{"id":809,"date":"2020-04-22T01:05:00","date_gmt":"2020-04-22T01:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/tierra.jerrejerre.com\/es\/?p=809"},"modified":"2021-04-30T07:04:21","modified_gmt":"2021-04-30T07:04:21","slug":"choco-chava-no-vino-a-enamorarse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/","title":{"rendered":"Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"max-width:860px\"><em><strong><em>Chava tem mais de 20 anos como lideran\u00e7a das comunidades negras do sul do Choc\u00f3. Sua luta tem sido a defesa da vida e do territ\u00f3rio no rio San Juan. Embora n\u00e3o esteja amea\u00e7ada de morte, sua vida est\u00e1 em um constante risco. Todos os dias ela deve se deslocar em \u00e1reas atacadas por grupos armados e afetadas pelo garimpo, planta\u00e7\u00f5es de coca e o desmatamento.<\/em><\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Jw5baJyYk_Y\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Dia 1. As amea\u00e7as<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A chegada ao ponto de embarque \u00e9 no meio da manh\u00e3. O c\u00e9u est\u00e1 encoberto e o ch\u00e3o est\u00e1 molhado. Choveu e vai chover, embora o tempo todos estes dias tenha sido de sol intenso. Os t\u00edpicos raios de sol ardentes de in\u00edcios de janeiro. No barco, feito de um grande peda\u00e7o de fibra de vidro, viajamos bem apertados uns trinta passageiros. Em nossa frente, vemos a \u00e1gua marrom do rio Calima, o percurso direto at\u00e9 o leito do maravilhoso rio San Juan. Se a partir daqui a gente pudesse tra\u00e7ar uma linha reta em dire\u00e7\u00e3o ao nordeste, Bogot\u00e1 estaria a quase 500 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Acompanhamos Elizabeth Moreno Barco, uma mulher negra de 52 anos, <strong>uma das lideran\u00e7as mais importantes e amadas das comunidades negras que vivem no sudoeste do pa\u00eds.<\/strong> Ela se sentou no lugar mais confort\u00e1vel: na frente, na segunda fila, logo atr\u00e1s do barqueiro, para que suas pernas pudessem entrar. Desde que chegamos a este pequeno porto chamado Bajo Calima &#8211; quatro lojas, um celeiro, uma rua &#8211; todas as pessoas cumprimentaram Elizabeth. Eles a chamam de Chava ou Chavita. Esse diminutivo \u00e9 por puro afeto porque ela, na verdade, \u00e9 enorme: 1,75 metros, costas largas, bra\u00e7os e pernas longas, e m\u00e3os como um macete.<\/p>\n\n\n\n<p>Estima-se que esta viagem demore quatro dias pelo rio San Juan com a corrente contra n\u00f3s at\u00e9 chegarmos ao munic\u00edpio de Istmina. \u00c9 uma viagem de aproximadamente 250 quil\u00f4metros &#8211; dos 380 que o rio tem &#8211; atrav\u00e9s das bacias baixa e m\u00e9dia que s\u00e3o, em conjunto, a vertente fundamental da parte sul do Departamento do Choc\u00f3. E o Choc\u00f3, embora tamb\u00e9m seja habitado por povos ind\u00edgenas, \u00e9 a regi\u00e3o colombiana com maior predomin\u00e2ncia de negros. <strong>Devido \u00e0 sua pobreza e \u00e0 neglig\u00eancia por parte do Estado, j\u00e1 \u00e9 comum dizer que o Choc\u00f3, junto com o estado da Bahia, no Brasil, s\u00e3o as regi\u00f5es mais parecidas \u00e0 \u00c1frica deste lado do mundo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Embora nos munic\u00edpios haja com\u00e9rcio e neg\u00f3cios de servi\u00e7os b\u00e1sicos &#8211; restaurantes e bares-, a economia da regi\u00e3o \u00e9 permeada por prata de origem il\u00edcita. Essa prata \u00e9 disputada por grupos armados ilegais.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da extra\u00e7\u00e3o de ouro, a bacia de San Juan \u00e9 hoje uma terra f\u00e9rtil para a planta\u00e7\u00e3o de coca e uma \u00e1rea n\u00e3o regulamentada para a extra\u00e7\u00e3o de madeira. Embora nos munic\u00edpios haja com\u00e9rcio e neg\u00f3cios de servi\u00e7os b\u00e1sicos &#8211; restaurantes e bares-, a economia da regi\u00e3o \u00e9 permeada por prata de origem il\u00edcita. Essa prata \u00e9 disputada por grupos armados ilegais. <strong>Tem havido presen\u00e7a de quadrilhas de tr\u00e1fico de drogas que, \u00e0s vezes, atuam como paramilitares, como Los Rastrojos ou El Clan del Golfo. E guerrilheiros.<\/strong> At\u00e9 mesmo antes da sua desmobiliza\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o acordo de paz assinado em novembro de 2016, as Farc costumavam se deslocar pelo rio e era comum pendurarem cartazes de apresenta\u00e7\u00e3o na entrada de um pequeno riacho dizendo BEM-VINDOS \u00c0 FRENTE 30 DAS FARCS, como se esse fosse o ponto para eles atenderem o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a guerrilha predominante nesta regi\u00e3o \u00e9 o <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN)<\/span>. Trata-se de um grupo que, inicialmente, afirmou ser guevarista e estar motivado pela Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, por\u00e9m, seu funcionamento pressupunha uma rede de autonomias de a\u00e7\u00e3o regional que causou m\u00faltiplas tend\u00eancias e correntes ideol\u00f3gicas. A frente que prosperou em San Juan se chama &#8220;Ernesto Che Guevara&#8221; e seu comandante mais reconhecido, chamado coloquialmente de &#8220;Uriel&#8221;, informou, atrav\u00e9s de sua conta no Twitter, que se sente um mao\u00edsta e que \u00e9 um praticante da &#8220;guerra popular prolongada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Soltam as amarras e partimos. O barco chega rapidamente a quase 60 quil\u00f4metros por hora. Toda a carga &#8211; caixas, sacos, sacolas e bagagens &#8211; \u00e9 colocada sobre o banco no meio para afirmar o centro de gravidade sobre a \u00e1gua. Chava faz carinhos em uma menina que estava sentada \u00e0 direita, penteia o cabelo dela com a m\u00e3o e a abra\u00e7a. Ela \u00e9 sua sobrinha e a est\u00e1 levando at\u00e9 sua m\u00e3e. Seus colegas de trabalho e as pessoas a conhecem como uma lideran\u00e7a comunit\u00e1ria e dizem que Chava \u00e9 a &#8220;mulher de ferro&#8221;. <strong>Eles destacam seu carisma, ser capaz de ouvir todas as vozes sem perder a paci\u00eancia; sua coragem para manter, inclusive, discuss\u00f5es pol\u00edticas com chefes armados; e sua vontade de trabalhar pelo bem-estar das comunidades que representa.<\/strong> Para sua fam\u00edlia, al\u00e9m disso, Chava \u00e9 a matriarca. Ela \u00e9 a guia e a fonte. Ela \u00e9 m\u00e3e solteira de quatro filhos, av\u00f3 de dois netos, filha encarregada de zelar pela m\u00e3e, a terceira de cinco irm\u00e3os, a tia mais admirada e amada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cPero no podemos desconocer que esa gente est\u00e1 ah\u00ed metida y armada y nada podemos hacer\u201d<\/p><cite>Chava<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 prestes a chegar ao cais de Docord\u00f3, a duas horas de dist\u00e2ncia e a toda a velocidade, um posto de controle militar parou o barco. \u00c9 um barco fluvial de tamanho m\u00e9dio, com antenas e artilharia, do qual pendem dois r\u00e1pidos botes armados, conhecidos como piranhas. Os fuzileiros navais pedem identifica\u00e7\u00f5es e me perguntam o que estou fazendo a\u00ed. Chava resolve a situa\u00e7\u00e3o dizendo que eu vou, vamos visitar o cinegrafista Hernando S\u00e1nchez e eu \u2013 visitar o Conselho Comunit\u00e1rio Geral de San Juan (Acadesan), do qual ela \u00e9 a representante legal. Eles lhe pedem que prove o que est\u00e1 dizendo e ela apresenta um documento administrativo do Conselho.<\/p>\n\n\n\n<p>Acima de tudo, a desconfian\u00e7a. <strong>Nas \u00e1reas vermelhas da Col\u00f4mbia, as for\u00e7as p\u00fablicas sempre anotam os visitantes: quem s\u00e3o, o que v\u00eam fazer, quando v\u00e3o embora. Al\u00e9m disso, perguntam aos jornalistas quando ser\u00e1 transmitida a reportagem. Nada muito diferente do controle exercido pelos grupos armados ilegais. <\/strong>Ontem, sexta-feira \u00e0 tarde, Chava teve que chamar alguns camponeses que vivem no meio da floresta para lhes dizer que ia passar pelo territ\u00f3rio com uma equipe de jornalistas para documentar as amea\u00e7as contra San Juan e seus ecossistemas. Eles lhe agradeceram por ter avisado, isto \u00e9, por ela ter sido obrigada a consider\u00e1-los uma autoridade. <strong>&#8220;N\u00f3s somos os donos do territ\u00f3rio&#8221;<\/strong>, disse Chava, um pouco indignada, fazendo refer\u00eancia ao Acadesan. &#8220;Mas n\u00e3o podemos ignorar o fato de estas pessoas estarem l\u00e1 dentro e armadas, e n\u00e3o podemos fazer nada para resolver isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Docord\u00f3 \u00e9 um povoado de menos de mil habitantes que \u00e9 a sede municipal do Litoral de San Juan, o munic\u00edpio localizado mais ao sul do Choc\u00f3. \u00c9 uma comunidade que vem se expandindo de lado a lado em uma autoestrada pavimentada de cerca de dez quarteir\u00f5es paralelos ao rio e que come\u00e7a e termina na floresta sem ter nenhum contato com nada mais. Passam motos, bicicletas e, at\u00e9 mesmo, um carro que algu\u00e9m trouxe para exibi-lo naquela linha reta que n\u00e3o leva a lugar nenhum. Chava vem com frequ\u00eancia para resolver quest\u00f5es do Acadesan e para visitar uma parte da sua fam\u00edlia. Aqui ela mant\u00e9m atracado um pequeno barco de fibra de vidro, que ela usa para exercer sua fun\u00e7\u00e3o e no qual vamos continuar a partir de agora. A gasolina que utilizaremos para percorrer estes 250 quil\u00f4metros vem em dois tambores com os quais chegaremos depois de quatro dias e a volta ser\u00e1 feita em tr\u00eas. Cada tambor cont\u00e9m sessenta gal\u00f5es. <strong>Um gal\u00e3o custa, em m\u00e9dia, 14.000 pesos, um pouco mais de tr\u00eas d\u00f3lares, enquanto que em qualquer cidade da Col\u00f4mbia, por mais caro que seja, um gal\u00e3o n\u00e3o custa nunca tr\u00eas d\u00f3lares, o equivalente a menos de 10.000 pesos. <\/strong>Aqui n\u00e3o tem postos de gasolina com medidores e tanques digitais; a gasolina vem em recipientes de medidas absolutas -de dez ou vinte gal\u00f5es, e tambores- que s\u00e3o comprados em um lugar espec\u00edfico nas margens do rio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Como n\u00e3o h\u00e1 autoestradas, todos dependem da capacidade de se moverem atrav\u00e9s da \u00e1gua.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como n\u00e3o h\u00e1 autoestradas, todos dependem da capacidade de se moverem atrav\u00e9s da \u00e1gua. A primeira coisa que aprendem as crian\u00e7as \u00e9 a se jogarem nos rios e a nadar, depois a controlarem uma canoa a remo e, finalmente, a fazer funcionar e reparar um motor fora de borda. O que depende de cada um deles \u00e9 a perspic\u00e1cia para entenderem as formas do rio e as rotas at\u00e9 o leito do rio, saber como evitar um trecho de pouca profundidade que possa atingir o motor, escolher o lado certo para seguir um meandro, entender quando devem acelerar ou diminuir a velocidade. Tudo isto me foi explicado por Dagoberto Mondrag\u00f3n, \u201cDago\u201d, 48 anos, o bra\u00e7o direito de Chava no Acadesan e quem vai conduzir o barco daqui para a frente.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro destino \u00e9 uma comunidade localizada na margem direita de uma das sete bocas do rio San Juan no Oceano Pac\u00edfico. Ela se chama Togorom\u00e1. At\u00e9 1999 este povoado estava localizado na esquina do rio que se torna uma costa. Foi a\u00ed que Chava e seus filhos mais velhos e seus irm\u00e3os nasceram. As pessoas levavam uma vida sem complica\u00e7\u00f5es &#8211; pesca no mar ou no rio, ca\u00e7a e venda de madeira &#8211; que <strong>terminou quando a eros\u00e3o do mar come\u00e7ou a furar a beira da costa e a enfraquecer as funda\u00e7\u00f5es das casas, e toda a comunidade foi obrigada a se mudar a esta \u00e1rea, dois ou tr\u00eas quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia antes de ter contato com o mar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-L\u00e1 estavam soterrados meu umbigo e minha placenta&#8221;, me contou Chava enquanto caminh\u00e1vamos ao longo do cais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cultura do Pac\u00edfico colombiano, \u00e9 um h\u00e1bito soterrar o umbigo e a placenta das mulheres na parte posterior da casa, para for\u00e7ar o enraizamento e a perman\u00eancia no territ\u00f3rio. No caso dos homens, o umbigo e a placenta s\u00e3o ensacados e atirados no mar como uma tentativa de faz\u00ea-los progredir.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-O que voc\u00ea acha disso? -Chava me pergunta com uma gargalhada. As mulheres temos que ficar em casa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ningu\u00e9m passaria fome e ningu\u00e9m pensaria em sair ou se mudar para procurar fortuna. Havia um posto de sa\u00fade equipado com suprimentos m\u00e9dicos suficientes para o atendimento b\u00e1sico; uma escola, frequentada por mais de cem crian\u00e7as<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em seu novo lugar, <strong>Togorom\u00e1 se tornou um povoado de 185 fam\u00edlias satisfeitas.<\/strong> Ningu\u00e9m passaria fome e ningu\u00e9m pensaria em sair ou se mudar para procurar fortuna. Havia um posto de sa\u00fade equipado com suprimentos m\u00e9dicos suficientes para o atendimento b\u00e1sico; uma escola, frequentada por mais de cem crian\u00e7as para chegarem \u00e0 9\u00ba s\u00e9rie do ensino m\u00e9dio; e uma pequena igreja cat\u00f3lica com sua respectiva concorr\u00eancia evang\u00e9lica.