”, disseram eles. Assim que as pessoas entraram, elas começaram a atirar.

Isto foi o que Abelardo e outros membros da guarda Nutabe, que estavam ali, me disseram.

O site da Rutas del Conflicto relata que eles mataram um total de 11.

Havia cinco de Orobajo. Mataram Bernardito, Floro, Luis Ángel. Sandra e Ricardo também morreram, mas afogados porque em sua angústia se jogaram no rio, que detém muitos dos mortos da barbárie da guerra colombiana e que vários movimentos pediram recuperar.

Eles mataram Virgilio Antonio Sucerquia, o cacique Virgilio, como era chamado; o mais velho que serviu como a autoridade amada dos Nutabe, que não existiam.

Eles foram deslocados – como já tinham feito durante o conflito bipartidário na Colômbia em meados do século XX – e se dispersaram, e após alguns meses voltaram ainda com medo. Tudo isso, mas eles não existiam. 

chefiado pela Diretoria de Assuntos Indígenas do Ministério do Interior, certificar que não havia registro da presença de comunidades étnicas na área do reservatório da hidrelétrica.

Eles não existiam ao ponto de, em 14 de fevereiro de 2008, em referência ao megaprojeto Hidroituango, o governo colombiano, chefiado pela Diretoria de Assuntos Indígenas do Ministério do Interior, certificar que não havia registro da presença de comunidades étnicas na área do reservatório da hidrelétrica.

Os filhos do papai macaco eram invisíveis.

E a certificação era fundamental para determinar se uma consulta prévia – direito constitucional coletivo que procura proteger e garantir a participação das minorias étnicas – devia ou não ser realizada antes que a primeira pedra da obra pudesse ser colocada. 

Então um comitê de inspeção cidadã de Sabanalarga, a aldeia onde todos tinham visto os Nutabe vender seu peixe e ouro, e andando pelas ruas, escreveu à Direção de Assuntos Indígenas naquele mesmo ano, 2008.

Na carta, os inspetores lembraram-se da comunidade – que também tinha alguns membros vivendo na aldeia vizinha de Peque – e solicitaram o processo de consulta e consenso a respeito da hidrelétrica, que ainda não era uma obra em andamento.  

os Nutabe não estavam registrados nem identificados entre os 86 povos indígenas do país

A Direção de Assuntos Indígenas respondeu em 2011. Três anos mais tarde. Três! Disse que os Nutabe não estavam registrados nem identificados entre os 86 povos indígenas do país. Que o comitê de inspeção cidadã não tinha enviado “provas da existência da comunidade Nutabe”, como consta em um documento oficial da Diretoria de Consulta Prévia do mesmo ministério. E que, como tal, um processo para reconhecê-los parecia necessário. (Veja o documento).

Mas naquela época, a Hidroituango já estava em andamento: as primeiras obras físicas tinham começado, com licença ambiental, e a EPM tinha acabado de assinar o contrato pelo qual era responsável pela construção, execução e manutenção da usina por 50 anos, transferindo-a depois para a empresa proprietária do projeto.

Essa empresa é chamada Sociedad Hidroituango e entre seus proprietários está a própria EPM.

Veja os contratos: HIDROITUANGO GOVERNAMENTAL E SOCIAL OBRAS CALAMIDADE E EQUIPAMENTOS PÚBLICOS  

A Hidroituango já tinha, mesmo parcialmente, o censo e a caracterização que a lei exige para estabelecer das pessoas e populações afetadas pelas obras, que a EPM começou desde 2006.

Embora esta caracterização tenha sido ajustada ao longo dos anos, de acordo com os projetos e a construção da usina, as informações oficiais da EPM afirmam que desde o início a aldeia Orobajo foi considerada como sujeita a medidas de restituição porque o reservatório ia inundá-la. (Veja a resposta escrita da EPM).

A aldeia Orobajo estava povoada inteiramente pelo povo indígena do desfiladeiro do Cauca que qualquer pessoa poderia identificar localmente.

os Nutabe estavam cientes desde o inicio que a chegada do progresso na forma de uma usina hidrelétrica afetaria de alguma forma seu território ancestral.

Devido ao censo, os Nutabe estavam cientes desde o inicio que a chegada do progresso na forma de uma usina hidrelétrica afetaria de alguma forma seu território ancestral.

No entanto, foi somente em 2014 que eles iniciaram um processo de organização para ver como poderiam exigir seus direitos.

Os nutabe não sabiam que tinham direitos.

