{"id":534,"date":"2020-04-22T03:09:00","date_gmt":"2020-04-22T03:09:00","guid":{"rendered":"http:\/\/tierra.jerrejerre.com\/es\/?p=534"},"modified":"2021-04-30T08:20:15","modified_gmt":"2021-04-30T08:20:15","slug":"guaviare-proteger-la-selva-con-la-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/guaviare-proteger-la-selva-con-la-vida\/","title":{"rendered":"Guaviare: proteger a floresta com vida"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-small-font-size\" style=\"color:#0f0f0f;max-width:830px;margin-top:0px;margin-bottom:68px\"><em><strong>Desde que os Acordos de Paz foram assinados com os antigos guerrilheiros das FARC, Felipe Henao dedicou-se a gerir um projeto de comunica\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o ambiental no terceiro departamento mais desmatado do pa\u00eds: Guaviare. Por causa dessa lideran\u00e7a, a vida dele est\u00e1 em perigo. <\/strong><\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 a\u00ed que come\u00e7am muitos dos nossos v\u00eddeos\u201d, diz Felipe Henao, enquanto aponta para uma pequena faixa de terra coberta de vegeta\u00e7\u00e3o que separa os rios Calamar e Unilla, no departamento de Guaviare. A faixa era mais comprida, mas os rios roubaram peda\u00e7os da terra ao longo dos anos: um de cada lado, at\u00e9 se tornar aquela passagem estreita.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado da passagem, as casas de madeira em um beco chamado de \u201cEl Embudo\u201d coram-se com a luz laranja do p\u00f4r-do-sol. Do outro lado, o rio Unilla corre devagar, alimentado pela chuva ap\u00f3s 15 dias de ver\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como desenhando uma met\u00e1fora para sua vida nos \u00faltimos meses, o Felipe Henao atravessa aquela faixa de terra desde a \u00faltima casa at\u00e9 uma clareira \u00e0 beira do rio. Esse \u00e9 o trajeto que este jovem de 25 anos decidiu percorrer quando decidiu deixar sua fam\u00edlia e seu povo, Calamar, antes de abandonar seu projeto: <strong>&#8216;Pipe Q-ida&#8217;, um coletivo de jovens que promove a educa\u00e7\u00e3o ambiental, a conserva\u00e7\u00e3o e a recupera\u00e7\u00e3o da floresta amaz\u00f4nica atrav\u00e9s das redes sociais.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Pela estrada que vai de San Jos\u00e9 del Guaviare, capital de um dos departamentos fronteiri\u00e7os da Amaz\u00f4nia colombiana, at\u00e9 Calamar, uma delegacia entrincheirada atr\u00e1s de sacos de lona verde marca o in\u00edcio da \u00e1rea urbana. Depois de passar esse primeiro edif\u00edcio, as seguintes s\u00e3o quase todas as casas de madeira, de um andar, pintadas a cores. Como muitos povoados da Col\u00f4mbia, a maioria das suas estradas s\u00e3o de terra. No caso deste munic\u00edpio, a estrada \u00e9 de terra vermelha que pinta a carrinhas de transporte p\u00fablico branqu\u00edssimas que percorrem essas estradas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cSomos um munic\u00edpio verde por excel\u00eancia. A porta norte da Amaz\u00f4nia colombiana e a porta de entrada de Chiribiquete\u201d<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Calamar \u00e9 de facto um munic\u00edpio com uma enorme riqueza natural e cultural. Enquanto limite do Parque Nacional Natural Serran\u00eda de Chiribiquete, \u00e9 um dos munic\u00edpios guardi\u00f5es deste territ\u00f3rio que foi declarado pela UNESCO como Patrim\u00f4nio Misto -cultural e natural- da Humanidade em 1\u00ba de junho de 2018, por sua localiza\u00e7\u00e3o privilegiada entre a bacia amaz\u00f4nica, o Escudo Guian\u00eas e o Piemonte Andino, o que prop\u00edcia as condi\u00e7\u00f5es para uma grande biodiversidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o maior parque nacional da Col\u00f4mbia e o segundo da Am\u00e9rica do Sul,<strong> lar de pelo menos tr\u00eas comunidades ind\u00edgenas &#8211; Carijona, Urumi e Uito &#8211; em isolamento volunt\u00e1rio e mais de 75.000 pinturas rupestres nas suas montanhas, algumas das quais datam de h\u00e1 mais de 20.000 anos.<\/strong> Embora tenha sido declarado parque em 1989, sua exist\u00eancia permaneceu em segredo por d\u00e9cadas e ainda hoje o turismo \u00e9 proibido dentro de seus limites. Apenas expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas s\u00e3o autorizadas a entrar, e mesmo assim, mais da metade do seu territ\u00f3rio permanece inexplorado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/FOTO-2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5271\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210909\/FOTO-2-1-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>No Parque Natural Nacional Serran\u00eda del Chiribiquete foram registradas 2.138 esp\u00e9cies de flora e 1.676 esp\u00e9cies de fauna. Destas, 32 s\u00e3o possivelmente novas para a ci\u00eancia. <\/em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Dos 5,5 milh\u00f5es de hectares que Guaviare possui, o territ\u00f3rio protegido de Chiribiquete ocupa mais de 20 por cento. <\/strong>Sua \u00e1rea total, 4.268.095 hectares, dividida entre Guaviare e seu departamento vizinho de Caquet\u00e1, \u00e9 igual ao tamanho da Dinamarca.<\/p>\n\n\n\n<p>Os seus limites, embora tenha mudado em 2018 quando foi expandida pela segunda vez nos \u00faltimos cinco anos, s\u00e3o muito claros. O rio Itilla, que marca um trecho do limite norte do parque, \u00e9 o limite \u00f3bvio: uma barreira e um ponto de encontro simult\u00e2neo entre a plan\u00edcie que se estende do Norte e a floresta que se defende desses avan\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas mesmo dentro do seu territ\u00f3rio, que t\u00eam tantos n\u00edveis de prote\u00e7\u00e3o, h\u00e1 desmatamento.