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Chava come\u00e7ou aqui seu papel de lideran\u00e7a social. De 1993 at\u00e9 2010, ela foi a \u201cm\u00e3e comunit\u00e1ria\u201d que estava encarregada de cuidar e alimentar as crian\u00e7as menores de cinco anos enquanto suas m\u00e3es trabalhavam ou sa\u00edam do povoado. Ela tamb\u00e9m fazia parte do conselho comunit\u00e1rio local at\u00e9 se tornar sua presidente. Ela era uma \u00f3tima lideran\u00e7a para essas 185 fam\u00edlias, habitantes ancestrais desta \u00e1rea costeira. <strong>Caso surgisse alguma discuss\u00e3o entre dois vizinhos, ela devia mediar para chegar a uma concilia\u00e7\u00e3o; caso ocorresse algum evento no povoado que colocasse as pessoas em risco, ela era a primeira em procurar ajuda.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-N\u00f3s viv\u00edamos muito tranquilos aqui; \u00e9ramos muito pr\u00f3ximos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2016\" height=\"1512\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/2.-Togoroma\u0301.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5239\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81.jpg 2016w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-768x576.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-150x113.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-696x522.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-1068x801.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210931\/2.-Togoroma%CC%81-1920x1440.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2016px) 100vw, 2016px\" \/><figcaption>Cart\u00e3o postal de Togorom\u00e1 como um territ\u00f3rio de paz. Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Como a \u00fanica op\u00e7\u00e3o parecia permanecerem trancados em suas casas sem poder sair para ca\u00e7ar, pescar ou cortar madeira, os camponeses preferiram sair do lugar.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Em 5 de janeiro de 2013, a guerra acabou com o mundo deles. O chamado <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">\u201cClan del Golfo\u201d<\/span> tinha travado um combate na floresta contra <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">\u201cLos Rastrojos\u201d<\/span> para obter o controle de uma rota de sa\u00edda da coca\u00edna at\u00e9 o oceano. <\/strong>Quando chegaram a Togorom\u00e1, houve disparos de fuzil que iam e vinham sem importar que os camponeses estivessem no lugar. Felizmente, ningu\u00e9m na comunidade foi morto nem gravemente ferido. O problema apareceu nas horas seguintes. Como as for\u00e7as p\u00fablicas nunca chegaram, os camponeses n\u00e3o sabiam o que fazer pois n\u00e3o entendiam a raz\u00e3o dos combates: n\u00e3o sabiam se tinham acabado, se estavam acontecendo, se os homens armados estavam perto do lugar. Como a \u00fanica op\u00e7\u00e3o parecia permanecerem trancados em suas casas sem poder sair para ca\u00e7ar, pescar ou cortar madeira, os camponeses preferiram sair do lugar. Como aconteceu com todos os outros, esta foi uma decis\u00e3o que Chava teve que apoiar por medo. Em menos de uma semana, Togorom\u00e1 foi deixado em um vazio fantasmag\u00f3rico.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Aqui tenho minhas ra\u00edzes, minha juventude, diz ela com algo de saudade, ao lado de uma grande \u00e1rvore que fica a poucos metros da margem. Pensei que aqui estaria meu futuro at\u00e9 que tivemos que fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de receberem pouca ajuda humanit\u00e1ria do Estado nos primeiros meses de deslocamento -alimentos, dinheiro vivo, abrigos tempor\u00e1rios- <strong>menos da metade dos habitantes voltaram para suas casas.<\/strong> Foi um grande movimento que terminou se agravando porque, quando perceberam que o lugar nunca mais seria como antes, <strong>muitos dos que retornaram optaram por sa\u00edrem completamente at\u00e9 deixarem o povoado praticamente desabitado<\/strong>. Hoje, existem apenas 23 fam\u00edlias, algumas delas com um \u00fanico membro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2016\" height=\"1512\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_9226.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5258\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226.jpg 2016w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-768x576.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-150x113.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-696x522.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-1068x801.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210919\/IMG_9226-1920x1440.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2016px) 100vw, 2016px\" \/><figcaption><em>Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>As instala\u00e7\u00f5es p\u00fablicas foram abandonadas e ca\u00edram no ch\u00e3o<\/strong>: no que antes tinha sido um centro m\u00e9dico, os instrumentos ficaram inserv\u00edveis e cheios de mofo, as seringas estavam jogadas no ch\u00e3o de onde afloraram ra\u00edzes e as macas viraram espumas pantanosas; n\u00e3o h\u00e1 mais igrejas e onde antes havia casas, s\u00f3 restam os espa\u00e7os invadidos pelo capim; na escola, as cadeiras est\u00e3o uma encima da outra e todas enferrujadas e na lou\u00e7a ficaram os textos que tinham se escrito antes do deslocamento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Nesta parte inferior chega todo tipo de dejetos: geladeiras, fog\u00f5es, m\u00f3veis, animais mortos, pessoas mortas que secam em uma praia porque ningu\u00e9m consegue levantar esses corpos por medo.&#8221;.<\/p><cite>Chava<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00a0Chava foi uma das que n\u00e3o voltou. Depois de ter passado um tempo em Docord\u00f3, ela queria come\u00e7ar a viver do zero em Buenaventura &#8211; o porto mar\u00edtimo mais importante da Col\u00f4mbia, localizado a duas horas de dist\u00e2ncia por uma rota combinada de rios e autoestradas, que n\u00e3o faz parte do Choc\u00f3, mas sim do departamento Valle del Cauca &#8211; mas n\u00e3o queria perder seu papel de lideran\u00e7a social. Naquela \u00e9poca e desde 2007, ela j\u00e1 fazia parte do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Acadesan; em outras palavras, Chava j\u00e1 era uma das lideran\u00e7as mais destacadas do territ\u00f3rio das bacias m\u00e9dia e baixa do rio San Juan. <strong>Ela j\u00e1 tinha transitado os 250 quil\u00f4metros naveg\u00e1veis e diferenciava claramente as amea\u00e7as da vida no rio: o abandono do Estado, o conflito armado, a fumiga\u00e7\u00e3o com glifosato nas planta\u00e7\u00f5es de coca que terminam afetando as planta\u00e7\u00f5es estabelecidas no \u201cPancoger\u201d e envenenando a massa florestal, provocando derrubadas indiscriminadas de \u00e1rvores para o com\u00e9rcio de madeira, o garimpo ilegal que polui os solos e a \u00e1gua com produtos qu\u00edmicos residuais, e a gest\u00e3o inexistente dos dejetos dom\u00e9sticos nas nascentes do rio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-O rio San Juan \u00e9 uma lixeira&#8221;, diz ela. Nesta parte inferior chega todo tipo de dejetos: geladeiras, fog\u00f5es, m\u00f3veis, animais mortos, pessoas mortas que secam em uma praia porque ningu\u00e9m consegue levantar esses corpos por medo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2016\" height=\"1512\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/IMG_9229.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5259\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229.jpg 2016w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-768x576.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-150x113.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-696x522.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-1068x801.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210916\/IMG_9229-1920x1440.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2016px) 100vw, 2016px\" \/><figcaption><em>Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Aqui em Togorom\u00e1, Chava deixou o esqueleto em madeira polida do que ia ser sua casa: um bangal\u00f4 de dois andares sobre palafitas, tradicional ao longo da costa do Pac\u00edfico colombiano. Quando come\u00e7ou a constru\u00ed-la, em 2012, Chava queria tr\u00eas coisas: que fosse espa\u00e7osa para acomodar as tr\u00eas crian\u00e7as que ela tinha -seu primog\u00eanito j\u00e1 morava sozinho-, que tivesse uma varanda no segundo andar, e janelas nas paredes laterais para observar \u00e0 dist\u00e2ncia tudo o que pudesse acontecer na comunidade. Agora, de p\u00e9 naquela varanda, ele olha o leito marrom do rio San Juan: sua margem est\u00e1 cheia de \u00e1rvores da floresta e seu caudal de \u00e1guas pacientes.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Eu nem consegui terminar nem estrear minha casa -diz ela-. Foi um investimento que perdi.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Como o retorno desses poucos habitantes ocorreu sem qualquer garantia de que seus direitos fossem respeitados, a desocupa\u00e7\u00e3o foi inevit\u00e1vel.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma das queixas frequentes de Chava \u00e9 que<strong> os habitantes de Togorom\u00e1 nunca receberam nenhum atendimento por parte do Estado para al\u00e9m da ajuda humanit\u00e1ria.<\/strong> Como o retorno desses poucos habitantes ocorreu sem qualquer garantia de que seus direitos fossem respeitados, a desocupa\u00e7\u00e3o foi inevit\u00e1vel. Hoje em dia, muitas pessoas acreditam que o povoado ir\u00e1 desaparecer a m\u00e9dio prazo. Quando os idosos morrerem, \u00e9 muito prov\u00e1vel que os jovens, por n\u00e3o terem ningu\u00e9m para reverenciar, saiam em busca de uma vida na qual possam formar ou se integrar a uma comunidade.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Dia 2. A organiza\u00e7\u00e3o social<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O cemit\u00e9rio de Docord\u00f3 \u00e9 um colorido jardim com uma inclina\u00e7\u00e3o, um peda\u00e7o de terra roubado da floresta na margem direita do rio, que desce da borda arborizada at\u00e9 chegar \u00e0 \u00e1gua. T\u00famulos, cruzes e mausol\u00e9us est\u00e3o espalhados por caminhos ascendentes. Protegido por um telhado de chapas de zinco, <strong>tem um t\u00famulo retangular de tr\u00eas metros de comprimento por um metro de alto no qual descansam as cinco v\u00edtimas do massacre de Carr\u00e1.<\/strong> \u00c9 um caix\u00e3o forrado com porcelanato branco e cinza. Em cima deles est\u00e3o vasos ca\u00eddos com flores sint\u00e9ticas derramadas. Chava marcou esta parada no itiner\u00e1rio, ap\u00f3s ter reiniciado a viagem nesta manh\u00e3 do segundo dia, depois de termos conversado, ontem \u00e0 noite, com algumas fam\u00edlias que sobreviveram ao massacre.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria foi assim: ap\u00f3s sairmos de Togorom\u00e1, passamos por um esteiro que \u00e9 uma regi\u00e3o estreita e pantanosa do rio San Juan, cercada de manguezais e cujas ra\u00edzes parece que fossem tent\u00e1culos de polvo, para chegar a outro povoado costeiro chamado Pichim\u00e1. Ali a comunidade se queixou com Chava de que o posto de sa\u00fade estava em ru\u00ednas, que a promotora n\u00e3o tem contrato, que trabalha s\u00f3 por voca\u00e7\u00e3o e que, nestes dez dias de janeiro, houve doze casos confirmados de mal\u00e1ria. Depois fomos para Docord\u00f3 para passar a noite em um hotel mas, antes de fechar os olhos, Chava nos levou a uma casa que fica bem longe onde h\u00e1 v\u00e1rios sobreviventes do massacre de Carr\u00e1 vivendo em sobrelota\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Depois desse dia o povoado foi completamente esvaziado e, at\u00e9 hoje, quase tr\u00eas anos depois, nenhuma fam\u00edlia voltou.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O massacre teve lugar em 25 de mar\u00e7o de 2017. Por volta das dezessete horas, <strong>alguns guerrilheiros do ELN submeteram as dezessete fam\u00edlias que viviam na comunidade<\/strong>, localizada a uns quinze minutos rio acima de Docord\u00f3. Eles entraram em cada casa \u00e0 procura de membros de grupos paramilitares que, aparentemente, estavam escondidos naquele lugar. <strong>Eles n\u00e3o encontraram ningu\u00e9m e atiraram at\u00e9 matar. <\/strong>Os que estavam com as botas no pesco\u00e7o levavam um \u00fanico tiro na cabe\u00e7a. Os que correram aterrorizados levaram tiros de fuzil nas costas. Aterrorizado, um jovem se jogou no rio querendo fugir, mas sua testa bateu contra um peda\u00e7o de madeira escondido nas ondas de \u00e1gua. Estripado e afogado, ele se tornou a quinta v\u00edtima. Depois desse dia o povoado foi completamente esvaziado e, at\u00e9 hoje, quase tr\u00eas anos depois, nenhuma fam\u00edlia voltou. <strong>A raz\u00e3o \u00e9 simples: o grupo respons\u00e1vel pelo massacre n\u00e3o deixou a regi\u00e3o; muito pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 enraizado nela.