{"id":4662,"date":"2021-04-12T23:31:06","date_gmt":"2021-04-12T23:31:06","guid":{"rendered":"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/es\/?p=4662"},"modified":"2021-05-14T04:55:56","modified_gmt":"2021-05-14T04:55:56","slug":"el-cuerpo-de-la-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2021\/04\/12\/el-cuerpo-de-la-resistencia\/","title":{"rendered":"O Corpo da Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"max-width:860px\"><strong><strong>Desde 2015, a comunidade de Valpara\u00edso, no sul de Caquet\u00e1, tem se organizado para defender a \u00e1gua da explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera. Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga \u00e9 um dos l\u00edderes desta resist\u00eancia. Acorrentados a uma ponte ou fazendo greve de fome, os camponeses e organiza\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o conseguiram deter o avan\u00e7o do extrativismo em meio a amea\u00e7as e ataques armados, de acordo com as den\u00fancias da comunidade<\/strong><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Saldarriaga acorrentado \u00e0 \u00e1gua<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Impass\u00edvel, determinado, Saldarriaga deixou cair seu punho sobre a mesa e, com o poder da \u00faltima palavra, silenciou as vozes dos l\u00edderes ao seu redor no dia 4 de maio de 2015: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o&#8221;. \u00c9 tudo muito bonito o que voc\u00eas est\u00e3o propondo, mas essas pessoas j\u00e1 est\u00e3o vindo para c\u00e1 e \u00e9 hora de det\u00ea-las. <strong>Eu tenho uma proposta e acho que \u00e9 a definitiva: vou agora mesmo para o c\u00f3rrego, vou me acorrentar \u00e0 ponte e quando os chineses chegarem, n\u00e3o os deixamos entrar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os moradores e l\u00edderes dos cinco vilarejos que comp\u00f5em o n\u00facleo de La Florida, no munic\u00edpio de Valpara\u00edso, estavam reunidos h\u00e1 horas na escola procurando uma forma de impedir a entrada da<span style=\"background-color:#262c2c\" class=\"td_text_highlight_marker\">empresa de petr\u00f3leo chinesa Emerald Energy<\/span>, que estava prestes a iniciar a escava\u00e7\u00e3o de um po\u00e7o estratigr\u00e1fico no territ\u00f3rio. Os membros da comunidade propuseram entrar em contato com a m\u00eddia, buscar apoio das ONGs, escrever para a Ouvidoria, n\u00e3o assinar nenhum documento, n\u00e3o dar nem mesmo um copo de \u00e1gua aos engenheiros que puserem os p\u00e9s na \u00e1rea. N\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Emerald Energy Colombia, uma subsidi\u00e1ria da empresa estatal chinesa Sinochem, \u00e9 a operadora de oito dos 19 contratos atuais de petr\u00f3leo adjudicados em Caquet\u00e1 (os outros s\u00e3o Ombu, VSM 32, Durillo, Manzano, Ceiba, Capella e Cedr\u00f3n). O Bloco El Nogal, com uma \u00e1rea de 293.394 hectares, iniciou suas opera\u00e7\u00f5es em 2013, ap\u00f3s ter cumprido os requisitos de certifica\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de comunidades \u00e9tnicas e os procedimentos ambientais correspondentes \u00e0 fase zero do contrato com a Ag\u00eancia Nacional de Hidrocarbonetos (ANH).<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2015, a empresa assinou o acordo adicional com a ANH para construir o po\u00e7o estratigr\u00e1fico, uma perfura\u00e7\u00e3o explorat\u00f3ria para coletar informa\u00e7\u00f5es geof\u00edsicas e fluidos presentes no subsolo. Tr\u00eas meses depois, eles foram para La Florida, para iniciar o projeto no mesmo local onde a Texas Petroleum Company tinha aberto um po\u00e7o em 1959.<\/p>\n\n\n\n<p>Emerald Energy: esses eram os chineses que estavam a caminho. Os chineses que a comunidade de Valpara\u00edso n\u00e3o ia deixar entrar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;vou agora mesmo para o c\u00f3rrego, vou me acorrentar \u00e0 ponte e quando os chineses chegarem, n\u00e3o os deixamos entrar&#8221;<\/p><cite>Jos\u00e9 Saldarriaga<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Saldarriaga n\u00e3o esperou por uma resposta. Levantou-se da mesa e andou os quase 500 metros que separam a sede da escola da ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho. Camponeses, membros da diretoria, mulheres l\u00edderes e m\u00e3es seguiram seu exemplo. Entre eles estavam Ximena Lombana, Blanca Barrag\u00e1n, Wilson B\u00e1quiro, Juan Ch\u00e1vez e Ferm\u00edn Caballero, um jovem da aldeia a quem Saldarriaga pediu: &#8220;Ferm\u00edn, v\u00e1 at\u00e9 a loja de ferragens da aldeia e diga ao Polo para me enviar uma corrente de quatro metros e dois cadeados&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s um murm\u00fario de desconfian\u00e7as e medos, as vozes come\u00e7aram a se juntar: &#8220;Eu tamb\u00e9m vou me acorrentar, eu tamb\u00e9m vou me acorrentar, eu tamb\u00e9m vou me acorrentar&#8221;. Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga foi o primeiro. Durante toda aquela noite em maio de 2015, ele se sentou em uma lata de leite e deitou o restante da corrente no seu colo, apertando os elos com suas enormes m\u00e3os acostumados a trabalhar a terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, quando os caminh\u00f5es e m\u00e1quinas da Emerald Energy chegaram \u00e0 ponte, ele lhes disse: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o. \u00c9 proibido. As pessoas aqui podem passar, mas n\u00e3o voc\u00eas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles conseguiram cont\u00ea-los. Pelo menos durante aquele dia. Assim come\u00e7ou um cap\u00edtulo nesta luta desigual que &#8211; segundo os testemunhos de Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga, Wilson B\u00e1quiro e Gricel Ximena Lombana &#8211; envolveu ferimentos de bala, amea\u00e7as, estigmatiza\u00e7\u00e3o e deslocamento for\u00e7ado para os l\u00edderes e moradores de Valpara\u00edso, durante quase seis anos de oposi\u00e7\u00e3o ao projeto petrol\u00edfero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Durante 66 dias, na ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho, homens e mulheres de La Florida compartilharam com Saldarriaga aqueles elos de resist\u00eancia, acorrentados \u00e0 \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-92-682x1024.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4687\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-682x1024.jpg 682w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-200x300.jpg 200w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-768x1152.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-150x225.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-300x450.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-696x1044.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92-1068x1602.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211346\/Saldarriaga-92.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>A \u00e1gua de Caquet\u00e1<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Caquet\u00e1, na transi\u00e7\u00e3o entre a Amaz\u00f4nia e os Andes, \u00e9 um dos departamentos com a maior riqueza h\u00eddrica da Col\u00f4mbia. &#8220;Esta posi\u00e7\u00e3o privilegiada de Caquet\u00e1 em termos de riqueza h\u00eddrica s\u00f3 \u00e9 discut\u00edvel com a de Choc\u00f3 devido \u00e0 alta pluviosidade no Pac\u00edfico&#8221;, diz Marlon Pel\u00e1ez Rodr\u00edguez, bi\u00f3logo com p\u00f3s-doutorado em ecologia aqu\u00e1tica pela Universidade de S\u00e3o Paulo e professor de pesquisa da Universidade da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 apenas uma verdade estat\u00edstica registrada em mapas hidrogr\u00e1ficos. \u00c9 uma experi\u00eancia inevit\u00e1vel ao entrar nos <a href=\"https:\/\/www.banrep.gov.co\/sites\/default\/files\/publicaciones\/archivos\/icer_caqueta_2015.pdf\">&nbsp;<\/a><a href=\"https:\/\/www.banrep.gov.co\/sites\/default\/files\/publicaciones\/archivos\/icer_caqueta_2015.pdf\">88.965 km2<\/a> do terceiro maior departamento do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O complexo sistema h\u00eddrico inclui 4.676 corpos de \u00e1gua &#8211; incluindo bacias e aqu\u00edferos &#8211; que s\u00e3o considerados sujeitos a ordenamento e planejamento para regular seu gerenciamento e uso, de acordo com a autoridade ambiental Corpoamazon\u00eda. H\u00e1 cachoeiras, savanas inundadas e rios, como o portentoso Orteguaza, vis\u00edvel do c\u00e9u minutos antes de pousar em Florencia, ou o imenso Apaporis, ou aquele que empresta seu nome ao departamento e que corre por ele de ponta a ponta, ou o Hacha, sereno e frio at\u00e9 que a chuva o torna teimoso e violento contra seus rochosos espor\u00f5es. H\u00e1 tamb\u00e9m quebradas e riachos, como La Cacho, cujas \u00e1guas calmas refletiram durante 66 dias as silhuetas de homens e mulheres acorrentados a uma ponte.