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A explora\u00e7\u00e3o do parque \u00e9 proibida. Os turistas podem apenas sobrevoar o parque, uma atividade muito incipiente que os Parques Nacionais regulamentaram apenas em 2019. Mas mesmo dentro do seu territ\u00f3rio, que t\u00eam tantos n\u00edveis de prote\u00e7\u00e3o, h\u00e1 desmatamento. <strong><a href=\"https:\/\/maaproject.org\/2019\/chiribiquete_2019_esp\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"De acordo com dados do Projeto de Monitoramento dos Andes da Amaz\u00f4nia (MAAP) (opens in a new tab)\" rel=\"noreferrer noopener\" class=\"rank-math-link\">De acordo com dados do Projeto de Monitoramento dos Andes da Amaz\u00f4nia (MAAP)<\/a>, entre 2018 e 2019 esse territ\u00f3rio perdeu 2.200 hectares de floresta. \u00c9 a terceira \u00e1rea protegida mais desmatada do pa\u00eds<\/strong>, depois dos parques nacionais Tinigua e Serran\u00eda de La Macarena, ambos localizados na transi\u00e7\u00e3o da Cordilheira dos Andes para a Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>O panorama \u00e9 pior na regi\u00e3o circundante, pois s\u00e3o \u00e1reas desprotegidas. O desmatamento est\u00e1 devorando o Guaviare.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/DSC_0107.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5288\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210859\/DSC_0107-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>At\u00e9 2016, a antiga guerrilha das <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">FARC<\/span> controlava a explora\u00e7\u00e3o da floresta em Guaviare. <strong>Quem quisesse derrubar \u00e1rvores tinha que pedir permiss\u00e3o e geralmente a \u00fanica extra\u00e7\u00e3o permitida era em pequenas \u00e1reas de terra onde fam\u00edlias camponesas se dedicavam a culturas alimentares b\u00e1sicas.<\/strong> Se estas regras fossem violadas, a guerrilha multava a quem as quebrasse.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cSab\u00edamos o que ia a acontecer com este territ\u00f3rio quando os Acordos de Paz nos deixaram desprotegidos\u201d<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esse exerc\u00edcio informal de autoridade ambiental &#8211; tamb\u00e9m relacionado a uma estrat\u00e9gia militar &#8211; mitigou por d\u00e9cadas os avan\u00e7os do desmatamento no departamento, at\u00e9 a assinatura do Acordo de Paz em novembro de 2016, que levou ao desarmamento de 13.000 de seus membros. O interesse da guerrilha n\u00e3o era, por\u00e9m, um interesse puramente conservacionista: manter estas florestas de p\u00e9 assegurava \u00e0 guerrilha, que em outras regi\u00f5es do pa\u00eds n\u00e3o tinham problemas qualquer em destruir os oleodutos e causar s\u00e9rios derrames de petr\u00f3leo nas fontes de \u00e1gua, para se esconder do Ex\u00e9rcito Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSab\u00edamos o que ia a acontecer com este territ\u00f3rio quando os Acordos de Paz nos deixaram desprotegidos\u201d, explica Felipe. Foi por isso que, no in\u00edcio de 2016, ele decidiu fundar a Pipe Q-ida. <strong>\u201cO nosso objetivo era aumentar a consci\u00eancia da import\u00e2ncia de preservar o que ficaria desprotegido\u201d<\/strong>, diz ele. A intui\u00e7\u00e3o de muitos nativos e camponeses de Guaviare foi infelizmente correta: a partida das Farc deixou a floresta em maior risco. \u201cHoje vemos resultados desastrosos do desmatamento, da apropria\u00e7\u00e3o de terras, da pecu\u00e1ria extensiva e da expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas no territ\u00f3rio\u201d, diz o ativista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cHoje vemos resultados desastrosos do desmatamento, da apropria\u00e7\u00e3o de terras, da pecu\u00e1ria extensiva e da expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas no territ\u00f3rio\u201d<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Uma olhada nas margens da estrada que liga San Jos\u00e9 del Guaviare a Calamar confirma isto. Onde a floresta densa costumava prosperar, hoje crescem extensas pastagens \u00e1ridas. Os tocos das \u00e1rvores derrubadas saem do ch\u00e3o como sepulturas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/FOTO-3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5274\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210907\/FOTO-3-1-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Felipe Henao na clareira do rio Unilla, onde come\u00e7am todos os v\u00eddeos do Pipe Q-ida. <\/em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Felipe expressa-se fluentemente. Ele fala claramente e em voz alta. Enquanto fala, gesticula e move o seu corpo com determina\u00e7\u00e3o. \u00c9 um jovem persuasivo, apaixonado pela comunica\u00e7\u00e3o h\u00e1 dez anos, quando criou uma pequena esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio num canto da sua escola, o Instituto Educativo Carlos Mauro Hoyos, onde cobrava 500 pesos para transmitir por r\u00e1dio as mensagens dos alunos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do tempo, os seus projetos tornaram-se mais ambiciosos. O Felipe come\u00e7ou a fazer televis\u00e3o no canal comunit\u00e1rio de Calamar e mais tarde fundou <em>Videoclip<\/em>, um programa no que transmitia v\u00eddeos das m\u00fasicas de moda que pela falta de internet as pessoas do povo n\u00e3o conheciam. \u201cNaquela altura, eu me conectava na Internet do hospital, no que apenas o gerente tinha acesso. Pedi-lhe a chave para me deixar descarregar os v\u00eddeos da 1:00 \u00e0s 4:00 