{"id":347,"date":"2020-04-22T23:41:00","date_gmt":"2020-04-22T23:41:00","guid":{"rendered":"http:\/\/tierra.jerrejerre.com\/en\/?p=347"},"modified":"2021-05-13T21:30:42","modified_gmt":"2021-05-13T21:30:42","slug":"oro-blanco-la-disputa-por-el-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2020\/04\/22\/oro-blanco-la-disputa-por-el-agua\/","title":{"rendered":"Ouro branco: a luta violenta pela \u00e1gua"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos anos, o deserto de Puna Juje\u00f1a, no norte da Argentina, sofreu uma transforma\u00e7\u00e3o particular. Perto do entroncamento da Rota Nacional 52 com a Rota 70, a uma altitude de 4.000 metros, um monte de tubagens estende-se por 14 quil\u00f3metros, ligando a <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">bacia de Cauchari &#8211; Olaroz<\/span> \u00e0 f\u00e1brica de carbonato de l\u00edtio da empresa <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">mineira Exar<\/span>. A tubagem tem a largura de uma pessoa e quando come\u00e7ar a extra\u00e7\u00e3o em 2021, ela ir\u00e1 transportar milhares de litros de \u00e1gua com salmoura todos os dias para as piscinas de evapora\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de seco, o carbonato de l\u00edtio \u00e9 enviado para v\u00e1rios lugares, nomeadamente os Estados Unidos, China e Jap\u00e3o. Nesses pa\u00edses \u00e9 convertido em \u00edon de l\u00edtio para seu uso em quase toda a ind\u00fastria tecnol\u00f3gica leve que carregamos em nossas mochilas: Tablets, celulares, notebooks e, sobretudo, na produ\u00e7\u00e3o de baterias para carros el\u00e9tricos. A proje\u00e7\u00e3o da empresa Exar &#8211; de capital chin\u00eas e canadense &#8211; indica que <strong>nesta bacia existem reservas para extrair um total de 40 mil toneladas de carbonato de l\u00edtio por ano, durante 40 anos, e j\u00e1 anunciaram um investimento inicial de 565 milh\u00f5es de d\u00f3lares. S\u00f3 na prov\u00edncia de Jujuy, h\u00e1 13 projetos deste tipo em andamento.<\/strong>\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Cristian Arag\u00f3n tem 55 anos e \u00e9 dono de uma empresa empreiteira que vende insumos para explora\u00e7\u00e3o mineira, especificamente para trabalhos nas salinas. Neste projeto ele \u00e9 respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o de parte da tubula\u00e7\u00e3o exterior com o qual a Exar ir\u00e1 transportar a salmoura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele neste momento est\u00e1 no posto de seguran\u00e7a que controla a entrada e sa\u00edda de empregados na f\u00e1brica de Exar. Ele est\u00e1 esperando algu\u00e9m ir procur\u00e1-lo. Ele est\u00e1 fumando. Leva \u00f3culos escuros. Camisa cinza. Len\u00e7o de seda no pesco\u00e7o. Cal\u00e7as de ganga azuis. Botas de trabalho. E uma bolsa de couro de crocodilo que combina com outro par de botas desse material.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1245\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Foto-1-Canos.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4292\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-300x195.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-1024x664.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-768x498.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-1536x996.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-150x97.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-696x451.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-1-Canos-1068x693.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Do outro lado do posto, a cerca de dois quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, h\u00e1 24 piscinas que est\u00e3o prontas e medem 300 metros de largura por pouco mais de dois quil\u00f4metros de comprimento. Cristian \u00e9 de Santiago do Chile, mas vive em Susques h\u00e1 alguns anos, uma cidade que serve de base tempor\u00e1ria para mineiros locais e empresas. Como Sales de Jujuy, que j\u00e1 extrai l\u00edtio do Salar de Olaroz. A Southern Lithium, que come\u00e7a em mar\u00e7o deste ano a montar o seu acampamento no Salar de Cauchari. <strong>Cristian ainda tem um ano a mais no projeto, mas n\u00e3o planeja voltar ao Chile. <\/strong>Antes de entrar em uma Van do Minist\u00e9rio da Cultura e Turismo de Jujuy, ele diz que n\u00e3o tem saudades do seu pa\u00eds. Ele d\u00e1 mais uma baforada, queima o filtro, e sorri:\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Eu vim aqui para ser milion\u00e1rio, seu babaca.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Foi apenas h\u00e1 algumas d\u00e9cadas que o l\u00edtio come\u00e7ou a ser reconhecido a n\u00edvel global pela sua capacidade de armazenar energia.<\/strong> Sua irrup\u00e7\u00e3o no mercado mundial tem data, marca e modelo: em 1991, a Sony introduziu uma c\u00e2mera de filme port\u00e1til que, ao contr\u00e1rio das anteriores, tinha uma bateria menor, mais leve e mais dur\u00e1vel, as tr\u00eas chaves para entender o boom.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed em diante, o mercado do l\u00edtio cresceu, tornando-se presente em todas as inova\u00e7\u00f5es: celulares, tablets, laptops, c\u00e2meras digitais e carros el\u00e9tricos. Sem eles, a Samsung nem existiria. A Apple n\u00e3o existisse como a conhecemos hoje. E nem o mercado de carros el\u00e9tricos, que hoje representa 40% da demanda mundial de l\u00edtio. Talvez seja por isso que os pais que em diferentes momentos e em diferentes laborat\u00f3rios contribu\u00edram para fazer essa criatura de armazenamento de energia existir, isto \u00e9, os qu\u00edmicos Akira Yoshino e Stanley Whittingham e o f\u00edsico <a href=\"https:\/\/www.britannica.com\/biography\/John-B-Goodenough\" class=\"rank-math-link\">John B. Goodenough<\/a>, ganharam o Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica em 2019.