{"id":657,"date":"2019-04-23T17:32:00","date_gmt":"2019-04-23T17:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/tierra.jerrejerre.com\/es\/?p=657"},"modified":"2021-05-01T21:43:13","modified_gmt":"2021-05-01T21:43:13","slug":"sin-territorio-no-somos-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2019\/04\/23\/sin-territorio-no-somos-nada\/","title":{"rendered":"&#8220;Sem territ\u00f3rio, n\u00e3o somos nada&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-small-font-size\" style=\"color:#0f0f0f;max-width:830px;margin-top:0px;margin-bottom:68px\"><em><strong>Aqueles que defendem a Serra Tarahumara, uma das \u00e1reas florestais mais importantes do M\u00e9xico, enfrentam o tr\u00e1fico de drogas, caciques locais, a imposi\u00e7\u00e3o de projetos extrativistas e a indiferen\u00e7a do governo. Estes defensores s\u00e3o, em sua maioria, ind\u00edgenas cuja identidade foi forjada entre montanhas, ravinas, pinheiros e nascentes. Sem esse territ\u00f3rio, dizem eles, eles n\u00e3o s\u00e3o nada. \u00c9 por isso que eles o protegem. \u00c9 por isso que eles se recusam a permitir que suas florestas sejam derrubadas e suas nascentes sequem. \u00c9 por isso que eles enfrentam aqueles que procuram cortar suas ra\u00edzes.<\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Quando algu\u00e9m da fam\u00edlia morre, os <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">ind\u00edgenas rar\u00e1muri<\/span> de Coloradas de la Virgen t\u00eam uma tradi\u00e7\u00e3o: oito dias depois eles bebem <em>tesg\u00fcino<\/em>, uma bebida tradicional de milho fermentado, re\u00fanem as coisas que o falecido gostava, o que plantava, tudo o que o identificava, e d\u00e3o a ele de forma simb\u00f3lica. Eles falam com ele e o aconselham. Dizem-lhe para n\u00e3o voltar, que ele j\u00e1 est\u00e1 com as pessoas que morreram. Que ele deve ficar l\u00e1. Que ele deve descansar.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Isso tem que ser feito tr\u00eas vezes se for um homem. Se for uma mulher, \u00e9 feito quatro vezes \u2014 explica um m\u00e9dico tradicional rar\u00e1muri, defensor das florestas de seu territ\u00f3rio e amigo de Juli\u00e1n Carrillo Mart\u00ednez, tamb\u00e9m rar\u00e1muri, que foi <a href=\"https:\/\/www.amnesty.org\/es\/latest\/news\/2018\/10\/mexico-asesinato-de-lider-raramuri-demuestra-falta-de-proteccion-estatal\/\">morto<\/a> em 24 de outubro de 2018 em Coloradas de la Virgen, uma comunidade da Serra Tarahumara localizada no estado mexicano de Chihuahua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Juli\u00e1n foi morto e, no dia seguinte, sua fam\u00edlia deixou Coloradas de la Virgen. <\/strong>Os assassinos poderiam voltar para mat\u00e1-los tamb\u00e9m. Eles deixaram sua casa, seus pertences e seus animais. Eles n\u00e3o os deixaram realizar seus costumes: Juli\u00e1n n\u00e3o teve um adeus, como dita a tradi\u00e7\u00e3o de sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&#8220;Ele sabia que eles queriam mat\u00e1-lo&#8221;<\/strong>, diz em rar\u00e1muri Mar\u00eda, esposa de Juli\u00e1n. O m\u00e9dico tradicional traduz suas palavras para o espanhol: Ele disse que quando algo acontecesse com ele, n\u00e3o abandon\u00e1ssemos a casa. Se part\u00edssemos, n\u00e3o poder\u00edamos voltar para a terra. Mas tivemos que partir.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria sofreu a morte de sua fam\u00edlia. Em fevereiro de 2016, seu filho, V\u00edctor Carrillo, foi assassinado. Em dezembro daquele ano, a sua casa foi incendiada. Em 2017 dois de seus sobrinhos foram mortos, e em julho de 2018 seu genro. E agora ela tamb\u00e9m est\u00e1 sem Juli\u00e1n, longe de sua casa e deslocada com seus quatro filhos, duas noras e quatro netos em uma cidade do norte do pa\u00eds. As amea\u00e7as contra a comunidade de Coloradas de la Virgen &#8211; incluindo Juli\u00e1n e sua fam\u00edlia &#8211; j\u00e1 acontecem h\u00e1 anos. <strong>Elas aumentaram ainda mais quando o povo ind\u00edgena come\u00e7ou uma luta legal para impedir o corte de \u00e1rvores que cresciam no territ\u00f3rio <\/strong>onde moraram seus pais, av\u00f3s e pais de seus av\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full td-caption-align-left\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2904\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212127\/JULIAN-CARRILLO-compressed-2-compressed-1-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>FOTO DE JULI\u00c1N CARRILLO, MORTO EM OUTUBRO DE 2018, DA SERRA TARAHUMARA, ESTADO DE CHIHUAHUA, M\u00c9XICO, 4 DE FEVEREIRO DE 2019. (GINNETTE RIQUELME)<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando ele foi morto, Juli\u00e1n era o presidente de bens comuns. Seu papel era cuidar de tudo que pertencesse \u00e0 comunidade: \u00e1rvores, \u00e1gua e territ\u00f3rio.Semanas antes de seu assassinato, ele soube que o governo mexicano havia outorgado concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o em Coloradas de la Virgen. Uma dessas concess\u00f5es foi concedida a <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Mario Humberto Ayub Touche<\/span>, um importante empres\u00e1rio de Chihuahua, e a dois filhos de Artemio Fontes Lugo, um cacique local que j\u00e1 muito tinha sido denunciado pelos pr\u00f3prios ind\u00edgenas como respons\u00e1vel pelo corte de sua floresta, por fazer parte de grupos de tr\u00e1fico de drogas na regi\u00e3o, e pela desapropria\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio. Juli\u00e1n foi assassinado logo ap\u00f3s ele e seus camaradas<strong> na defesa das florestas de Coloradas de la Virgen terem come\u00e7ado a denunciar a exist\u00eancia de concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o para explora\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o mineiros em sua comunidade<\/strong>. Coloradas de la Virgen \u00e9 apenas uma das v\u00e1rias comunidades da Serra Tarahumara defendendo seus recursos naturais e territ\u00f3rio de caciques locais, concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o, projetos tur\u00edsticos, explora\u00e7\u00e3o madeireira ilegal e tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Defesa de um territ\u00f3rio ancestral<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No sul do estado de Chihuahua e da Serra Tarahumara, no munic\u00edpio de Guadalupe e Calvo, est\u00e1 Coloradas de la Virgen: <strong>um territ\u00f3rio de mais de 49.500 hectares compartilhado pelos ind\u00edgenas rar\u00e1muri e, em menor extens\u00e3o, \u00f3dami, que vivem dispersos em cerca de 50 pequenos barracos. <\/strong>Foi nessa terra que nasceu Juli\u00e1n. Ele e seus companheiros na defesa da floresta herdaram uma luta que seus pais iniciaram anos atr\u00e1s. <strong>Desde 1934, os ind\u00edgenas de Coloradas de la Virgen v\u00eam exigindo, sem sucesso, o reconhecimento de seu territ\u00f3rio.<\/strong> Em 1953, quando v\u00e1rios dos primeiros povos ind\u00edgenas que pressionaram pelo reconhecimento de suas terras j\u00e1 tinham morrido, o governo mexicano registrou a parte mais florestada como um <em>ejido<\/em> (uma propriedade rural de uso coletivo). O resto, especialmente a zona da ravina, ficou como uma comunidade agr\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;E depois eles n\u00e3o quiseram partir. Eles come\u00e7aram a plantar papoula e maconha e a derrubar \u00e1rvores&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em 1992, foi realizada uma assembleia para purgar a lista das pessoas pertencentes ao ejido, j\u00e1 que muitos tinham morrido. Juli\u00e1n e outros moradores de Coloradas denunciaram v\u00e1rias irregularidades durante aquela assembleia: <strong>os acordos foram assinados com assinaturas e &#8220;impress\u00f5es digitais&#8221; de ind\u00edgenas que j\u00e1 estavam mortos naquela \u00e9poca<\/strong>. E 78 novos membros do ejido foram inclu\u00eddos, a maioria deles n\u00e3o ind\u00edgenas, entre eles Artemio Fontes Lugo, membros de sua fam\u00edlia e trabalhadores. Artemio Fontes Lugo se estabeleceu em Coloradas de la Virgen na d\u00e9cada de 1970. &#8220;Ele chegou com sua fam\u00edlia&#8221; contam os idosos da comunidade, &#8220;as pessoas daquela \u00e9poca o deixaram ficar&#8221;&#8230; &#8220;E depois eles n\u00e3o quiseram partir. Eles come\u00e7aram a plantar papoula e maconha e a derrubar \u00e1rvores&#8221;. Os ind\u00edgenas denunciaram os abusos da fam\u00edlia Fontes, mas isso pouco importou para as autoridades ambientais mexicanas que, em abril de 2007, concederam ao ejido &#8211; sob o controle de Artemio Fontes Lugo &#8211; licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o florestal para explorar a floresta Coloradas de la Virgen. <strong>Foi ent\u00e3o que os povos ind\u00edgenas rar\u00e1muri e \u00f3dami, orientados pela organiza\u00e7\u00e3o Alian\u00e7a Serra M\u00e3e,<\/strong> <strong>decidiram empreender uma luta legal<\/strong> para solicitar o cancelamento das licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o madeireira e para o reconhecimento de seu direito ao territ\u00f3rio que ocupam h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Papoulas ao inv\u00e9s de \u00e1rvores<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1679\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/SIERRA-TARAHUMARA-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2892\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-scaled.jpg 2560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-300x197.