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O ELN apareceu em San Juan no final dos anos oitenta. Vinha se espalhando a partir da \u00e1rea montanhosa do centro do Choc\u00f3 e o seu objetivo era criar um certo nacionalismo simb\u00f3lico entre a popula\u00e7\u00e3o negra para que ela se considerasse como excepcional e amea\u00e7ada pelos planos de desenvolvimento propostos pelo governo no poder naquele momento. <strong>O conceito de &#8220;liberta\u00e7\u00e3o nacional&#8221; consistia no fato de que, uma vez que as comunidades estivessem conscientes da sua submiss\u00e3o a um Estado colonialista, seriam motivadas a se juntarem \u00e0 luta armada para conquistarem sua liberta\u00e7\u00e3o definitiva.<\/strong> Como n\u00e3o t\u00eam grilh\u00f5es estatais aos seus projetos comunit\u00e1rios, eles apoiariam a guerra popular prolongada para ajudar a libertar o resto das comunidades camponesas do pa\u00eds e conseguirem chegar ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a aplica\u00e7\u00e3o desta estrat\u00e9gia, <strong>o ELN deveria promover o enraizamento no territ\u00f3rio, isto \u00e9, conseguir criar uma for\u00e7a nativa com homens recrutados das comunidades, conhecedores da topografia e formados na cultura ancestral, bem como ter o apoio moral e pol\u00edtico das fam\u00edlias.<\/strong> At\u00e9 certo ponto este modelo da guerrilha deu certo para eles pois, at\u00e9 este momento, parecem inexpugn\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, as FARC e v\u00e1rios grupos paramilitares passaram pelo sul do Choc\u00f3 e nenhum deles conseguiu se adaptar com a mesma versatilidade. Os paramilitares, porque esse n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo deles e eles s\u00f3 aparecem se lhes for dada a ordem. J\u00e1 as Farc n\u00e3o se adaptaram, porque o modelo deles n\u00e3o era de enraizamento, mas sim de repovoamento. Quando as \u00e1reas do pa\u00eds que eles tinham sob seu controle foram atacadas com fumiga\u00e7\u00f5es nas planta\u00e7\u00f5es de coca e com opera\u00e7\u00f5es militares, esta guerrilha se deslocou para outras \u00e1reas trazendo consigo camponeses colonos especialistas na cadeia produtiva da planta. A linha de barcos de transporte p\u00fablico que navegam atrav\u00e9s da parte inferior do rio San Juan, para citar apenas um caso, \u00e9 propriedade de mesti\u00e7os da Amaz\u00f4nia que chegaram nesta regi\u00e3o h\u00e1 cerca de 15 anos trazidos pela guerrilha.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Se n\u00e3o voltarem e permanecerem como n\u00f4mades, perder\u00e3o o t\u00edtulo de propriedade coletiva da terra que det\u00e9m o conselho comunit\u00e1rio local de Carr\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>O massacre deixou Carr\u00e1 sem lideran\u00e7as formadas pela organiza\u00e7\u00e3o social.<\/strong> As pessoas tiveram que sair da regi\u00e3o por terem sido amea\u00e7adas. Desde ent\u00e3o, Hamilton Guaitot\u00f3, um mulato musculoso de trinta anos, \u00e9 quem tem a responsabilidade de guiar os sobreviventes. Ontem \u00e0 noite, ele me disse que, se dependesse deles, voltariam a sua terra imediatamente, demorariam apenas o tempo necess\u00e1rio para guardarem suas coisas. Se n\u00e3o voltarem e permanecerem como n\u00f4mades, perder\u00e3o o t\u00edtulo de propriedade coletiva da terra que det\u00e9m o conselho comunit\u00e1rio local de Carr\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-N\u00f3s n\u00e3o queremos isso&#8221;, insistiu ele, Somos poucos, apenas dez fam\u00edlias, e precisamos voltar para n\u00e3o desaparecermos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1512\" height=\"2016\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/3.-Mapa-del-territorio-rotated.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5240\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated.jpg 1512w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-225x300.jpg 225w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-768x1024.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-315x420.jpg 315w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-150x200.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-300x400.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-696x928.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210929\/3.-Mapa-del-territorio-rotated-1068x1424.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1512px) 100vw, 1512px\" \/><figcaption>Mapa do territ\u00f3rio que abrange o Conselho Comunit\u00e1rio Geral de San Juan. Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Malaguita \u00e9 a pr\u00f3xima parada da viagem. S\u00e3o dez horas da manh\u00e3 e avan\u00e7amos menos de uma hora ap\u00f3s o cemit\u00e9rio de Docord\u00f3, sob um sol inclemente em brasas. Chava me diz que esta comunidade n\u00e3o teve viol\u00eancia grave devido ao conflito armado, apesar de ser um &#8220;lugar estrat\u00e9gico de subida ou descida do rio&#8221;. A lideran\u00e7a mais destacada \u00e9 Dago mas, depois de come\u00e7ar a trabalhar no Acadesan, sua voz foi assumida por Esciober Vanegas. Ele \u00e9 um homem de 43 anos que se expressa com pausa e dom\u00ednio da conversa. Estamos sentados sob a sombra de uma s\u00e9rie de galhos de onde a comunidade pode ver barcos e canoas passando \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esciober diz que os peixes est\u00e3o doentes. Que quando ele era crian\u00e7a o rio corria escuro e limpo, mas que <strong>durante cerca de vinte anos se tornou obscuro e ocre. Este \u00e9 o momento em que, se as pessoas tomam banho no rio San Juan, &#8220;aparecem espinhos e ficam com coceira&#8221;<\/strong>; esp\u00e9cies como o timo e o barbudo sofrem de chagas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-&#8220;Tiramos os peixes saud\u00e1veis dos riachos&#8221;, ele diz. &#8220;Se a gente come algo que vem do rio San Juan, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 comendo. <strong>De cinco ou seis peixes, dois ou tr\u00eas saem com chagas. Duas vezes j\u00e1 nos aconteceu que tiramos um barbudo saud\u00e1vel, colocamos ele para cozinhar e dele saiam minhocas.<\/strong> Aqui ningu\u00e9m sabe por que est\u00e1 acontecendo isto. O que sabemos \u00e9 que as pessoas na nascente est\u00e3o atirando produtos qu\u00edmicos e lixo ao rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Se a gente come algo que vem do rio San Juan, voc\u00ea n\u00e3o sabe o que est\u00e1 comendo.&#8221;.<\/p><cite>Esciober Vanegas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s uma pausa, <strong>Esciober me conta dos planos da comunidade para oferecer turismo ecol\u00f3gico. Ele descreve as atra\u00e7\u00f5es naturais que eles ofereceriam: cachoeiras, lagoas, p\u00e1ssaros, trilhas. <\/strong>Ele diz que, tendo em vista o avan\u00e7o dos megaprojetos do Estado na regi\u00e3o, eles querem estar preparados para o n\u00famero de visitantes que eles acham que v\u00e3o chegar.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Parece que falta muito tempo para isso, diz ele, mas se a gente pensar realmente dez ou vinte anos n\u00e3o s\u00e3o muitos na vida de uma comunidade. O que queremos \u00e9 nos preparar para que possamos oferecer servi\u00e7os tur\u00edsticos \u00e0s pessoas que nos visitem e que n\u00e3o seja algu\u00e9m de fora que apare\u00e7a aqui para montar um neg\u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;O que queremos \u00e9 nos preparar para que possamos oferecer servi\u00e7os tur\u00edsticos \u00e0s pessoas que nos visitem e que n\u00e3o seja algu\u00e9m de fora que apare\u00e7a aqui para montar um neg\u00f3cio.&#8221;<\/p><cite>Esciober Vanegas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O curioso \u00e9 que os megaprojetos citados por Esciober s\u00e3o os que, no final dos anos 80, impulsionaram as comunidades negras de San Juan a se organizarem como uma estrutura pol\u00edtica no Acadesan: a base naval de Bah\u00eda M\u00e1laga, localizada nos pr\u00e9dios de Buenaventura; a autoestrada que chega at\u00e9 a floresta para mobilizar tropas da base e que tamb\u00e9m aproxima o Parque Natural Nacional Uramba Bah\u00eda M\u00e1laga; um poliduto que sai desde esse mesmo ponto at\u00e9 o munic\u00edpio de Buga no Valle del Cauca; a canaliza\u00e7\u00e3o dos esteiros que cortam os manguezais para abrirem mais portas ao oceano \u2013 uma coisa que nunca antes se fez-; o porto de \u00e1guas profundas que ainda est\u00e1 em discuss\u00e3o; o plano das hidrel\u00e9tricas Calima II, III e IV, todos eles descartados na atualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A sigla Acadesan significa Associa\u00e7\u00e3o Camponesa de San Juan. Nos documentos oficiais aparece sua origem entre os anos 1988 e 1990. Embora coincida com a chegada do eln &#8211; em cronologia e na ideia de que o desenvolvimento proposto a partir do centro do pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 levando em conta a cultura ancestral &#8211; foram as Lauritas &#8211; Irm\u00e3s Mission\u00e1rias da M\u00e3e Laura &#8211; e v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas do Choc\u00f3 que explicaram aos negros o perigo que representava o desenvolvimento desses megaprojetos para a vida de suas comunidades. Em seu escrit\u00f3rio, em uma universidade ao sul de Cali, o antrop\u00f3logo e exsacerdote Jes\u00fas Fl\u00f3rez me explicou o seguinte: &#8220;N\u00f3s mission\u00e1rios mostramos \u00e0s comunidades os mapas das concess\u00f5es mineiras e os planos das concess\u00f5es madeireiras e lhes dissemos: \u201cpercebam o que est\u00e1 acontecendo&#8221;. Os camponeses estavam sendo contratados pelas empresas madeireiras para ajudarem a abrir caminhos para trazer m\u00e1quinas e derrubar as \u00e1rvores mais valiosas da floresta. Em troca disso, eles recebiam um sal\u00e1rio di\u00e1rio infimamente baixo. A maior concess\u00e3o na \u00e1rea estava em m\u00e3os da Pulpapel, uma filial do Grupo Carton de Colombia &#8211; agora Smurfit Kappa. <strong>Essa concess\u00e3o come\u00e7ou em 1959 com 15 mil hectares e teve a sua terceira expans\u00e3o em 1974, com a qual chegou a uma extens\u00e3o de<a href=\"http:\/\/www.fao.org\/3\/l5470s03.htm\"> 54 mil hectares, com autoriza\u00e7\u00e3o para derrubar 84 mil toneladas anuais de madeira durante trinta anos.<\/a><\/strong><a href=\"http:\/\/www.fao.org\/3\/l5470s03.htm\">\u00a0<\/a><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;N\u00f3s mission\u00e1rios mostramos \u00e0s comunidades os mapas das concess\u00f5es mineiras e os planos das concess\u00f5es madeireiras e lhes dissemos: \u201cpercebam o que est\u00e1 acontecendo&#8221;<\/p><cite>Jes\u00fas Fl\u00f3rez<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Os religiosos fizeram ver aos negros que se essa explora\u00e7\u00e3o n\u00e3o parava, eles logo ficariam sem recursos naturais para sobreviver, que o territ\u00f3rio deveria pertencer a eles simplesmente porque eles o habitavam h\u00e1 mais de um s\u00e9culo e que deveriam ser eles que tomassem as decis\u00f5es sobre como usar a terra.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Logo no in\u00edcio do seu governo, em 1983, o Presidente Belisario Bentacur promulgou o Plano de Desenvolvimento Integral da Costa do Pac\u00edfico, com o qual se pretendia modernizar esta regi\u00e3o em termos de centros econ\u00f4micos do pa\u00eds: Medell\u00edn e Antioquia, como o lugar de poder mais pr\u00f3ximo do centro e do norte do Choc\u00f3, uma regi\u00e3o atravessada pelo rio Atrato; Pereira e o Eixo Cafeeiro, como a regi\u00e3o que tem contato direto com a bacia alta do rio San Juan; e Cali e Buenaventura, com as bacias m\u00e9dia e sul. &#8220;E esta rela\u00e7\u00e3o tem se tornado mais extrema&#8221;, acrescenta Fl\u00f3rez. <strong>Nessa mesma \u00e9poca, o plano era se integrar com os pa\u00edses chamados &#8220;tigres asi\u00e1ticos&#8221;. E agora com a China. H\u00e1 tamb\u00e9m planos para o Brasil e a Venezuela se conectarem por vias 4G com o Pac\u00edfico, passando pela Col\u00f4mbia.<\/strong> As comunidades negras foram deixadas em uma esp\u00e9cie de sandu\u00edche de m\u00faltiplos interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a emiss\u00e3o da Lei 70 de 1993, o Estado reconheceu a posse da terra por comunidades negras, suas pr\u00e1ticas tradicionais de produ\u00e7\u00e3o nos solos ribeirinhos e seu direito como minorias \u00e9tnicas protegidas pela Constitui\u00e7\u00e3o a terem a propriedade coletiva do territ\u00f3rio. Esta lei permitiu o processo t\u00e9cnico para a cria\u00e7\u00e3o dos conselhos comunit\u00e1rios locais e gerais, e estabeleceu suas estruturas hier\u00e1rquicas. As organiza\u00e7\u00f5es previamente constitu\u00eddas, como o Acadesan e a Acia -Asociaci\u00f3n Campesina Integral del Atrato-, tiveram sua capacidade de funcionamento ampliada se tornando conselhos gerais. Se como associa\u00e7\u00f5es os camponeses mal conseguiam chegar a acordo para fazerem reivindica\u00e7\u00f5es ou produzir, como conselhos comunit\u00e1rios come\u00e7aram a ser donos e propriet\u00e1rios do territ\u00f3rio, especialmente em aspectos relacionados com seus planos de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>como conselhos comunit\u00e1rios come\u00e7aram a ser donos e propriet\u00e1rios do territ\u00f3rio, especialmente em aspectos relacionados com seus planos de desenvolvimento.