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Diz-se que as reservas compartilhadas pelo Chile, Argentina e Bol\u00edvia s\u00e3o suficientes para dar \u00e0 regi\u00e3o o t\u00edtulo de \u201cAr\u00e1bia Saudita do l\u00edtio\u201d<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Muito se diz sobre o l\u00edtio. Que \u00e9 o ouro branco do futuro, o mineral estrela dos pr\u00f3ximos cinquenta anos. Que \u00e9 o petr\u00f3leo do s\u00e9culo XXI, o mineral que ir\u00e1 resgatar mais de dois s\u00e9culos de combust\u00edveis f\u00f3sseis, assim que esgotados. Diz-se que as reservas compartilhadas pelo Chile, Argentina e Bol\u00edvia s\u00e3o suficientes para dar \u00e0 regi\u00e3o o t\u00edtulo de \u201cAr\u00e1bia Saudita do l\u00edtio\u201d. E tem quem acha seu nome ser sin\u00f4nimo de desenvolvimento. <strong>Outros n\u00e3o acham isso ser uma promessa de salva\u00e7\u00e3o se n\u00e3o houver primeiro uma discuss\u00e3o profunda sobre a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. A verdade \u00e9 que desde o in\u00edcio do s\u00e9culo o valor de uma tonelada de carbonato de l\u00edtio aumentou dez vezes. Passou de<a href=\"https:\/\/bcr.com.ar\/es\/mercados\/investigacion-y-desarrollo\/informativo-semanal\/noticias-informativo-semanal\/los-precios-7\"> \u00a0$1.560 em 2002 para $16.100 em 2018.<\/a>\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, os pa\u00edses que competem pelo recurso prim\u00e1rio est\u00e3o no hemisf\u00e9rio norte do planeta: a China, a Coreia do Sul, os Estados Unidos, a Alemanha e o Jap\u00e3o. <strong>Mas s\u00e3o os asi\u00e1ticos &#8211; principalmente a China &#8211; que produzem o maior valor agregado<\/strong>: importam ou extraem a mat\u00e9ria-prima, a usam para fabricar bens industriais e tecnol\u00f3gicos para consumo interno e para exporta\u00e7\u00e3o, mesmo para os Estados Unidos e a Europa. Cerca de 50% da oferta no mercado mundial de baterias vem da \u00c1sia. Eles est\u00e3o na frente na corrida da inova\u00e7\u00e3o: a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica tem sede em Xangai.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Como todos os dias, em 4 de fevereiro de 2019 de manh\u00e3, a In\u00e9s Lamas subiu na sua moto. O sol come\u00e7ava iluminar os morros da Puna na \u00e1rea de Jujuy. Como sempre, ela percorreu 35 km da estrada de pedregulho at\u00e9 ao estande de vendas localizado na berma da Estrada Nacional 52, na altura de Salinas Grandes.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela \u00e1rea, ao leste da Rota Nacional 40, em Salinas Grandes e na Lagoa Guayatayoc, <strong>\u00e9 o objetivo principal das empresas mineiras australianas, holandesas, canadianas, chinesas e japonesas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia a In\u00e9s n\u00e3o parou para vender su\u00e9teres de lhama, nem para se oferecer como guia no Salar. Desta vez ela continuou para a lagoa Guayatayoc, ao norte da salina. Junto com ela, outras 200 pessoas viram de todas as comunidades ind\u00edgenas Kollas locais, alertadas por uma informa\u00e7\u00e3o: estavam cavando na lagoa para saber se o l\u00edtio poderia ser extra\u00eddo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1148\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Foto-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4290\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-300x179.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-1024x612.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-768x459.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-1536x918.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-150x90.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-696x416.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211709\/Foto-2-1068x639.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quase 20 anos fala-se do mist\u00e9rio do ouro branco. Agora foi materializado em cami\u00f5es e berbequins. Quando os trabalhadores da <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">mina Ekeko<\/span> viram a multid\u00e3o aproximar-se, largaram as suas ferramentas. A reivindica\u00e7\u00e3o n\u00e3o era negoci\u00e1vel: \u201cN\u00e3o ao l\u00edtio\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Assim que soubemos que eles estavam cavando\u201d, diz In\u00e9s, \u201ctodas as comunidades fomos at\u00e9 l\u00e1 para dizer-lhes que n\u00f3s nunca t\u00ednhamos aprovado isso\u201d. Acamp\u00e1mos no local e concedemos-lhes sete dias para irem embora.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Os seus membros decidiram ficar l\u00e1 at\u00e9 \u00e0 partida dos trabalhadores, altura em que j\u00e1 tinham cavado tr\u00eas po\u00e7os na lagoa.\u00a0<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A Mesa de Salinas Grandes &#8211; onde os referentes se reuniam mensalmente &#8211; foi ampliada com os habitantes e comuneros das 33 comunidades residentes na regi\u00e3o e tornou-se Assembleia Permanente da Bacia de Salinas Grandes &#8211; Lagoa de Guayatayoc. Os seus membros decidiram ficar l\u00e1 at\u00e9 \u00e0 partida dos trabalhadores, altura em que j\u00e1 tinham cavado tr\u00eas po\u00e7os na lagoa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s v\u00e1rios dias de acampamento e protestos, a empresa Ekeko &#8211; de propriedade de Daniel Galli e Carlos Sorentino &#8211; retirou a o seu pessoal do local.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O empreiteiro levou seu nome para ser representante de outra empresa mineira, a canadense AIS Resources, que pretendia iniciar a extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio na lagoa.\u00a0<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O ekeko \u00e9 uma figura m\u00edtica da cultura andina, ligada \u00e0 abund\u00e2ncia, \u00e0 fertilidade e \u00e0 alegria. O empreiteiro levou seu nome para ser representante de outra empresa mineira, a canadense <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">AIS Resources<\/span>, que pretendia iniciar a extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio na lagoa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A In\u00e9s tem 47 anos de idade. Ela vende ekekos de l\u00e3 pequenos, que longe de estarem associados a essa empreiteira mineira, evocam o deus da fertilidade. Ela nunca tira os seus \u00f3culos escuros e veste um chap\u00e9u e um su\u00e9ter vermelho de montanha. Aqui, neste deserto branco, cortado por sulcos a 4096 metros de altura, um sol frio quebra a pele e os olhos sem pressa ou dor.