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-768x504.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-1536x1007.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212130\/SIERRA-TARAHUMARA-2048x1343.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>PELO MENOS 15 DEFENSORES FORAM MORTOS ENTRE 2009 E 2018 POR DEFENDEREM ESTE TERRIT\u00d3RIO. CR\u00c9DITO: GINNETTE RIQUELME.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Chihuahua, na parte norte do M\u00e9xico, \u00e9 o estado <strong>com uma das \u00e1reas florestais mais importantes do pa\u00eds: 16,5 milh\u00f5es de hectares<\/strong>, dos quais 7,6 milh\u00f5es s\u00e3o florestas de con\u00edferas e florestas baixas de folha caduca, ecossistemas concentrados nas montanhas, ravinas e vales que formam Tarahumara. Nas nascentes nesta serra emerge e \u00e9 capturada grande parte da \u00e1gua que est\u00e1 dispersa pela \u00e1rea semides\u00e9rtica de Chihuahua e que alimenta muitas das \u00e1reas agr\u00edcolas de Sinaloa, diz o pesquisador Salvador Anta Fonseca, do Conselho Civil Mexicano para a Silvicultura Sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m uma das regi\u00f5es com mais danos a sua cobertura de \u00e1rvores. <strong>De 2001 a 2017, ela perdeu 19.100 hectares, de acordo com a <\/strong><a href=\"https:\/\/www.globalforestwatch.org\/map\/country\/MEX\/6?mainMap=eyJzaG93QW5hbHlzaXMiOnRydWV9&#038;map=eyJ6b29tIjo3LjE4MjE4MjY5MTkwNTIzLCJjZW50ZXIiOnsibGF0IjoyOS43ODE3MDk1MzYxNzIyNTQsImxuZyI6LTEwOC45MTU1MzA5NTU3NDMzNH0sImNhbkJvdW5kIjpmYWxzZSwiYmJveCI6bnVsbH0%3D&#038;modalMeta=eyJtZXRha2V5IjoiIiwibWV0YVdoaXRlbGlzdCI6W10sInRhYmxlV2hpdGVsaXN0IjpbXSwiY2l0YXRpb24iOiIifQ%3D%3D\"><strong>iniciativa<\/strong><\/a><strong> de monitoramento do Global Forest Watch.<\/strong> Os anos em que foram registrados os maiores danos foram 2012 (quase 4.500 hectares) e 2017 (cerca de 2.000 hectares).<\/p>\n\n\n\n<p>Guadalupe e Calvo, onde est\u00e1 localizado Coloradas de la Virgen, \u00e9 um dos munic\u00edpios com mais <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">perda de \u00e1rvores<\/span>: de 2001 a 2017, foram pelo menos <a href=\"https:\/\/www.globalforestwatch.org\/map\/country\/MEX\/6\/28?mainMap=eyJzaG93QW5hbHlzaXMiOnRydWV9&#038;map=eyJ6b29tIjo4Ljc1NzQ4MDU0Njk2NTY0MiwiY2VudGVyIjp7ImxhdCI6MjYuMTUzNTY5MTI1MzA5MDg3LCJsbmciOi0xMDcuMTUwNTEyNjk1MjY1NTN9LCJjYW5Cb3VuZCI6dHJ1ZSwiYmJveCI6Wy0xMDcuODA2NDg4MDM3MTA5LDI1LjU4NzEwMDk4MjY2NiwtMTA2LjQ5NDUzNzM1MzUxNiwyNi43MTczMDA0MTUwMzkxXX0%3D&#038;menu=eyJkYXRhc2V0Q2F0ZWdvcnkiOiJmb3Jlc3RDaGFuZ2UiLCJtZW51U2VjdGlvbiI6IiJ9&#038;modalMeta=eyJtZXRha2V5IjoiIiwibWV0YVdoaXRlbGlzdCI6W10sInRhYmxlV2hpdGVsaXN0IjpbXSwiY2l0YXRpb24iOiIifQ%3D%3D\">3.014 hectares<\/a>, de acordo com dados da Global Forest Watch. Os anos mais cr\u00edticos foram 2011, 2016 e 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que cresceram em Coloradas de la Virgen lembram-se que o desmatamento come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1980. <strong>A partir da\u00ed, vieram pessoas de fora da comunidade, escolheram o lugar que gostavam de plantar maconha e papoula, e come\u00e7aram a cortar<\/strong>. \u00c0s vezes, eles ateiam fogo no lugar que destru\u00edram. Mas na maioria das vezes eles pegam a madeira em toras e a vendem em serrarias na cidade de Parral.<\/p>\n\n\n\n<p>O que costumava acontecer apenas em algumas comunidades come\u00e7ou a se espalhar para v\u00e1rias regi\u00f5es da Tarahumara, especialmente desde 2008, quando o governo federal do ent\u00e3o presidente Felipe Calder\u00f3n <a href=\"https:\/\/www.nexos.com.mx\/?p=31818\">lan\u00e7ou<\/a> o que ele chamou de &#8220;guerra&#8221; contra o tr\u00e1fico de drogas. A partir daquele momento, <strong>a regi\u00e3o montanhosa de Chihuahua tornou-se uma \u00e1rea disputada por diferentes grupos que, al\u00e9m de buscar o controle sobre o cultivo da papoula, tamb\u00e9m se dedicaram a desapropriar as comunidades de seu territ\u00f3rio e os recursos naturais<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, cinco munic\u00edpios da regi\u00e3o serrana onde se cultivavam drogas foram identificados. Hoje o n\u00famero \u00e9 20, de acordo com o <a href=\"http:\/\/kwira.org\/wp-content\/uploads\/Diagnostico-integrado-Contec.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> Diagn\u00f3stico e Propostas sobre Viol\u00eancia na Serra Tarahumara que a associa\u00e7\u00e3o civil Consultoria T\u00e9cnica Comunit\u00e1ria (Contec) publicou em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>O documento tamb\u00e9m observa que na regi\u00e3o de Tarahumara, o cultivo da maconha parou em 2012 &#8211; quando seu consumo come\u00e7ou a ser legalizado em algumas partes dos Estados Unidos &#8211; mas o cultivo da papoula aumentou.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>No M\u00e9xico, a \u00e1rea de cultivo de papoula aumentou de 25.200 para 30.600 hectares de 2016 a 2017<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No M\u00e9xico, a \u00e1rea de cultivo de papoula aumentou de 25.200 para 30.600 hectares de 2016 a 2017, de acordo com o <a href=\"https:\/\/www.unodc.org\/documents\/crop-monitoring\/Mexico\/Mexico-Monitoreo-Cultivos-Amapola-2015-2017.pdf\">monitoramento<\/a> conduzido pelo Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e o governo mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse relat\u00f3rio observa que a \u00e1rea conhecida como &#8220;Tri\u00e2ngulo Dourado&#8221;, onde os estados de Sinaloa, Durango e Chihuahua (a parte sul da serra Tarahumara) compartilham territ\u00f3rio, est\u00e1 entre os principais produtores de papoula do pa\u00eds.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O m\u00e9dico tradicional &#8211; que recebeu amea\u00e7as e, portanto, pede que seu nome n\u00e3o seja publicado &#8211; explica como sua comunidade come\u00e7ou a se ressentir com a perda de sua floresta:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014<strong>Antes de come\u00e7arem o desmatamento todos os anos havia boa \u00e1gua, havia muita neve, havia vida para n\u00f3s: uma boa colheita, chovia muito, os c\u00f3rregos n\u00e3o secavam<\/strong>. Se a madeira se esgotar, as nascentes no campo secam. At\u00e9 mesmo os animais selvagens desaparecem. Tudo desaparece. E se h\u00e1 madeira, tudo vive.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Alimentar as nascentes<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As mulheres rar\u00e1muri se re\u00fanem na escola Bahuinocachi para falar sobre o que elas suportaram nos \u00faltimos meses. Para chegar aqui, algumas delas caminharam um pouco mais de meia hora. <strong>No caminho, elas passaram pelos restos do que fazia parte de sua floresta. Agora existem apenas galhos e tocos dispersos que ainda se agarram \u00e0 terra<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Somente as mulheres, com suas cabe\u00e7as cobertas de len\u00e7os e seus corpos envoltos em <em>rebozos<\/em> (xales), participaram desta reuni\u00e3o. Os homens foram trabalhar no campo ou ficaram em casa. Elas s\u00e3o as que ousam contar, em ordem, sem tirar a palavra uma da outra:<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros madeireiros chegaram a esta regi\u00e3o do munic\u00edpio de Bocoyna em fevereiro de 2018. <strong>Eles desmatavam durante o dia, mas tamb\u00e9m \u00e0 noite. Eles fizeram isso durante meses.