Naquele ano, um antropólogo chamado Jorge Eliécer David Higuita, ligado à Organização Indígena de Antioquia (OIA) e com relações familiares na comunidade, começou a ajudá-los em seu processo de autoreconhecimento e registro como um povo indígena oficial perante o Ministério do Interior: a primeira coisa era existir para continuar existindo.

Jorge Eliécer apoiou-se em alguns registros que estavam na Universidade de Antioquia. Desde o inicio, a Ouvidoria os acompanhou no processo.

a primeira coisa era existir para continuar existindo.

Por sugestão do antropólogo, o primeiro passo foi realizar uma assembleia na aldeia, eleger formalmente suas autoridades indígenas e tomar posse como assembleia na prefeitura de Sabanalarga. Assim aconteceu em 7 de dezembro de 2014.

Um mês depois, em janeiro de 2015, com este certificado em mãos, foram à Diretoria de Assuntos Indígenas do Ministério para solicitar o reconhecimento e a inclusão no registro de povos indígenas do país.

O processo, foi-lhes dito, não seria breve; exigiria estudos históricos, legais e antropológicos que levariam tempo no caso de uma comunidade que tinha permanecido um tanto isolada e anônima além do nível local, e da qual não havia referências nos registros institucionais.

Não seria breve, mas tinha começado.

No mês seguinte, a EPM, mais uma vez, solicitou à Diretoria de Consulta Prévia do Ministério uma nova certificação, além da de 2008 e de certificações de 14 anos atrás, nas quais entidades como o Ministério do Interior, a Secretaria de Assuntos Indígenas de Antioquia e o antigo Instituto de Desenvolvimento Rural (Incoder), declararam que não havia minorias étnicas na área de influência da Hidroituango.

Existe ou não a presença de comunidades étnicas na área da Hidrelétrica de Ituango, localizada na jurisdição dos municípios de Sabanalarga, Liborina, Buriticá, Olaya, Santa Fe de Antioquia, Peque, Yarumal, Valdivia, San Andrés de Cuerquia, Toledo, Briceño e Ituango, departamento de Antioquia?

A empresa também perguntou à Diretoria para Consulta Prévia sobre “a comunidade nutabe de Orobajo que afirma ser um povo indígena”, conforme declarado na certificação oficial.

Em 14 de maio de 2015, aquela Diretoria do Ministério do Interior respondeu novamente e certificou: não há nenhuma. (Veja a certificação).

O processo de registro dos nutabe não havia sido concluído, os nutabe ainda não existiam.

Embora, em qualquer caso, o documento oficial afirmava que o processo de reconhecimento estava sendo realizado pela Diretoria de Assuntos Indígenas.

Nesse mesmo ano, 2015, à luz dessa nova certificação de inexistência dos indígenas, a EPM iniciou um processo de consulta individual com as 35 famílias, 140 pessoas, de Orobajo, para sua realocação fora da aldeia: para devolver-lhes suas casas e garantir-lhes projetos produtivos. 

Eles partiram em diferentes momentos. Os primeiros em 2015. Os últimos em 2017. Quatro famílias se mudaram para propriedades urbanas em Sabanalarga e as 31 famílias restantes foram distribuídas entre oito vilarejos e a cidade de Ituango.

Na EPM eles enfatizam que possuem todos os documentos, tais como atas de socialização e assembleias, que certificam esses acordos.

Em 17 de março de 2017, o último nutabe deixou seu território ancestral em Orobajo, de acordo com a própria comunidade.

E em 19 de maio do mesmo ano, dois meses e dois dias depois, foi emitida (finalmente) a Resolução 0071 da Diretoria de Assuntos Indígenas do Ministério do Interior, ordenando que “a Comunidade Indígena de Orobajo do Povo Nutabe“, cujas famílias vivem nas aldeias de Sabanalarga, Peque e Ituango, seja registrada no registro oficial das comunidades indígenas do país. (Veja a resolução).

os Nutabe têm todas as características definidas por lei para serem considerados uma comunidade indígena

A decisão se baseia em um estudo de 236 páginas que os Assuntos Indígenas afirmam ter empreendido em resposta ao pedido do comitê de inspeção cidadã de Sabanalarga, que desde 2011 levantou a mão para exigir a vindicação desta comunidade.  

Tem o título: “A comunidade indígena de Orobajo, do Povo Nutabe, localizada na zona rural dos municípios de Sabanalarga, Peque e Ituango, departamento de Antioquia. História de seu processo de resistência, desde a conquista até os tempos atuais”. (Veja o estudo sobre Nutabe).