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata apenas de um tesouro simb\u00f3lico. Esta \u00e1gua \u00e9 utilizada pelo povo de Caquet\u00e1 para atividades agr\u00edcolas, cria\u00e7\u00e3o de gado e tamb\u00e9m para consumo humano. Para os moradores, nativos ou adotados, esta riqueza \u00e9 uma consci\u00eancia que se expressa com orgulho e que serve como refer\u00eancia para localizar lugares e mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de mais de dez anos trabalhando em projetos de desenvolvimento comunit\u00e1rio com os agricultores da regi\u00e3o, Gricel Ximena Lombana testemunhou como as paisagens definidas pela abund\u00e2ncia de \u00e1gua mudaram profundamente neste meio s\u00e9culo. &#8220;Conversando com eles sobre como era sua aldeia, como era a \u00e1gua, reparamos nisso: nossa Senhora, toda a \u00e1gua que eles perderam! As hist\u00f3rias que os moradores mais antigos contam falam desse encanto, dessa bela rela\u00e7\u00e3o que tinham com a \u00e1gua, abundante e limpa, mas tamb\u00e9m mostram o impacto das pol\u00edticas de coloniza\u00e7\u00e3o&#8221;, diz Ximena, que trabalhou durante anos com o Vicariato do Sul, o bra\u00e7o social da Igreja Cat\u00f3lica na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cConversando com eles sobre como era sua aldeia, como era a \u00e1gua, reparamos nisso: nossa Senhora, toda a \u00e1gua que eles perderam!&#8221;<\/p><cite>Gricel Ximena Lombana<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O sul de Caquet\u00e1 tem sido historicamente uma terra de coloniza\u00e7\u00e3o e prosperidade. Os rios t\u00eam sido as principais rotas deste processo. O Orteguaza \u00e9 considerado o rio da coloniza\u00e7\u00e3o de Caquet\u00e1; atrav\u00e9s de seu curso naveg\u00e1vel, principalmente desde o s\u00e9culo XIX, mission\u00e1rios, soldados e colonos t\u00eam entrado na floresta. As ondas econ\u00f4micas extrativas e o conflito armado t\u00eam sido os principais pontos de refer\u00eancia na rela\u00e7\u00e3o entre o Estado e a sociedade no departamento. Karla D\u00edaz, uma pesquisadora de Caquet\u00e1 membro da ONG Ambiente e Sociedade, tem estudado esta hist\u00f3ria de riqueza desigual enquadrada por formas de viol\u00eancia perpetradas pelo sistema bipartid\u00e1rio, a guerrilha e grupos paramilitares.<\/p>\n\n\n\n<p>A revis\u00e3o do passado n\u00e3o \u00e9 obsequiosa e confirma que o presente, marcado pelo petr\u00f3leo e pela minera\u00e7\u00e3o ilegal, \u00e9 parte de um processo de explora\u00e7\u00e3o violenta dos recursos ao qual a regi\u00e3o parece estar condenada, com epis\u00f3dios t\u00e3o sangrentos como o auge da borracha da Casa Arana e sua opress\u00e3o de escravos ind\u00edgenas no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Caquet\u00e1 e a Amaz\u00f4nia ainda s\u00e3o vistos como aquela parte atrasada da na\u00e7\u00e3o, aqueles espa\u00e7os vazios, enclaves de progresso, que precisam ser civilizados, que correspondem a uma perspectiva muito colonial. H\u00e1 quem fale: &#8216;N\u00e3o, isso n\u00e3o acontece mais&#8217;, mas ainda \u00e9 assim e ainda h\u00e1 esta fic\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia como terra de ningu\u00e9m, onde \u00e9 poss\u00edvel extrair sem grandes repercuss\u00f5es. A ideia de El Dorado ainda est\u00e1 muito viva e tem guiado todos os processos de povoamento e organiza\u00e7\u00e3o, durante o auge da borracha, da quinquina e das peles, mesmo a pol\u00edtica pecu\u00e1ria promovida pelo Incora (Instituto Colombiano de Reforma Agr\u00e1ria) tamb\u00e9m tinha essa perspectiva muito extrativa. E agora o petr\u00f3leo funciona sob a mesma l\u00f3gica&#8221;, diz Karla.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria nova, e os moradores de Caquet\u00e1 sabem disso. O que os reuniu naquela escola em La Florida em 2015 e depois os levou a se acorrentarem \u00e0 ponte La Cacho foi precisamente a repeti\u00e7\u00e3o iminente daquela hist\u00f3ria. O antecedente imediato era a explora\u00e7\u00e3o s\u00edsmica realizada pela <span style=\"background-color:#262c2c\" class=\"td_text_highlight_marker\">companhia de petr\u00f3leo Pacific Rubiales<\/span> no munic\u00edpio vizinho de San Jos\u00e9 del Fragua e no Bloco Omb\u00fa, em San Vicente del Cagu\u00e1n, pela mesma Emerald Energy desde 2009.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o artigo <em>Contra-democracia vs. extrativismo<\/em>: <em>a mobiliza\u00e7\u00e3o popular em defesa do territ\u00f3rio no sul de Caquet\u00e1<\/em>, escrito pela pr\u00f3pria Karla D\u00edaz, junto com Andr\u00e9s Agudelo, em San Jos\u00e9 a explora\u00e7\u00e3o produziu subsid\u00eancia de terrenos, rachaduras de edif\u00edcios e a baixa do n\u00edvel de \u00e1gua nos p\u00e2ntanos e lagos de cria\u00e7\u00e3o de peixe, impactos que mostraram a falta de capacidade das entidades p\u00fablicas para monitorar e controlar a atividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Karla D\u00edaz e membros de organiza\u00e7\u00f5es como a Comiss\u00e3o pela Vida da \u00c1gua, devido \u00e0 press\u00e3o cidad\u00e3, iniciou-se um di\u00e1logo entre as partes e houve uma rejei\u00e7\u00e3o do uso da for\u00e7a p\u00fablica e ataques contra a popula\u00e7\u00e3o camponesa.&nbsp; A aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tamb\u00e9m ajudou a pressionar para uma revis\u00e3o da adequa\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o dos projetos de minera\u00e7\u00e3o e energia em Caquet\u00e1 e para solicitar uma morat\u00f3ria sobre o Bloco El Nogal.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Los ecosistemas del departamento est\u00e1n tan Os ecossistemas do departamento est\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7ados pela din\u00e2mica da minera\u00e7\u00e3o e do petr\u00f3leo quanto pelo desmatamento.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os ecossistemas do departamento est\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7ados pela din\u00e2mica da minera\u00e7\u00e3o e do petr\u00f3leo quanto pelo desmatamento. Esp\u00e9cies nativas como o mico bonito de Caquet\u00e1, <em>plecturocebus caquetensis<\/em>, descrito como uma esp\u00e9cie h\u00e1 apenas onze anos e <a href=\"https:\/\/www.iucnredlist.org\/species\/14699281\/17974505\">catalogado como \u2018em estado cr\u00edtico\u2019<\/a> (o mais grave) pelo livro vermelho de esp\u00e9cies da Uni\u00e3o Internacional para a Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza (IUCN), fazem parte da fauna em risco de extin\u00e7\u00e3o devido aos impactos ambientais das atividades econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso mesmo se aplica para as \u00e1guas da regi\u00e3o. Segundo Marlon Pel\u00e1ez, &#8220;muitos dos ecossistemas aqu\u00e1ticos de Caquet\u00e1 mostram sinais de perturba\u00e7\u00e3o, o que \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 evidente ou um sinal de preocupa\u00e7\u00e3o por parte das autoridades, devido \u00e0 abund\u00e2ncia de recursos h\u00eddricos que temos. Mas, se isto continuar, outros corpos de \u00e1gua poder\u00e3o se deteriorar seriamente, como j\u00e1 est\u00e1 acontecendo nos c\u00f3rregos La Sardina e Perdiz, na \u00e1rea urbana de Florencia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A necessidade de defender este recurso h\u00eddrico de Caquet\u00e1, a urg\u00eancia de quebrar esta cadeia de atividades extrativistas violentas, e o sonho de recuperar estas hist\u00f3rias de abund\u00e2ncia foi o que levou a comunidade de Valpara\u00edso e o Vicariato do Sul de Caquet\u00e1 a criar a Comiss\u00e3o pela Vida da \u00c1gua em 2012, um coletivo que integra as comunidades de Morelia, Alb\u00e2nia, San Jos\u00e9 de Fragua, Bel\u00e9n de los Andaqu\u00edes, Curillo e Valpara\u00edso para enfrentar a investida extrativista, e foi tamb\u00e9m o \u00edmpeto que fez &nbsp;Saldarriaga levantar de sua cadeira para dizer &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o e n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-89-1024x682.