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O Conselho Comunit\u00e1rio Geral de San Juan &#8211; Acadesan recebeu o t\u00edtulo de propriedade coletiva em dezembro de 2001, em um n\u00famero de terras localizadas ao redor das bacias baixa e m\u00e9dia do rio equivalente a 683.591 hectares, distribu\u00eddos em cinco munic\u00edpios do Choc\u00f3: Litoral do San Juan, M\u00e9dio San Juan, Itsmina, Sip\u00ed e N\u00f3vita &#8211; e em tr\u00eas do departamento do Valle del Cauca: Buenaventura, El Dovio e Bol\u00edvar. Este conselho \u00e9 dirigido por um conselho de administra\u00e7\u00e3o composto por oito membros mais o representante legal. Cada membro \u00e9 respons\u00e1vel por uma das oito \u00e1reas geogr\u00e1ficas nas quais est\u00e1 dividido o territ\u00f3rio, habitado na sua totalidade por 72 comunidades que comparecem \u00e0 assembleia com a representa\u00e7\u00e3o de tr\u00eas delegados cada uma. Chava foi eleita duas vezes como representante legal neste estrito sistema organizacional.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5241\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210928\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo.jpg 640w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210928\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210928\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210928\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210928\/4.-Embarcadero-en-Corriente-Palo-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Cais em Corriente Palo. Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nossa quinta parada do dia \u00e9 na comunidade de Corriente Palo. O ponto mais remoto at\u00e9 onde chegamos at\u00e9 agora: duas horas neste barco pelo Copom\u00e1, um afluente na margem esquerda do rio San Juan. S\u00e3o dezesseis horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando sa\u00edmos de Malaguita, Chava nos levou a uma comunidade chamada Coco para nos demonstrar que <strong>o povo ainda est\u00e1 esperando que o Estado os ajude a resolver a falta de um aqueduto e de eletricidade. <\/strong>Depois, paramos no Taparal, um lugarejo com mais casas abandonadas do que ocupadas. Desde finais dos anos 90, existe l\u00e1 uma f\u00e1brica que produz o que se chama em espanhol \u201ctriplex\u201d, um aglomerado de folhas de madeira usado para fazer m\u00f3veis de escrit\u00f3rio e residenciais. <strong>A empresa teve que encerrar a produ\u00e7\u00e3o em 2018, depois que o eln ordenasse n\u00e3o cortar madeira da floresta durante seis meses, sob pena de assassinato.<\/strong> Dezenas de oper\u00e1rios de San Juan ficaram desempregados e abandonaram o lugarejo. Embaixo do galp\u00e3o do que costumava ser a f\u00e1brica vi m\u00e1quinas que podiam ter uma segunda vida, mesmo que estivessem bem afetadas pela umidade. E vi, espalhados ao ar livre, troncos de madeira que iam ser processados antes do fechamento, mas que j\u00e1 n\u00e3o prestam mais para serem usados como mat\u00e9ria-prima.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Aqui em Corriente Palo, um dos problemas mais delicados e evidentes do territ\u00f3rio do Acadesan \u00e9 a planta\u00e7\u00e3o de folhas de coca. <\/strong>Pequenos campos plantados com este arbusto s\u00e3o percept\u00edveis em ambos os lados do rio minutos antes de entrar no povoado. Seu verde brilhante e uniforme se destaca dos verdes opacos das \u00e1rvores. J\u00e1 nas casas &#8211; debaixo delas, entre as palafitas &#8211; repousam os precursores aos olhos do mundo inteiro: sacolas de ur\u00e9ia e tambores de gasolina. Uma pessoa do local me explica que, se eu entrasse por alguns minutos na floresta desta comunidade, encontraria grandes planta\u00e7\u00f5es junto ao que eles chamam \u201ccambuyones&#8221; &#8211; lugares onde \u00e9 processada a folha de coca para a tornar uma pasta. <strong>De acordo com o mais recente estudo das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre a planta\u00e7\u00e3o de coca na Col\u00f4mbia &#8211; UNODC<a href=\"https:\/\/www.unodc.org\/documents\/colombia\/2019\/Agosto\/Informe_de_Monitoreo_de_Territorios_Afectador_por_Cultivos_Ilicitos_en_Colombia_2018_.pdf\"> 2018 \u2013<\/a> no territ\u00f3rio do Acadesan, estima-se que existam 1.116 hectares de coca.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A madeira por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente e a \u00fanica sa\u00edda para o sustento das nossas fam\u00edlias \u00e9 a folha de coca.&#8221;.<\/p><cite>Carlos Victoria<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Chava me apresenta duas lideran\u00e7as locais: Carlos Alberto Victoria, 42 anos; e Jos\u00e9 Diaz, 39. Eles parecem nervosos e um pouco t\u00edmidos, embora sejam altos e fortes. Eles cobrem suas cabe\u00e7as carecas com um bon\u00e9. Hernando os filma com a c\u00e2mera e Chava os motiva: &#8220;Falem porque todos n\u00f3s sabemos o que acontece aqui! Carlos Victoria decide falar e o faz entre a confiss\u00e3o e a reclama\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-A verdade \u00e9 que aqui nos dedicamos \u00e0 madeira e \u00e0 folha de coca. A madeira por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 suficiente e a \u00fanica sa\u00edda para o sustento das nossas fam\u00edlias \u00e9 a folha de coca. <strong>Embora o governo saiba disso, somos n\u00f3s os atropelados. Os que se enriquecem s\u00e3o outros, os que traficam. <\/strong>N\u00f3s somente a plantamos e nos operativos todos est\u00e3o contra n\u00f3s: fumigam-nos, tiram a gasolina e os suprimentos da gente e queimam nossos \u201ccambuyones\u201d. E se apanham algum de n\u00f3s, nos incriminam por coisas que n\u00e3o s\u00e3o. O mundo inteiro sabe que a economia da Col\u00f4mbia \u00e9 isso mesmo e eles tentam esconder isso. Veja: a gente trabalha com madeira, temos que vend\u00ea-la em parcelas e eles pagam quando ficam com vontade. A gente planta bananas e ningu\u00e9m pode comprar; voc\u00ea cria porcos e galinhas, e acontece a mesma coisa. A \u00fanica coisa que eles compram de voc\u00ea \u00e9 coca.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-O que voc\u00eas esperam do Estado? -eu pergunto. Victoria duvida para dar a resposta. Outras pessoas se juntaram \u00e0 entrevista e est\u00e3o cercando essas duas lideran\u00e7as. Chava est\u00e1 os vendo se defenderem da imprensa como se fosse uma prova que fazem para se formarem como \u201clideran\u00e7as comunit\u00e1rias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">&#8211;<strong>Qualquer coisa para n\u00e3o ter que continuar plantando coca<\/strong> -responde Victoria finalmente. \u00c9 claro que ele n\u00e3o pode imaginar um futuro diferente desse, mas n\u00e3o v\u00e3o continuar nos enganando com propostas de porcos e mandioca, porque sabemos perfeitamente que essas planta\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixam suficientes lucros para nem sequer comprar uns shorts. Se o estado nos oferecer uma solu\u00e7\u00e3o real, n\u00f3s a aceitaremos. Ningu\u00e9m aqui quer continuar plantando coca.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Se o estado nos oferecer uma solu\u00e7\u00e3o real, n\u00f3s a aceitaremos. Ningu\u00e9m aqui quer continuar plantando coca&#8221;<\/p><cite>Carlos Victoria<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Voc\u00eas est\u00e3o conscientes de que nada legal vai ser t\u00e3o lucrativo quanto a coca? -Victoria fica em sil\u00eancio e os outros tamb\u00e9m n\u00e3o respondem nada. Estariam dispostos a desistir da coca, mesmo que a solu\u00e7\u00e3o proposta pelo Estado gerasse menos dinheiro para voc\u00eas? Mais um sil\u00eancio, por isso eu fa\u00e7o a pr\u00f3xima pergunta: J\u00e1 pensaram que tipo de atividades voc\u00eas poderiam fazer para substituir as planta\u00e7\u00f5es de coca que os deixassem satisfeitos?<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">&#8211;<strong>Projetos produtivos voltados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o<\/strong>, -responde Chava ao ver estas lideran\u00e7as face a face, mas em voz muito baixa, como se n\u00e3o quisesse interferir na entrevista. Eu lhe pe\u00e7o que explique melhor: aqui o arroz pode ser plantado muito facilmente. Um dos projetos \u00e9 instalar um moinho e a maquinaria necess\u00e1ria para plantar arroz, process\u00e1-lo, embal\u00e1-lo, rotul\u00e1-lo com nosso nome da regi\u00e3o de San Juan e coloc\u00e1-lo no mercado at\u00e9 que ele seja vendido ao consumidor. Temos a mesma ideia com colorau, cacau e os produtos derivados da cana-de-a\u00e7\u00facar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O dinheiro para que esses planos se tornem verdadeiros modelos de trabalho deve vir de uma pol\u00edtica estatal, resultante do acordo de paz com as FARC, chamada Programas de Desenvolvimento Voltados ao Territ\u00f3rio (PDET). <\/strong>Dentre esses programas que s\u00e3o destinados aos 170 munic\u00edpios do pa\u00eds mais afetados pelo conflito armado, o sul do Choc\u00f3 foi priorizado com os outros cinco que constituem o Acadesan. A pr\u00f3pria Chava participou da din\u00e2mica de formula\u00e7\u00e3o dos programas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Estamos prontos, como organiza\u00e7\u00e3o social, para fazer as contribui\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, tanto pessoais quanto dos conselhos, para que esses PDET se tornem uma realidade. Esta \u00e9 a \u00fanica oportunidade que temos de deixarmos as planta\u00e7\u00f5es de uso il\u00edcito e sairmos deste atraso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/5.-Trozas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5244\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210927\/5.-Trozas.jpg 640w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210927\/5.-Trozas-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210927\/5.-Trozas-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210927\/5.-Trozas-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210927\/5.-Trozas-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Troncos de madeira inutiliz\u00e1vel nas margens do rio San Juan, na comunidade de Taparal. Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 duas raz\u00f5es pelas quais estas comunidades dizem estar dispostas a deixar de lado a coca, caso consigam encontrar um modelo de produ\u00e7\u00e3o que considerem justo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A primeira delas \u00e9 que a coca e a maconha n\u00e3o s\u00e3o simb\u00f3licas, nem contam com misticismo dentro da cosmogonia afro-colombiana<\/strong>, como acontece em alguns povos ind\u00edgenas. Se n\u00e3o a plantassem novamente, as comunidades negras n\u00e3o estariam sendo contra os fundamentos m\u00edticos da sua cultura. A outra raz\u00e3o \u00e9 que esses povoados j\u00e1 comprovaram com seu pr\u00f3prio sangue que todo benef\u00edcio econ\u00f4mico concedido pela coca vem acompanhado de viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>esses povoados j\u00e1 comprovaram com seu pr\u00f3prio sangue que todo benef\u00edcio econ\u00f4mico concedido pela coca vem acompanhado de viol\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O invent\u00e1rio dos atos de guerra sofridos pela popula\u00e7\u00e3o de San Juan \u00e9 extenso e vem de todos os lados. Nas m\u00e3os das for\u00e7as p\u00fablicas estas pessoas sofreram atrocidades e abusos por parte da autoridade: a Marinha tira deles gasolina, mercadorias e at\u00e9 o motor do barco se n\u00e3o tiverem uma nota fiscal em seu pr\u00f3prio nome com a desculpa de que &#8220;isso&#8221; poderia ser para a guerrilha. Entre 2012 e 2015, os anos de intenso interesse pelo glifosato, o avi\u00e3o passou largando o herbicida depois que os helic\u00f3pteros armados atirassem com metralhadoras a floresta. O veneno caiu sobre a coca ao mesmo tempo que sobre as planta\u00e7\u00f5es estabelecidas no Pancoger e sobre fontes de \u00e1gua. <strong>Embora o governo sempre tenha dito que n\u00e3o polui a \u00e1gua e que os danos colaterais s\u00e3o menores, h\u00e1 <a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1SdlZK9HiSFTTdFVhpyWsdeFbMDUsbMbL\/view?usp=sharing\">pesquisas publicadas<\/a> em revistas acad\u00eamicas reconhecidas que afirmam que houve um aumento nos abortos nas \u00e1reas nas quais se jogou o glifosato.<\/strong> Chava e estes lideran\u00e7as me dizem que \u00e9 verdade isso dos abortos, bem como que houve muitas pessoas que tiveram surtos, manchas, fungos, diarreia e problemas respirat\u00f3rios por causa disso tamb\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-O que acontece neste territ\u00f3rio \u00e9 desconhecido no resto do pa\u00eds -diz Chava com um sentido de reclama\u00e7\u00e3o. <strong>Ningu\u00e9m nos defende.<\/strong> A gente ouve coisas que acontecem na costa de Nari\u00f1o, no Atrato, ou em Bojay\u00e1, na parte norte do Cauca, mas nada sobre San Juan.