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1231\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Salinas-Grandes.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4326\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-300x192.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-1024x657.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-768x492.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-1536x985.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-150x96.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-696x446.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Salinas-Grandes-1068x685.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption><em>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m da Bol\u00edvia e o Chile, a Argentina faz parte do tri\u00e2ngulo do l\u00edtio, onde 67% das reservas mundiais est\u00e3o localizadas segundo o Servi\u00e7o Geol\u00f3gico dos Estados Unidos. <\/strong>Na Argentina, as prov\u00edncias de Salta, Jujuy e Catamarca compartilham a distribui\u00e7\u00e3o do recurso de salmoura. O primeiro projeto no pa\u00eds come\u00e7ou em Catamarca em 1998 com a empresa <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Frontera Mining Corporation (FMC)<\/span>, dos EUA, que atualmente extrai l\u00edtio do Salar Hombre Muerto a uma taxa de 22.500 toneladas por ano.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 Sales de Jujuy, que desde 2015 extrai carbonato de l\u00edtio do Salar de Olaroz, a 50 quil\u00f3metros de Salinas Grandes, gra\u00e7as ao investimento maiorit\u00e1rio da empresa australiana Orocobre e do fabricante japon\u00eas de carros Toyota. Com a participa\u00e7\u00e3o da JEMSE no projeto, a prov\u00edncia de Jujuy tem uma participa\u00e7\u00e3o de 8,5 por cento. A empresa espera produzir daqui a 40 anos 6,4 milh\u00f5es de toneladas de carbonato de l\u00edtio. J\u00e1 produziu 17.500 anualmente e atingir\u00e1 25.000, tamb\u00e9m anualmente. A<strong>l\u00e9m disso, estimam que extrair\u00e3o 19,3 milh\u00f5es de toneladas de pot\u00e1ssio. <\/strong>Como a maioria das empresas mineiras que trabalham nas salinas argentinas, o pot\u00e1ssio \u00e9 o segundo mineral de mais concentra\u00e7\u00e3o na salmoura.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Por enquanto, apenas FMC e Salts de Jujuy extraem e exportam carbonato de l\u00edtio. Os projetos Olaroz-Cauchari e Salar del Rinc\u00f3n em Salta s\u00e3o os que mais parecidos e est\u00e3o perto de iniciar atividades: <strong>assim que o fizerem, o pa\u00eds poder\u00e1 atingir 130.000 toneladas anuais.<\/strong> Outros sete est\u00e3o avan\u00e7ados, em uma fase de pr\u00e9-viabilidade. E h\u00e1 mais de 50 iniciativas: no total, cobrem 8.760 quil\u00f4metros quadrados de salinas no pa\u00eds, quase quarenta e tr\u00eas vezes a superf\u00edcie da Cidade de Buenos Aires.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/embed?mid=1CUwe7VmHWL8FjBPHtCxFtdtDM5kHG1Z2\" width=\"100%\" height=\"500\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>No mar de milh\u00f5es, a vastid\u00e3o da bacia das Salinas Grandes &#8211; Laguna de Guayatayoc desperta a cobi\u00e7a das empresas mineiras do mundo. Abrange uma \u00e1rea de aproximadamente 17.522 quil\u00f4metros quadrados at\u00e9 o sul de San Antonio de los Cobres, na prov\u00edncia de Salta, ao norte de Abra Pampa, na prov\u00edncia de Jujuy.<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia Chalabe estava trabalhando em conflitos ambientais na cidade de Abra Pampa em Jujuy quando, em 2009, a comunidade do Santu\u00e1rio de Tr\u00eas Pozos a contactou para assessor\u00e1-los sobre uma empresa estrangeira que queria entrar e explorar seu territ\u00f3rio. Desde ent\u00e3o ela se tornou advogada das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>a Secretaria de Minas de Jujuy \u201caprovou a viabilidade do projeto apesar de Ekeko n\u00e3o ter a autoriza\u00e7\u00e3o das tr\u00eas comunidades<\/p><cite>Alicia Chalabe.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Chalabe explica que no caso de Salinas Grandes &#8211; Laguna de Guayatayoc, a Secretaria de Minas de Jujuy \u201caprovou a viabilidade do projeto apesar de Ekeko n\u00e3o ter a autoriza\u00e7\u00e3o das tr\u00eas comunidades; apenas Rinconadillas tinha aprovado\u201d. <strong>Na verdade, eles dividiram o territ\u00f3rio mineiro, o que n\u00e3o \u00e9 permitido pelo c\u00f3digo mineiro ou pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a<\/strong>. Ambos o c\u00f3digo e o tribunal s\u00e3o claros, estudos parciais n\u00e3o s\u00e3o permitidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Carlos Oheler<\/span>, presidente da <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Jujuy Energ\u00eda y Miner\u00eda Sociedad del Estado (JEMSE)<\/span>, questionou a legitimidade da reivindica\u00e7\u00e3o. \u201cEstamos no processo de procurar solu\u00e7\u00f5es consensuadas com as comunidades para poder entrar em territ\u00f3rios que, em termos reais, s\u00e3o propriedades fiscais, mas que em alguns casos o pedido de reconhecimento ainda n\u00e3o foi formalizado, outros sim, por\u00e9m como territ\u00f3rios comunit\u00e1rios\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A JEMSE foi criada em 2011 pelo governo de Jujuy para participar nos diferentes processos da ind\u00fastria mineira. Suas principais \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o s\u00e3o quatro: minera\u00e7\u00e3o, onde pesquisa as linhas de poss\u00edvel explora\u00e7\u00e3o; hidrocarbonetos; energias renov\u00e1veis; e tudo que tem a ver com a agrega\u00e7\u00e3o de valor \u00e0 produ\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Eles declararam as Salinas Grandes e a lagoa Guayatayoc \u201cpatrim\u00f4nio cultural e natural ancestral dos povos ind\u00edgenas\u201d.