<\/strong> De pouca utilidade foram as pedras que foram colocadas nas estradas para bloquear seu caminho ou as reclama\u00e7\u00f5es que foram feitas \u00e0s autoridades ambientais, estaduais ou federais. Os inspetores e a pol\u00edcia que vieram visitaram apenas algumas \u00e1reas, mas n\u00e3o entraram na zona mais afetada.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi somente em 26 de outubro de 2018 &#8211; quando 5.000 \u00e1rvores j\u00e1 haviam sido derrubadas, em uma \u00e1rea de 226 hectares &#8211; que <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">autoridades federais e estaduais<\/span> chegaram ao local, incluindo o governador do estado, Javier Corral. Eles <a href=\"http:\/\/www.cambio16.gob.mx\/spip.php?article2389\">prometeram<\/a> uma estrat\u00e9gia para combater o corte ilegal de madeira na Tarahumara. <strong>Nem mesmo15 se passaram quando os madeireiros voltaram.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres de Bahuinocachi falam em surdina, como se estivessem escondendo um segredo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Eles voltaram para cortar, est\u00e3o tirando tudo. Eles est\u00e3o deixando tudo desmatado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014E n\u00f3s n\u00e3o podemos fazer nada, porque eles est\u00e3o armados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Agora eles destru\u00edram tudo. E agora, vai demorar em crescer!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Vai levar 20 ou 30 anos para que os pequenos se tornem pinheiros grandes, com boas sementes. J\u00e1 estamos plantando pinheiros, mas vamos ver se eles crescem, porque n\u00e3o h\u00e1 pinheiros grandes para proteg\u00ea-los do frio. O gelo bate neles e assim eles secam mais facilmente.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres se lembram do que seus pais lhes diziam: as \u00e1rvores pr\u00f3ximas \u00e0s nascentes n\u00e3o devem ser cortadas, porque &#8220;a \u00e1gua vai embora&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De seus av\u00f3s aprenderam um ritual &#8220;mais antigo&#8221;: <strong>alimentam as nascentes com <\/strong><strong><em>pinole<\/em><\/strong><strong> (farinha tradicional feita de milho) e tortilhas.<\/strong> E quando o fazem, falam com a \u00e1gua que brota ali.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014Dizemos-lhe para n\u00e3o ir embora. N\u00f3s a alimentamos para que tenha for\u00e7a e n\u00e3o v\u00e1. Para que n\u00f3s, toda nossa fam\u00edlia, e tamb\u00e9m os animais, continuemos a tendo vida. Tudo isso n\u00f3s falamos para a nascente.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yIIQhmSWmPQ?feature=oembed\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando se pergunta \u00e0s mulheres se em rar\u00e1muri h\u00e1 uma palavra para nomear os morros ou montanhas que ficaram sem \u00e1rvores, elas se olham, falam em sua l\u00edngua, <strong>e depois de um tempo explicam que chamam esses lugares de &#8220;cerro careca&#8221;<\/strong>: um lugar onde n\u00e3o h\u00e1 mais nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que as mulheres de Bahuinocachi denunciassem o que estava acontecendo em suas terras, outras \u00e1reas do munic\u00edpio de Bocoyna j\u00e1 tinham sofrido o corte ilegal de madeira e inc\u00eandios provocados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em julho de 2017, comunidades ind\u00edgenas e ejidos dos munic\u00edpios de Bocoyna, Carich\u00ed e Guachochi, assim como organiza\u00e7\u00f5es civis, <a href=\"http:\/\/kwira.org\/pronunciamiento-bosque-tarahumara\/\">solicitaram<\/a> \u00e0s autoridades federais e estaduais que repensassem a pol\u00edtica florestal e &#8220;pusessem fim \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o da floresta da Serra Tarahumara&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles insistiram no que muitas comunidades t\u00eam denunciado: grupos ligados ao <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">crime organizado<\/span> cortam e depois ateiam fogo em grandes \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1342\" height=\"901\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/MUJERES-DESPLAZADAS-DE-COLORADAS-DE-LA-VIRGEN.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2893\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212129\/MUJERES-DESPLAZADAS-DE-COLORADAS-DE-LA-VIRGEN.jpg 1342w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212129\/MUJERES-DESPLAZADAS-DE-COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-300x201.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212129\/MUJERES-DESPLAZADAS-DE-COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1024x687.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212129\/MUJERES-DESPLAZADAS-DE-COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-768x516.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1342px) 100vw, 1342px\" \/><figcaption>DEZENAS DE FAM\u00cdLIAS IND\u00cdGENAS NA SERRA TARAHUMARA FORAM DESLOCADAS DE SUAS COMUNIDADES POR GRUPOS QUE CONTROLAM O CORTE ILEGAL DE \u00c1RVORES E O CULTIVO DE PAPOULAS. AS TR\u00caS MULHERES S\u00c3O DESLOCADAS DAS COLORADAS DE LA VIRGEN. CR\u00c9DITO: GINNETTE RIQUELME<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>O controle da madeira<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Durante um tempo, cerca de 480 fam\u00edlias rar\u00e1muri viviam em uma comunidade chamada El Manzano, no munic\u00edpio de Urique. Hoje em dia, o n\u00famero de habitantes \u00e9 incerto.<\/p>\n\n\n\n<p>El Manzano come\u00e7ou a mudar quando se tornou cada vez mais comum ver homens armados que n\u00e3o pertenciam \u00e0 comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, dizem aqueles que moravam l\u00e1, havia poucas fam\u00edlias dedicadas ao cultivo de maconha e papoula; eles podiam vender sua colheita ao maior lance. Por um quilo de \u00f3pio em forma de chiclete, por exemplo, <strong>eles poderiam receber at\u00e9 15.000 pesos (780 d\u00f3lares). Os &#8220;forasteiros&#8221; vinham, compravam e iam embora.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a partir de 2011, os &#8220;forasteiros&#8221; permaneceram e for\u00e7aram as pessoas a plantar, mas tamb\u00e9m a vender somente para eles. O pagamento por um quilo de goma de \u00f3pio caiu para 3.000 pesos (156 d\u00f3lares).<\/p>\n\n\n\n<p>Os mesmos homens que controlavam o cultivo da papoula &#8220;recrutavam&#8221; jovens da comunidade: colocaram-nos em seus caminh\u00f5es, sequestraram-nos por alguns dias, amea\u00e7aram-nos e for\u00e7aram-nos a &#8220;trabalhar&#8221; como jagun\u00e7os. Se algu\u00e9m recusava, eles o matavam. Foi o que fizeram com Benjam\u00edn S\u00e1nchez, que foi morto em 27 de fevereiro de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Benjam\u00edn foi for\u00e7ada a se mudar de El Manzano. Outras fam\u00edlias seguiram. O mesmo aconteceu com os habitantes de pelo menos dez comunidades do Ejido Rocoroyvo, no munic\u00edpio de Urique, segundo testemunhos de pessoas deslocadas que, por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, pedem para n\u00e3o publicar seus nomes, e que agora at\u00e9 t\u00eam <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">medidas cautelares<\/span> concedidas pela Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).<\/p>\n\n\n\n<p>O deslocamento da popula\u00e7\u00e3o aumentou quando o grupo que controla a \u00e1rea decidiu impor suas pr\u00f3prias regras, incluindo o gerenciamento da floresta:<strong> os habitantes do ejido s\u00f3 podem vender suas toras para eles. Os Ejidos que se recusam, n\u00e3o podem vender sua madeira.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;a explora\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o trouxe nenhum benef\u00edcio para as comunidades ind\u00edgenas, que n\u00e3o t\u00eam voz ou voto nas assembleias de ejido, mesmo vivendo dentro dos ejidos e em propriedade privada&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outros ejidos, como documentado por organiza\u00e7\u00f5es como a Contec, exigem documentos oficiais e com eles &#8220;legalizam&#8221; o corte ilegal de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>No <a href=\"http:\/\/kwira.org\/wp-content\/uploads\/Diagnostico-integrado-Contec.