Em resumo, o estudo afirma que os Nutabe têm todas as características definidas por lei para serem considerados uma comunidade indígena: ancestralidade ameríndia, consciência de sua identidade, costumes compartilhados e formas de organização próprias.  

Além disso, é a história detalhada dos nutabe e dos últimos nutabe. O testemunho escrito e oficial de que esta comunidade indígena nativa, esta grande família unida por laços de boa vizinhança, tem tido o desfiladeiro do Cauca como seu território desde os tempos pré-hispânicos.

Após a chegada dos espanhóis, eles fizeram parte da Reserva Indígena San Pedro de Sabanalarga, no que hoje é o município de mesmo nome, e nos séculos XVII e XVIII se tornaram um dos mais importantes povos indígenas de Antioquia.

Eles resistiram ao esquecimento e à violência mudando-se para os lugares mais remotos do desfiladeiro

O que aconteceu é que no final do século XIX, quando a República chegou e a dissolução das reservas foi proposta, eles desapareceram do mapa mental do departamento e das referências da nova ordem que estava nascendo.

Eles resistiram ao esquecimento e à violência mudando-se para os lugares mais remotos do desfiladeiro, sempre mantendo estreitos laços comunitários. Desde o início de seus tempos eles extraem ouro no Cauca, e o centro de seu território é Orobajo.

Tudo isso diz o estudo e é ratificado na resolução.

O Estado reconheceu 57 famílias, 176 pessoas, como povo Nutabe nessa resolução.

Os Nutabe, os últimos Nutabe, finalmente existem.

***

***

O guarda Nutabe Abelardo David Chanci toma impulso como se ele fosse se levantar, limpa a garganta e aponta com o dedo indicador direito para o chão: 

Aqui já estamos sobre o vilarejo.

Uma chuva de murmúrios irrompe no barco, que imediatamente para e começa a balançar na brisa no meio do reservatório.

— Não, estamos mais abaixo, não se pode ver o barranco de onde vinha o aqueduto.

— Acho que é um pouco mais para cima, lembre-se que em Orobajo o Cauca fazia uma curva.

— Eu digo que é aqui porque, olha só, ali você pode ver a estrada que vem de La Aurora e esta na frente era a colina para ir até Peque.

Seus colegas da autoridade indígena não concordam muito uns com os outros, então o motorista, que não é nutabe e que foi contratado para esta viagem, reinicia o motor e arranca devagar enquanto eles decidem.

É a viagem da saudade. Aquele que é feito, mesmo que involuntariamente, para perseguir memórias. Neste caso, para estar literalmente em cima das memórias.

“Cacique Virgílio teria nos mantido unidos porque foi ele quem nos ensinou que tudo tinha que ser compartilhado”

Viemos de Ituango, onde Abelardo me apresentou às autoridades da assembleia, incluindo o cacique Eddy León Sucerquia Feria, filho do velho cacique Virgilio Sucerquia que os paramilitares curtacabeças mataram há 21 anos. 

“Se o cacique Virgílio estivesse com a gente, tudo seria diferente”. “Tudo isso aconteceu porque o Cacique Virgílio não está aqui, ele nos teria defendido”. “Cacique Virgílio teria nos mantido unidos porque foi ele quem nos ensinou que tudo tinha que ser compartilhado”. Ouvi várias pessoas dizerem nessa reunião.

Dez nutabe, Carlos, o fotógrafo; Hernando, o cinegrafista, e eu vamos no barco de tamanho médio buscando os vestígios de Orobajo, afogado pela Hidroituango.

Tento me concentrar apenas na saudade dos indígenas, mas não consigo parar de me lembrar dos milhões de metros cúbicos de água em que estamos navegando, o fechamento da comporta da casa de força, o risco de colapso se não correr bem, o colapso, a avalanche do apocalipse…  

—Olha, é aqui, porque esta é a colina onde a escola estava. Tudo isso era uma planície seca. Tomara que tivéssemos trazido as redes para pescar!

Edelider de Jesús Zapata Valle, o vice-governador da comunidade, põe um fim ao debate sobre o ponto de destino e o barco para novamente, desta vez, em uma pequena praia do reservatório onde podemos caminhar alguns metros antes de começar a subida da montanha.

Descemos. Os nutabe não parecem nostálgicos ou tristes. Ou parecem. Eles são um povo triste. Mas também sorriem com emoção, apontando: “minha casa estava ali, em frente àquela pedra estava a quadra, eu percorria esta pequena estrada com minhas mulas carregadas de alimentos”.