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em 24 de fevereiro do ano passado, semanas depois de desalojar os trabalhadores da Ekeko, 500 pessoas de todas as comunidades bloquearam e acamparam durante tr\u00eas dias na Rota Nacional 52, perto de Saladillo, para ampliar a sua reivindica\u00e7\u00e3o. Eles declararam as Salinas Grandes e a lagoa Guayatayoc \u201cpatrim\u00f4nio cultural e natural ancestral dos povos ind\u00edgenas\u201d. Eles exigiram a presen\u00e7a do governador de Jujuy Gerardo Morales, mas o presidente enviou apenas o secret\u00e1rio dos Povos Ind\u00edgenas, Alejandra Liquin.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse momento, instalaram barreiras para controlar o acesso a um territ\u00f3rio de 212 quil\u00f4metros quadrados e organizaram uma rede de comunica\u00e7\u00e3o entre as comunidades, cada uma composta de 500 a 700 pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014<strong>Queremos que as pessoas respeitem e defendam este recurso natural.<\/strong> N\u00f3s temos trabalhado de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Os nossos antepassados j\u00e1 viveram e trabalharam aqui. Para n\u00f3s nunca foi preciso emigrar\u201d, diz In\u00e9s. <strong>\u00c9 nosso o direito defender o nosso territ\u00f3rio e que o governo respeite a posi\u00e7\u00e3o de cada comunidade sobre os recursos naturais.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Uzb_vn4wblk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Ainda na mesma rota, mas agora em estado de alerta, In\u00e9s representa o esp\u00edrito da luta que come\u00e7ou quando, em 2008, chegaram as primeiras empresas mineiras interessadas na explora\u00e7\u00e3o de l\u00edtio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Na quarta-feira, 28 de mar\u00e7o de 2012, \u00e0s 10h30, Alicia Chalabe subiu ao quarto andar do Tribunal de Talcahuano 550 -Buenos Aires-, aproximou-se do p\u00f3dio da sala de audi\u00eancia do Tribunal Supremo, abriu sua agenda e olhou para onde estavam sentados os ju\u00edzes Juan Carlos Maqueda, Elena Highton de Nolasco, Ricardo Lorenzetti e Carlos Fayt. Ela foi a segunda a falar; antes, o comunero Liborio Flores tinha relatado os danos causados pelas empresas que exploravam sem permiss\u00e3o em seu territ\u00f3rio, em Salta e Jujuy.<\/p>\n\n\n\n<p>Atr\u00e1s do Chalabe, mais de 60 ind\u00edgenas de Salta e Jujuy que viajaram quase 1.500 quil\u00f4metros para testemunhar a <strong>segunda vez que uma a\u00e7\u00e3o judicial dos povos nativos atingia o Supremo Tribunal<\/strong>, escutavam atentamente. Vinte dias antes, o cacique Felix Diaz tinha feito hist\u00f3ria ao reivindicar as terras ancestrais da comunidade Potae Napocna Navogoh, na prov\u00edncia de Formosa, perante o Tribunal.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>o governo e as empresas mineiras deviam cumprir o direito de consulta pr\u00e9via, livre e informada<\/p><cite>Alicia Chalabe.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A advogada, de casaco verde e brincos em forma de sol Pune\u00f1o, pegou o microfone e durante meia hora defendeu a reivindica\u00e7\u00e3o ind\u00edgena: o governo e as empresas mineiras deviam cumprir o direito de consulta pr\u00e9via, livre e informada. <strong>Para ela e para as comunidades, a exig\u00eancia era clara. Mas n\u00e3o para os ju\u00edzes.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Como voc\u00ea explicaria essa causa de a\u00e7\u00e3o? -Lorenzetti perguntou.<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia explicou: o pedido das comunidades \u00e9 respeito pelo direito \u00e0 consulta pr\u00e9via livre e informada que est\u00e1 consagrado na Conven\u00e7\u00e3o 169 da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), que a Argentina ratificou em 1992.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/Foto-3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4327\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/19211708\/Foto-3-1-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 E qual seria a interven\u00e7\u00e3o das comunidades antes de serem concedidas as licen\u00e7as de explora\u00e7\u00e3o? -perguntou o Juiz Maqueda, caneta na m\u00e3o, com os olhos fixos nas folhas que segurava.<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia esclareceu: <strong>o processo deve ser feito pelo Estado e n\u00e3o pelas empresas<\/strong>, ele deve consultar os representantes escolhidos pelo povo e considerar a adequa\u00e7\u00e3o cultural da consulta.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Mas o Estado j\u00e1 fez estas consultas \u00e0s comunidades? &#8211; perguntou Maqueda.<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia respondeu que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Seja mais precisa por favor, porque n\u00e3o fica claro o que voc\u00eas est\u00e3o pedindo. O que voc\u00eas esperam deste tribunal? O que esperam da senten\u00e7a? &#8211; perguntou Highton.<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia precisou mais uma vez: <strong>que a consulta seja realizada de acordo com as normas internacionais e no \u00e2mbito dos direitos humanos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Highton juntou as m\u00e3os e levantou as sobrancelhas.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Para o Tribunal tem de haver um conflito concreto. E isto nem sequer \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o declarativa. \u00c9 tudo muito hipot\u00e9tico, eu n\u00e3o vejo um caso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Nove meses ap\u00f3s a discuss\u00e3o no 4\u00ba andar dos Tribunais, com a assinatura desses mesmos quatro ju\u00edzes, <strong>o Tribunal rejeitou o recurso de prote\u00e7\u00e3o, declarou a sua falta de jurisdi\u00e7\u00e3o e devolveu o caso aos tribunais provinciais.