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4686\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211347\/Saldarriaga-89.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>O nascimento da resist\u00eancia \u00a0<\/strong>\u00a0<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>&#8220;<strong>Quando realmente me mataram, quando me deixaram sem vontade de nada, foi quando atingiram Juan Ch\u00e1vez com aquela bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo.<\/strong> Esse foi o dia mais dif\u00edcil na ponte. O Esquadr\u00e3o M\u00f3vel Anti-dist\u00farbios (Esmad) chegou \u00e0s 7:30 da manh\u00e3, eles iam me capturar. Eu estava acorrentado e meus camaradas foram at\u00e9 a ponte para me dizer que as for\u00e7as de seguran\u00e7a estavam a caminho, que era para eu ficar de olho, e eu lhes disse: &#8216;Eu vou esperar por eles aqui&#8217;. Eu estava convencido de que se eu estivesse acorrentado, indefeso, lutando pelo bem comum, eles n\u00e3o poderiam fazer nada comigo, era uma confian\u00e7a infantil. Meus companheiros n\u00e3o me deixaram ficar na ponte, eles me levaram para uma casa e a pol\u00edcia foi para l\u00e1. Eles os pararam na porta j\u00e1 que deviam respeitar nossa propriedade privada. Quando o confronto come\u00e7ou, eu n\u00e3o aguentava mais ficar escondido, eu sa\u00ed sem me importar se eles iam me matar. O que aconteceu com Juan foi em 29 de julho de 2015. No ano seguinte, em 16 de agosto de 2016, foi a vez do Wilson&#8221;.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Eu estava convencido de que se eu estivesse acorrentado, indefeso, lutando pelo bem comum, eles n\u00e3o poderiam fazer nada comigo, era uma confian\u00e7a infantil<\/p><cite>Jos\u00e9 Sandarriaga.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Saldarriaga lembra-se dessas datas com a precis\u00e3o inalter\u00e1vel que sela os momentos marcados pela vida ou morte. Os l\u00edderes de Valpara\u00edso tinham vivido 66 dias de resist\u00eancia pac\u00edfica, at\u00e9 30 de junho de 2015, quando as for\u00e7as p\u00fablicas atacaram os moradores.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o de Karla D\u00edaz, as for\u00e7as de seguran\u00e7a tinham realizado v\u00e1rias visitas \u00e0 \u00e1rea exortando os camponeses a abandonar a ponte La Cacho. O resultado, como lembra Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga, foi o despejo pelo Esmad, entre 29 e 31 de junho. Dez pessoas foram feridas, tr\u00eas delas gravemente. Juan Ch\u00e1vez foi um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo explodiu em sua cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Saldarriaga mant\u00e9m a lembran\u00e7a em sua mem\u00f3ria como se fosse ontem e o reconta com a resist\u00eancia impass\u00edvel que acumulou ap\u00f3s a persegui\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, den\u00fancias e deslocamento for\u00e7ado em que ainda vive. &#8220;Quando o Esmad chegou, o povo o recebeu cantando o hino nacional e disseram que estavam protegendo seu territ\u00f3rio. Os funcion\u00e1rios do Esmad pediram para lhes dar licen\u00e7a para passar, mas imediatamente come\u00e7aram a bater em Narciso Zambrano, iam jog\u00e1-lo na \u00e1gua e foi a\u00ed que tudo come\u00e7ou. As pessoas come\u00e7aram a atirar paus e pedras. O que aconteceu com a bomba de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo foi por volta das 12:30 ou 1:00 hora da tarde. O confronto tinha passado da estrada para a \u00e1rea de pastagem. Juan disse: &#8216;vamos encarar esses que est\u00e3o vindo por ali&#8217;, aproximou-se um pouco mais deles, pegou aquela espingarda e caiu do cavalo, eles o chutaram no ch\u00e3o, bateram nele, mas os companheiros pegaram os escudos entre todos, e o resgataram. Sua cabe\u00e7a tinha uma grande ferida, todos n\u00f3s pensamos que ele ia morrer. Agora Juan n\u00e3o consegue trabalhar duro e \u00e9 agricultor, mas quando sai ao sol, fica com muita dor de cabe\u00e7a. \u00c9 um milagre que ele esteja vivo. S\u00f3 ficaram as cicatrizes em seu rosto e olho, que est\u00e1 ca\u00eddo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><\/p><p>&#8220;Agora Juan n\u00e3o consegue trabalhar duro e \u00e9 agricultor, mas quando sai ao sol, fica com muita dor de cabe\u00e7a. \u00c9 um milagre que ele esteja vivo. S\u00f3 ficaram as cicatrizes em seu rosto e olho, que est\u00e1 ca\u00eddo&#8221;<\/p><cite>Jos\u00e9 Saldarriaga<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias espalhadas pela m\u00eddia local e as imagens do violento ataque do Esmad, capturadas em v\u00eddeo pela c\u00e2mera de Jes\u00fas Anderson Garc\u00eda, chegaram a canais de televis\u00e3o nacionais, como o Canal Capital. &#8220;Houve 13 feridos, quatro gravemente. A Ouvidoria n\u00e3o se envolveu, nem os defensores dos direitos humanos intervieram, nada&#8221;, lembra Saldarriaga.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Wilson: a pele da resist\u00eancia<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-163-682x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4716\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-682x1024.jpg 682w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-200x300.jpg 200w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-768x1152.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-150x225.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-300x450.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-696x1044.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163-1068x1602.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211316\/Saldarriaga-163.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Os acontecimentos ocorreram durante uma mobiliza\u00e7\u00e3o camponesa na aldeia de Lusit\u00e2nia, como parte das a\u00e7\u00f5es da comunidade contra a chegada da Emerald Energy e a explora\u00e7\u00e3o do Bloco El Nogal. O protesto decorria pacificamente, mas uma discuss\u00e3o entre soldados e alguns manifestantes desencadeou uma rea\u00e7\u00e3o violenta por parte dos militares. Foram disparados tiros: tr\u00eas pessoas foram feridas. A mais gravemente ferida foi Wilson B\u00e1quiro, um campon\u00eas de 46 anos de Valpara\u00edso. A bala perfurou seu c\u00f3lon. At\u00e9 hoje, a bala permanece dentro de seu corpo e a cicatriz em sua pele.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Est\u00e1vamos reivindicando nossos direitos com muito respeito, que n\u00e3o queremos que a coisa mais preciosa de nossa regi\u00e3o, a \u00e1gua, se esgote. Nossa vida \u00e9 \u00e1gua e sabemos que aonde estas empresas chegam, ela sempre se esgota e \u00e9 polu\u00edda. Exigimos que eles fossem embora, que respeitassem nossa \u00e1gua. E foi a\u00ed que eles reagiram brutalmente e atiraram em mim&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s o ataque das for\u00e7as de seguran\u00e7a, Wilson apresentou uma queixa \u00e0 Procuradoria Geral da Rep\u00fablica. Quatro anos se passaram e ele n\u00e3o recebeu nenhuma resposta. Ele est\u00e1 sem for\u00e7a. Ap\u00f3s tr\u00eas cirurgias, sua recupera\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 completa e sua capacidade de realizar seu trabalho di\u00e1rio no campo \u00e9 ainda mais complexa por causa da dor da ferida que ainda persiste.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&#8220;No momento do tiro, senti como um golpe quente, mas o que mais d\u00f3i \u00e9 que \u00e9 a for\u00e7a p\u00fablica que est\u00e1 atacando voc\u00ea. Se as for\u00e7as de seguran\u00e7a s\u00e3o p\u00fablicas, elas est\u00e3o l\u00e1 para defender o campon\u00eas, ent\u00e3o por que tiveram que fazer isso comigo? Por que isso tem que acontecer? Em que tipo de pa\u00eds estamos? Em que tipo de pa\u00eds estamos vivendo?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-155-682x1024.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4691\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-682x1024.jpg 682w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-200x300.jpg 200w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-768x1152.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-150x225.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-300x450.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-696x1044.