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o per\u00edodo em que as Farc estiveram no poder- cerca de dez anos antes do acordo de paz &#8211; durante os operativos antiguerrilha das for\u00e7as p\u00fablicas, os camponeses eram retidos e eram feitos assaltos muito fortes em pequenos povoados onde somente havia pessoas sem armas. Os bombardeamentos eram semanais e cada explos\u00e3o destru\u00eda por\u00e7\u00f5es colossais da floresta. Os que n\u00e3o foram praticados pelas for\u00e7as p\u00fablicas se consideram que foram levados a cabo pelos paramilitares e foram muito piores: assassinatos seletivos e massacres, torturas, desaparecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerrilha \u00e9 respons\u00e1vel pelo resto: recrutamento for\u00e7ado de menores, ocupa\u00e7\u00e3o de povoados, confinamento de comunidades inteiras atrav\u00e9s do plantio de minas antipessoais, mais massacres, mais deslocamentos e assassinatos seletivos de lideran\u00e7as comunit\u00e1rios que se opunham \u00e0s ideologias pol\u00edticas subversivas, bem como \u00e0s economias de financiamento ilegal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Seria muito bom que um dia, quando um ator armado chegar, eu pudesse lhe dizer: o que voc\u00ea est\u00e1 procurando com esse fuzil? Moradia? A\u00ed est\u00e1. Sa\u00fade? J\u00e1 temos sa\u00fade. Educa\u00e7\u00e3o? J\u00e1 temos educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para voc\u00ea carregar esse fuzil&#8221;.<\/p><cite>Carlos Victoria<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os idosos se lembram de quando n\u00e3o havia essa viol\u00eancia e contam hist\u00f3rias que parecem de um mundo que n\u00e3o existe mais, um mundo no qual eles viveram sem medo. Parte disso foi narrado pelo poeta colombiano Eduardo Cote Lamus em seu <em>Diario del Alto San Juan y del Atrato,<\/em> escrito em 1958. J\u00e1 Chava conta que, em sua adolesc\u00eancia, andava em barcos de carga com casco de a\u00e7o que navegavam de Docord\u00f3 at\u00e9 Istmina, deixando mercadorias e pessoas em cada parada. Passavam quatro dias para fazer o percurso e navegavam at\u00e9 altas horas da noite. Sem luz solar, os barcos eram guiados pela sombra lan\u00e7ada pelas copas das \u00e1rvores sobre a \u00e1gua, pelo brilho da lua.<strong> Depois da guerra, ningu\u00e9m mais p\u00f4de navegar \u00e0 noite, pois foi proibido pelos grupos armados.<\/strong> A guerrilha amea\u00e7ou com atacar qualquer barco, mesmo sendo de camponeses, alegando que poderia ser uma a\u00e7\u00e3o militar encoberta. As for\u00e7as p\u00fablicas, por outro lado, embora n\u00e3o apoiem esta restri\u00e7\u00e3o de uma forma t\u00e3o rigorosa, falaram \u00e0s comunidades que, devido \u00e0 dificuldade de reconhecer os navegadores \u00e0 noite, eles podiam atacar preventivamente e que era melhor n\u00e3o sair \u00e0 noite.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-O que eles pedem aos grupos armados ilegais? -eu prossigo com a entrevista em Corriente Palo. Victoria cede a palavra para D\u00edaz que come\u00e7a dizendo que essa viol\u00eancia &#8220;n\u00e3o existe porque simplesmente existe&#8221;, e que ela tem uma raz\u00e3o de ser.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">&#8211;<strong>Eu sou um dos que se recusa a deixar que pessoas armadas venham no meu povoado, mas quando eu reclamo da guerrilha, eles dizem que est\u00e3o lutando pela educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, trabalho digno e saneamento b\u00e1sico. <\/strong>Eu olho \u00e0 minha volta e meu povo n\u00e3o tem nenhuma dessas coisas satisfeitas. Ent\u00e3o, pe\u00e7o ao governo que nos d\u00ea argumentos para dizer aos grupos armados para irem embora. Quais os argumentos do governo? Que tenhamos sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, moradia decente, etc., e assim por diante. Ouso dizer que os grupos armados vivem de uma mentira verdadeira: eles dizem que precisamos de educa\u00e7\u00e3o e eu digo que precisamos de educa\u00e7\u00e3o, mas se eu n\u00e3o a obtenho pelos meios legais e n\u00e3o parece que f\u00f4ssemos receb\u00ea-la nunca, ent\u00e3o, como eu posso reclamar dos ilegais? Seria muito bom que um dia, quando um ator armado chegar, eu pudesse lhe dizer: o que voc\u00ea est\u00e1 procurando com esse fuzil? Moradia? A\u00ed est\u00e1. Sa\u00fade? J\u00e1 temos sa\u00fade. Educa\u00e7\u00e3o? J\u00e1 temos educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para voc\u00ea carregar esse fuzil.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Ent\u00e3o, eu aceito o racioc\u00ednio e entendo tamb\u00e9m que com fuzis tamb\u00e9m n\u00e3o v\u00e3o receber nada, mas voc\u00eas devem dizer isso ao governo. O que voc\u00eas diriam aos grupos armados ilegais? Aos guerrilheiros do ELN que est\u00e3o por aqui? Voc\u00eas lhes pediriam, por exemplo, que parassem de recrutar menores?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;H\u00e1 pessoas que v\u00e3o l\u00e1 porque veem que eles t\u00eam um estilo de vida muito alto. Eles d\u00e3o argumentos e h\u00e1 pessoas que apoiam esses argumentos&#8221;.<\/p><cite>Carlos Victoria<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Isto vai soar como se fosse contra n\u00f3s -diz Diaz, com um pouco de medo. O ELN n\u00e3o leva ningu\u00e9m \u00e0 for\u00e7a. H\u00e1 pessoas que v\u00e3o l\u00e1 porque veem que eles t\u00eam um estilo de vida muito alto. Eles d\u00e3o argumentos e h\u00e1 pessoas que apoiam esses argumentos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">&#8211;<strong>Se o governo n\u00e3o nos deixasse t\u00e3o abandonados, ningu\u00e9m sairia daqui em busca de uma vida na guerrilha <\/strong>-acrescenta Victoria, sem me dar tempo de fazer outra pergunta ou de dizer que, segundo as leis internacionais, o recrutamento de um menor ser\u00e1 sempre for\u00e7ado, sejam quais forem as condi\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, aqui n\u00e3o temos op\u00e7\u00f5es e a gente os v\u00ea com gasolina para atravessar o rio, com dinheiro, tendo uma boa vida, e a gente quase morrendo&#8230; Ent\u00e3o, quem n\u00e3o tiver suficientes conhecimentos ir\u00e1 com eles porque acredita no que eles t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p>Impulsada por los descargos ante mi pregunta, Chava termina\napuntalando esta respuesta:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Para o Estado tudo o que fazemos os negros, os \u00edndios e os camponeses \u00e9 ilegal. E, na verdade, \u00e9 o pr\u00f3prio Estado quem nos leva a essas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Para o Estado tudo o que fazemos os negros, os \u00edndios e os camponeses \u00e9 ilegal. E, na verdade, \u00e9 o pr\u00f3prio Estado quem nos leva a essas condi\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p><cite>Chava<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Dia 3. A defesa do territ\u00f3rio<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 madrugada em Cucurrup\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>Um galo cantou de madrugada e um c\u00e3o latiu bem longe. Em geral, foi uma noite tranquila e renovadora. Todos dormimos na casa de uma fam\u00edlia e nos levantamos bem cedinho para tomar banho no rio. Com exce\u00e7\u00e3o de alguns pr\u00e9dios em Docord\u00f3 e Malaguita, <strong>em nenhuma das comunidades que visitamos at\u00e9 agora h\u00e1 um aqueduto<\/strong>. As pessoas t\u00eam que recolher a \u00e1gua da chuva para cozinhar os alimentos e para higiene pessoal, mas somos muitos nesta casa e est\u00e1 muito seco. A caixa d\u00b4\u00e1gua onde se armazena a \u00e1gua da chuva tem menos da metade da sua capacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Cucurrup\u00ed est\u00e1 na margem esquerda do rio San Juan, bem perto da foz do Copom\u00e1. E este lado do rio leva hoje uma espuma coalhada que parece creme de leite. \u00c9 assustador. Eu posso ver que todos, incluindo Chava, evitam tomar banho. Tento afastar essa espuma com a m\u00e3o e me lembro do que me disse Esciober l\u00e1 em Malaguita: coceira e gr\u00e3os, chagas e minhocas nos peixes. Se a simples a\u00e7\u00e3o de tomar banho pela manh\u00e3 \u00e9 um ato de ousadia e coragem, ent\u00e3o o que s\u00e3o as outras atividades do dia?<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do caf\u00e9 da manh\u00e3, Chava e eu nos sentamos para conversar; colocamos duas cadeiras na entrada da casa. Ela me conta que dormiu bem e que, enquanto est\u00e1 em seu territ\u00f3rio, ela passa uma boa noite. Que quando ela tem que viajar para outras cidades, ela se hospeda em hot\u00e9is confort\u00e1veis e bonitos, &#8220;com \u00f3timas camas&#8221;, mas n\u00e3o consegue dormir bem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Eu s\u00f3 durmo bem quando estou aqui -ela sorri mostrando seus dentes brancos, polidos e maravilhosos. N\u00e3o sei se \u00e9 o ar, o som do rio, as pessoas, o tempo ou tudo isso junto.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Todos os dias acordo sonhando com um territ\u00f3rio melhor. \u00c9 por isso que bato nas portas que me ajudam a tornar nossas necessidades vis\u00edveis, para que o Estado olhe para n\u00f3s e perceba que somos extremamente esquecidos&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Durante os di\u00e1logos entre o Governo Nacional e as FARC, Chava foi levada para Havana como parte do grupo de lideran\u00e7as de minorias \u00e9tnicas para discutir como os mecanismos de paz deviam ser implantados em seus territ\u00f3rios. <\/strong>Depois, ela foi levada para Quito para entregar o documento \u201cAcordo Humanit\u00e1rio J\u00e1 no Choc\u00f3\u201d, com o qual se pretendia propor um cesse ao fogo e prote\u00e7\u00e3o para a sociedade civil enquanto se realizavam as negocia\u00e7\u00f5es para a paz com o ELN \u2013 que nunca deram certo. Durante essas viagens, Chava se reuniu em Bogot\u00e1 com delegados das embaixadas dos pa\u00edses europeus que colaboraram com a Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Todos os dias acordo sonhando com um territ\u00f3rio melhor. \u00c9 por isso que bato nas portas que me ajudam a tornar nossas necessidades vis\u00edveis, para que o Estado olhe para n\u00f3s e perceba que somos extremamente esquecidos. Essa \u00e9 a minha luta constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo que faz seu trabalho no Acadesan, Chava faz parte tamb\u00e9m da Comiss\u00e3o Inter\u00e9tnica da Verdade da Regi\u00e3o do Pac\u00edfico. Este \u00f3rg\u00e3o foi criado por mais de trinta organiza\u00e7\u00f5es sociais e, desde maio de 2019, vem trabalhando para fazer um relat\u00f3rio no qual se fale sobre os graves danos que causou o conflito armado na regi\u00e3o do Pac\u00edfico colombiano. H\u00e1 dez comissionados e cada um deles \u00e9 respons\u00e1vel por um caso representativo em uma \u00e1rea concreta do territ\u00f3rio. <strong>Chava documentou como a planta\u00e7\u00e3o da folha de coca e o garimpo de ouro t\u00eam afetado as comunidades de San Juan.<\/strong> Al\u00e9m disso, esses comissionados tamb\u00e9m representaram o Dari\u00e9n &#8211; norte do Choc\u00f3 \u2013 e foram encarregados da avalia\u00e7\u00e3o dos danos causados pela monocultura da palma africana; os de Buenaventura e os da \u00e1rea costeira do Valle del Cauca, bem como o impacto dos megaprojetos mar\u00edtimos e portu\u00e1rios e assim por diante at\u00e9 ser conclu\u00edda a avalia\u00e7\u00e3o das dez \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;O documento desta comiss\u00e3o quer mostrar que o conflito armado provocou um etnoc\u00eddio no Pac\u00edfico colombiano, porque deteriorou a rela\u00e7\u00e3o das comunidades com seu territ\u00f3rio&#8221;<\/p><cite>Camilo Alzate<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;O dano ao territ\u00f3rio \u00e9 o conceito que abrange este trabalho, pois <strong>o territ\u00f3rio \u00e9 visto como o conjunto de vida que inclui recursos naturais, comunidades e rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o com a terra<\/strong>&#8220;, explicou Camilo Alzate, um jovem jornalista ligado \u00e0 estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o. &#8220;Um exemplo hipot\u00e9tico: Chava descobriu que o garimpo sedimentou um rio e, por isso, foi imposs\u00edvel para a comunidade encontrar peixes nas margens. N\u00e3o podendo continuar com a pesca com uma t\u00e9cnica ancestral, ocorre a perda de um valor \u00e9tnico. O documento desta comiss\u00e3o quer mostrar que o conflito armado provocou um etnoc\u00eddio no Pac\u00edfico colombiano, porque deteriorou a rela\u00e7\u00e3o das comunidades com seu territ\u00f3rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e1vamos em Togorom\u00e1, perguntei para Chava sobre as amea\u00e7as contra o rio San Juan. Antes de mais nada, ela citou dois que poderiam virar um s\u00f3: o abandono do Estado e o conflito armado. O racioc\u00ednio emp\u00edrico que ela e suas comunidades fazem, levando em conta o objetivo que pretende atingir esta comiss\u00e3o, \u00e9 que o dano ao territ\u00f3rio \u00e9 o dano ambiental; que territ\u00f3rio e meio ambiente s\u00e3o a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;o conflito armado tem causado s\u00e9rios danos ambientais porque tem causado s\u00e9rios danos \u00e0 sobreviv\u00eancia das comunidades&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O antrop\u00f3logo Jes\u00fas Fl\u00f3rez me explicou o seguinte: <strong>&#8220;Sempre medimos o dano ambiental como o que \u00e9 causado pelo homem \u00e0 natureza, mas nunca dizemos o mesmo sobre os danos que o homem faz ao homem no contexto destes territ\u00f3rios&#8221;<\/strong>. Antes de mais nada, o conflito armado tem causado s\u00e9rios danos ambientais porque tem causado s\u00e9rios danos \u00e0 sobreviv\u00eancia das comunidades&#8221;. Quando as pessoas n\u00e3o podem navegar \u00e0 noite, quando n\u00e3o podem se mover em suas terras porque h\u00e1 minas antipessoais, quando n\u00e3o podem ca\u00e7ar com a espingarda -chamada em espanhol \u201cmachomalo\u201d ou \u201cmachosolo\u201d- porque as for\u00e7as p\u00fablicas as pegam, quando n\u00e3o podem pescar porque o rio est\u00e1 polu\u00eddo, quando n\u00e3o podem derrubar \u00e1rvores por causa de uma proibi\u00e7\u00e3o da guerrilha, sua sobreviv\u00eancia est\u00e1 em risco porque n\u00e3o podem se alimentar ou manter a continuidade do seu grupo \u00e9tnico. &#8220;A meados dos anos 2000, em muitas regi\u00f5es do Choc\u00f3, pessoas passaram fome por causa do conflito armado&#8221;, acrescentou Fl\u00f3rez. &#8220;Um absurdo total. O normal \u00e9 que as pessoas passem fome no deserto, mas em um meio onde existem tantos recursos da floresta \u00e9 um absurdo. Portanto, na medida em que as comunidades protegem os recursos naturais, elas est\u00e3o protegendo simultaneamente sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/6.