<\/strong> Mas as comunidades ganharam visibilidade e, durante alguns anos, as empresas pararam de exercer press\u00e3o sobre Salinas Grandes. Ap\u00f3s a <a href=\"http:\/\/acnudh.org\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/Informe-del-Relator-sobre-derechos-de-pueblos-ind%C3%ADgenas-misi%C3%B3n-a-Argentina-2012.pdf\">visita de James Anaya<\/a>, na altura relator especial das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre os direitos dos povos ind\u00edgenas, e as a\u00e7\u00f5es perante a Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), os anos de 2014 e 2015 passaram com alguma calma. Enquanto em Olaroz as empresas tentavam de alguma forma fazer com que as comunidades aprovassem os projetos de l\u00edtio, <strong>as 33 comunidades aproveitaram a experi\u00eancia perante o Tribunal para elaborar um protocolo de consulta<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Nesses anos muitas reuni\u00f5es foram feitas para informar e discutir como eles deviam ser consultados de acordo com a sua cultura e modo de vida. Nestas assembleias come\u00e7aram a desconstruir a rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre o funcion\u00e1rio que conhece e a comunidade ignorante\u201d, diz P\u00eda Marcheghiani, diretora de Pol\u00edtica Ambiental da Funda\u00e7\u00e3o de Meio Ambiente e Recursos Naturais (FARN), que vem trabalhando com as comunidades desde 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>No final de 2015, foi conclu\u00eddo o primeiro protocolo biocultural comunit\u00e1rio da Argentina, chamado de <a href=\"https:\/\/farn.org.ar\/wp-content\/plugins\/download-attachments\/includes\/download.php?id=25626\">Kachi Yupi<\/a> que significa \u201cpegadas de sal\u201d em qu\u00edchua. Ele foi concebido para dialogar com o mundo jur\u00eddico e defender uma cosmovis\u00e3o ancorada no territ\u00f3rio. Talvez seja por isso que ao longo das suas 42 p\u00e1ginas s\u00e3o feitas compara\u00e7\u00f5es entre a colheita do mineral e o processo consultivo: assim como h\u00e1 momentos para colher e resolver, dizem, tamb\u00e9m h\u00e1 momentos para o sal e as decis\u00f5es a serem deixadas repousando, amadurecendo e cristalizando.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1068\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/Foto-4-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4287\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-300x167.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-1024x570.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-768x427.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-1536x854.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-150x83.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-696x387.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211710\/Foto-4-1-1068x594.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nessa altura, <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Gerardo Morales<\/span> assumiu o cargo de governador de Jujuy. <strong>Ele tomou nota do protocolo e prometeu que o reconheceria atrav\u00e9s de um decreto. Quatro anos mais tarde, o compromisso ainda est\u00e1 na lista de quest\u00f5es pendentes.<\/strong> Al\u00e9m disso, o Estado tamb\u00e9m n\u00e3o garantiu uma consulta pr\u00e9via, livre e informada de acordo com as normas internacionais e <strong>continuou com os processos de licita\u00e7\u00e3o realizados pela JEMSE, enquanto as empresas mineiras entraram nos territ\u00f3rios ignorando a voz daqueles que se opunham a eles<\/strong>. Diante desta nova escalada, as comunidades de Salinas Grandes se apresentaram mais uma vez perante o Supremo Tribunal, desta vez, atrav\u00e9s de <a href=\"https:\/\/farn.org.ar\/archives\/27368\">uma a\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ambiental<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Dois turistas revezam-se para tirar fotografias. Um deles se afasta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 linha do horizonte e o outro estende a m\u00e3o para gerar um jogo \u00f3ptico no qual parece segurar o sol em miniatura. Outros simplesmente caminham. Est\u00e3o todos de t-shirt. \u00c9 meio-dia. O sol incide direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um trator amarelo percorre a berma da Rota 52 at\u00e9 chegar \u00e0 \u00fanica cooperativa mineira dedicada \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de sal em blocos nestas terras brancas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/albumizr.com\/a\/GL9-\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"\" width=\"100%\" height=\"500\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>En el camino, pasa por el costado de un cartel instalado en el principal acceso para los turistas durante el corte de ruta de aquel 24 de febrero. Dice: \u201cSalinas Grandes. Es una de las 7 maravillas de Argentina. <strong>Las comunidades originarias decimos No al litio. S\u00ed al agua y a la vida en nuestros territorios<\/strong>\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>No caminho, ele passa ao lado de uma placa instalada no acesso principal para turistas durante o bloqueio da estrada naquele dia 24 de fevereiro. Diz: \u201cSalinas Grandes\u201d. \u00c9 uma das 7 maravilhas da Argentina. <strong>As comunidades ind\u00edgenas dizem N\u00e3o ao l\u00edtio. Sim \u00e0 \u00e1gua e \u00e0 vida nos nossos territ\u00f3rios\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e9stor Alberto \u00e9 o presidente da comunidade abor\u00edgene de Pozo Colorado, uma aldeia de adobe e estrada de pedregulho a meia hora de carro das salinas. Ele almo\u00e7a com os trabalhadores da cooperativa. Apenas um grupo sai da sombra para descarregar sacos de um cami\u00e3o. H\u00e1 quatro deles. Eles t\u00eam os seus corpos completamente cobertos. Os seus rostos est\u00e3o cobertos de balaclavas. Os olhos com \u00f3culos escuros. Se estivessem fora de um banco, pareceriam o clich\u00e9 de Hollywood de um bando de ladr\u00f5es. Mas, como o N\u00e9stor, eles trabalham de do nascer at\u00e9 o p\u00f4r-do-sol, para ganhar em m\u00e9dia 16.000 pesos argentinos (cerca de 260 d\u00f3lares) por m\u00eas. \u00c0s vezes eles tiram f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 \u00c9 um trabalho insalubre?