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155-1068x1602.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211341\/Saldarriaga-155.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Um ano antes desses acontecimentos violentos, em 4 de maio de 2015, Wilson tinha sido um dos primeiros a pedir para tomar o lugar de Saldarriaga na ponte sobre as \u00e1guas do c\u00f3rrego La Cacho. A resist\u00eancia na ponte e o ataque do Esmad s\u00e3o para ele dois lados da mesma hist\u00f3ria, cap\u00edtulos amargos e doces de uma luta na qual h\u00e1 vitorias e derrotas: <strong>as cicatrizes f\u00edsicas ficam seu corpo, mas o objetivo desse sacrif\u00edcio foi alcan\u00e7ado e a explora\u00e7\u00e3o do Bloco Norte continua parada<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><\/p><p>&#8220;No momento do tiro, senti como um golpe quente, mas o que mais d\u00f3i \u00e9 que \u00e9 a for\u00e7a p\u00fablica que est\u00e1 atacando voc\u00ea&#8221;<\/p><cite>Wilson B\u00e1quiro.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os ataques contra Wilson e Juan Ch\u00e1vez, e as amea\u00e7as contra Saldarriaga fazem parte de uma longa lista de viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos contra l\u00edderes e residentes de Valpara\u00edso dedicados \u00e0 defesa da \u00e1gua. Segundo o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o pela Vida da \u00c1gua no Sul de Caquet\u00e1, intitulado Mais \u00c1gua, Mais Vida, Caquet\u00e1 \u00e9 Amaz\u00f4nia: &#8220;Nos acontecimentos de 2015 e 2016 houve 22 feridos (4 gravemente), mais de 20 pessoas espancadas, 10 detidas ilegalmente (mais tarde libertadas). Danos \u00e0 propriedade, estigmatiza\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o de l\u00edderes que protegem a voca\u00e7\u00e3o ancestral da Amaz\u00f4nia em Caquet\u00e1 e se op\u00f5em a projetos de minera\u00e7\u00e3o e energia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio foi publicado como um livro do Vicariato do Sul, que faz parte da Diocese de Florencia. Gricel Ximena Lombana foi respons\u00e1vel pela compila\u00e7\u00e3o e reda\u00e7\u00e3o do documento com as comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Ximena: a voz da resist\u00eancia<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"682\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-99-682x1024.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4688\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-682x1024.jpg 682w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-200x300.jpg 200w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-768x1152.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-150x225.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-300x450.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-696x1044.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99-1068x1602.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211345\/Saldarriaga-99.jpg 1333w\" sizes=\"auto, (max-width: 682px) 100vw, 682px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Gricel Ximena Lombana nasceu nas margens de outras \u00e1guas, longe da generosa pureza dos rios de Caquet\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida e criada em Bogot\u00e1, no bairro de Venecia, ao lado da Avenida Primero de Maio, mudou-se muito jovem para a Rua 80 e 68, ao lado do canal Reina. &#8220;Voc\u00eas conhecem os rios pr\u00f3ximos ao meu bairro: s\u00e3o negros, polu\u00eddos, cheios de lixo. Para ir para um rio limpo, t\u00ednhamos que ir para as pequenas aldeias perto de Bogot\u00e1&#8221;, lembra Ximena. Este \u00e9 apenas o in\u00edcio de uma entrevista que foi planejada para durar 45 minutos, mas que acabou durando tr\u00eas horas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Poucas coisas me fazem calar&#8221;, diz Ximena. Ela sabe para que serve sua voz e a usa: sem poder controlar a torrente de suas palavras, ela fala por si mesma e pelo povo do sul de Caquet\u00e1. Em suas m\u00e3os &#8211; sua l\u00edngua afiada &#8211; ela tem a responsabilidade de levar a mensagem, de reclamar frontalmente dos abusos, de denunciar as amea\u00e7as aos quatro ventos, como se ela fosse um alto-falante humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com Saldarriaga, naquela tarde de 4 de maio de 2015, Ximena caminhou os 600 passos que separam a escola La Florida da ponte sobre o rio La Cacho. Como parte da equipe do Vicariato do Sul, ela tinha participado dos processos de treinamento e gest\u00e3o com os camponeses da \u00e1rea e era uma das vozes mais ressonantes da Comiss\u00e3o pela Vida da \u00c1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Herdeira dos ensinamentos e lideran\u00e7a da irm\u00e3 Clara Luc\u00eda Loaiza e do padre Arnulfo Trujillo no Vicariato do Sul, Ximena estava comprometida com a preserva\u00e7\u00e3o dos recursos do Sul de Caquet\u00e1 e acompanhou de perto a incurs\u00e3o da Emerald Energy na regi\u00e3o o in\u00edcio, em 2009. Ela tamb\u00e9m testemunhou em primeira m\u00e3o a forma como a rela\u00e7\u00e3o da empresa de petr\u00f3leo com a comunidade, com a terra e especialmente com a \u00e1gua do departamento avan\u00e7ava em detrimento dos interesses da popula\u00e7\u00e3o e do meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;eles falaram em &#8216;negociar&#8217;. Que negocia\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o h\u00e1 nada para negociar aqui? A \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel, a \u00e1gua tem valor, mas n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8221;<\/p><cite>Gricel Ximena Lombana, Vicar\u00eda del Sur<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;No in\u00edcio, eles chegaram com uma atitude conciliadora e amig\u00e1vel, para se aproximar da comunidade e cumprir de maneira aparentemente comprometida com os padr\u00f5es de cuidado ambiental exigidos por um projeto como este&#8221;. As coisas mudaram r\u00e1pida e drasticamente. O discurso conciliat\u00f3rio come\u00e7ou a desmoronar. &#8220;Em certo momento, eles falaram em &#8216;negociar&#8217;. Que negocia\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o h\u00e1 nada para negociar aqui? A \u00e1gua n\u00e3o \u00e9 negoci\u00e1vel, a \u00e1gua tem valor, mas n\u00e3o tem pre\u00e7o&#8221;. A tentativa de di\u00e1logo n\u00e3o prosperou, apenas acabou fraturando a rela\u00e7\u00e3o entre os habitantes de La Florida e os habitantes de La Curvinata, que concordaram com a proposta da Emerald Energy e estavam dispostos a vender suas terras.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Depois daquela fase de conversas em que eles fizeram um esfor\u00e7o para parecerem amigos da comunidade, come\u00e7aram a mostrar suas verdadeiras inten\u00e7\u00f5es: passaram da negocia\u00e7\u00e3o e do di\u00e1logo \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o e \u00e0 mentira. Depois vieram a chantagem, as amea\u00e7as e a viol\u00eancia&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o a esta mudan\u00e7a na estrat\u00e9gia da empresa desde o in\u00edcio de 2015, todas as fontes consultadas mencionam uma pessoa que come\u00e7ou a realizar uma tarefa muito espec\u00edfica: semear o medo e a desinforma\u00e7\u00e3o na comunidade. &#8220;Essa pessoa foi apelidada de Perigo, \u00e9 s\u00f3 imaginar. Ele come\u00e7ou a fazer um trabalho de visita em Valpara\u00edso, no n\u00facleo de La Florida, casa por casa&#8221;, lembra Ximena.<\/p>\n\n\n\n<p>O discurso que se espalhou entre a popula\u00e7\u00e3o mencionava, por um lado, os benef\u00edcios econ\u00f4micos que obteriam se deixassem a empresa de petr\u00f3leo entrar e, quando a resposta era negativa, o argumento mudava para o da expropria\u00e7\u00e3o iminente, para a promessa tr\u00e1gica de que iriam militarizar o territ\u00f3rio e que acabariam perdendo tudo. A conclus\u00e3o, sentem eles que queriam que acreditassem, era que era melhor desistir da terra de boa do que esperar que as coisas piorassem e que fossem tiradas \u00e0 for\u00e7a de qualquer maneira.<strong> O discurso come\u00e7ou a tomar forma, especialmente entre os habitantes de La Curvinata. O medo se espalhou e o perigo deixou de ser o apelido de uma \u00fanica pessoa.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-147-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4710\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211322\/Saldarriaga-147.