-Chava-en-Cucurrupi\u0301.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5247\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81.jpg 1280w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-300x169.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-768x432.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-747x420.jpg 747w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-150x84.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-696x392.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210926\/6.-Chava-en-Cucurrupi%CC%81-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption>Chava caminha com as lideran\u00e7as de Cucurrup\u00ed. Foto: Hernando S\u00e1nchez.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>As lideran\u00e7as do Cucurrup\u00ed nos deram uma visita guiada por sua comunidade. Faltam as mesmas coisas que nas outras: \u00e1gua pot\u00e1vel, interliga\u00e7\u00e3o el\u00e9trica para n\u00e3o depender de pequenas instala\u00e7\u00f5es de combust\u00e3o, centro de sa\u00fade e uma melhor localiza\u00e7\u00e3o para a escola. O refeit\u00f3rio das crian\u00e7as \u00e9 uma ru\u00edna. Perto dele h\u00e1 uma quadra m\u00faltipla -futebol de sal\u00e3o, basquetebol e voleibol em um mesmo espa\u00e7o &#8211; constru\u00edda em cimento, mas que n\u00e3o foi acabada.<\/p>\n\n\n\n<p>Cucurrup\u00ed tem sido um fator determinante na hist\u00f3ria do Acadesan. Luis Granados, um dos seus fundadores, nasceu aqui. Foi aqui onde se realizaram as primeiras reuni\u00f5es, a partir de 1988, entre as lideran\u00e7as e as congrega\u00e7\u00f5es religiosas que ajudaram na organiza\u00e7\u00e3o social. Anos depois, quando o Acadesan virou o conselho geral da comunidade, Chava foi eleita aqui como sua representante legal. Ela foi a primeira mulher em chegar a essa posi\u00e7\u00e3o. A \u00fanica lideran\u00e7a que fez frente \u00e0s Farc quando esta guerrilha pretendia se encarregar da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Chava foi eleita aqui como sua representante legal. Ela foi a primeira mulher em chegar a essa posi\u00e7\u00e3o. A \u00fanica lideran\u00e7a que fez frente \u00e0s Farc quando esta guerrilha pretendia se encarregar da organiza\u00e7\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria dessa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 mais ou menos esta: as quase trezentas lideran\u00e7as e os delegados das 72 comunidades de San Juan se reuniram na sala comunit\u00e1ria -uma sala com ch\u00e3o e paredes de t\u00e1buas com cadeiras de pl\u00e1stico- para uma assembleia que procurava revogar o conselho de administra\u00e7\u00e3o daquele momento. Era outubro de 2012. Chava fazia parte desse conselho de administra\u00e7\u00e3o. O argumento para a revoga\u00e7\u00e3o era apenas um: que o Conselho estava vendendo o territ\u00f3rio a particulares. O conselho de administra\u00e7\u00e3o mostrou documentos, atas de reuni\u00f5es e provou que isso n\u00e3o era verdade. Que era uma fofoca que tinham espalhado com a \u00fanica inten\u00e7\u00e3o de nomear um outro conselho de administra\u00e7\u00e3o. Os participantes aceitaram as explica\u00e7\u00f5es e levantaram a assembleia. <strong>Todos come\u00e7aram a sair da sala mas, sem terem dado cinco passos no caminho de sa\u00edda, chegou um comandante das Farc e os fez voltar para a sala de novo. Era o conhecido <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">&#8220;Mamajuana&#8221;<\/span> que estava escoltado por seus homens.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O insurgente confrontou o conselho de administra\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suposta venda do territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m sobre outra fofoca segundo a qual a guerrilha estava sendo acusada de ter destru\u00eddo a infraestrutura em alguma comunidade do rio. <strong>Sem soltar seu fuzil, \u201cMamajuana\u201d negou essas acusa\u00e7\u00f5es e se mostrou como um revolucion\u00e1rio indignado, como que estivesse defendendo as pessoas e quem achava que estas lideran\u00e7as eram uns vendidos.<\/strong> As nove lideran\u00e7as do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o ficaram surpresos. Ambas as quest\u00f5es podiam lhes custar a vida. O normal nesses casos, segundo a justi\u00e7a fariana, era a morte dos traidores. Naquela sala ningu\u00e9m era capaz de levantar um dedo, <strong>at\u00e9 que Chava, cheia de coragem e bravura, ousou se levantar da mesa e dizer para \u201cMamajuana\u201d que nada disso era verdade<\/strong>, que todas as reuni\u00f5es do conselho estavam documentadas, que ningu\u00e9m estava dando o territ\u00f3rio de presente por ambi\u00e7\u00e3o pessoal e que as acusa\u00e7\u00f5es dos danos \u00e0s infraestruturas causados pelas Farc tamb\u00e9m eram mentira. Mas n\u00e3o foi porque o conselho n\u00e3o fosse capaz de denunciar os crimes desta guerrilha, mas sim porque nada disso tinha acontecido. Ao v\u00ea-la t\u00e3o decidida e desafiante, alguns dos presentes apoiaram Chava, enquanto que outros continuaram intimidados e silenciosos. O fato \u00e9 que a reuni\u00e3o for\u00e7ada por \u201cMamajuana\u201d terminou sem nenhuma mudan\u00e7a no conselho de administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A coragem que ela demonstrou na situa\u00e7\u00e3o com o comandante guerrilheiro tinha chegado \u00e0s lideran\u00e7as locais e despertado a admira\u00e7\u00e3o e o respeito por ela.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas anos depois, em 19 de setembro de 2015, foi realizada a assembleia para eleger o representante legal do per\u00edodo 2015-2019. Chava se candidatou. A coragem que ela demonstrou na situa\u00e7\u00e3o com o comandante guerrilheiro tinha chegado \u00e0s lideran\u00e7as locais e despertado a admira\u00e7\u00e3o e o respeito por ela. Nas elei\u00e7\u00f5es, Chava obteve 85% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a desmobiliza\u00e7\u00e3o das FARC, as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias em todo o Choc\u00f3 tiveram a oportunidade de conversar informalmente com os que antes tinham sido comandantes guerrilheiros e come\u00e7aram a entender alguns dos movimentos da guerra. As do Acadesan ficaram sabendo que naquela assembleia revogat\u00f3ria tinha acontecido exatamente o contr\u00e1rio: <strong>as Farc tinham feito um pacto com uma sociedade de mineiros de ouro para trazer m\u00e1quinas e a \u00fanica maneira de come\u00e7ar as escava\u00e7\u00f5es, sem usar armas, era desabonando o conselho de administra\u00e7\u00e3o atual para conseguir sua revoga\u00e7\u00e3o e assim implantar uma diretoria que desse a autoriza\u00e7\u00e3o.<\/strong> O pior para a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria de San Juan foi que algumas lideran\u00e7as locais tenham se deixado convencer e tenham aceitado essa grande mentira.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O pior para a organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria de San Juan foi que algumas lideran\u00e7as locais tenham se deixado convencer e tenham aceitado essa grande mentira.\u00a0<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>S\u00e3o quinze horas e acabamos de chegar \u00e0 comunidade Noanam\u00e1. J\u00e1 estamos nos pr\u00e9dios do munic\u00edpio do M\u00e9dio San Juan; Cucurrup\u00ed foi a \u00faltima esta\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio costeiro. O fim desta viagem est\u00e1 pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p>Chava nos leva \u00e0 casa dos mission\u00e1rios Lauritas, uma congrega\u00e7\u00e3o de freiras que chegou aqui nos anos 50. Estas freiras, juntamente com os sacerdotes claretianos e diocesanos, t\u00eam sido o apoio moral e t\u00e9cnico da organiza\u00e7\u00e3o camponesa do Choc\u00f3. A casa \u00e9 um pr\u00e9dio com tetos altos, corredores como passagens, quartos enormes, um p\u00e1tio gigante com \u00e1rvores de frutas e aves de quintal, vasos com flores e o canto de pequenos papagaios.<\/p>\n\n\n\n<p>A freira mais amada e respeitada \u00e9 a Irm\u00e3 Carmen Palacios. Ela tem 87 anos de idade e est\u00e1 no Choc\u00f3 desde 1959. <strong>Como mission\u00e1ria, ela testemunhou as grandes fases de moderniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio<\/strong>, que resume da seguinte forma: o boom da minera\u00e7\u00e3o da platina e do ouro de meados do s\u00e9culo XX, o boom da madeira dos anos setenta e oitenta, a guerrilha de guerrilhas, das For\u00e7as P\u00fablicas e dos paramilitares dos anos noventa, o consequente boom das planta\u00e7\u00f5es de coca e o segundo boom mineiro a partir do s\u00e9culo XXI. Al\u00e9m de ser compreensiva e generosa, sua fama \u00e9 a de uma mulher que tem o dom de curar pessoas usando a medicina tradicional dos \u00edndios Wounaan. <strong>Abundam as hist\u00f3rias de pessoas moribundas que ela tirou da morte: de pessoas com doen\u00e7as tropicais, como a mal\u00e1ria, at\u00e9 feridos de guerra.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Irm\u00e3 Carmen conheceu Chava na \u00e9poca da sua primeira elei\u00e7\u00e3o como representante legal do Acadesan.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Eu dizia: &#8220;Esta menina da costa n\u00e3o vai conseguir nem chegar aos joelhos dos outros\u201d. E veja agora, Chava \u00e9 mais corajosa que todos eles.&#8221;.<\/p><cite>Carmen Palacios<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Ela era uma mulher costeira que falava muito, ela se lembra rindo daquele momento. Ela n\u00e3o era muito conhecida como lideran\u00e7a local, a gente via que ela participava da assembleia, mas parecia n\u00e3o ter muita capacidade para isso. Eu achava: &#8220;Para ela chegar ao n\u00edvel da Marina ou de Luis Granados, ainda tem um longo caminho pela frente. Marina \u00e9 uma lideran\u00e7a de Corriente Palo. Uma irm\u00e3 acreditava nela e me disse que Chava era um futuro para a organiza\u00e7\u00e3o, mas eu n\u00e3o sabia como isso podia acontecer. Eu dizia: &#8220;Esta menina da costa n\u00e3o vai conseguir nem chegar aos joelhos dos outros\u201d. E veja agora, Chava \u00e9 mais corajosa que todos eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de ser eleita, Chava come\u00e7ou a visitar Irm\u00e3 Carmen para ouvir seus conselhos mas, <strong>em 2019, no final da P\u00e1scoa, ela veio para ser curada de uma crise de ansiedade que a tinha levado a uma depress\u00e3o. <\/strong>Chava acordava depois da meia-noite e n\u00e3o conseguia mais dormir. Se ela estivesse em um hotel, sairia do quarto e ficaria andando pelo corredor. Em sua casa, em Buenaventura, Chava subia e descia as escadas at\u00e9 o segundo andar dez ou vinte vezes antes do amanhecer. Enquanto navegava pelo rio San Juan, ficava com vontade de se jogar na \u00e1gua com o barco a toda velocidade, como se quisesse fugir do seu lugar no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Aqui a tratamos com plantas e nossas coisas curativas -diz Irm\u00e3 Carmen. Ela tinha muita tens\u00e3o com quest\u00f5es do conselho, porque j\u00e1 ouvi que pessoas lhe pedem o que ela n\u00e3o tem, o que ela n\u00e3o poderia obter. Eles a fazem sentir mal e isso a magoa muito.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Ela tinha muita tens\u00e3o com quest\u00f5es do conselho, porque j\u00e1 ouvi que pessoas lhe pedem o que ela n\u00e3o tem&#8221;.<\/p><cite>Carmen Palacios<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Chava me disse algo semelhante hoje de manh\u00e3 em Cucurrup\u00ed: que<strong> as lideran\u00e7as sempre pensam nos outros, mas &#8220;esse pessoal nunca pensa nas lideran\u00e7as&#8221;<\/strong>. Se ela bota uns sapatos novos, ela me disse, h\u00e1 pessoas que a acusam de &#8220;roubar o dinheiro das comunidades&#8221;. Ela tamb\u00e9m me disse que sua responsabilidade familiar era muito alta, que ela n\u00e3o tinha um sal\u00e1rio fixo e que tinha que sustentar uma casa com quatro filhos, dois netos e sua m\u00e3e. Al\u00e9m disso, os filhos n\u00e3o tinham querido estudar na faculdade, apesar de ela ter lhes oferecido isso e ela se sentia um pouco frustrada com essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/7.