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e9stor faz uma careta de chatice.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Insalubre? <strong>N\u00f3s somos filhos da terra, da pacha. N\u00e3o h\u00e1 mal nenhum aqui, nem para ela nem para n\u00f3s, que vivemos assim sem minera\u00e7\u00e3o, sem l\u00edtio nem qualquer outra coisa. Felizes. E \u00e9 assim que queremos continuar.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fuqJQlHxjas\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Ele tem 51 anos de idade. Cinco filhos e quatro netos. Todos eles estudam na cidade para depois \u201cvoltarem com os seus conhecimentos e ajudarem a comunidade\u201d. <strong>Ele diz que ainda falta muito para ele deixar de trabalhar. Que vai ser o corpo que vai decidir isso. <\/strong>Como In\u00e9s, os olhos dele nunca ser\u00e3o vistos. Os \u00f3culos espelhados d\u00e3o-lhe um ar bizarro de surf. Um chap\u00e9u de escuteiro Adidas cobre-lhe o rosto, as orelhas e o pesco\u00e7o.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>A cooperativa, da qual faz parte desde a sua cria\u00e7\u00e3o em 1993, emprega atualmente 30 fam\u00edlias nas comunidades de Pozo Colorado e San Antonio Tres Pozos. O trabalho nas salinas \u00e9 o produto de um futuro previs\u00edvel e hist\u00f3rico para a maioria dos homens destas comunidades. N\u00e9stor fala do trabalho como uma atividade inerente ao seu desenvolvimento. E do seu av\u00f4 &#8211; os av\u00f3s &#8211; como figura principal na transmiss\u00e3o do conhecimento e da cosmovis\u00e3o do trabalho e do respeito pela terra. Quando crian\u00e7a, ele ajudou a sua fam\u00edlia com os cuidados dos animais. \u00c0 medida que se afastou da inf\u00e2ncia, foi-se integrando cada vez mais no deserto branco at\u00e9 conhecer cada etapa do processo de extra\u00e7\u00e3o do sal. \u201c\u00c9 o sustento da \u00e1rea\u201d, diz ele.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Desde 2008 existem empresas querendo explorar e fazer estudos. E \u00e9 sempre a mesma coisa. Elas geram danos irrevers\u00edveis ao meio ambiente porque extraem a \u00e1gua das salinas. Mais \u00e1gua \u00e9 retirada do que ingressada e isso gera um desequil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 onze anos, as empresas mineiras queriam comprar os direitos de explora\u00e7\u00e3o de sal da cooperativa de N\u00e9stor. Eles ofereceram-lhes um milh\u00e3o de d\u00f3lares. <\/strong>Os trabalhadores recusaram.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Ne\u0301stor-Alberto.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4328\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Ne%CC%81stor-Alberto-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption><em>Foto: Mart\u00edn Kraut<\/em>.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Qualquer empresa que venha, diz N\u00e9stor, \u201cvamos tir\u00e1-la de qualquer maneira que pudermos\u201d. Se for preciso derramar sangue para defender a Pachamama, n\u00f3s o faremos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o conflito do fevereiro passado, N\u00e9stor Alberto e outros comuneros atravessaram as montanhas que os separam da bacia de Cauchari &#8211; Olaroz para olhar o impacto do projeto de minera\u00e7\u00e3o ativo naquela regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 <strong>O n\u00edvel da \u00e1gua das vertentes est\u00e1 diminuindo, os bebedouros onde os animais bebem \u00e1gua j\u00e1 secaram. \u00c9 uma pena como o lugar est\u00e1 sendo prejudicado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em <a href=\"https:\/\/farn.org.ar\/wp-content\/plugins\/download-attachments\/includes\/download.php?id=26988\">relat\u00f3rio de 2018<\/a>, o hidrologista Marcelo Sticco, em coopera\u00e7\u00e3o com a FARN, concluiu que existe um \u201c<strong>risco muito prov\u00e1vel de degrada\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel das reservas de \u00e1gua doce que se encontram nas margens da bacia<\/strong> e abaixo dos leques hidrogr\u00e1ficos\u201d. Segundo esse relat\u00f3rio, as consequ\u00eancias ser\u00e3o evidentes na \u201cquebra do solo superficial das salinas atuais, na altera\u00e7\u00e3o do sistema h\u00eddrico superficial e no efeito significativo no processo ancestral de colheita do sal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1097\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Foto-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4329\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-300x171.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-1024x585.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-768x439.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-1536x878.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-150x86.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-696x398.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211707\/Foto-5-1068x610.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Es que para extraer el carbonato de litio las empresas evaporan en piletones durante 18 meses una enorme cantidad de agua que proviene del bombeo de los salares<\/strong>: dos millones de litros de salmuera por tonelada, que se suman al agua dulce utilizada durante la purificaci\u00f3n del recurso. En una de sus investigaciones, Victoria Flexer, cient\u00edfica del Centro de Energ\u00eda y Materiales Avanzados de Jujuy, dedicado al estudio y desarrollo del litio, calcula que \u201cpara un salar con una concentraci\u00f3n de 700\u00a0 partes por mill\u00f3n de litio, se evaporar\u00edan 7.669.388 metros c\u00fabicos de agua de salar en una operaci\u00f3n de 20.000 toneladas anuales de carbonato de litio\u201d. Es decir, la misma cantidad que consume una ciudad de 70.000 personas en 12 meses. <strong>En una regi\u00f3n con precipitaciones menores a los 200 mil\u00edmetros anuales, la actividad genera un desbalance h\u00eddrico. Al extraer la salmuera, el agua dulce de las napas perif\u00e9ricas se desplaza para rellenar la que hace falta, se mezcla y se saliniza de manera irreversible.