da manh\u00e3, porque a Internet era muito ruim\u201d, ele lembra-se e ri, \u201ce logo depois comecei a estudar na universidade de ensino \u00e0 dist\u00e2ncia\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com <em>Videoclip<\/em>, enquanto estudava Comunica\u00e7\u00e3o Social, o Felipe come\u00e7ou a usar a tecnologia e a m\u00eddia para falar sobre conserva\u00e7\u00e3o. <\/strong>Nos intervalos de tempo entre v\u00eddeos ele fez entrevistas e reflex\u00f5es sobre o cuidado com o meio ambiente. Ainda hoje, ele mant\u00e9m h\u00e1bitos daquela \u00e9poca, como tirar fotos com seu celular, que ele usa como uma c\u00e2mera com grande habilidade, em quaisquer lugares e situa\u00e7\u00f5es em que se encontra. Esse foi o germe do que hoje \u00e9 o seu projeto de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;S\u00e3o os jovens ativistas que se tornam alvo de amea\u00e7as porque s\u00e3o eles a for\u00e7a de trabalho das atividades ilegais e querer ter um futuro diferente n\u00e3o \u00e9 muito bem-visto no territ\u00f3rio&#8221;<\/p><cite>Yanneth Bagarozza<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Pipe Q-ida nasceu em torno do para\u00edso natural e cultural cuja entrada \u00e9 Calamar: seu lema \u00e9 <strong>#SomosGuardianesDeChiribiquete<\/strong> e se apresenta como uma plataforma geradora de mudan\u00e7as. Este projeto, fundado pelo Felipe em 2016, tem hoje 220 jovens no munic\u00edpio que ele treina &#8211; ou facilita a forma\u00e7\u00e3o deles- em diferentes of\u00edcios para gerar um movimento de conserva\u00e7\u00e3o ambiental. Desta forma, <strong>articulam processos em diferentes \u00e1reas, como arte, turismo, educa\u00e7\u00e3o ambiental e comunica\u00e7\u00e3o digital para conscientizar sobre a import\u00e2ncia da conserva\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Felipe \u00e9 um garoto magro, moreno e de cachos pretos curtos que anda pelo povo com o jeito de algu\u00e9m que conhece o seu quintal. Enquanto caminha, ele identifica os alde\u00f5es que participam de qualquer dos projetos de Pipe Q-ida: \u201cA\u00ed mora o Senhor Pedro. O filho dele participou do nosso processo, mas teve que ir para a Marinha\u201d; \u201caquele garoto l\u00e1 fazendo grafitti foi treinado nisso atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o\u201d; \u201caquele \u00e9 F\u00e1bio, que trabalha com a Pipe Q-ida no projeto Atmospheres for Peace\u201d. No povo ele \u00e9 acenado com carinho.<\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/DSC_0179.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5289\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210857\/DSC_0179-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o os jovens ativistas que se tornam alvo de amea\u00e7as porque s\u00e3o eles a for\u00e7a de trabalho das atividades ilegais e querer ter um futuro diferente n\u00e3o \u00e9 muito bem-visto no territ\u00f3rio\u201d, diz Yanneth Bagarozza, que trabalha no programa Cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente para deter o desmatamento em \u00e1reas cr\u00edticas, especialmente nas proximidades do Parque Serran\u00eda del Chiribiquete. <strong>Para ela, os jovens n\u00e3o s\u00e3o levados em conta nas tomadas de decis\u00e3o institucionais, nem existem muitos programas espec\u00edficos para eles.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 a falta que o Felipe tenta preencher.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Eles nos obrigaram a terminar o projeto de educa\u00e7\u00e3o rural que t\u00ednhamos nas escolas do munic\u00edpio, onde o ocorria o desmatamento&#8221;<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cNosso trabalho est\u00e1 focado em deter os n\u00fameros do desmatamento, e isso significa faz\u00ea-lo com jovens do campo, das escolas, da cidade. N\u00f3s nos colocamos no olho do furac\u00e3o\u201d, explica Felipe, j\u00e1 que <strong>\u00e9 um territ\u00f3rio cheio de atores ilegais com interesses na explora\u00e7\u00e3o ambiental. \u201cEm 2017 comecei a receber amea\u00e7as de, aparentemente, grupos fora da lei. Eu j\u00e1 as recebi escritas, por telefone, verbalmente; alguns com armas de fogo. <\/strong>Eles nos obrigaram a terminar o projeto de educa\u00e7\u00e3o rural que t\u00ednhamos nas escolas do munic\u00edpio, onde o ocorria o desmatamento\u201d, diz.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>El trabajo con Pipe Q-ida signific\u00f3 el destierro para Felipe. En 2018 lo retuvieron tres hombres, presuntamente miembros de las disidencias del Frente Primero de las Farc, dentro del casco urbano de Calamar. Lo agarraron en la noche cerca de la plaza central, lo subieron de manera violenta a un veh\u00edculo y ah\u00ed le cubrieron la cabeza y lo llevaron a una vereda. <strong>All\u00ed le dijeron que ten\u00eda tres opciones: o dejaba de hacer su trabajo, o se iba, o lo mataban.<\/strong> Luego, en la madrugada, lo llevaron de vuelta al casco urbano. M\u00e1s de un a\u00f1o despu\u00e9s, Felipe tuvo que salir del municipio e irse a San Jos\u00e9 del Guaviare, donde se siente \u201cun eterno turista\u201d. Pero ni siquiera este desplazamiento logr\u00f3 que abandonara su vocaci\u00f3n como l\u00edder ambiental. <\/p>\n\n\n\n<p>Trabalhar com Pipe Q-ida significou o ex\u00edlio para Felipe. Em 2018 ele foi detido por tr\u00eas homens, supostamente membros das dissid\u00eancias do Primeiro Frente da Farc, dentro da \u00e1rea urbana de Calamar. Ele foi pego \u00e0 noite perto da pra\u00e7a central, colocaram-no violentamente num ve\u00edculo, cobriram-lhe a cabe\u00e7a e levaram-no para uma aldeia. <strong>L\u00e1 lhe disseram que ele tinha tr\u00eas op\u00e7\u00f5es: ou parava de fazer o seu trabalho, ou ia embora, ou eles o matariam ele.