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> <em>Diagn\u00f3stico e Propostas sobre Viol\u00eancia na Serra Tarahumara<\/em>, observa-se que na \u00e1rea h\u00e1 &#8220;controle da atividade florestal pelo crime organizado, controle que vai desde o roubo de guias (documentos para certificar que uma \u00e1rvore foi cortada legalmente), corte ilegal e legal, transporte e comercializa\u00e7\u00e3o, ou mesmo uma proibi\u00e7\u00e3o regional por se opor \u00e0 venda a criminosos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio da Contec tamb\u00e9m <a href=\"http:\/\/kwira.org\/wp-content\/uploads\/Diagnostico-integrado-Contec.pdf\">destaca<\/a> que as <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">autoridades ambientais federais <\/span>concedem licen\u00e7as de corte em \u00e1reas habitadas por comunidades ind\u00edgenas, sem consulta pr\u00e9via a esta popula\u00e7\u00e3o, conforme exigido pela legisla\u00e7\u00e3o internacional e nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Exemplos disso s\u00e3o os casos de Coloradas de la Virgen, Chor\u00e9achi e Bosque de San El\u00edas Repechique, que tiveram de exigir em tribunal o cancelamento dessas autoriza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"700\" style=\"background-color:#0f0f0f;\" src=\"https:\/\/contralacorrupcion.mx\/tarahumara\/chihuahua_espanol.html\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Conforme o relat\u00f3rio da Contec, &#8220;a explora\u00e7\u00e3o florestal n\u00e3o trouxe nenhum benef\u00edcio para as comunidades ind\u00edgenas, que n\u00e3o t\u00eam voz ou voto nas assembleias de ejido, mesmo vivendo dentro dos ejidos e em propriedade privada&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo documento aponta que <strong>&#8220;o uso intensivo da floresta, atrav\u00e9s do corte legal e ilegal, tem afetado seriamente as condi\u00e7\u00f5es de vida das comunidades ind\u00edgenas<\/strong>, tanto no uso dom\u00e9stico da floresta como nas condi\u00e7\u00f5es ambientais que afetam as nascentes das quais tradicionalmente extraem seu suprimento de \u00e1gua&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014As \u00e1rvores significam muito para o territ\u00f3rio, porque \u00e9 o que mant\u00e9m a estabilidade das \u00e1guas. A \u00e1gua que cai das nuvens \u00e9 filtrada e \u00e9 a\u00ed que a \u00e1gua dura. Caso contr\u00e1rio, quando a madeira \u00e9 cortada sem responsabilidade, ocorre um desastre, a floresta \u00e9 queimada. A \u00e1gua chega e leva tudo, n\u00e3o h\u00e1 nada que a pare nem que a filtre. A \u00e1gua se foi. -diz Jos\u00e9 Trinidad Baldenegro, cujo pai e irm\u00e3o foram <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-38672959\">mortos<\/a> por defenderem essa estabilidade ambiental.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Terra, \u00e1gua e indiferen\u00e7a<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Mesa Blanca, El Cable e Mesa de las Espuelas, comunidades do munic\u00edpio de Madera habitadas por ind\u00edgenas o&#8217;oba (tamb\u00e9m conhecidos como pimas), foram das primeiras a experimentar o que mais tarde se espalhou por Tarahumara: a partir de 2008, essas comunidades come\u00e7aram a ficar sem ind\u00edgenas, depois que grupos ligados ao tr\u00e1fico de drogas aumentaram a viol\u00eancia contra eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas fam\u00edlias optaram por emprestar suas terras para plantar papoula, mas paulatinamente foram sendo despojadas de suas terras quando n\u00e3o concordaram em trabalhar para esses grupos, diz um dos l\u00edderes que est\u00e1 deslocado e que solicitou o anonimato para proteger sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ind\u00edgenas o&#8217;oba, explica o antrop\u00f3logo Horacio Almanza, est\u00e3o migrando de suas comunidades desde 2004, mas o fizeram devido \u00e0 falta de \u00e1gua, como aconteceu no caso da comunidade Las Espuelas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Outras comunidades o&#8217;oba nos munic\u00edpios de Madera e Tem\u00f3sachic tamb\u00e9m <\/strong><a href=\"https:\/\/www.ocmal.org\/contamina-con-cianuro-la-minera-dolores-el-rio-tutuaca\/\"><strong>denunciaram<\/strong><\/a><strong>, com v\u00e1rias autoridades, a contamina\u00e7\u00e3o do rio Tutuaca e outras fontes de \u00e1gua pela atividade da Mina Dolores, que pertence \u00e0 empresa canadense Pan American Silver Corp. que iniciou suas opera\u00e7\u00f5es em 2009 para extrair ouro e prata.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os warij\u00edos, outro dos grupos ind\u00edgenas que habitam Tarahumara, tamb\u00e9m sofreram despossess\u00e3o. Em 29 de mar\u00e7o de 2011, na comunidade de Jicam\u00f3rachi, no munic\u00edpio de Uruachi, chegaram homens usando uniformes de estilo militar, atirando em todos os lugares, queimando casas e ve\u00edculos. As fam\u00edlias fugiram para o mato. S\u00f3 dez dias depois \u00e9 que o ex\u00e9rcito foi para o local e se instalou na escola prim\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Das 122 fam\u00edlias mesti\u00e7as e warij\u00edo que viviam em Jicam\u00f3rachi, restaram apenas cerca de 40.<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecida como Guasachoque, mas tamb\u00e9m como Correcoyote, \u00e9 uma comunidade rar\u00e1muri no munic\u00edpio de Guadalupe e Calvo; Irineo Meza era origin\u00e1rio de l\u00e1.<strong> Ele foi <\/strong><a href=\"https:\/\/www.proceso.com.mx\/468756\/la-tarahumara-historias-vejaciones-e-impunidad\"><strong>morto<\/strong><\/a><strong> em 4 de dezembro de 2014. Ele tinha 23 anos de idade. Ele denunciou a despossess\u00e3o de terras em sua comunidade e se op\u00f4s \u00e0s minas na regi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>El Tule e Portugal, uma comunidade do munic\u00edpio de Guadalupe e Calvo, tamb\u00e9m tem ficado sem gente. <strong>Em <\/strong><a href=\"https:\/\/www.proceso.com.mx\/558514\/lider-ejidal-de-guadalupe-y-calvo-fue-asesinado-tras-recibir-amenazas\"><strong>outubro<\/strong><\/a><strong> de 2018, outro l\u00edder ind\u00edgena foi assassinado ali: Joaqu\u00edn D\u00edaz Morales, 74 anos de idade e chefe dos bombeiros<\/strong>. Antes disso, eles j\u00e1 tinham matado o comiss\u00e1rio eg\u00edpcio Crescencio D\u00edaz Vargas e amea\u00e7ado os moradores que decidiram processar uma fam\u00edlia de caciques locais por desapropria\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Eles enviam mensagens para voc\u00ea, que se voc\u00ea n\u00e3o quer problemas, voc\u00ea deve ir embora&#8230; Voc\u00ea n\u00e3o pode reclamar para a pol\u00edcia, para o judici\u00e1rio, para os guachos (militares), n\u00e3o h\u00e1 apoio. N\u00e3o h\u00e1 confian\u00e7a. Eles n\u00e3o acreditam em voc\u00ea, diz um dos deslocados de El Tule e Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Palavras semelhantes s\u00e3o ouvidas dos \u00f3damis deslocados da comunidade de Cord\u00f3n de la Cruz, em Coloradas de la Virgen. Eles apontam os <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">irm\u00e3os Cornelio e Aur\u00e9lio Alderete Arciniega<\/span> como respons\u00e1veis pelas amea\u00e7as e pela desapropria\u00e7\u00e3o de suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Querem se apropriar de 3.500 hectares de terra onde a comunidade costumava pastar seu gado, e agora n\u00e3o permitem a entrada nesse territ\u00f3rio. Estas s\u00e3o as terras que eles querem para a papoula. H\u00e1 cerca de 20 reclama\u00e7\u00f5es, mas apenas uma foi processada\u2014 diz Jos\u00e9 \u00c1ngel, membro de uma das fam\u00edlias \u00f3dami deslocadas.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/albumizr.com\/a\/wCfG\" allowfullscreen=\"\" width=\"100%\" height=\"500\"><\/iframe><\/figure>\n<span style=\" font-style: italic; font-size:9pt; font-height:80%;\">NESTAS IMAGENS: A ESCOLA JICAM\u00d3RACHI, ONDE O EX\u00c9RCITO FOI INSTALADO; OS VEST\u00cdGIOS DE VIOL\u00caNCIA QUE PODEM SER VISTOS AO LONGO DAS ESTRADAS DE TARAHUMARA; AS FAM\u00cdLIAS DESLOCADAS QUE AGORA VIVEM EM LUGARES COMO BABORIGAME; UMA DAS ASSEMBLEIAS EM CHOR\u00c9ACHI; E A FAM\u00cdLIA DE JULI\u00c1N CARRILLO QUE ESPERA VOLTAR \u00c0 SUA TERRA.