<\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para extrair o carbonato de l\u00edtio, as empresas evaporam durante 18 meses uma enorme quantidade de \u00e1gua em piscinas grandes, que vem do bombeamento das salinas:<\/strong> dois milh\u00f5es de litros de salmoura por tonelada, que s\u00e3o adicionados \u00e0 \u00e1gua doce utilizada na purifica\u00e7\u00e3o do recurso. Em uma de suas pesquisas, Victoria Flexer, cientista do Centro de Energia e Materiais Avan\u00e7ados de Jujuy, dedicada ao estudo e desenvolvimento do l\u00edtio, calcula que \u201cpara uma salina com uma concentra\u00e7\u00e3o de 700 partes por milh\u00e3o de l\u00edtio, 7.669.388 metros c\u00fabicos de \u00e1gua salgada seriam evaporados em uma opera\u00e7\u00e3o de 20.000 toneladas anuais de carbonato de l\u00edtio\u201d. Ou seja, a mesma quantidade consumida por uma cidade de 70.000 pessoas em 12 meses. <strong>Em uma regi\u00e3o com precipita\u00e7\u00e3o inferior a 200 mil\u00edmetros por ano, a atividade gera um desequil\u00edbrio h\u00eddrico. Quando a salmoura \u00e9 extra\u00edda, a \u00e1gua doce das camadas perif\u00e9ricas \u00e9 deslocada para encher o necess\u00e1rio, \u00e9 misturada e salinizada irreversivelmente.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O N\u00e9stor descreve Olaroz como um lugar totalmente perfurado, com muito movimento e aterros em toda parte, onde as comunidades n\u00e3o t\u00eam mais livre acesso.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Se as pessoas n\u00e3o puderem circular livremente em um lugar, isso significa que foi privatizado. N\u00f3s nunca permitiremos isso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Catua fica 20 quil\u00f4metros do Salar de Cauchari e \u00e9 uma das dez comunidades do Atacama que habitam a bacia de Olaroz-Cauchari. Para l\u00e1 chegar \u00e9 preciso atravessar um vale entre morros com diferentes tonalidades de vermelho, misturado com amarelos e castanhos. Um ap\u00f3s o outro, como o fole de um colosso a 4.000 metros acima do n\u00edvel do mar. No solo, o deserto para e avan\u00e7a diante de manchas de vegeta\u00e7\u00e3o e nascentes de \u00e1gua t\u00e3o grandes como uma piscina do bairro. A cerca de 35 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, atravessa a fronteira com o Chile.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>As casas misturam barro, cimento e chapa de metal. Elas t\u00eam as cores dos morros. S\u00e3o cinco horas da tarde. O sol est\u00e1 frio. Cerca de 700 pessoas moram l\u00e1, mas n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m nas ruas, que est\u00e3o cheias de lixeiras vermelhas e amarelas com uma placa: South American Salars, Advantage Lithium. Um aqueduto aberto atravessa o povoado. O presidente desta empresa mineira, <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Miguel Peral<\/span>, veio convenc\u00ea-los dos benef\u00edcios do projeto de extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio no sector da salina de Cauchari, que corresponde a esta comunidade. <strong>Se n\u00e3o houver qualquer conflito, os trabalhos come\u00e7ar\u00e3o em mar\u00e7o.\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Peral, juntamente com seus gerentes, reuniu a comunidade e prometeu que com o projeto come\u00e7ariam os trabalhos de pavimenta\u00e7\u00e3o das ruas e construiriam um gasoduto de g\u00e1s natural que ir\u00e1 libert\u00e1-los do problema di\u00e1rio do botij\u00e3o. Para acalmar a popula\u00e7\u00e3o, eles tamb\u00e9m mostraram os testes ambientais que garantem que n\u00e3o haver\u00e1 danos ecol\u00f3gicos ou impactos negativos na natureza e na popula\u00e7\u00e3o. O estudo foi realizado pela pr\u00f3pria <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">South American Salars.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Catua1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4330\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211706\/Catua1-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption><em>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Por enquanto, o vento \u00e9 a \u00fanica coisa a ouvir. Para falar com algu\u00e9m, \u00e9 preciso bater \u00e0 porta das casas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A madeira range. Uma mulher velha abre. Ela oferece preparar um prato de comida. Vai demorar. Um vento s\u00fabito levanta poeira, ataca os olhos, a boca e, como uma onda moribunda, volta \u00e0 plan\u00edcie.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Aqui h\u00e1 apenas vento e terra.<\/p>\n\n\n\n<p>A comida j\u00e1 n\u00e3o importa mais. Volta o sil\u00eancio. At\u00e9 que para um cami\u00e3o cisterna que traz \u00e1gua pot\u00e1vel para os vizinhos. \u00c9 dirigido por Juan Nievas, comunero e escrevente das atas nas que Rosendo Ger\u00f3n, presidente da comunidade ind\u00edgena Coquena-Pueblo Atacama, participa. O Ger\u00f3n trabalha no munic\u00edpio. Ele tem 50 anos e sete filhos que vivem em San Salvador de Jujuy.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentado em casa em Nievas, o Ger\u00f3n vai da desconfian\u00e7a \u00e0 ansiedade. Uma pintura do River Plate \u00e9 o \u00fanico ornamento pendurado. O Ger\u00f3n fala. Nievas faz anota\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014N\u00e3o temos gado, n\u00e3o temos agricultura e nem turismo. A minera\u00e7\u00e3o \u00e9 tudo o que a gente tem. <strong>\u00c9 por isso que o apoio da comunidade aos projetos de l\u00edtio \u00e9 total<\/strong>. Sabemos que em outras comunidades o projeto trouxe benef\u00edcios para as empresas locais, tais como servi\u00e7os de catering, carga de passageiros, alojamento.