<\/strong> Ent\u00e3o, na madrugada, levaram-no de volta para a \u00e1rea urbana. Mais de um ano depois, o Felipe teve que abandoar o munic\u00edpio e ir para San Jos\u00e9 del Guaviare, onde se sente como \u201cum eterno turista\u201d. Mas mesmo esse deslocamento n\u00e3o o fez abandonar a sua voca\u00e7\u00e3o como l\u00edder ambiental.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cgora estamos iniciando outro processo com cerca de 80 crian\u00e7as de escolas rurais que v\u00e3o receber treinamento de Pipe Q-ida\u201d<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cAgora estamos iniciando outro processo com cerca de 80 crian\u00e7as de escolas rurais que v\u00e3o receber treinamento de Pipe Q-ida para restaurar viveiros, reflorestar a zona amortecimento e trabalhar em quest\u00f5es de acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel\u201d, diz Felipe. A organiza\u00e7\u00e3o tem uma estrutura forte na comunica\u00e7\u00e3o digital atrav\u00e9s de redes sociais, onde publicam a gest\u00e3o ambiental e divulgam sua mensagem urgente de prote\u00e7\u00e3o da floresta.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tamb\u00e9m trabalham na gest\u00e3o de um barco-restaurante como parte do circuito tur\u00edstico que est\u00e1 sendo proposto pelos membros do <strong>&#8216;Ambientes para a Paz: Vida Digna e Reconcilia\u00e7\u00e3o&#8217;<\/strong>, um projeto do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e do governo noruegu\u00eas, que busca <strong>apoiar processos de reincorpora\u00e7\u00e3o de ex-combatentes das FARC e contribuir para a mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atrav\u00e9s de um esfor\u00e7o para reduzir o desmatamento.<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HImF4-LBspM\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>At\u00e9 prece que ningu\u00e9m fosse de Guaviare. <strong>A povoa\u00e7\u00e3o deste territ\u00f3rio \u00e9 o resultado de m\u00faltiplos booms que, ao longo da hist\u00f3ria, t\u00eam atra\u00eddo estrangeiros.<\/strong> Da borracha no s\u00e9culo XIX, \u00e0s <em>tigrilladas<\/em> &#8211; o boom do com\u00e9rcio de peles de gato-do-mato e outros felinos &#8211; na d\u00e9cada de 1970 e da coca nos \u00faltimos 30 anos, \u00e0s pol\u00edticas de \u201cRetorno ao Campo\u201d que encorajaram a coloniza\u00e7\u00e3o e come\u00e7aram durante o governo de Carlos Lleras Restrepo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cAqui as pessoas se sentem mais como habitantes das plan\u00edcies do que da Amaz\u00f4nia\u201d<\/p><cite>Luz Amparo S\u00e1nchez<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como porta de entrada norte para a Amaz\u00f4nia, Guaviare \u00e9 uma \u00e1rea de fronteira. Uma fronteira, n\u00e3o s\u00f3 geogr\u00e1fica e ecossist\u00eamica, mas tamb\u00e9m de identidade, entre a plan\u00edcie e a floresta. Embora a lei estabele\u00e7a que a maior parte do territ\u00f3rio \u00e9 constitu\u00eddo por \u00e1reas protegidas, <strong>hoje as plan\u00edcies e os prados substitu\u00edram a floresta quase at\u00e9 \u00e0 fronteira com o Parque Nacional de Chiribiquete.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAqui as pessoas se sentem mais como habitantes das plan\u00edcies do que da Amaz\u00f4nia\u201d, diz Luz Amparo S\u00e1nchez, jornalista que nasceu e mora em San Jos\u00e9 del Guaviare. Enquanto ela fala, a m\u00fasica da plan\u00edcie toca no fundo. \u201c<strong>Eles relacionam a Amaz\u00f4nia com os povos ind\u00edgenas e n\u00e3o se sentem ind\u00edgenas. Quando os Nukak chegam, eles ficam na pra\u00e7a (da cidade) e as pessoas falam que eles sujam a cidade\u201d.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/DSC_0041.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5287\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19210900\/DSC_0041-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><a class=\"rank-math-link\" href=\"https:\/\/www.sinchi.org.co\/files\/publicaciones\/publicaciones\/pdf\/librosuelosweb.pdf\">Um relat\u00f3rio de 2010 do Instituto de Pesquisas Cient\u00edficas da Amaz\u00f4nia (Sinchi) explica assim<\/a>: <strong>\u201cA popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena tem sistemas de subsist\u00eancia que n\u00e3o precisam grandes interven\u00e7\u00f5es ambientais para atender \u00e0s suas necessidades e exig\u00eancias. <\/strong>Mas, por outro lado, a popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a que chegou \u00e0 regi\u00e3o vem das plan\u00edcies orientais e dos departamentos Hu\u00edla e Tolima, com uma forte tradi\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, o que os levou a replicar estes modelos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o da Orinoquia tem quatro milh\u00f5es de hectares com voca\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, segundo o Instituto Geogr\u00e1fico Agust\u00edn Codazzi. A regi\u00e3o amaz\u00f4nica tem zero. E, embora Guaviare perten\u00e7a a essa regi\u00e3o, o censo pecu\u00e1rio de 2008 do Instituto Colombiano de Agricultura contou com 169 mil cabe\u00e7as de gado. No primeiro semestre de 2019, de acordo com a vers\u00e3o mais recente do mesmo censo, tinha aumentado para 443.633 animais. Em outras palavras, em 11 anos o n\u00famero de vacas tinha quase triplicado. <strong>Hoje, h\u00e1 seis vezes mais vacas do que pessoas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;a popula\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a que chegou \u00e0 regi\u00e3o vem das plan\u00edcies orientais e dos departamentos Hu\u00edla e Tolima, com uma forte tradi\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, o que os levou a replicar estes modelos&#8221;<\/p><cite>Instituto de Pesquisas Cient\u00edficas da Amaz\u00f4nia (Sinchi)<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A pecu\u00e1ria tornou-se t\u00e3o comum no departamento que na sabedoria popular j\u00e1 existe uma estimativa da terra necess\u00e1ria para a cria\u00e7\u00e3o de gado. Muitos concordam que a m\u00e9dia \u00e9 de um hectare de pasto para cada animal. Mas o n\u00famero estimado pela Corpora\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Norte e Leste da Amaz\u00f4nia (CDA), a autoridade ambiental da regi\u00e3o, indica que a pecu\u00e1ria \u00e9 ainda mais extensiva: apenas 0,6 animais por hectare.