Eles não têm sequer o consolo de estarem todos juntos no mesmo lugar

E com o contraste o arrependimento volta: eles não vivem mais aqui, nem brincam mais aqui, nem passam por aqui com suas mulas. Ómar de Jesús Sucerquia González, outro guarda, me diz que há noites em que sua esposa ainda acorda chorando por causa do deslocamento.

Eles não têm sequer o consolo de estarem todos juntos no mesmo lugar, coesão, cuja falta é precisamente o que coloca sua cultura em risco e os faz sofrer. Devido aos projetos produtivos que acordaram com a EPM, a maioria deles agora se dedica ao plantio de café em diferentes vilarejos.

Eddy dá mais detalhes do lamento dos nutabe…

Nem mesmo a violência dos grupos armados – que inclui não só os paramilitares, mas também os antigos guerrilheiros das Farc e personagens sombrios dedicados à mineração ilegal em grande escala – tinha conseguido tirar o território dos nutabe, como diz o vice-governador Edelider…

A coexistência é precisamente um dos argumentos centrais na consulta prévia que, segundo o Ministério do Interior, está avançando entre os nutabe e a EPM, e que poderia ser formalizada entre o final de abril e meados de 2019.

O plano oficial é que a empresa e os indígenas se sentem às mesas, com o governo como garantidor, determinem os impactos causados e acordem medidas de gestão. 

A consulta dos nutabe não vai deter a Hidroituango. No meio de seus erros, a usina já é uma realidade no desfiladeiro do Cauca e na Colômbia.

Mas é uma evidência de que as pedras da funda de David podem alcançar Golias, mesmo que nem sempre o derrubem.

“Se querem nos tirar este rio, que nos deem outro”

Abelardo David Chanci

Especificamente, eles estão exigindo um território coletivo que possa ser convertido em uma reserva e que conte com a infraestrutura básica comunitária que tinham. Esse é o ponto principal deles.

É claro, desde que seja ao lado do Cauca, do macaco, o pai macaco que tudo deu.

“Se querem nos tirar este rio, que nos deem outro”, como reafirma Abelardo, a seus pés…

Por enquanto, os nutabe não têm onde lamentar seus mortos.

Os restos do cemitério estão sob a custódia do laboratório de osteologia da Universidade de Antioquia, que a EPM contratou para realizar a exumação e identificação (também o fez no caso de dois outros cemitérios inundados, um em Peque e outro em Buriticá).

“nós não aparecemos, nós sempre estivemos aqui!”

Abelardo David Chanci

No relatório, a EPM enfatiza que o fez com o consentimento, conhecimento e participação da comunidade.

—Ah, foi assim que eles fizeram tudo, sem acordos. Aqui seus trabalhadores vieram nos dizer que era o que tínhamos que fazer, que não havia outra opção, eles nos disseram “esta usina vai ser construída quer você assine quer não”, um funcionário do governo uma vez me perguntou por que aparecemos ultimamente, nós não aparecemos, nós sempre estivemos aqui!

Os olhos do guarda nutabe Abelardo David Chanci brilham com um brilho ancestral. Com um brilho que tem iluminado este desfiladeiro desde tempos imemoriais.

Tierra de Resistentes

Base de datos de Tierra de Resistentes

Lo que dicen los datos sobre los ataques a los resistentes

Análisis de la base de datos de líderes del medio ambiente perseguidos y asesinados en Latinoamérica.

Metodología

La base de datos de Tierra de Resistentes busca dimensionar el universo de líderes y comunidades que ha sufrido episodios de violencia. Más que nombres, cada registro documenta una historia y una realidad.

Más reportajes:

Medo e esquecimento em Saweto

Después del asesinato del líder ambiental Edwin Chota y de tres dirigentes de la comunidad Alto Tamaya-Saweto en Pucallpa por taladores ilegales, las mujeres de este pueblo asháninka en la frontera de Perú con Brasil son las que defienden los bosques. Ellas se enfrentan al crimen organizado ante el miedo de los varones de ser asesinados como sus compañeros y la débil protección del Estado que aún no concreta las mejoras de infraestructura y la ejecución de proyectos sociales que debieron cumplirse desde 2015. A cinco años del horror que vivió Saweto, Convoca.pe, como parte del proyecto colaborativo ‘Tierra de resistentes’, llegó a este pueblo amazónico, ubicado en la región Ucayali, para conocer la lucha de estas mujeres que viven en constante peligro por defender los últimos árboles en la frontera.

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