-Chava-y-la-monja.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5248\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja.jpg 1280w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-300x169.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-768x432.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-747x420.jpg 747w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-150x84.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-696x392.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210925\/7.-Chava-y-la-monja-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption>Chava e Irm\u00e3 Carmen Palacios. Foto: Hernando S\u00e1nchez.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Sim, a quest\u00e3o da fam\u00edlia tamb\u00e9m -confirma Irm\u00e3 Carmen. Os filhos n\u00e3o querem que ela se envolva nisto, porque sabem que quem entra nisso pode morrer a qualquer momento. -A irm\u00e3 toca sua jugular com o dedo direito. -Ela sabe o que quer e ama seu povo, por isso n\u00e3o a mataram ainda, continua ela. Quando ela foi eleita pela primeira vez, as pessoas diziam: &#8220;Ela est\u00e1 cheirando a morto, <strong>mas isso n\u00e3o aconteceu porque seu objetivo ao ser eleita n\u00e3o era ganhar dinheiro, mas sim trabalhar pelas pessoas.<\/strong> De qualquer jeito, rezamos todos os dias para que ela n\u00e3o seja morta neste pa\u00eds no qual as lideran\u00e7as sociais s\u00e3o assassinadas todos os dias.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;rezamos todos os dias para que ela n\u00e3o seja morta neste pa\u00eds no qual as lideran\u00e7as sociais s\u00e3o assassinadas todos os dias&#8221;.<\/p><cite>Carmen Palacios<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Dia 4. O risco<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Quase chegando a Istmina, o rio San Juan traz a suas margens lixo dom\u00e9stico. Os galhos das \u00e1rvores que tocam a \u00e1gua est\u00e3o cheios de panos, embalagens, sacolas e garrafas. Esses galhos est\u00e3o t\u00e3o coloridos que parecem uma \u00e1rvore de Natal. No porto, o maior do rio, est\u00e3o amontoados barcos de diferentes tamanhos. De canoas ind\u00edgenas longas e finas fabricadas com madeira, at\u00e9 barcos de fibra de vidro de alta velocidade e barcos de passageiros como onde iniciamos esta viagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Istmina \u00e9 um munic\u00edpio que est\u00e1 localizado no primeiro vale do Choc\u00f3, depois de a cordilheira ocidental se diluir na floresta. <strong>A popula\u00e7\u00e3o negra continua sendo a maioria, mas nas ruas h\u00e1 muitos mulatos.<\/strong> E o mesmo acontece na cultura: enquanto nas comunidades do Litoral de San Juan tudo est\u00e1 relacionado com a proximidade do oceano, aqui em Istmina a idiossincrasia vem da influ\u00eancia da montanha. O rio tamb\u00e9m parece diferente. Se no Litoral \u00e9 largo, profundo e caudaloso, e um nadador acha quase imposs\u00edvel ir de uma margem \u00e0 outra; aqui em Istmina o rio \u00e9 tranquilo e quieto, tem uma ponte para carros que faz parte da estrada que comunica o Choc\u00f3 com o interior do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ontem \u00e0 noite, dormimos em Sip\u00ed, um munic\u00edpio long\u00ednquo at\u00e9 onde pode se chegar depois de subir pelo rio San Agust\u00edn por duas horas, outro dos maiores afluentes do rio San Juan. Hoje de manh\u00e3, assim que sa\u00edmos do hotel, Chava nos mostrou o que significa que um povoado fique confinado por causa das amea\u00e7as das minas antipessoais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Embora tenham afirmado estar muito preocupados com a comunidade, estes guerrilheiros n\u00e3o se importaram com ter impedido a livre passagem dos camponeses pelas suas terras de trabalho.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 cerca de dez anos, as FARC e o ELN &#8211; n\u00e3o em parceira, mas cada um por seu lado \u2013 colocaram cercos protetores contra o avan\u00e7o das For\u00e7as P\u00fablicas. Embora tenham afirmado estar muito preocupados com a comunidade, estes guerrilheiros n\u00e3o se importaram com ter impedido a livre passagem dos camponeses pelas suas terras de trabalho. Falei com um homem de 39 anos que perdeu a perna direita abaixo do joelho pela explos\u00e3o de uma mina uma manh\u00e3, enquanto andava por um caminho perto do seu povoado. Eu conheci do caso de duas crian\u00e7as que morreram dentro de sua casa depois de um morteiro ter ca\u00eddo sobre elas durante uns combates. Fui ao cemit\u00e9rio j\u00e1 oculto pela floresta, depois de o ELN ter enchido o lugar de minas tr\u00eas anos antes. Desde ent\u00e3o, os mortos s\u00e3o enterrados no ch\u00e3o da entrada, que n\u00e3o tem mais de tr\u00eas metros quadrados. Os t\u00famulos das pessoas enterradas para al\u00e9m desse espa\u00e7o que n\u00e3o podem ser mais visitados por ningu\u00e9m. Jackson Arboleda, uma jovem lideran\u00e7a local, disse que j\u00e1 tinha perdido a conta dos domingos que passaram sem colocar flores na l\u00e1pide de sua m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de Sip\u00ed, visitamos rapidamente um povoado chamado San Miguel. No trajeto de San Juan, uma hora a jusante de Istmina, <strong>pode se ver a destrui\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal e a deforma\u00e7\u00e3o da margem esquerda do rio por causa da minera\u00e7\u00e3o mecanizada<\/strong>. As dragas est\u00e3o comendo as bordas da margem e v\u00e3o avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s entranhas da floresta. Entretanto, as retroescavadeiras derrubam as \u00e1rvores e desenra\u00edzam a vegeta\u00e7\u00e3o para nivelar o solo. \u00c9 um dos danos mais sens\u00edveis aos ecossistemas, uma perda irrepar\u00e1vel para a natureza. <strong>A floresta tropical \u00famida biogeogr\u00e1fica do Choc\u00f3 \u00e9 considerada um dos 36 <em>hotspots <\/em>de biodiversidade do mundo.<\/strong> <a href=\"https:\/\/scielo.conicyt.cl\/scielo.php?script=sci_arttext&#038;pid=S0717-92002016000200008\">Existem registros de<\/a> quase 1.700 esp\u00e9cies de animais e cerca de 6.000 plantas vasculares das quais, pelo menos, 1.500 s\u00e3o end\u00eamicas: elas n\u00e3o nascem em nenhum outro lugar do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o vai a uma velocidade alarmante: em m\u00e9dia, uma tonelada de terra deve ser mo\u00edda para extrair um grama de ouro. Uma draga de bom tamanho \u00e9 capaz de produzir uma tonelada por hora de trabalho. E hoje, em San Miguel, existem tr\u00eas dragas ativas, mas na zona circundante deve haver mais de dez. Em todo o Choc\u00f3 elas s\u00e3o chamadas de &#8220;drag\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Aproveitando o fato de n\u00e3o existir aqui nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o legal s\u00f3lida para a extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos, esta empresa lucrou durante d\u00e9cadas sem dar nada em troca \u00e0s comunidades<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A familiaridade das comunidades da bacia m\u00e9dia do rio San Juan com este tipo de garimpo est\u00e1 historicamente enraizada. Foi em Andagoya, uma comunidade perto de San Miguel, onde operava a <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Choc\u00f3 Pac\u00edfico Mining Company<\/span>, pertencente a um cons\u00f3rcio de capital americano e brit\u00e2nico chamado <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">South American Gold and Platinum Company<\/span>. Aproveitando o fato de n\u00e3o existir aqui nenhuma regulamenta\u00e7\u00e3o legal s\u00f3lida para a extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos, esta empresa lucrou durante d\u00e9cadas sem dar nada em troca \u00e0s comunidades. Quando saiu em 1974, <a href=\"http:\/\/www.scielo.org.co\/scielo.php?script=sci_arttext&#038;pid=S0121-16172009000400009#28\">deixou apenas m\u00e1quinas e alguns<\/a> moradores locais eram capazes de faz\u00ea-las funcionar.<\/p>\n\n\n\n<p>A cadeia de empregos em uma draga \u00e9 como se diz a seguir: o chefe pode receber um pagamento mensal de quatro milh\u00f5es de pesos, que s\u00e3o cerca de 1000 d\u00f3lares; j\u00e1 seus operadores recebem cerca de 500 d\u00f3lares cada um. A senhora da cozinha, 700. Por sua vez, os propriet\u00e1rios, que s\u00e3o os que vendem o ouro, ganham de acordo com a quantidade de metal extra\u00eddo. Em um solo bem carregado, como o do M\u00e9dio San Juan, um \u201cdrag\u00e3o\u201d extrai entre 20 e 30 gramas de ouro por dia. No mercado, uma grama de 18 quilates vale cerca de 170.000 pesos, uns 40 d\u00f3lares. <strong>As contas dizem que os donos embolsam mais de mil d\u00f3lares por dia. E todos pagam ao ELN uma taxa que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de estimar, mas que pode chegar a 10 por cento da produ\u00e7\u00e3o. Extraoficialmente, algumas pessoas da comunidade me disseram que esta guerrilha tamb\u00e9m possui 50% de uma das tr\u00eas dragas de San Miguel.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Misgley Murillo, uma lideran\u00e7a local de 43 anos, nos levou por uma estrada de pedra britada at\u00e9 o ponto de extra\u00e7\u00e3o. Eu vi a draga em pleno funcionamento: em uma ponta engolia terra e na outra expelia os res\u00edduos; no interior armazena o precipitado com ouro e platina. Tanto a montagem &#8211; uma m\u00e1quina que lava o ouro &#8211; como este animal voraz s\u00e3o propriedade da comunidade. <strong>Misgley me explicou que eles come\u00e7aram a trabalhar com essa maquinaria quando as tecnologias ancestrais \u2013 a alavanca e o almocafre &#8211; deixaram de servir porque o ouro j\u00e1 estava a muita profundidade.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>esse modelo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um consumo sustent\u00e1vel dos recursos naturais. Eles est\u00e3o engolindo seu pr\u00f3prio solo<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>A degrada\u00e7\u00e3o do solo \u00e9 deprimente: em volta do drag\u00e3o se erguem colinas de terra mo\u00edda e cascalho que antes pertenciam \u00e0 floresta. <\/strong>As lideran\u00e7as locais e os habitantes de San Miguel, em geral, sabem disso: esse modelo de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um consumo sustent\u00e1vel dos recursos naturais. Eles est\u00e3o engolindo seu pr\u00f3prio solo. No fundo, esse modelo contradiz a miss\u00e3o dos conselhos comunit\u00e1rios que \u00e9 defender o territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/8.-Cra\u0301ter.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5249\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210924\/8.-Cra%CC%81ter.jpg 640w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210924\/8.-Cra%CC%81ter-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210924\/8.-Cra%CC%81ter-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210924\/8.-Cra%CC%81ter-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210924\/8.-Cra%CC%81ter-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><figcaption>Cratera aberta pela draga comunit\u00e1ria em San Miguel. Foto: Juan Miguel \u00c1lvarez.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Talvez isto explique por que Misgley e outra lideran\u00e7as locais tenham tentado acrescentar qualidades em favor do garimpo, dizendo que <strong>\u00e9 uma fonte est\u00e1vel de emprego em uma regi\u00e3o onde mais de 90 por cento das pessoas n\u00e3o continuam o ensino superior e onde a maioria das pessoas n\u00e3o sabem ler ou escrever.<\/strong> E mesmo que pudessem terminar uma gradua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o poderiam ser contratados como profissionais em San Miguel porque n\u00e3o h\u00e1 nada para isso. Tamb\u00e9m me disseram que eles doam seus lucros ao Conselho Comunit\u00e1rio Local e para um asilo de idosos. Chava me falou do preenchimento, uma estrat\u00e9gia que evita que o solo dragado se torne uma cratera do deserto. Eles despejam o material processado nos buracos da escava\u00e7\u00e3o, o aplanam e plantam novas \u00e1rvores. <strong>N\u00e3o fica nada igual ao que era antes esse ecossistema, mas a comunidade diz que, pelo menos, est\u00e1 tentando recuperar um pouco a vegeta\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Eu n\u00e3o vou passar por isso porque j\u00e1 sou velha, mas aqui sabemos que, no futuro, vamos ter que levar a cidade mais para dentro, para poder continuarmos extraindo o ouro da margem do rio&#8221;<\/p><cite>Hermencia Marmolejo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Contr\u00e1rio \u00e0s comunidades dedicadas \u00e0 planta\u00e7\u00e3o da coca que me manifestaram sua inten\u00e7\u00e3o de abandonarem as planta\u00e7\u00f5es, as comunidades que praticam o garimpo com dragas e retroescavadeiras n\u00e3o parecem estar dispostas a fazer o mesmo. Elas n\u00e3o consideram sua atividade um grande problema. Outra lideran\u00e7a chamada Hermencia Marmolejo, conhecida como \u201cChocoana, a popular\u201d, me disse o seguinte: &#8220;Eu n\u00e3o vou passar por isso porque j\u00e1 sou velha, mas aqui sabemos que, no futuro, vamos ter que levar a cidade mais para dentro, para poder continuarmos extraindo o ouro da margem do rio&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Istmina ferve com o calor da floresta. \u00c0 meia tarde, quando o sol j\u00e1 est\u00e1 se pondo, a temperatura chega a quase 28 graus. Este \u00e9 o maior munic\u00edpio que tem no curso do rio San Juan e sua hist\u00f3ria est\u00e1 ligada \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do ouro do final do s\u00e9culo XIX. Seu nome \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o que enfatiza neste fato: \u201cIst\u201d porque este povoado \u00e9 um istmo sobre o rio San Juan e \u201cmina\u201d por raz\u00f5es \u00f3bvias.