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/FOTO-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5276\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210905\/FOTO-4-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Para que o processo de desmatamento seja eficaz, os colonos de Guaviare esperam que o sol seque a floresta derrubada nos dias de ver\u00e3o para queim\u00e1-la. <\/em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 por isso que a pecu\u00e1ria \u00e9 hoje o motor mais intenso do desmatamento no departamento. <\/strong>Substituiu a l\u00f3gica amaz\u00f4nica da chagra (pequenas \u00e1reas de cultivo) por uma de praderiza\u00e7\u00e3o. A chagra tem sido tradicionalmente o lugar onde as comunidades ind\u00edgenas cultivam os alimentos para a subsist\u00eancia de cada fam\u00edlia. Eles derrubam e queimam pequenas por\u00e7\u00f5es da floresta, onde plantam o que ir\u00e3o comer. <strong>Mas o fr\u00e1gil solo da floresta n\u00e3o \u00e9 adequado para culturas agr\u00edcolas e n\u00e3o suporta o plantio prolongado. \u00c9 por isso que as comunidades aprenderam a divergir as chagras, para que todos ganhem: as pessoas comem, a terra descansa e a floresta se regenera.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Todos os inc\u00eandios que extinguimos s\u00e3o provocados pelo homem e est\u00e3o relacionados com o desmatamento&#8221;<\/p><cite>Jhon Perdomo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A pecu\u00e1ria n\u00e3o funciona assim: de acordo com a l\u00f3gica convencional, <strong>para cada vaca \u00e9 preciso derrubar um hectare de floresta e transform\u00e1-la em pastagem. Envolve queimadas maci\u00e7as para limpar o terreno e conseguir mais espa\u00e7o para os animais.<\/strong> Embora existam modelos mais sustent\u00e1veis e produtivos, baseados em pr\u00e1ticas como o plantio de cercas vivas, o intercalar vacas com \u00e1rvores e variar pastagens, em Guaviare dificilmente s\u00e3o vistos.<\/p>\n\n\n\n<p>Jhon Perdomo \u00e9 um vizinho da fam\u00edlia de Felipe em \u201cEl Embudo\u201d. Ele \u00e9 um cara grande e um bom conversador. Ele passa os seus dias comandando a unidade de bombeiros volunt\u00e1rios em Calamar. \u201cN\u00f3s classificamos os inc\u00eandios em duas categorias\u201d, explica Perdomo. \u201cH\u00e1 inc\u00eandios naturais e inc\u00eandios causados pelo homem. Todos os inc\u00eandios que extinguimos s\u00e3o provocados pelo homem e est\u00e3o relacionados com o desmatamento\u201d, diz ele.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Os n\u00fameros confirmam-no. Ano ap\u00f3s ano, especialmente ap\u00f3s a assinatura do Acordo de Paz, o desmatamento vem aumentando no departamento. <a href=\"https:\/\/rds.org.co\/es\/novedades\/la-cifra-de-deforestacion-en-colombia-2015-reporta-124-035-hectareas-afectadas\">Em 2015, o Ideam relatou 9.634 hectares de floresta desmatada. Em 2016 foram 11.456. Em 2017 tinha aumentado para 38.221. Em 2018 foram relatados 34.527 2015, <\/a>\u00a0e embora os n\u00fameros consolidados para 2019 ainda n\u00e3o tenham sido publicados, o CDA estima cerca de 40.000. Nos \u00faltimos cinco anos, uma por\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio da floresta de Guaviare foi extirpada equivalente a mais de tr\u00eas vezes a \u00e1rea de Medell\u00edn.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iPSZBkwuPm8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>O desmatamento em Guaviare n\u00e3o \u00e9 resultado da pecu\u00e1ria. <strong>Antes das vacas, a coca era a principal causa da destrui\u00e7\u00e3o da floresta. <\/strong>Derrubavam para semear a planta que por sua vez permite produzir o ouro branco que se tornou a moeda da regi\u00e3o, o que atraiu pessoas de todo o pa\u00eds em busca de fortuna. Pedro Padua, um av\u00f4 ind\u00edgena Tukano, lembra-se que por volta de 1970 come\u00e7aram a derrubar as \u00e1rvores para cultivo il\u00edcito na zona rural de Calamar. De acordo com os dados do Sistema de Monitoriza\u00e7\u00e3o Integral de Culturas Il\u00edcitas das Na\u00e7\u00f5es Unidas (Simci), em 1999, Guaviare era o segundo departamento na Col\u00f4mbia com mais hectares de cultivo de coca, depois de Putumayo. Em mar\u00e7o daquele ano, foram registrados 28.435 hectares.