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Diante do risco iminente, Ximena foi uma das respons\u00e1veis por reunir a m\u00eddia e a sociedade civil para gerar uma esp\u00e9cie de escudo de opini\u00e3o em torno da comunidade de Valpara\u00edso e seus l\u00edderes. Seu trabalho preventivo permitiu a presen\u00e7a da Ouvidoria, da Procuradoria e da m\u00eddia desde os primeiros dias do protesto pac\u00edfico liderado por Saldarriaga na ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho. Esta linha de conten\u00e7\u00e3o garantiu temporariamente a seguran\u00e7a dos manifestantes e facilitou a organiza\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o formal de di\u00e1logo entre as partes, mediado pelo procurador municipal na \u00e9poca. A reuni\u00e3o foi convocada para 6 de maio de 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Ximena n\u00e3o pode esquecer essa data.<strong><\/strong> Por um lado, aquele dia representou a conquista de ter escalado um processo de organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1rio em uma quest\u00e3o que despertou o interesse da opini\u00e3o p\u00fablica nacional. Por outro lado, o lado obscuro, estava a amea\u00e7a direta e p\u00fablica contra sua vida.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;eu e Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga fomos amea\u00e7ados por Luis Miguel Angarita, gerente de seguran\u00e7a corporativa e assuntos comunit\u00e1rios da Emerald Energy&#8221;<\/p><cite>Gricel Ximena Lombana, Vicar\u00eda del Sur<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Naquela reuni\u00e3o de 6 de maio, eu e Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga fomos amea\u00e7ados por Luis Miguel Angarita, gerente de seguran\u00e7a corporativa e assuntos comunit\u00e1rios da Emerald Energy. Ele tinha esta posi\u00e7\u00e3o com um nome bomb\u00e1stico e contradit\u00f3rio. Assuntos corporativos&#8230; seguran\u00e7a&#8230; comunidades&#8230; Na entrada da prefeitura de Valpara\u00edso, aquele homem se aproximou de n\u00f3s e nos disse na frente de todos: &#8216;Cuidado, parem de instigar as comunidades a fazer coisas ilegais porque poderia dar ser prejudicial para voc\u00eas&#8217;, e nesse momento come\u00e7ou uma persegui\u00e7\u00e3o contra Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga que at\u00e9 hoje n\u00e3o parou e da qual eu sou testemunha&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentamos, sem sucesso, nos reunir com a Emerald Energy para ouvir suas opini\u00f5es sobre as amea\u00e7as envolvendo um de seus ex-funcion\u00e1rios e para saber do estado atual de seu projeto no Bloco El Nogal. Nem dois e-mails enviados em 5 e 9 de mar\u00e7o para o endere\u00e7o eletr\u00f4nico da empresa nem quinze telefonemas entre 5 e 24 de mar\u00e7o receberam uma resposta. De fato, seu site <a href=\"http:\/\/www.emeraldenergy.com\">www.emeraldenergy.com<\/a> est\u00e1 fora do ar e o n\u00famero listado para a empresa da mesma resposta do operador: &#8220;Sinto muito. Ocorreu um erro&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, em meio \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Valpara\u00edso, Saldarriaga, novamente, colocou seu punho sobre a mesa e desafiou Angarita: &#8220;Vamos fazer uma coisa: vamos organizar uma assembleia municipal. Se a comunidade de Valpara\u00edso disser n\u00e3o ao projeto, voc\u00ea vai embora do territ\u00f3rio, mas se a comunidade disser sim, ent\u00e3o n\u00f3s levantamos a corrente, sa\u00edmos da ponte, e voc\u00eas podem fazer o que quiserem&#8221;, prop\u00f4s. Na semana seguinte, em 11 de maio, com o centro esportivo a Estrela completamente cheio, toda a comunidade de Valpara\u00edso disse n\u00e3o \u00e0 empresa. Luis Miguel Angarita n\u00e3o estava presente. Ximena estava.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora ela tenha crescido perto de outros corpos de \u00e1gua, polu\u00eddos e frios, Ximena tornou-se defensora da terra e da \u00e1gua da Amaz\u00f4nia, desde que nasceu de novo como outra habitante de Caquet\u00e1, rebatizada nas \u00e1guas do rio Hacha.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2004, quando chegou a Caquet\u00e1 pela primeira vez, a aldeia era zona vermelha, sujeita \u00e0 viol\u00eancia. Em Bogot\u00e1, Ximena s\u00f3 sabia do que aparecia nas not\u00edcias: a vers\u00e3o das invas\u00f5es da guerrilha, viol\u00eancia paramilitar e a cadeira vazia deixada pelas agora extintas Farc ao ent\u00e3o presidente Andr\u00e9s Pastrana durante as negocia\u00e7\u00f5es de paz fracassadas em San Vicente del Cagu\u00e1n, em 1999.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A \u00e1gua tem nos guiado com sua perseveran\u00e7a, gota a gota. Mas, tamb\u00e9m como a \u00e1gua, quando temos que ser impetuosos, agimos com for\u00e7a&#8221;<\/p><cite>Gricel Ximena Lombana, Vicar\u00eda del Sur<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Assim que desci do avi\u00e3o, tudo mudou: de um lado estava a cordilheira, do outro a plan\u00edcie, de todos os lados muita \u00e1gua&#8230; e o cheiro, n\u00e3o esque\u00e7o aquela sensa\u00e7\u00e3o de cheiro de Caquet\u00e1 pela primeira vez. Depois me levaram numa viagem ao rio Hacha, e esse rio cristalino \u00e9 a raz\u00e3o pela qual fiquei aqui. Nadando naquela \u00e1gua verde, pensei: n\u00e3o vou voltar para Bogot\u00e1, vou aproveitar a oportunidade e trabalhar em Caquet\u00e1. Naquele rio, meus amigos me batizaram como habitante de Caquet\u00e1 e aqui fiquei. A \u00e1gua tem nos guiado com sua perseveran\u00e7a, gota a gota. Mas, tamb\u00e9m como a \u00e1gua, quando temos que ser impetuosos, agimos com for\u00e7a. \u00a0J\u00e1 se passaram seis anos de resist\u00eancia e eles n\u00e3o foram capazes de nos derrotar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Saldarriaga: o est\u00f4mago da resist\u00eancia<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-211-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4712\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211319\/Saldarriaga-211.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando o veem andando pelas ruas do bairro Andes, no Alto Las Malvinas, no sul de Florencia, os vizinhos gritam &#8220;Ole, Polo&#8221; e Saldarriaga responde, sorrindo com seu punho no ar, &#8220;Polo at\u00e9 a morte&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Saldarriaga n\u00e3o \u00e9 apenas um campon\u00eas comprometido que apareceu na lideran\u00e7a quando deviam fazer face \u00e0 entrada das m\u00e1quinas da Emerald Energy. Seu lugar ativo na comunidade e seu conhecimento em primeira m\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e dos interesses que o cercam v\u00eam de sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no sindicalismo, no MOIR (Movimento Obreiro Independente e Revolucion\u00e1rio) e no Polo Democr\u00e1tico Alternativo, o Polo ao qual ele se dedica at\u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Minhas a\u00e7\u00f5es t\u00eam a ver com o trabalho nas fazendas e a a\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Sempre, fui um l\u00edder comunit\u00e1rio durante 38 anos e agora sou presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Conselhos do munic\u00edpio. O movimento ao qual perten\u00e7o politicamente nos deu muita clareza sobre o que \u00e9 o extrativismo e os infort\u00fanios causados pelas multinacionais que nunca terminam em bem-estar, mas em problemas para a comunidade. Se h\u00e1 algo que me tem caracterizado, \u00e9 que as pessoas que me conhecem melhor s\u00e3o as que mais confiam em mim&#8221;, diz Saldarriaga.