\n<\/span>\n\n\n\n<p>Puerto Gallego, no munic\u00edpio de Urique, \u00e9 uma das cidades que comp\u00f5em o corredor tur\u00edstico em Tarahumara. \u00c9 tamb\u00e9m a rota do tr\u00e1fico de drogas. Fabian Carrillo, um l\u00edder rar\u00e1muri , era dessa comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele tinha pouco mais de 40 anos quando deixou sua casa em Puerto Gallego; homens armados o amea\u00e7aram. Eles queriam sua terra. Ele deixou sua comunidade, mas n\u00e3o abandonou a defesa do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Os homens do governo n\u00e3o fazem nada. Desde setembro (2014) ficou mais dif\u00edcil, porque eles vinham querendo tomar as terras. Ainda h\u00e1 invas\u00f5es, e muitos s\u00e3o obrigados a plantar drogas, disse Fabi\u00e1n em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fabi\u00e1n manteve um registro de todos os governadores ind\u00edgenas rar\u00e1muri, bem como dos problemas que eles enfrentaram por causa das amea\u00e7as \u00e0 floresta.<\/strong>&nbsp; Ele insistiu &#8211; mesmo no ex\u00edlio &#8211; que suas den\u00fancias fossem ouvidas nos tribunais e na Coordena\u00e7\u00e3o Estadual do Tarahumara.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele foi amea\u00e7ado v\u00e1rias vezes, mas ele entendeu a maneira como os criminosos agiam, sua forma de se organizar, e isso lhe permitiu viajar pela serra, evitando aqueles que n\u00e3o queriam que ele falasse. Ele morreu, como resultado da tuberculose, no final de setembro de 2017.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Guapalayna, uma regi\u00e3o tropical do munic\u00edpio de Urique, os povos ind\u00edgenas foram for\u00e7ados a se deslocar, j\u00e1 que naquela \u00e1rea eles n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o despojados de suas terras, como tamb\u00e9m est\u00e3o privados do controle de suas fontes de \u00e1gua: se quiserem usar a \u00e1gua, \u00e9 cobrada uma taxa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>se quiserem usar a \u00e1gua, \u00e9 cobrada uma taxa.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>Em quase toda a regi\u00e3o de Tarahumara, as comunidades conhecem os nomes e hist\u00f3rias dos caciques ou l\u00edderes dos grupos de traficantes de drogas que os amea\u00e7am e os tiram suas terras. <\/strong>V\u00e1rios desses nomes t\u00eam sido denunciados \u00e0s autoridades em todos os n\u00edveis. Nenhum deles foi levado \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Isela Gonzalez, diretora da Alian\u00e7a Serra M\u00e3e, assinala que o terror foi semeado para gradualmente desabitando o territ\u00f3rio dos homens e mulheres que lhe d\u00e3o sentido, &#8220;porque s\u00e3o os corpos que d\u00e3o for\u00e7a a esse territ\u00f3rio&#8221;. A inten\u00e7\u00e3o, insiste ela, \u00e9 &#8220;deixar este territ\u00f3rio deserto daqueles corpos que ali nasceram, daqueles corpos que sempre ali viveram, que foram formados como rar\u00e1muri e que mantiveram, apesar de todas as adversidades, a cultura rar\u00e1muri&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>A resist\u00eancia da serra<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os povos ind\u00edgenas de Tarahumara forjam sua resist\u00eancia f\u00edsica desde crian\u00e7as: caminham horas e horas pela serra &#8211; entre ravinas e encostas &#8211; para chegar a uma comunidade, para visitar um membro da fam\u00edlia, para rebanho de cabras, para ir \u00e0 escola (quando h\u00e1 professores) ou para ter acesso a um m\u00e9dico. <strong>Eles tamb\u00e9m percorreram um longo caminho para denunciar a despossess\u00e3o de suas \u00e1rvores e territ\u00f3rio. H\u00e1 v\u00e1rios anos, eles realizam caravanas em Chihuahua e fora do estado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma dessas caravanas chegou \u00e0 Cidade do M\u00e9xico. Foi em julho de 2014, quando 35 governadores tradicionais de comunidades ind\u00edgenas expuseram aos <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">senadores da Rep\u00fablica<\/span> os problemas de pilhagem que eles vivem na serra.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela reuni\u00e3o, eles at\u00e9 apontaram Artemio Fontes Lugo como um dos respons\u00e1veis pelas amea\u00e7as e o mentor por tr\u00e1s dos assassinatos das autoridades tradicionais de Coloradas de la Virgen.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta acusa\u00e7\u00e3o foi registrada no <a href=\"http:\/\/www.senado.gob.mx\/64\/gaceta_del_senado\/documento\/61470\">documento<\/a> que, em 15 de mar\u00e7o de 2016, um grupo de senadores fez para instar o Poder Executivo Federal a tomar medidas para enfrentar os problemas e a viol\u00eancia na Serra Tarahumara.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cCirilo foi morto porque n\u00e3o queria trabalhar com Artemio Fontes na extra\u00e7\u00e3o da madeira, ent\u00e3o eles o mandaram matar\u201d<\/p><cite>ex-governador ind\u00edgena de Coloradas de la Virgen<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Este documento tamb\u00e9m menciona o caso de Cirilo Portillo Torres, \u00f3dami assassinado em 14 de mar\u00e7o de 1992. Ele havia sido comiss\u00e1rio da pol\u00edcia tradicional e secret\u00e1rio da propriedade comunal em Coloradas de la Virgen.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Cirilo foi morto porque n\u00e3o queria trabalhar com Artemio Fontes na extra\u00e7\u00e3o da madeira, ent\u00e3o eles o mandaram matar, diz um ex-governador ind\u00edgena de Coloradas de la Virgen, que recebeu v\u00e1rias amea\u00e7as por defender o territ\u00f3rio e as \u00e1rvores de sua comunidade, raz\u00e3o pela qual ele e sua fam\u00edlia, assim como muitos de seus camaradas em luta, est\u00e3o agora deslocados.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqueles que foram deslocados de Coloradas de la Virgen, assim como de outras comunidades Tarahumara, est\u00e3o dispersos na cidade de Chihuahua, Baborigame, Guachochi, Parral e Cuauht\u00e9moc. Eles trabalham nas hortas ou na colheita. Outros tentam encontrar trabalho no setor de constru\u00e7\u00e3o ou sobreviver em meio ao asfalto que os sufoca.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Na comunidade pod\u00edamos cultivar milho e feij\u00e3o. C<strong>om apenas um pouquinho que voc\u00ea plantasse voc\u00ea podia comer. N\u00e3o aqui.<\/strong> Nossos costumes e nossas festas n\u00e3o podemos faz\u00ea-las como antigamente. Gostar\u00edamos de voltar, mas como se eles queimaram a casa, roubaram os animais e ainda continuam l\u00e1, diz uma das mulheres deslocadas em Baborigame. Suas duas filhas, de 23 e 26 anos, j\u00e1 conhecem a viuvez.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta mat\u00e9ria, foram solicitadas entrevistas com o governador de Chihuahua, Javier Corral, e com o subsecret\u00e1rio dos direitos humanos do governo federal, Alejandro Encinas. As solicita\u00e7\u00f5es foram feitas em pelo menos duas ocasi\u00f5es com os assessores de imprensa, que responderam que n\u00e3o havia ESPA\u00c7O NA AGENDA DOS FUNCION\u00c1RIOS.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>O acompanhamento da defesa<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1679\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2899\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-768x504.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-1536x1007.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/COLORADAS-DE-LA-VIRGEN-1-min-compressed-1-2048x1343.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>CR\u00c9DITO: CORTESIA ALIAN\u00c7A SERRA M\u00c3E.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Entre janeiro de 2009 e dezembro de 2018, pelo menos 15 defensores de florestas e territ\u00f3rios foram mortos na Serra Tarahumara<\/strong>, de acordo com os casos compilados no banco de dados deste projeto. Estes casos foram conhecidos, muitas vezes, devido \u00e0 den\u00fancia de organiza\u00e7\u00f5es civis. <strong>H\u00e1 muitos outros nomes de defensores que foram assassinados, mas n\u00e3o est\u00e3o inclu\u00eddos nas estat\u00edsticas<\/strong>, &#8220;porque ocorrem em \u00e1reas onde n\u00e3o h\u00e1 trabalho das organiza\u00e7\u00f5es, seja porque s\u00e3o lugares muito remotos, de dif\u00edcil acesso, ou porque ocorrem em territ\u00f3rios tomados por traficantes de drogas&#8221;, diz uma defensora dos direitos humanos que pede anonimato, j\u00e1 que esta \u00e9 a \u00fanica forma de poder visitar algumas comunidades, mantendo a discri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Chihuahua, o maior estado do pa\u00eds, menos de dez organiza\u00e7\u00f5es civis acompanham as comunidades em sua defesa do meio ambiente e do territ\u00f3rio. E estas organiza\u00e7\u00f5es &#8211; cujos membros tamb\u00e9m receberam amea\u00e7as por seu trabalho &#8211; n\u00e3o t\u00eam pessoal e recursos suficientes para denunciar e tornar vis\u00edvel o que est\u00e1 acontecendo em grande parte de Tarahumara. Mesmo assim, nos \u00faltimos cinco anos, juntos, conseguiram vit\u00f3rias legais em sua luta em defesa do meio ambiente e do territ\u00f3rio.