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O Felipe nasceu em 1994, v\u00e1rios anos depois que o boom dos plantadores de coca come\u00e7ara a afetar o desmatamento, mas ele tamb\u00e9m experimentou: quando crian\u00e7a pediu ao pai um peda\u00e7o de terra para cultivar a planta na fazenda onde eles moravam. \u201cAos sete anos de idade eu j\u00e1 sabia como processar coca, porque eu era assistente do meu pai. Mas em 1999, <strong>com a implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de erradica\u00e7\u00e3o do Plano Col\u00f4mbia, a pulveriza\u00e7\u00e3o a\u00e9rea com glifosato cortou suas aspira\u00e7\u00f5es. \u201cUma coisa que agrade\u00e7o ao glifosato \u00e9 que hoje eu n\u00e3o sou um plantador de coca nem um raspacho (o que raspa a coca)\u201d<\/strong>, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cN\u00f3s sa\u00edamos a extinguir inc\u00eandios muito pequenos. Agora aqueles pequenos inc\u00eandios viraram grandes inc\u00eandios\u201d<\/p><cite>Jhon Perdomo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cCom a coca, n\u00e3o havia a mesma quantidade de inc\u00eandios\u201d, diz o bombeiro Perdomo. \u201cN\u00f3s sa\u00edamos a extinguir inc\u00eandios muito pequenos. Agora aqueles pequenos inc\u00eandios viraram grandes inc\u00eandios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Perdomo, irm\u00e3o de John e tamb\u00e9m bombeiro, chegou a Guaviare em 1980, no boom da coca. Carlos diz que, naquela \u00e9poca, um diarista precisava de 15 dias de trabalho com um machado para derrubar um hectare de floresta. <strong>Hoje, com um motosserra, esse trabalho \u00e9 feito em um dia ou menos. Hoje o lucro de 300 hectares de gado, estimam na regi\u00e3o, \u00e9 equivalente ao que dois ou tr\u00eas hectares de coca deixavam naquela \u00e9poca.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 por isso que a pecu\u00e1ria \u00e9 um problema de latifundi\u00e1rios. Os camponeses n\u00e3o t\u00eam capacidade para derrubar mil hectares\u201d, diz Jorge Avenda\u00f1o, bogotano, que mora em Calamar h\u00e1 20 anos e trabalha como inspetor aos cuidados do rio Unilla, que rodeia o munic\u00edpio. <strong>Atrav\u00e9s do seu trabalho, ele tem feito reclama\u00e7\u00f5es sobre a descarga de res\u00edduos e o excesso de capacidade de carga de barcos no rio. Ele tamb\u00e9m foi amea\u00e7ado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201c\u00c9 por isso que a pecu\u00e1ria \u00e9 um problema de latifundi\u00e1rios. Os camponeses n\u00e3o t\u00eam capacidade para derrubar mil hectares\u201d<\/p><cite>Jorge Avenda\u00f1o<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cMas o CDA n\u00e3o chega a esses lugares\u201d, acrescenta Felipe. H\u00e1 uma percep\u00e7\u00e3o comum de que a autoridade ambiental do departamento n\u00e3o faz o seu trabalho. <strong>\u201cEles pegam um campon\u00eas que derruba dois paus, mas n\u00e3o fazem nada \u00e0quele que desmata a fazenda inteira\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para Fernanda Calderon, diretora da se\u00e7\u00e3o Guaviare do CDA, estas acusa\u00e7\u00f5es s\u00e3o comuns. Mas ela diz que eles n\u00e3o t\u00eam a capacidade de ir mais longe. Eles t\u00eam seis funcion\u00e1rios da f\u00e1brica, dos que apenas um responde diretamente ao problema do desmatamento, e uma equipe t\u00e9cnica de sete pessoas, contratada pela Visi\u00f3n Amazonia, para proteger os 5,5 milh\u00f5es de hectares que comp\u00f5em o Guaviare.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>Os focos de desmatamento est\u00e3o em \u00e1reas de reserva florestal onde n\u00e3o h\u00e1 t\u00edtulos.<\/strong> S\u00e3o terrenos baldios da Na\u00e7\u00e3o. Por isso, quando vamos tratar uma queixa, tentamos identificar quem \u00e9 o violador. Porque geralmente <strong>o que encontramos \u00e9 o diarista que \u00e9 pago para fazer o trabalho de derrubar<\/strong>\u201d, diz Calder\u00f3n.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/FOTO-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5278\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210904\/FOTO-5-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>A Lina e o Jhon Perdomo s\u00e3o membros da equipa de bombeiros volunt\u00e1rios da Calamar. <\/em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cAbnega\u00e7\u00e3o, coragem e disciplina\u201d \u00e9 o lema dos bombeiros volunt\u00e1rios de Calamar. A precariedade \u00e9 sua rotina, mas no povoado todos confiam no trabalho dessas pessoas que tentam atenuar os efeitos ambientais da derrubada. <strong>\u201cN\u00e3o temos equipamento ou pessoal para lidar como aumento de inc\u00eandios<\/strong>. Temos de nos multiplicar porque somos apenas 20 bombeiros volunt\u00e1rios ativos. Deviam ser pelo menos 35, todos pagos\u201d, diz John Perdomo.<\/p>\n\n\n\n<p>Felipe \u00e9 um dos volunt\u00e1rios ativos. Pendurado no pesco\u00e7o, debaixo da camisa, traz sempre o crach\u00e1 de bombeiro. \u201cEu nunca saio sem meu crach\u00e1. Posso esquecer a minha carteira, meu celular, mas nunca o crach\u00e1\u201d, diz ele orgulhosamente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Temos de nos multiplicar porque somos apenas 20 bombeiros volunt\u00e1rios ativos. Deviam ser pelo menos 35, todos pagos&#8221;<\/p><cite>Jhon Perdomo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A esta\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande armaz\u00e9m com escrit\u00f3rio, sala de jantar, algumas salas e estacionamento para os tr\u00eas ve\u00edculos que eles utilizam: um caminh\u00e3o vermelho desgastado de dupla tra\u00e7\u00e3o, um cami\u00e3o cisterna com capacidade para 800 gal\u00f5es que ultrapassou a sua capacidade de lidar com inc\u00eandios, e uma carrinha branca de dupla tra\u00e7\u00e3o que quase n\u00e3o utilizam, embora seja muito mais nova, porque tem capacidade para apenas 55 gal\u00f5es de \u00e1gua e, como n\u00e3o \u00e9 deles, n\u00e3o podem modifica-la.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos caminh\u00f5es de bombeiros, estes ve\u00edculos servem como ambul\u00e2ncias porque o hospital em Calamar n\u00e3o tem uma. <strong>Os bombeiros tamb\u00e9m t\u00eam que realizar as transfer\u00eancias de mortos, feridos e doentes, que tamb\u00e9m aumentaram com os inc\u00eandios.