<\/p>\n\n\n\n<p>A coragem com que ele enfrentou as correntes, o Esmad e a greve de fome, a serenidade dura com que ele reconta sua resist\u00eancia e a data cada vez mais distante das \u00faltimas amea\u00e7as que recebeu poderiam dar a impress\u00e3o de que o sangue negro e ind\u00edgena de Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga \u00e9 imbat\u00edvel, que o perigo passou para ele ou que ele sempre esteve acima do medo. N\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Senti arrepios, como se algo estivesse correndo sob minha pele, como um vazio no est\u00f4mago. Ali, com a corrente nas m\u00e3os, tive muito medo, mas nunca me senti s\u00f3 porque estava acompanhado pela comunidade&#8221;<\/p><cite>Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na primeira noite em que esteve acorrentado \u00e0 ponte La Cacho encontrou uma forma de transformar o medo em coragem quase ousada. &#8220;\u00c0 noite ouvi um barulho, pensei que os guerrilheiros vinham para nos matar porque n\u00e3o cumprimos a ordem de nos reunirmos com eles. Mas n\u00e3o, provavelmente eram p\u00e1ssaros ou o macaco bonito de Caquet\u00e1, que \u00e0s vezes iam l\u00e1 para brincar. Choveu muito forte, acordamos parecendo frangos molhados. Foi uma noite de grande incerteza, demais. Senti arrepios, como se algo estivesse correndo sob minha pele, como um vazio no est\u00f4mago. Ali, com a corrente nas m\u00e3os, tive muito medo, mas nunca me senti s\u00f3 porque estava acompanhado pela comunidade&#8221;, lembra-se.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas semanas depois, Saldarriaga enfrentou com a mesma determina\u00e7\u00e3o o momento em que Luis Miguel Angarita, da Emerald Energy, o amea\u00e7ou publicamente e Ximena Lombana. Conforme suas den\u00fancias e testemunhos: &#8220;Ele nos disse para termos cuidado, que n\u00e3o sab\u00edamos em que terreno est\u00e1vamos pisando. Ent\u00e3o eu o confrontei, disse-lhe que ele n\u00e3o tinha motivos para estar importunando o povo de Valpara\u00edso que era contra a empresa. A\u00ed come\u00e7ou o tormento para minha seguran\u00e7a. E assim tem sido todos estes anos: quando n\u00e3o \u00e9 uma coisa, \u00e9 a outra ou a outra&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Imediatamente ap\u00f3s esse acontecimento, Saldarriaga denunciou a Angarita na Ouvidoria. &#8220;A Procuradoria Geral tamb\u00e9m tem um registro desta amea\u00e7a, inclusive um ano depois, quando eu estava em greve de fome, uma garota da administra\u00e7\u00e3o Valpara\u00edso me disse: &#8216;Cuide-se, eles querem prejudic\u00e1-lo, querem coloc\u00e1-lo na cadeia&#8217;. Um pouco mais tarde um policial judicial chegou e me disse que precisava ir com ele e eu respondi &#8216;senhor, estou em greve de fome, n\u00e3o vou sair daqui&#8217;. Depois ele me disse para ir a Bel\u00e9n de los Andaqu\u00edes, que meu julgamento estava l\u00e1&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-118-1024x682.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4689\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211343\/Saldarriaga-118.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Depois de dar voltas e reviravoltas, depois de conversar com tr\u00eas promotores diferentes em Valpara\u00edso e Bel\u00e9n, ele finalmente entendeu que era hora de ratificar a queixa contra Angarita, mas que o que eles queriam pedir-lhe era que se retratasse e retirasse a queixa. &#8220;Fui at\u00e9 o promotor e lhe disse: &#8216;Doutor, eu sou fulano de tal e vim ver que processo tenho em aberto aqui na Procuradoria&#8217;. Ele me disse: &#8216;Ah, sim, h\u00e1 um processo aqui, mas como voc\u00ea \u00e9 um cara t\u00e3o mau que ningu\u00e9m o quer, ent\u00e3o voc\u00ea ver\u00e1 se voc\u00ea colabora&#8217;. Eu respondi: &#8216;O qu\u00ea? Eu n\u00e3o sou um criminoso, senhor, preciso que esclare\u00e7amos o que quer que seja. Estou disposto a ir para a cadeia se tiver cometido um crime, mas vamos resolver isso de vez\u2019. Ent\u00e3o ele me disse com um sorriso: &#8216;N\u00e3o, \u00e9 simplesmente para ver se voc\u00ea ratifica a queixa que tem contra o Sr. Luis Miguel Angarita&#8217;, e eu lhe disse: &#8216;\u00c9 claro que vou ratific\u00e1-la. Era tudo o que eu precisava\u2019. Fiz a ratifica\u00e7\u00e3o, mas o tempo passou e nada aconteceu&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A neglig\u00eancia e a persegui\u00e7\u00e3o judicial continuaram, como duas vers\u00f5es de um sistema de justi\u00e7a tendencioso. Uma semana depois ele recebeu intima\u00e7\u00e3o do mesmo promotor para responder a acusa\u00e7\u00f5es de injuria e cal\u00fania. Segundo o promotor, ele estava acusando falsamente Luis Miguel Angarita de amea\u00e7\u00e1-lo. &#8220;N\u00f3s comparecemos \u00e0 audi\u00eancia. Isso foi em meados de 2017. Embora eu n\u00e3o precisasse levar um advogado, eu levei um. Angarita levou um advogado. Os funcion\u00e1rios levaram nossos telefones celulares e deixaram Angarita e seu advogado com os seus. Meu advogado disse de vez: &#8216;Espere um minuto, este \u00e9 um caso de tratamento desigual, por que eles tiram nossos celulares quando entramos e este homem entra conversando e falando ao telefone? \u2019 Foi assim com tudo&#8221;, lembra Saldarriaga, impass\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Todas essas alian\u00e7as que existem entre multinacionais e autoridades p\u00fablicas constituem a nega\u00e7\u00e3o da voz do outro. Vivemos em meio a uma paz violenta.&#8221;<\/p><cite>Karla D\u00edaz, investigadora de Ambiente y Sociedad<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Estes mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o do sistema correspondem a uma forma de viol\u00eancia passiva, t\u00e3o ou mais perigosa que um ataque direto, porque ocorre nas fronteiras da invisibilidade e neutraliza a v\u00edtima ao n\u00e3o conceder acesso aos recursos de administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, \u00e0 prote\u00e7\u00e3o do Estado ou \u00e0s inst\u00e2ncias da m\u00eddia com as quais ele poderia contar se por ter recebido uma agress\u00e3o f\u00edsica. De acordo com a an\u00e1lise da pesquisadora Karla D\u00edaz, &#8220;as formas pelas quais eles tentaram silenciar as comunidades, n\u00e3o apenas atrav\u00e9s de amea\u00e7as diretas, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s de muitas artimanhas institucionais, impossibilitam sua participa\u00e7\u00e3o nos espa\u00e7os de tomada de decis\u00e3o. Todas essas alian\u00e7as que existem entre multinacionais e autoridades p\u00fablicas constituem a nega\u00e7\u00e3o da voz do outro. Vivemos em meio a uma paz violenta. Para pessoas como Jos\u00e9 Antonio h\u00e1 certa tranquilidade, sup\u00f5e-se, e as amea\u00e7as de exterm\u00ednio f\u00edsico est\u00e3o diminuindo, mas o medo est\u00e1 latente. Acredito que n\u00e3o existe um l\u00edder social no pa\u00eds que, quando confrontado por uma empresa de petr\u00f3leo, n\u00e3o tenha medo, porque a din\u00e2mica do petr\u00f3leo \u00e9 assim: voc\u00ea sabe que existe a possibilidade de que haja uma repercuss\u00e3o violenta&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase um ano ap\u00f3s a queixa, em 2018, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o melhorou. De acordo com Saldarriaga, as agress\u00f5es da pol\u00edcia, do ex\u00e9rcito e da Emerald Energy continuaram. Foi ent\u00e3o que ele convocou uma reuni\u00e3o com o Conselho Municipal, onde anunciou que iria iniciar uma greve de fome para protestar contra a situa\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o esperava a aprova\u00e7\u00e3o de ningu\u00e9m. Ele s\u00f3 queria pedir-lhes que providenciassem vigil\u00e2ncia policial caso, ele desmaiasse ou adormecesse em meio \u00e0 fome, e algu\u00e9m o atacar.<\/p>\n\n\n\n<p>Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga fez a greve de fome no centro esportivo A Estrela durante cinco dias, at\u00e9 que logrou seu objetivo de tornar vis\u00edvel a amea\u00e7a extrativista, chamando a aten\u00e7\u00e3o da m\u00eddia nacional. Milhares de camponeses dos munic\u00edpios de Solita, Solano, Mil\u00e1n, Bel\u00e9n, Alb\u00e2nia e Florencia o acompanharam no centro esportivo. Eles estavam l\u00e1 com ele como um gesto de gratid\u00e3o e solidariedade por sua lideran\u00e7a e seus esfor\u00e7os para proteger a \u00e1gua e o territ\u00f3rio do sul de Caquet\u00e1 de interesses externos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quatro anos, Saldarriaga se mudou para o bairro Andes, de Florencia. Naquela casa, no final de 2017, um vizinho lhe disse, muito preocupado, que estavam procurando por ele, um comerciante, e que lhe tinham deixado um pacote para entregar a um taxista, e at\u00e9 lhe deixaram os 3000 pesos do envio para o munic\u00edpio de Solano. No dia seguinte, o grupo Gaula, unidade de resgate do Ex\u00e9rcito, chegou para perguntar se &#8220;um Sr. Saldarriaga&#8221; tinha deixado um pacote. &#8220;Voc\u00ea sabe o que h\u00e1 nesse pacote? \u00c9 uma extors\u00e3o <span style=\"background-color:#262c2c\" class=\"td_text_highlight_marker\">das \u00c1guias Negras<\/span> \u00e0 fam\u00edlia Guti\u00e9rrez, uma fam\u00edlia rica de Solano&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao tomar conhecimento do esquema, que o envolvia e dois de seus filhos, Norbey e Crist\u00f3bal, Saldarriaga entrou em contato com o Coronel Alberto Bustos, comandante do Batalh\u00e3o Florencia, um amigo seu. O coronel entrou em contato com os outros comandantes, apresentou Saldarriaga a eles pessoalmente e deixou claro que ele n\u00e3o tinha nada a ver com as \u00c1guias Negras. Tamb\u00e9m conversou com a Procuradoria Geral para esclarecer que tudo era uma armadilha para abrir um processo criminal contra ele e seu filho, um mecanismo semelhante a alguns casos dos chamados falsos positivos: execu\u00e7\u00f5es extrajudiciais cometidas por agentes do Estado e enquadradas na criminaliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-119-1024x682.