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cS\u00e3o projetos de morte, n\u00e3o de vida, porque respondem a interesses particulares, n\u00e3o a interesses comunit\u00e1rios\u201d<\/p><cite>Javier \u00c1vila Aguirre.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em 2017, e ap\u00f3s sete anos de um processo legal liderado pela Contec, <strong>a Suprema Corte de Justi\u00e7a <\/strong><a href=\"http:\/\/kwira.org\/sentencia-definitiva-emitida-por-la-suprema-corte-de-justicia-de-la-nacion\/\"><strong>reconheceu<\/strong><\/a><strong> o direito ao territ\u00f3rio ancestral da comunidade rar\u00e1muri de Huitosachi, no munic\u00edpio de Urique.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As terras ancestrais da comunidade &#8211; 260 hectares &#8211; est\u00e3o na \u00e1rea de Barrancas del Cobre, uma das \u00e1reas mais tur\u00edsticas da Tarahumara. Sua defesa do territ\u00f3rio na justi\u00e7a come\u00e7ou em 2015, quando uma empresa imobili\u00e1ria &#8211; cujo propriet\u00e1rio \u00e9 o empres\u00e1rio Federico El\u00edas Madero &#8211; reivindicou estas terras como suas e tentou remover os rar\u00e1muri do territ\u00f3rio. N\u00e3o teve sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m no norte da Tarahumara, <strong>a comunidade de Bosques de San El\u00edas Repechique, no munic\u00edpio de Bocoyna, conseguiu impedir a passagem do gasoduto por seu territ\u00f3rio<\/strong>, de modo que a empresa respons\u00e1vel pela sua constru\u00e7\u00e3o, TransCanada, teve que modificar a rota original para esta obra.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Esses grandes projetos &#8211; minera\u00e7\u00e3o, turismo ou gasodutos &#8211; geraram uma grande deteriora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, da ecologia e, principalmente, das comunidades. S\u00e3o projetos de morte, n\u00e3o de vida, porque respondem a interesses particulares, n\u00e3o a interesses comunit\u00e1rios\u2014 diz o padre jesu\u00edta Javier \u00c1vila Aguirre, diretor da Comiss\u00e3o de Solidariedade e Defesa dos Direitos Humanos (Cosyddhac).<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2018, o Tribunal Superior Agr\u00e1rio, com sede na Cidade do M\u00e9xico, <a href=\"https:\/\/www.jornada.com.mx\/2018\/10\/24\/estados\/032n1est\">reconheceu<\/a> o direito que a comunidade rar\u00e1muri de Chor\u00e9achi, localizada no munic\u00edpio de Guadalupe e Calvo, tem a seu territ\u00f3rio ancestral &#8211; 32.832 hectares &#8211; e bens naturais, e que, devido \u00e0s amea\u00e7as recebidas, tem medidas provis\u00f3rias da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014<strong>As comunidades, com suas demandas, est\u00e3o for\u00e7ando a harmoniza\u00e7\u00e3o das leis nacionais com as normas internacionais sobre o reconhecimento dos povos ind\u00edgenas.<\/strong> Tem custado muito, mas o reconhecimento dos direitos coletivos das comunidades j\u00e1 come\u00e7ou e temos que continuar\u2014 diz Ernesto Palencia, assessor jur\u00eddico da Alian\u00e7a Serra M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade rar\u00e1muri de Baquiachi, no munic\u00edpio de Carich\u00ed, tamb\u00e9m ganhou 32 processos contra <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">pecuaristas<\/span> que lhes tinham tirado mais de 7.500 hectares de seu territ\u00f3rio ancestral.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante este processo judicial, Estela \u00c1ngeles Mondrag\u00f3n, diretora e advogada da associa\u00e7\u00e3o Bowerasa, recebeu v\u00e1rias amea\u00e7as, sua filha sofreu uma tentativa de assassinato e seu parceiro, Ernesto R\u00e1bago Mart\u00ednez, foi <a href=\"https:\/\/www.jornada.com.mx\/2010\/03\/03\/estados\/030n1est\">assassinado<\/a> em 1\u00ba de mar\u00e7o de 2010.Isso n\u00e3o impediu que Estela \u00c1ngeles continuasse trabalhando pela comunidade Baquiachi. Deles ela aprendeu uma frase que ouviu muitas vezes em rar\u00e1muri e agora diz: <strong>&#8220;Sem territ\u00f3rio, voc\u00ea n\u00e3o tem nada. N\u00f3s n\u00e3o somos nada&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YPbDDXDXvW0?feature=oembed\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Isela Gonz\u00e1lez, diretora da Alian\u00e7a Serra M\u00e3e, explica que ao acompanhar estas comunidades<strong> elas est\u00e3o defendendo &#8220;um territ\u00f3rio que para eles \u00e9 indivis\u00edvel, bens naturais que s\u00e3o coletivos, que s\u00e3o o que lhes d\u00e1 vida como comunidade<\/strong>, que reproduzem materialmente e simbolicamente sua cultura. Sem territ\u00f3rio, sua cultura n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O antrop\u00f3logo Horacio Almanza, que tem estudado estes processos de defesa, enfatiza que a luta ambiental \u00e9 muitas vezes personificada em um l\u00edder, &#8220;mas atr\u00e1s deles est\u00e3o as comunidades, e s\u00e3o elas que d\u00e3o for\u00e7a a estes defensores, que geralmente s\u00e3o autoridades tradicionais que fazem parte de um sistema normativo muito antigo e s\u00f3lido na serra&#8221;.<strong> \u00c9 por isso, diz ele, &#8220;as lutas pela defesa do meio ambiente em Tarahumara s\u00e3o coletivas&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Primeiro as \u00e1rvores, agora os minerais<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da Chihuahua est\u00e1 ligada \u00e0 minera\u00e7\u00e3o, explica o antrop\u00f3logo Horacio Almanza, &#8220;ela teve momentos de crise e diminuiu muito durante alguns per\u00edodos, mas voltou fortemente com as empresas de minera\u00e7\u00e3o canadenses&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, Chihuahua ocupa a terceira posi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds na produ\u00e7\u00e3o de ouro e a segunda na extra\u00e7\u00e3o de prata. Zinco e chumbo tamb\u00e9m s\u00e3o extra\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1679\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2898\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-768x504.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-1536x1007.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/MUJERES-DE-BAHUINOCACHI-1-min-compressed-1-2048x1343.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>MULHERES RAR\u00c1MURI DA COMUNIDADE DE BAHUINOCACHI. ASSIM COMO SEUS AV\u00d3S E PAIS FIZERAM, ELAS SE ALIMENTAM E CONVERSAM COM AS NASCENTES &#8220;PARA N\u00c3O IREM EMBORA&#8221;. CR\u00c9DITO: GINNETTE RIQUELME.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se um mapa da Serra Tarahumara fosse pintado de vermelho nas \u00e1reas onde h\u00e1 uma concess\u00e3o mineira, uma boa parte do territ\u00f3rio seria escarlate.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Das 3.323 licen\u00e7as de minera\u00e7\u00e3o concedidas no estado de Chihuahua, quase metade &#8211; 1.448 &#8211; est\u00e3o na serra<\/strong>, de acordo com <a href=\"http:\/\/www.siam.economia.gob.mx\/es\/siam\/Transparencia\">o banco de dados p\u00fablico sobre concess\u00f5es de minera\u00e7\u00e3o<\/a> da Dire\u00e7\u00e3o Geral de Minas, que faz parte da Secretaria de Economia do governo mexicano.<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"166\" style=\"margin-botom:3em; border:none;\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/tracks\/606922914%3Fsecret_token%3Ds-NKtgg&#038;color=%23ff5500&#038;auto_play=false&#038;hide_related=false&#038;show_comments=true&#038;show_user=true&#038;show_reposts=false&#038;show_teaser=true\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Os munic\u00edpios da serra que t\u00eam suas deslocaram suas comunidades ind\u00edgenas, devido a amea\u00e7as ou assassinatos de seus l\u00edderes, est\u00e3o entre aqueles com mais concess\u00f5es.