<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FgrRe-lG458\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>As \u00faltimas amea\u00e7as que Felipe recebeu vieram em novembro de 2019. Foram feitas por homens que ele n\u00e3o conhecia, mas nos que ele reconheceu um sotaque estrangeiro. Nessa altura, a Unidade Nacional de Prote\u00e7\u00e3o j\u00e1 lhe tinha concedido um esquema de seguran\u00e7a, um ano ap\u00f3s de ter sido raptado por supostos membros das <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">dissid\u00eancias das FARC <\/span>&#8211; que abandonaram o acordo de paz e mantiveram as armas. <strong>Ent\u00e3o os captores deram-lhe tr\u00eas op\u00e7\u00f5es: deixar o Calamar, parar de fazer o seu trabalho de conserva\u00e7\u00e3o ou morrer.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O esquema consiste em um homem armado com colete \u00e0 prova de balas e um telefone celular. Os tr\u00eas o acompanham o tempo todo. Mas mesmo acompanhado, o jovem ativista continuava sendo amea\u00e7ado. <strong>Homens armados ficavam horas em frente \u00e0 casa dele fingindo falar no telefone enquanto era vigiado. Foi por isso que ele partiu para a capital do departamento.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A prote\u00e7\u00e3o que o Felipe recebeu do estado foi prec\u00e1ria, sendo re-vitimizado pelos oficiais. \u201cDepois do rapto ilegal, eu fui para a prefeitura para fazer a den\u00fancia. O prefeito que tinha acabado seu mandato [<span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Pedro Pablo Novoa<\/span>, acusado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico em dezembro de 2019 de crimes ambientais na constru\u00e7\u00e3o de uma estrada ilegal] convocou um Conselho de Seguran\u00e7a extraordin\u00e1rio e o que ele disse foi: &#8216;Ah, por serem contra o desenvolvimento, \u00e9 isso o acontece com voc\u00eas&#8217;. Todos n\u00f3s tamb\u00e9m somos v\u00edtimas de amea\u00e7as\u201d, diz Felipe.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Embora ele seja talvez o mais protegido dos l\u00edderes ambientais de Calamar, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que precisa de prote\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Embora ele seja talvez o mais protegido dos l\u00edderes ambientais de Calamar, n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que precisa de prote\u00e7\u00e3o. Outros tamb\u00e9m recebem amea\u00e7as o tempo todo. <strong>Jorge Avenda\u00f1o, o inspetor do rio Unilla, foi amea\u00e7ado por telefone, insultado na rua e at\u00e9 a sua oficina onde ela trabalha como estaleiro no porto de carga de Calamar foi apedrejada<\/strong>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>No ano passado, um panfleto assinado pelas \u201cDissid\u00eancias das FARC-EP\u201d apareceu nas casas dessas pessoas: \u201cEste comunicado \u00e9 dirigido a todos os l\u00edderes sociais, ambientalistas, l\u00edderes comunit\u00e1rios e outras organiza\u00e7\u00f5es sociais que desenvolvem atividades nos munic\u00edpios de Retorno, Calamar, Miraflores e San Jos\u00e9 del Guaviare\u201d. A partir de 1 de junho deste ano voc\u00eas ser\u00e3o novamente considerados um objetivo militar pelos nossos homens. Hoje, mais do que nunca, a guerrilha das FARC continua lutando contra o modelo opressivo do governo colombiano e seus aliados estrat\u00e9gicos que procuram combater os nossos homens\u201d, foram amea\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A falta de coer\u00eancia nas mensagens pode ser um sintoma do que tem sido dito sobre as dissid\u00eancias: que elas n\u00e3o t\u00eam um comando e agem como c\u00e9lulas desagregadas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Dias depois, no WhatsApp, alguns dos l\u00edderes amea\u00e7ados receberam um comunicado mais longo, tamb\u00e9m assinado pelas extintas FARC-EP, que parecia contradizer o comunicado anterior: \u201cO cinismo desta oligarquia [as classes dirigentes e o governo] faz com que tenham uma mente retardat\u00e1ria, justificando a repress\u00e3o contra o protesto social em todo o territ\u00f3rio nacional. Essa estigmatiza\u00e7\u00e3o do protesto social, das organiza\u00e7\u00f5es sociais e seus l\u00edderes, \u00e9 complementada por falsos positivos judiciais contra l\u00edderes sociais, l\u00edderes pol\u00edticos, partidos de esquerda, estudantes e fam\u00edlias ind\u00edgenas e camponesas\u201d, diz.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de coer\u00eancia nas mensagens pode ser um sintoma do que tem sido dito sobre as dissid\u00eancias: que elas n\u00e3o t\u00eam um comando e agem como c\u00e9lulas desagregadas. Contudo, alguns dos l\u00edderes que receberam estas mensagens preferem duvidar da sua verdadeira origem. <strong>Felipe, por exemplo, diz que n\u00e3o pode afirmar que os seus captores eram realmente membros das dissid\u00eancias.<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cAntes do rapto eu n\u00e3o o tinha denunciado, porque aqui os l\u00edderes temos medo do sistema estatal. N\u00e3o \u00e9 seguro\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cAntes do rapto eu n\u00e3o o tinha denunciado, porque aqui os l\u00edderes temos medo do sistema estatal. N\u00e3o \u00e9 seguro\u201d, diz Felipe. Embora ele diga ter falado com o escrit\u00f3rio regional do Ombudsman em San Jos\u00e9 del Guaviare, ao perguntar sobre o seu caso, os funcion\u00e1rios dizem que n\u00e3o o conhecem. A origem das amea\u00e7as nunca foi esclarecida. Muitos na regi\u00e3o culpam as dissid\u00eancias das FARC, mas ningu\u00e9m conseguiu demonstr\u00e1-lo. Um bom ind\u00edcio subjaz a pergunta que os ativistas de Guaviare est\u00e3o fazendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem fica inc\u00f4modo com a lideran\u00e7a ambiental?