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4690\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211342\/Saldarriaga-119.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse momento \u00e9 o risco de morte mais s\u00e9rio que j\u00e1 tive. Espero que os guerrilheiros me matem, que os paramilitares me matem ou que o crime comum me mate, mas n\u00e3o as pessoas encarregadas da ordem p\u00fablica. N\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem deixar de ter medo e sem parar, Saldarriaga continua sendo um l\u00edder comunit\u00e1rio da capital do departamento, mas seu trabalho agr\u00edcola di\u00e1rio acontece em um pequeno terreno na aldeia de Ven\u00e9cia &#8211; sim, assim como o bairro de Ven\u00e9cia da inf\u00e2ncia de Ximena e como aquela outra cidade da It\u00e1lia (Veneza) que deve tudo a suas \u00e1guas &#8211; a uma hora de Flor\u00eancia de motocicleta.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Eu gostaria de poder viver em Valpara\u00edso. \u00c9 muito ruim poder voltar para casa, mas apenas para visitar. Sempre tenho que chegar acompanhado de duas ou tr\u00eas pessoas da aldeia, e sempre inesperadamente, mas o que se pode fazer, por enquanto n\u00e3o tem outro jeito. Embora n\u00e3o tenha recebido nenhuma amea\u00e7a desde 2018, sinto muita incerteza e ainda mais com o governo que temos e vendo como todo o tempo eles est\u00e3o deslocando, desaparecendo e matando amigos l\u00edderes de todo o departamento&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mora aqui e trabalha l\u00e1. Embora as amea\u00e7as tenham diminu\u00eddo, ele s\u00f3 se atreve a retornar a Valpara\u00edso em visitas curtas e repentinas, acompanhado e nunca \u00e0 noite. O terreno onde ele trabalha todos os dias em Ven\u00e9cia tem galinhas, c\u00e3es, um criadouro de peixes e alguns porcos em um hectare e meio extens\u00e3o. A terra para onde ele teme voltar em Valpara\u00edso, onde viveu durante 45 anos e teve que deixar por causa das press\u00f5es por sua luta pela \u00e1gua, cobre 130 hectares, agora desolada.<\/p>\n\n\n\n<p>A poucos metros daquela terra est\u00e1 a ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho, um bloco de concreto de poucos metros quadrados que cont\u00e9m a hist\u00f3ria de todo um territ\u00f3rio, <strong>um monumento silencioso \u00e0 luta de um povo que a renomeou como s\u00edmbolo de seus esfor\u00e7os: &#8220;Ponte da Resist\u00eancia&#8221;.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Blanca: os ouvidos da resist\u00eancia<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-68-1-1024x682.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4684\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211351\/Saldarriaga-68-1.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em um cantinho perto da janela, em frente ao fog\u00e3o, na cozinha da casa verde da Blanca Barrag\u00e1n e Sime\u00f3n Cort\u00e9s, bem ali, nem um cent\u00edmetro a mais, est\u00e1 o \u00fanico lugar onde os celulares t\u00eam um sinal em quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>A casa da Blanca est\u00e1 localizada em uma colina \u00edngreme no vilarejo de La Florida, a apenas 400 metros da agora chamada Ponte da Resist\u00eancia. Durante os 66 dias em que Saldarriaga, Wilson, Juan, Ferm\u00edn e muitos outros se acorrentaram \u00e0 ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho, a localiza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e a possibilidade de comunicar-se por telefone com os camaradas em luta em Valpara\u00edso e Florencia transformaram esta casa em uma esp\u00e9cie de centro de opera\u00e7\u00e3o e esta\u00e7\u00e3o de telecomunica\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Telecom. Aqui era como a Telecom&#8221;, diz Blanca com uma forte risada. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em um evento para mulheres l\u00edderes, Ximena Lombana apresentou Regina Soto e Blanca Barrag\u00e1n como atrizes-chave neste processo: a primeira \u00e0 frente do fog\u00e3o que alimentou toda a resist\u00eancia; a segunda, Blanca, como &#8220;nossa operadora de comunica\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Por que voc\u00ea est\u00e1 fazendo isso comigo, Ximenita?\u201d Ximena fez isso como uma forma de reconhecer sua luta, de lhe dar seu lugar, mas o efeito n\u00e3o foi o esperado: &#8220;Ela sentiu que sua seguran\u00e7a estava comprometida&#8221;, lembra Ximena. &#8220;Para mim foi um aprendizado como acompanhante do processo, porque \u00e0s vezes, ao dar-lhes protagonismo, o que voc\u00ea acaba fazendo \u00e9 na verdade causar medo nos l\u00edderes. Ela queria continuar com sua lideran\u00e7a de forma discreta e eu queria que sua lideran\u00e7a fosse reconhecida&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Ali, onde voc\u00ea est\u00e1, \u00e9 onde n\u00f3s ficamos parados para receber o sinal&#8221;, Blanca aponta com sua boca para uma cesta na qual h\u00e1 v\u00e1rios telefones celulares. Ela fala em voz alta e ri. Est\u00e1 furiosa porque n\u00e3o lhe avisamos com muita anela\u00e7\u00e3o e ela s\u00f3 tinha um peixe para cada um de n\u00f3s. N\u00e3o sabemos se ela est\u00e1 realmente chateada, mas ri em com zombaria. Zomba de n\u00f3s, como sempre zombou dos visitantes esperados ou indesejados, como zombou da tristeza e do medo. &#8220;Voc\u00eas vieram e n\u00e3o h\u00e1 nada aqui. Mas pior ainda, aqueles que vieram e trouxeram tudo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-161-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4713\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211318\/Saldarriaga-161.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ela se refere aos homens armados que chegaram a sua casa h\u00e1 cinco anos, carregados com muita carne e exigiram, muito educadamente, que ela a preparasse para eles. &#8220;Eles vieram com seu carregamento e seus quilos de carne, e me disseram &#8216;m\u00e3ezinha, voc\u00ea vai nos fazer o favor de fritar esta carne para n\u00f3s? &#8216; E eu estava com tanto medo, mas n\u00e3o podia dizer n\u00e3o. E um deles come\u00e7ou a falar com meu filho e a dizer muitas coisas terr\u00edveis ao garoto. Foi quando coloquei minhas m\u00e3os no \u00f3leo fervente e nem percebi que estava queimando. Eu estava tremendo, e outro deles me perguntou se eu tinha medo, do que eu tinha medo, e n\u00e3o sei onde consegui for\u00e7as para dizer-lhe que sim, que como eu n\u00e3o poderia ter medo sabendo tudo o que eles fazem \u00e0s pessoas, tudo o que aparece nas not\u00edcias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Eles se acorrentaram alternadamente, mas meu papel era aqui na janela, recebendo as liga\u00e7\u00f5es e correndo para a ponte para dar-lhes as informa\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p><cite>Blanca Barrag\u00e1n.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>&#8220;Sobre o que voc\u00ea quer que eu fale? Bem, sobre esse tempo, sobre o sofrimento que vivemos quando a resist\u00eancia come\u00e7ou. Por toda parte se dizia e n\u00f3s ouv\u00edamos tudo: que a empresa de petr\u00f3leo estava chegando, que eles iriam levar tudo, e come\u00e7aram a vir para as casas, para as fazendas. N\u00f3s fomos informados, o Vicariato nos ajudou muito. O pior dia foi quando eles quase mataram Wilson. O Esmad, o ex\u00e9rcito, veio para distribuir p\u00e3o a todos os meninos. Eles se acorrentaram alternadamente, mas meu papel era aqui na janela, recebendo as liga\u00e7\u00f5es e correndo para a ponte para dar-lhes as informa\u00e7\u00f5es. Foi uma luta muito bonita. Continuamos pensando que estamos ganhando. <strong>Se estamos lutando pela defesa da vida da \u00e1gua, das fontes de \u00e1gua que temos que cuidar e proteger, ent\u00e3o estamos ganhando.