<\/strong> Por exemplo, em Guadalupe e Calvo, foram concedidas 142 concess\u00f5es, de acordo com o banco de dados. No territ\u00f3rio de Coloradas de la Virgen e seus arredores, pelo menos quatro licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o foram emitidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma delas -de 3.104 hectares- est\u00e1 localizada em uma \u00e1rea que os habitantes de Coloradas de la Virgen reivindicam como parte de seu territ\u00f3rio. Os benefici\u00e1rios desta <a href=\"https:\/\/www.scribd.com\/document\/404339656\/Concesion-minera-Mesa-Del-Cobre\">concess\u00e3o<\/a> mineira s\u00e3o Arcadio e Artemio Fontes Mart\u00ednez &#8211; filhos de Artemio Fontes Lugo &#8211; e <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Mario Humberto Ayub Touche<\/span>, que pertence a uma fam\u00edlia de empres\u00e1rios de Chihuahua.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mario Humberto e seus irm\u00e3os, incluindo Sergio Ayub Touche, s\u00e3o s\u00f3cios em empresas de minera\u00e7\u00e3o e imobili\u00e1rias e tamb\u00e9m s\u00e3o propriet\u00e1rios da Duraplay Comercial S.A. de C.V.<\/strong>, uma empresa dedicada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de todos os tipos de produtos relacionados \u00e0 ind\u00fastria florestal, de acordo com documentos do Registro P\u00fablico de Com\u00e9rcio de Chihuahua.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tamb\u00e9m est\u00e3o vinculados a empresas em para\u00edsos fiscais. Sergio Ayub Touche \u00e9 diretor da Indycom International Holdings Ltd, uma empresa criada em 17 de dezembro de 2012 nas Bahamas, de acordo com <a href=\"https:\/\/www.scribd.com\/document\/404982462\/Empresa-Sergio-Ayub\">documentos<\/a> obtidos pelo jornal alem\u00e3o S\u00fcddeutsche Zeitung e compartilhados em 2016 com o Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), para conduzir a investiga\u00e7\u00e3o conhecida como Bahamas Leaks, e \u00e0 qual os Mexicanos contra a Corrup\u00e7\u00e3o e Impunidade (MCCI) tiveram acesso.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das 12 licen\u00e7as de minera\u00e7\u00e3o que Mario Humberto Ayub tem em Chihuahua e Sonora, ele tamb\u00e9m tem duas concess\u00f5es em seu nome &#8211; concedidas em 1994 e 1999 &#8211; que lhe permitem extrair \u00e1gua para uso agr\u00edcola.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, em 2016 Artemio Fontes Lugo obteve do governo mexicano a renova\u00e7\u00e3o de uma licen\u00e7a para operar, at\u00e9 2031, um aer\u00f3dromo no munic\u00edpio de Cusihuiriachi.<\/p>\n\n\n\n<p>A Secretaria de Economia do governo mexicano concedeu a concess\u00e3o de minera\u00e7\u00e3o aos filhos de Fontes Lugo e Mario Humberto Ayub Touche em 24 de maio de 2010. A licen\u00e7a \u00e9 v\u00e1lida por 50 anos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esta concess\u00e3o foi concedida sem consulta pr\u00e9via, conforme exigido pelas leis internacionais e nacionais, aos habitantes rar\u00e1muri e \u00f3dami de Coloradas de la Virgen<\/strong>. Nenhuma autoridade os informou sobre a exist\u00eancia dessas licen\u00e7as de minera\u00e7\u00e3o. Os ind\u00edgenas descobriram quando Juli\u00e1n Carrillo e seus camaradas em luta participaram de uma oficina sobre minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>A primeira decis\u00e3o legal<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No pante\u00e3o de Baborigame est\u00e1 o t\u00famulo de Isidro Baldenegro, o rar\u00e1muri que foi <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-38672959\">assassinado<\/a> em 15 de janeiro de 2017, em Coloradas de la Virgen, <strong>o homem de pele de cobre que durante alguns anos fez parte do grupo de ind\u00edgenas que caminharam em caravanas para denunciar o corte de \u00e1rvores em sua comunidade e que em 2005 <\/strong><a href=\"https:\/\/www.goldmanprize.org\/recipient\/isidro-baldenegro\/\"><strong>ganhou<\/strong><\/a><strong> o Pr\u00eamio Goldman<\/strong> &#8211; considerado o Nobel verde &#8211; por sua defesa da floresta. Seu pai, Julio Baldenegro, foi morto pela mesma causa. Foi em outubro de 1986, quando ele era o governador tradicional de Coloradas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014N\u00f3s aprendemos a defender a terra de observar e ouvir como os outros a defendiam, de observar nossos pais e anci\u00e3os\u2014 disse Juli\u00e1n Carrillo.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014N\u00f3s defendemos o que muitas pessoas antes de n\u00f3s tamb\u00e9m defenderam, o que nos pertence, o territ\u00f3rio, a floresta. Defend\u00ea-lo agora, neste momento, \u00e9 defender (para) aqueles que v\u00eam depois dos filhos e netos\u2014, disse Jos\u00e9 Baldenegro, filho de Julio e irm\u00e3o de Isidro.<\/p>\n\n\n\n<p>Isidro, al\u00e9m de receber amea\u00e7as de morte, tamb\u00e9m teve que lidar com uma acusa\u00e7\u00e3o judicial e passar quinze meses na cadeia.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Disseram que o encontraram com sementes de papoula e maconha; tudo foi mentira&#8230;&nbsp; Ele era um companheiro que lutava com a gente pela floresta\u2014, lembra um dos Rar\u00e1muri que esteve com Isidro em uma das caravanas que ele liderou em 2003 para exigir que as autoridades parassem o corte de madeira em Coloradas de la Virgen. Ap\u00f3s um desses protestos, ele foi acusado e preso.<\/p>\n\n\n\n<p>Isidro foi absolvido e conseguiu sair da pris\u00e3o ap\u00f3s v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es &#8211; incluindo a Anistia Internacional, que o declarou &#8220;prisioneiro de consci\u00eancia&#8221; &#8211; terem feito campanha pela sua liberta\u00e7\u00e3o, o que aconteceu em 2004. Por um tempo ele voltou a viver em Coloradas, mas teve que deixar a comunidade porque as amea\u00e7as continuavam. <strong>Ele foi morto quando visitou parentes que estavam doentes em Coloradas. <\/strong>Na \u00e9poca, seus filhos tinham oito e sete anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>No <a href=\"https:\/\/www.cemda.org.mx\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Informe_defensores.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> sobre a situa\u00e7\u00e3o dos defensores dos direitos humanos ambientais, publicado em mar\u00e7o de 2019 pelo Centro Mexicano de Direito Ambiental (Cemda), observa-se que, ap\u00f3s o assassinato, a criminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das agress\u00f5es mais frequentes contra esses defensores.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cDisseram que o encontraram com sementes de papoula e maconha; tudo foi mentira\u2026\u201d&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O mesmo documento destaca que a falta de investiga\u00e7\u00e3o dos crimes cometidos contra os defensores, a inefici\u00eancia das medidas de prote\u00e7\u00e3o quando essas pessoas s\u00e3o amea\u00e7adas, bem como o uso impr\u00f3prio do direito penal para criminalizar seu trabalho de defesa, s\u00e3o &#8220;estrat\u00e9gias que deixam as pessoas em um estado de maior vulnerabilidade e risco&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Romero Rubio Mart\u00ednez foi preso pelo assassinato de Isidro Baldenegro. Em 19 de fevereiro de 2019, ele foi <\/strong><a href=\"https:\/\/www.animalpolitico.com\/2019\/02\/condenan-asesino-isidro-baldenegro\/\"><strong>condenado<\/strong><\/a><strong> a 11 anos de pris\u00e3o. <\/strong>Em sua decis\u00e3o, o Juiz Javier Cornejo Paez n\u00e3o considerou os danos \u00e0 comunidade como um fator agravante.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Um desafio que enfrentamos \u00e9 que nestes casos, a principal linha de investiga\u00e7\u00e3o seja o trabalho de defesa realizado por pessoas como Isidro, <strong>e que n\u00e3o somente os perpetradores materiais sejam julgados, mas tamb\u00e9m os autores intelectuais<\/strong>\u2014 diz a advogada Alejandra Nu\u00f1o, do Centro de Direitos Humanos da Mulher (Cedehm), uma organiza\u00e7\u00e3o que acompanha as den\u00fancias que foram apresentadas pelos assassinatos de defensores ambientais e territoriais da Tarahumara.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nu\u00f1o enfatiza que nestes casos eles procuram tornar a senten\u00e7a p\u00fablica e que ela reconhe\u00e7a a v\u00edtima, assim como os danos causados \u00e0 comunidade e \u00e0 sociedade com o assassinato do defensor.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014\u00c9 transcendental \u2014 salienta Nu\u00f1o\u2014 que o Poder Judici\u00e1rio valorize a relev\u00e2ncia de sua decis\u00e3o, de modo que a sociedade entenda que <strong>os homens e mulheres defensores desses direitos significam uma contribui\u00e7\u00e3o substancial n\u00e3o s\u00f3 para a democracia, mas tamb\u00e9m para enfrentar as desigualdades, a viol\u00eancia e as injusti\u00e7as que o Estado n\u00e3o tem sido capaz de resolver.