<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/FOTO-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5281\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210902\/FOTO-6-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Embora o turismo no parque n\u00e3o seja permitido, o rio Itilla, que margeia um trecho do extremo norte do Parque Chiribiquete, \u00e9 um destino tur\u00edstico popular na regi\u00e3o. <\/em>Foto: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Entrar no Parque Serran\u00eda del Chiribiquete, depois de atravessar tantas pastagens, \u00e9 impressionante. \u00c9 uma floresta muito densa, com pouca luz, onde se sente um calor diferente: uma n\u00e9voa de umidade que brota de tantas plantas reunidas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil caminhar entre a abund\u00e2ncia de troncos, espinhos, ra\u00edzes e folhas. N\u00e3o h\u00e1 trilhas nem capim, porque a vegeta\u00e7\u00e3o mais alta absorve todo o sol que precisaria para prosperar. <strong>A mata e a plan\u00edcie n\u00e3o podem coexistir. Uma vaca n\u00e3o sobreviveria neste ambiente.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>No limite contra uma plan\u00edcie em expans\u00e3o, Chiribiquete ainda \u00e9 uma esperan\u00e7a de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Proteger esta floresta \u00e9 o objetivo principal do Felipe e dos seus parceiros. No limite contra uma plan\u00edcie em expans\u00e3o, Chiribiquete ainda \u00e9 uma esperan\u00e7a de conserva\u00e7\u00e3o. Perder este territ\u00f3rio para as chamas, nas palavras de Gonzalo Andrade, professor do Instituto de Ci\u00eancias Naturais da Universidade Nacional, especialista em borboletas e um dos cientistas que mais estudou a Serran\u00eda, significaria \u201cacabar com a pr\u00f3pria vida\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c<strong>\u00c9 um territ\u00f3rio que desempenha fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas e ambientais muito importantes.<\/strong> \u00c9 um regulador clim\u00e1tico e hidrol\u00f3gico, troca o ar e fornece rios a\u00e9reos, porque, assim como h\u00e1 \u00e1gua embaixo, tamb\u00e9m h\u00e1 \u00e1gua acima circulando com evapora\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, <strong>conserva um percentual muito alto da biodiversidade do planeta e isso \u00e9 fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o da vida e dos ecossistemas<\/strong>\u201d, explica Bagarozza, do programa Cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, sobre a import\u00e2ncia da floresta amaz\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEstou com saudades dele. Eu quero voltar. Espero poder faz\u00ea-lo em breve\u201d<\/p><cite>Felipe Henao<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por isso, Felipe, al\u00e9m de seus v\u00eddeos, e ignorando as amea\u00e7as que o for\u00e7aram a se exilar, dedicou sua vida a gerenciar recursos para reflorestar a terra que foi convertida em pastagens em Guaviare. <strong>Atrav\u00e9s de Pipe Q-ida, 25 hectares foram reflorestados perto da \u00e1rea urbana de Calamar com \u00e1rvores nativas.<\/strong> Nos dias de reflorestamento participaram habitantes da cidade, comerciantes, o CDA, o Sinchi, viveiros privados, l\u00edderes comunit\u00e1rios, a pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito.\u00a0 <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Todos decidem participar como podem: doando tempo, dinheiro, plantas, hidrata\u00e7\u00e3o, trabalho.<\/strong> O Felipe coordena tudo e tem conseguido realizar esses trabalhos explicando a todos o que se perde se o desmatamento continua devorando a floresta em Chiribiquete.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"2000\" height=\"1333\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/FOTO-1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5291\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1.jpg 2000w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-630x420.jpg 630w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19210857\/FOTO-1-1-1920x1280.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 2000px) 100vw, 2000px\" \/><figcaption><em>Felipe Henao foi exilado de Calamar no final de 2019 ap\u00f3s dois anos de amea\u00e7as por exercer a lideran\u00e7a ambiental do projeto Pipe Q-ida. Cr\u00e9dito: Mar\u00eda Paula Murcia Huertas<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O \u00faltimo destes dias foi entre 27 e 29 de novembro passado. \u201cPlantamos 1.400 \u00e1rvores, para eu vir de Calamar\u201d, explica o Felipe com um sorriso t\u00edmido que tenta esconder o que o ex\u00edlio produz.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele desvia o olhar assim que sabe que foi descoberto. Magoa-o ter deixado o seu povo. \u201cEstou com saudades dele. Eu quero voltar. Espero poder faz\u00ea-lo em breve\u201d, diz ele.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"Tierra de Resistentes\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde la firma de los Acuerdos de Paz con la antigua guerrilla de las Farc, Felipe Henao se ha dedicado a dirigir un proyecto de comunicaci\u00f3n y educaci\u00f3n ambiental en el tercer departamento m\u00e1s deforestado del pa\u00eds: Guaviare. 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