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Saldarriaga-72-1024x682.jpg\" alt=\"Foto: V\u00edctor Galeano\" class=\"wp-image-4685\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72-1920x1280.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/19211350\/Saldarriaga-72.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: V\u00edctor Galeano.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Naquele horizonte verde, que rodeia a casa verde de Blanca, cai um imenso p\u00f4r-do-sol &#8211; sim, o c\u00e9u aqui parece maior, talvez por causa da quantidade de \u00e1gua que ele reflete. Os manifestantes correram por esse mesmo horizonte em meio \u00e0s balas de borracha, aos escudos amea\u00e7adores e \u00e0s explos\u00f5es ensurdecedoras do Esmad.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O que os ouvidos significam para mim? Bem, tudo. Eles significam tudo. Eu escutava as chamadas, pedindo para mandar uma ambul\u00e2ncia, e ent\u00e3o escutava a sirene da ambul\u00e2ncia que estava chegando, e eles chamaram novamente: l\u00e1 v\u00e3o as for\u00e7as de seguran\u00e7a, cuidado. E eu tamb\u00e9m ouvia os gritos, os gritos dos vizinhos da comunidade, e \u00e0s vezes o que eu ouvia era t\u00e3o horr\u00edvel que eu nem queria olhar. Eu fechava os olhos, mas voc\u00ea n\u00e3o pode fechar os ouvidos&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Anderson: os olhos da resist\u00eancia<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As imagens do Esmad atacando os camponeses em uma \u00e1rea entre a ponte e a casa da Blanca invadiram as redes sociais e foram transmitidas pela m\u00eddia nacional e mundial. Estas imagens foram capturadas pela c\u00e2mera de Jes\u00fas Anderson Garc\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tudo isso est\u00e1 no Facebook. H\u00e1 um v\u00eddeo chamado <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pg\/lavidaesdelosarriesgados\/posts\/\"><em>A vida \u00e9 de quem se arriscar<\/em><\/a>, de duas meninas de Bogot\u00e1. H\u00e1 outro v\u00eddeo que n\u00e3o \u00e9 bem conhecido: <em>Que ela n\u00e3o morra<\/em>, de um menino local chamado Jes\u00fas Anderson Garc\u00eda. Ele \u00e9 o diretor de um festival de cinema chamado Mambe e um homem que est\u00e1 muito comprometido com a causa. Muitas das imagens da resist\u00eancia s\u00e3o dele&#8221;, diz Ximena.<\/p>\n\n\n\n<p>O garoto \u00e9 enorme. Um homem com costas largas e colares no pesco\u00e7o; engenheiro ambiental e contador de hist\u00f3rias visual; tem um imenso cacique com um jaguar bordado em sua camisa ao n\u00edvel do peito. Ele carrega em suas costas uma mochila com sua c\u00e2mera e ao lado dela um viol\u00e3o ac\u00fastico com o qual comp\u00f5e can\u00e7\u00f5es dedicadas ao rio, aos ind\u00edgenas embera cham\u00ed que foram deslocados para esta regi\u00e3o pelo conflito armado, \u00e0s aves, \u00e0 \u00e1gua e ao pr\u00f3prio Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;A primeira imagem que vi de Saldarriaga acorrentado foi tirada pela Ximena com seu celular, uma imagem que rapidamente se tornou viral no Facebook e nos grupos WhatsApp&#8221;, lembra Anderson. &#8220;Depois daquela imagem foi como se algo se abrisse, comecei a receber cada vez mais informa\u00e7\u00f5es de l\u00edderes, de organiza\u00e7\u00f5es, comecei a receber tudo. Vendo o que eu estava defendendo, decidi cal\u00e7ar as botas e me aprontei; e depois liguei a moto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A Ponte de Resist\u00eancia \u00e9 quase invis\u00edvel, apenas uma laje de concreto completamente coberta por lama e ervas daninhas. Pode-se passar por cima dele rapidamente, percorrendo toda a hist\u00f3ria de uma regi\u00e3o sem mesmo se dar conta. Antes de chegar a esse ponto na estrada de terra, Anderson passou um par de trechos pantanosos com sua moto. Em um deles, ele encalhou.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;N\u00e3o foi um bloqueio. A resist\u00eancia nunca bloqueou a ponte ou a estrada. As pessoas que precisavam passar podiam passar sem nenhum problema. A \u00fanica coisa que foi obstru\u00edda foram os carros e m\u00e1quinas da empresa que iria construir o po\u00e7o. Os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios podiam ir para o acampamento que estavam construindo l\u00e1 perto. Mas n\u00e3o a maquinaria&#8221;, diz Anderson. Em seu caso, ele n\u00e3o foi detido por correntes, mas pelo estado de uma estrada afetada pela poderosa umidade de uma regi\u00e3o que vive da \u00e1gua e pela neglig\u00eancia de um Estado que ignora a periferia. A estrada de terra parecia um p\u00e2ntano.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de se esfor\u00e7ar, ele desistiu. Estava prestes a subir correndo quilometro e meio at\u00e9 a ponte quando v\u00e1rias caminhonetes com vidros polarizados apareceram, lideradas por uma viatura da Pol\u00edcia Nacional. N\u00e3o foi por um gesto de generosidade ou pelo simples cumprimento de seu compromisso com os cidad\u00e3os que eles o ajudaram, mas simplesmente porque a moto estava bloqueando a estrada. V\u00e1rios policiais sa\u00edram da viatura para levantar a motocicleta com Anderson, colocaram-na na parte traseira do caminh\u00e3o e levaram o Anderson com eles.<\/p>\n\n\n\n<p>A caminhonete s\u00f3 parou quando chegou \u00e0 ponte sobre o c\u00f3rrego La Cacho. O comandante desceu rapidamente e gritou para a comunidade que resistia pacificamente.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Desocupem o lugar imediatamente. Fora daqui agora, que nada disto \u00e9 de voc\u00eas. V\u00e3o embora&#8230;&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Anderson abriu sua mochila, tirou sua c\u00e2mera e a apontou para o comandante diante dos olhos destemidos dos policiais que pareciam querer arrancar sua pele, com rostos de espanto, com uma careta que denotava o pensamento que certamente lhe passava pela cabe\u00e7a. &#8220;Merda, n\u00f3s acabamos de ajudar o inimigo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que o comandante percebeu que esse olho onisciente estava olhando para ele como uma janela aberta para o mundo, o tom mudou de instru\u00e7\u00f5es violentas para o pedido c\u00edvico.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Cidad\u00e3os, por favor, cooperem. Este projeto da Emerald \u00e9 para o bem de todos, para o progresso de Caquet\u00e1. A empresa tem todas as licen\u00e7as para realizar seu trabalho. Por favor, cooperem&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Na caminhonete blindada do outro lado dos vidros polarizados estava o pessoal da companhia de petr\u00f3leo Emerald Energy. Talvez chineses ou colombianos, talvez gerentes de seguran\u00e7a e comunidade. Uma janela fechada separava os olhares de duas metades do mundo. Ali estavam Ximena e Wilson e Juan e Blanca e Simeon e Fermin e Saldarriaga. Os olhos de Anderson e as lentes da c\u00e2mera de Anderson t\u00eam o poder de virar os olhos do mundo sobre uma ponte invis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"Tierra de Resistentes\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 2015, la comunidad de Valpara\u00edso, en el sur del Caquet\u00e1, se ha organizado para defender el agua ante la exploraci\u00f3n petrolera. Jos\u00e9 Antonio Saldarriaga ha sido uno de los l\u00edderes de esta resistencia. Encadenados a un puente o haciendo huelga de hambre, los campesinos y organizaciones de la regi\u00f3n han logrado frenar el avance extractivista en medio de amenazas y ataques armados, de acuerdo con las denuncias de la comunidad.<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":4692,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[265,46,96,268,266,267,270],"coauthors":[177,242],"class_list":{"0":"post-4662","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-colombia","8":"tag-emerald-energy","9":"tag-fase-iii","10":"tag-mineria","11":"tag-petroleo","12":"tag-sinochem","13":"tag-texas-petroleum-company","14":"tag-vicaria-del-sur"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.4 - 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