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A esposa de Isidro Baldenegro, Aurelia Churivista, e seus dois filhos vivem agora em uma cidade de Chihuahua. Eles ainda n\u00e3o conseguem se acostumar a estar longe de Coloradas de la Virgen. Para eles, a senten\u00e7a contra o perpetrador do assassinato foi m\u00ednima:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Ele vai sair em nove anos, porque j\u00e1 est\u00e1 na cadeia h\u00e1 dois anos.&nbsp; <strong>Meus filhos dizem: &#8220;Bem, ele vai voltar para casa, voltar para sua comunidade e voltar para sua fam\u00edlia, e n\u00f3s quando veremos meu pai de novo?&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2560\" height=\"1679\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-scaled.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-2897\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-300x197.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-1024x671.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-768x504.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-1536x1007.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19212128\/TUMBA-DE-ISIDRO-min-compressed-1-2048x1343.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><figcaption>EM BABORIGAME EST\u00c1 O T\u00daMULO DE ISIDRO BALDENEGRO, UM RAR\u00c1MURI QUE RECEBEU O PR\u00caMIO GOLDMAN EM 2005. ELE FOI ASSASSINADO EM JANEIRO DE 2015. CR\u00c9DITO: GINNETTE RIQUELME.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\" style=\"margin-top:80px\"><strong>Recuperar a Serra<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>As amea\u00e7as contra os ind\u00edgenas de Coloradas de la Virgen se intensificaram \u00e0 medida que suas den\u00fancias contra as licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o madeireira avan\u00e7avam nos tribunais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, estas amea\u00e7as levaram o governo mexicano a incluir quatro membros da comunidade, incluindo Juli\u00e1n Carrillo, no Mecanismo de Prote\u00e7\u00e3o para Defensores dos Direitos Humanos e Jornalistas. Estas medidas de prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o protegeram a vida de Juli\u00e1n.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/amnistia.org.mx\/contenido\/informe-entre-balas-y-olvido\/\">Entre Balas e Esquecimento<\/a>, publicado pela Anistia Internacional em janeiro de 2019, afirma que <strong>o Estado mexicano &#8220;n\u00e3o conseguiu garantir um ambiente seguro e prop\u00edcio aos defensores<\/strong>, especialmente porque as medidas n\u00e3o s\u00e3o adequadas para o risco enfrentado pela comunidade (Coloradas de la Virgen), uma vez que tem uma baixa presen\u00e7a estatal e uma forte presen\u00e7a de grupos do crime organizado&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Julian estava relutante em deixar sua comunidade. Ele n\u00e3o o fez depois que mataram seu filho Victor ou seus dois sobrinhos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Se eu ir embora, ent\u00e3o quem vai lutar? \u2014 perguntava ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi em julho de 2018, depois que Francisco Chaparro, seu genro, foi assassinado , quando Juli\u00e1n deixou sua comunidade e se refugiou em Sinaloa com outro de seus camaradas em luta, que tamb\u00e9m foi amea\u00e7ado.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Juli\u00e1n voltou para Coloradas \u2014 diz seu companheiro \u2014 ap\u00f3s a morte de sua filha Francisca, como resultado da falta de cuidados m\u00e9dicos durante uma gravidez que se complicou.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Francisca \u2014 como muitos dos ind\u00edgenas que nasceram e foram criados em Coloradas \u2014 n\u00e3o sabia escrever nem ler. <strong>H\u00e1 muito tempo, h\u00e1 pelo menos 18 anos, as escolas desta comunidade est\u00e3o abandonadas, porque n\u00e3o h\u00e1 professores nesta \u00e1rea da serra. <\/strong>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 m\u00e9dicos.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Coloradas de la Virgen \u00e9 uma comunidade que n\u00e3o tem acesso aos direitos humanos mais b\u00e1sicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, um ambiente saud\u00e1vel; n\u00e3o h\u00e1 nenhuma fonte de emprego. S\u00f3 temos a agricultura de subsist\u00eancia &#8211; explica Isela Gonzalez, da Alian\u00e7a Serra M\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Para recuperar a serra e fazer justi\u00e7a \u00e0s comunidades que defenderam seu territ\u00f3rio e seus recursos naturais, as organiza\u00e7\u00f5es civis que trabalham na serra, acompanhadas pelo Cedehm, est\u00e3o trabalhando com as autoridades federais e estaduais para promover um plano de a\u00e7\u00e3o para Guadalupe e Calvo, o munic\u00edpio onde est\u00e1 localizado Coloradas de la Virgen. \u2014 Se este plano tem resultados, serviria como exemplo a ser replicado em outros munic\u00edpios, mesmo em outras regi\u00f5es do pa\u00eds onde pol\u00edticas efetivas s\u00e3o urgentemente necess\u00e1rias, porque j\u00e1 chega de documentar as agress\u00f5es contra os defensores\u2014 diz a advogada Alejandra Nu\u00f1o, do Cedehm.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cmesmo em outras regi\u00f5es do pa\u00eds onde pol\u00edticas efetivas s\u00e3o urgentemente necess\u00e1rias, porque j\u00e1 chega de documentar as agress\u00f5es contra os defensores\u201d<\/p><cite>Alejandra Nu\u00f1o<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Juli\u00e1n Carrillo voltou a Coloradas de la Virgen para despedir-se de sua filha, conforme as tradi\u00e7\u00f5es&nbsp; rar\u00e1muri.<\/p>\n\n\n\n<p>O telefone via sat\u00e9lite que as autoridades forneceram a Juli\u00e1n, como parte das medidas de prote\u00e7\u00e3o, foi usado por seu filho para informar que seu pai havia sido assassinado. Ele foi morto na frente de seu neto de oito anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em janeiro de 2019, o governo estadual anunciou a pris\u00e3o de duas pessoas acusadas do assassinato.<\/p>\n\n\n\n<p>A esposa de Juli\u00e1n, Mar\u00eda, seus quatro filhos, duas noras e quatro netos j\u00e1 querem voltar \u00e0s Coloradas de la Virgen. <strong>Eles n\u00e3o se sentem bem na cidade onde est\u00e3o deslocados. Eles querem se despedir de Juli\u00e1n de acordo com as tradi\u00e7\u00f5es rar\u00e1muri.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto esse dia chega, os camaradas em luta de Juli\u00e1n, os dois homens que compareceram \u00e0 oficina de minera\u00e7\u00e3o com ele, participam das nas caravanas e reivindicam nos tribunais o direito ao seu territ\u00f3rio ancestral, n\u00e3o esquece as palavras que ele costumava dizer-lhes:<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Voc\u00eas t\u00eam que insistir para que a floresta n\u00e3o seja mais derrubada. Isso \u00e9 a primeira coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma luta em que a vida de todo um povo est\u00e1 em jogo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quienes defienden la Sierra Tarahumara, una de las zonas boscosas m\u00e1s importantes de M\u00e9xico, se enfrentan al narcotr\u00e1fico, a caciques locales, a la imposici\u00f3n de proyectos extractivos y a la indiferencia gubernamental. Esos defensores son, en su mayor\u00eda, ind\u00edgenas cuya identidad se forj\u00f3 entre monta\u00f1as, barrancos, pinos y manantiales. Sin ese territorio, dicen, ellos no son nada. Por eso lo protegen. Por eso se niegan a que se talen sus bosques y a que sus manantiales se sequen. Por eso enfrentan a quienes buscan cortar sus ra\u00edces.<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":2893,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[14,44],"tags":[95,91,45,94,92,96,93],"coauthors":[60,61,49,97],"class_list":{"0":"post-657","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mexico","8":"category-reportajes","9":"tag-coca","10":"tag-coloradas-de-la-virgen","11":"tag-fase-i","12":"tag-lideres-ambientales","13":"tag-medio-ambiente","14":"tag-mineria","15":"tag-tarahumara"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>&quot;Sem territ\u00f3rio, n\u00e3o somos nada&quot;<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, 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