<\/p>\n\n\n\n<p>O Acadesan tem aqui uma sede auxiliar; a principal est\u00e1 em Buenaventura. E nas \u00faltimas ocasi\u00f5es em que houve deslocamentos em massa de comunidades de camponeses e de ind\u00edgenas perto de Noanam\u00e1, devido a confrontos entre a guerrilha e o Ex\u00e9rcito e bombardeios da For\u00e7a A\u00e9rea, Chava tem recebido esses deslocados nessa casa e tem procurado alimentos e suprimentos para eles sobreviverem.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da despedida, bebemos uma cerveja em um terra\u00e7o sobre o rio. Ela e seus colaboradores v\u00e3o passar esta noite aqui e amanh\u00e3 bem cedo v\u00e3o navegar de volta a suas comunidades, mas desta vez com a corrente a seu favor. Ainda tenho duas perguntas para lhe fazer. Uma tem a ver com sua condi\u00e7\u00e3o de mulher e de lideran\u00e7a. Como tem sido ocupar essa posi\u00e7\u00e3o? Quantas cr\u00edticas voc\u00ea tem recebido somente pelo fato de ser uma mulher e ter que se encarregar de guiar povoados cheios de problemas que parecem n\u00e3o ter solu\u00e7\u00e3o? Chava sorri antes de responder.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMG_9285.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5254\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210922\/IMG_9285.jpg 640w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210922\/IMG_9285-300x225.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210922\/IMG_9285-560x420.jpg 560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210922\/IMG_9285-80x60.jpg 80w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210922\/IMG_9285-150x113.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Somos n\u00f3s que damos \u00e0 luz crian\u00e7as e temos essa for\u00e7a no sangue, como mulheres negras, como mulheres da costa&#8221;.<\/p><cite>Chava<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Essa \u00e9 uma pergunta que sempre me fazem -diz ela. Nesta cultura h\u00e1 muito machismo masculino, mas n\u00e3o s\u00f3 dos homens. \u00c0s vezes s\u00e3o as mesmas mulheres as que me dizem: voc\u00ea n\u00e3o pode, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 capaz, e s\u00e3o os homens os que me d\u00e3o apoio: fa\u00e7a isso, v\u00e1 em frente. H\u00e1 organiza\u00e7\u00f5es locais que me disseram que eu n\u00e3o sou capaz, que eles acreditam que eu sou do sexo fraco. Por\u00e9m, as mulheres n\u00e3o s\u00e3o o sexo mais fraco. Somos n\u00f3s que damos \u00e0 luz crian\u00e7as e temos essa for\u00e7a no sangue, como mulheres negras, como mulheres da costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Chava me conta que, antes de ser eleita pela primeira vez, <strong>alguns dos participantes se levantaram da cadeira e disseram em voz alta que ela n\u00e3o podia ser a representante legal do Acadesan, por ser uma mulher costeira, bonita e jovem. &#8220;Pode ser que ela se apaixone&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-J\u00e1 tenho quase onze anos no Conselho de Administra\u00e7\u00e3o, estou separada h\u00e1 dez anos e n\u00e3o estive em um relacionamento amoroso desde ent\u00e3o. Fui reeleita em setembro de 2019 e demonstrei a essa pessoa e \u00e0 comunidade que eu podia. Demonstrei que ser mulher, jovem e bonita n\u00e3o \u00e9 um impedimento para liderar estes processos. Ningu\u00e9m veio aqui para se apaixonar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A amea\u00e7a que pode cair sobre ela vem do Estado, de uma a\u00e7\u00e3o paramilitar ou de alguma coisa desse tipo&#8221;<\/p><cite>Jes\u00fas Fl\u00f3rez<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A outra pergunta eu j\u00e1 fiz em outra ocasi\u00e3o, mas sem \u00eanfase suficiente. Est\u00e1vamos no barco com o sol de frente e t\u00ednhamos acabado de sair de Cucurrup\u00ed. J\u00e1 t\u00ednhamos passado por lugares devastados pela guerra, como Togorom\u00e1 e Carr\u00e1, e outros sendo v\u00edtimas do tr\u00e1fico de drogas e da guerrilha, como Corriente Palo. Ela j\u00e1 me tinha contado sobre o momento do confronto com o comandante fariano, conhecido como \u201cMamajuana\u201d. Ent\u00e3o pensei que era urgente lhe perguntar se ela estava amea\u00e7ada de morte. Ela me respondeu com tanta serenidade que n\u00e3o me deu uma chance para poder reformular a pergunta. J\u00e1 em Noanam\u00e1, aquela pergunta voltou para minha mente quando vi Irm\u00e3 Carmen preocupada a advertindo: &#8220;Se cuida, mulher de ferro, porque voc\u00ea pode morrer a qualquer momento&#8221;. Chava a abra\u00e7ou e disse: &#8220;Sim. senhora, estamos todos aqui at\u00e9 qualquer dia, mas eu vou com Deus na minha frente e que aconte\u00e7a o que Ele quiser&#8221;. E ontem \u00e0 noite, assim que coloquei os p\u00e9s na cama do hotel em Sip\u00ed, li no meu celular que at\u00e9 este momento de 2020, em que ainda n\u00e3o tinha chegado a primeira quinzena de janeiro, a Defensoria do Povo tinha mais de 550 lideran\u00e7as sociais assassinadas em todo o pa\u00eds ap\u00f3s a assinatura do acordo de paz no final de 2016. A Indepaz, uma ONG que se dedica a quantificar essa viol\u00eancia, diz que j\u00e1 v\u00e3o 750. De qualquer jeito, com qualquer uma das duas cifras, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 horrorosa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1280\" height=\"720\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/9.-Chava-navega-el-San-Juan.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5252\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan.jpg 1280w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-300x169.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-768x432.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-747x420.jpg 747w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-150x84.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-696x392.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210923\/9.-Chava-navega-el-San-Juan-1068x601.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px\" \/><figcaption>Chava navega o rio San Juan. Foto: Hernando S\u00e1nchez<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No seu escrit\u00f3rio em Cali, o antrop\u00f3logo Jes\u00fas Fl\u00f3rez tinha me dado sua opini\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a esta quest\u00e3o. Ele conhece o Choc\u00f3 como poucos e tamb\u00e9m Chava h\u00e1 muitos anos e, pelo seu trabalho acad\u00eamico, ele entende perfeitamente o perigo em que se encontram as lideran\u00e7as sociais no pa\u00eds. Ele disse que, devido ao n\u00famero de atores armados no territ\u00f3rio, o Choc\u00f3 \u00e9 um dos lugares mais perigosos para o trabalho de uma lideran\u00e7a. No entanto, ele qualificou a situa\u00e7\u00e3o: <strong>&#8220;Chava n\u00e3o faz seu trabalho para ganhar dinheiro e isso lhe d\u00e1 uma prote\u00e7\u00e3o extra. Ela est\u00e1 l\u00e1 porque quer ajudar a comunidade e os atores armados no territ\u00f3rio captam tudo isso. Se dependesse da guerrilha, eles j\u00e1 a teriam assassinado.<\/strong> A amea\u00e7a que pode cair sobre ela vem do Estado, de uma a\u00e7\u00e3o paramilitar ou de alguma coisa desse tipo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-Voc\u00ea est\u00e1 amea\u00e7ada de morte? -perguntei para Chava agora pela segunda vez, sentados neste terra\u00e7o junto do rio, tomando um gole de cerveja e temendo que ela dissesse sim. <strong>N\u00e3o \u00e9 preciso ser m\u00e9dium para prever que seu assassinato, al\u00e9m do valor intr\u00ednseco de sua vida, prejudicaria seriamente o tecido social das comunidades do rio San Juan e destruiria a pouca confian\u00e7a que ela lhes ensinou a ter no Estado.\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">-N\u00e3o ou, pelo menos, n\u00e3o que eu saiba -diz ela com a mesma calma da primeira vez. Se algu\u00e9m estiver planejando minha morte, essa pessoa n\u00e3o me avisou. Estar\u00e1 planejando isso sem eu saber.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chava lleva m\u00e1s de 20 a\u00f1os como l\u00edder de las comunidades negras del sur del Choc\u00f3. Su lucha ha sido la defensa de la vida y del territorio en el r\u00edo San Juan. Aunque no est\u00e1 amenazada de muerte, su vida es un constante riesgo. A diario debe moverse entre zonas asoladas por grupos armados y explotadas por miner\u00eda ilegal, cultivos de coca y deforestaci\u00f3n.<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":811,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2,44],"tags":[370,95,369,296,130,261,47,96],"coauthors":[77],"class_list":{"0":"post-809","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-colombia","8":"category-reportajes","9":"tag-ausencia-del-estado","10":"tag-coca","11":"tag-contaminacion","12":"tag-deforestacion","13":"tag-desplazamiento","14":"tag-eln","15":"tag-fase-ii","16":"tag-mineria"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Juan Miguel \u00c1lvarez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"194 minutos\" \/>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/","twitter_misc":{"Written by":"Juan Miguel \u00c1lvarez","Est. reading time":"194 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/"},"author":{"name":"Juan Miguel \u00c1lvarez","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/c5022931290306f987a288704a4f7308"},"headline":"Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar","datePublished":"2020-04-22T01:05:00+00:00","dateModified":"2021-04-30T07:04:21+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/"},"wordCount":38868,"commentCount":16,"publisher":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212350\/1.-Elizabeth-Moreno-Barco.jpg","keywords":["ausencia del estado","coca","contaminaci\u00f3n","deforestaci\u00f3n","desplazamiento","ELN","Fase II","miner\u00eda"],"articleSection":["Colombia","Reportajes"],"inLanguage":"pt","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/","name":"Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar","isPartOf":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212350\/1.-Elizabeth-Moreno-Barco.jpg","datePublished":"2020-04-22T01:05:00+00:00","dateModified":"2021-04-30T07:04:21+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#primaryimage","url":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212350\/1.-Elizabeth-Moreno-Barco.jpg","contentUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212350\/1.-Elizabeth-Moreno-Barco.jpg","width":1280,"height":640},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/choco-chava-no-vino-a-enamorarse\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Choc\u00f3: Chava n\u00e3o veio para se apaixonar"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#website","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/","name":"Tierra de Resistentes | Consejo de Redacci\u00f3n","description":"Base de datos de defensores ambientales amenazados y asesinados en Latinoam\u00e9rica. Historias, fotograf\u00edas, videos y gr\u00e1ficos para entender la situaci\u00f3n de los resistentes.","publisher":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization","name":"Tierra de resistentes","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LogoEspanolAjustado-1.png","contentUrl":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LogoEspanolAjustado-1.png","width":1568,"height":944,"caption":"Tierra de resistentes"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/logo\/image\/"}},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/c5022931290306f987a288704a4f7308","name":"Juan Miguel \u00c1lvarez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/image\/a8542d34aae4cb8efcc47159c6cdc38b","url":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/19212034\/Juan-Miguel-Alvarez-150x150.jpg","contentUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/19212034\/Juan-Miguel-Alvarez-150x150.jpg","caption":"Juan Miguel \u00c1lvarez"},"description":"Reportero freelancer en temas de cultura y derechos humanos. Art\u00edculos suyos han sido publicados en los principales medios escritos de su pa\u00eds. Es autor de varios libros, el m\u00e1s reciente se llama Verde tierra calcinada (2018).","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/author\/juan-miguel\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=809"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/809\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=809"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}