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"100%\" height=\"500\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BKBTwRG3IAQ\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen=\"\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>Ger\u00f3n nunca visitou uma f\u00e1brica de carbonato de l\u00edtio. Ele diz que n\u00e3o h\u00e1 mais de 20 pessoas desempregadas em Catua. No entanto, ele est\u00e1 convencido que <strong>a prosperidade do seu povo est\u00e1 ligada \u00e0 vontade das empresas mineiras<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014J\u00e1 aprovamos tudo com a prov\u00edncia; assim, se Deus quiser, em breve teremos outra empresa mineira em Cauchari que come\u00e7ar\u00e1 a trabalhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a ind\u00fastria do l\u00edtio &#8211; e da minera\u00e7\u00e3o em geral &#8211; n\u00e3o parece ter um grande potencial de m\u00e3o-de-obra na Argentina. <a href=\"https:\/\/publications.iadb.org\/publications\/spanish\/document\/Litio_en_la_Argentina_Oportunidades_y_desaf%C3%ADos_para_el_desarrollo_de_la_cadena_de_valor_es_es.pdf\">Um estudo realizado em 2019<\/a> pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) indicou que \u201cdada a natureza de capital intensivo dos processos mineiro, n\u00e3o se pode esperar um grande impacto sobre o emprego\u201d. <strong>Em Jujuy, em 2018 foram criados 566 empregos diretos relacionados ao l\u00edtio<\/strong>, incluindo 187 trabalhadores que em dezembro desse ano eram funcion\u00e1rios contratados na empresa mineira Exar e 140 em Sales de Jujuy. <strong>Em Catua, apenas 12 pessoas est\u00e3o empregadas no sector mineiro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Para outros moradores da regi\u00e3o, as empresas mineiras s\u00e3o sin\u00f4nimo de desapossar e novos cen\u00e1rios de viol\u00eancia<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para outros moradores da regi\u00e3o, as empresas mineiras s\u00e3o sin\u00f4nimo de desapossar e novos cen\u00e1rios de viol\u00eancia. <strong>As sete fam\u00edlias que comp\u00f5em o Coletivo Apacheta foram v\u00edtimas de amea\u00e7as e ass\u00e9dio em 2012, quando um deles foi espancado e acabou no hospital com v\u00e1rios golpes no seu corpo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A v\u00edtima foi Hip\u00f3lito Guzm\u00e1n, irm\u00e3o de Carlos Guzm\u00e1n, um dos l\u00edderes deste Coletivo que foi organizado para <strong>resistir \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do l\u00edtio na zona<\/strong>. O Hip\u00f3lito tamb\u00e9m fez parte da Assembleia e comiss\u00e1rio rural da Susques. Pouco antes do ataque, <strong>ele j\u00e1 tinha denunciado amea\u00e7as e agress\u00f5es verbais por causa da sua posi\u00e7\u00e3o contra as empresas mineiras.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Pessoas da empresa e parte da comunidade apontaram para n\u00f3s: eles disseram que \u00e9ramos rebeldes, que n\u00e3o os deix\u00e1vamos trabalhar. At\u00e9 o governador <span style=\"background-color:#374141\" class=\"td_text_highlight_marker\">Gerardo Morales<\/span> disse que aqueles de n\u00f3s que eram contra o l\u00edtio t\u00ednhamos que deixar de usar celulares\u201d, diz Carlos. N\u00f3s nos perguntamos, <strong>ent\u00e3o todos os que s\u00e3o a favor da minera\u00e7\u00e3o v\u00e3o parar de beber \u00e1gua?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A 7\u00aa Procuradoria de Osinaga Gallacher interveio no caso, mas anos mais tarde, n\u00e3o houve progressos sobre os verdadeiros respons\u00e1veis pela agress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>a representante da Justi\u00e7a e o defensor dos interesses da empresa eram marido e mulher.\u00a0<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia continua, tamb\u00e9m, nos tribunais de justi\u00e7a. Foi o que aconteceu com Reinaldo Casimiro, que mora uns dois quil\u00f4metros do Salar de Cauchari, explorado pela mineradora Exar, entre outras. D<strong>esde que a empresa instalou a f\u00e1brica de l\u00edtio na regi\u00e3o, ele come\u00e7ou a ver suas lhamas, cabras, burros e ovelhas emagrecendo a um ritmo not\u00e1vel. N\u00e3o era um problema dos animais, mas do seu ambiente: a erva para eles comer esgotava-se.<\/strong> Atrav\u00e9s de uma a\u00e7\u00e3o preventiva, o Casimiro enfrentou a empresa mineira e a Secretaria Provincial de Recursos H\u00eddricos, que concede as licen\u00e7as para as pedreiras. Pouco tempo depois ele notou um detalhe preocupante: a representante da Justi\u00e7a e o defensor dos interesses da empresa eram marido e mulher.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014A Dra. Mar\u00eda Laura Flores, ju\u00edza da primeira inst\u00e2ncia do Tribunal do Meio Ambiente de Jujuy, leva o caso. Seu marido \u00e9 o advogado Fernando Eleit, membro da C\u00e2mara de Minera\u00e7\u00e3o de Jujuy, membro da Lithium Corp e associado de um escrit\u00f3rio que assessora projetos de minera\u00e7\u00e3o no Noroeste da Argentina. <strong>Est\u00e1 tudo na fam\u00edlia<\/strong>\u201d, diz Chalabe, advogada de Casimiro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Foto-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4331\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211705\/Foto-6-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Em Jujuy, uma prov\u00edncia com forte presen\u00e7a ind\u00edgena e camponesa, <strong>o conflito territorial e ambiental \u00e9 elevado e est\u00e1 associado ao avan\u00e7o das monoculturas, projetos imobili\u00e1rios e, naturalmente, da minera\u00e7\u00e3o. Como em grande parte do pa\u00eds, os ataques contra os l\u00edderes ocorrem atrav\u00e9s de modalidades que se repetem: ass\u00e9dio, repress\u00e3o em protestos e, principalmente, a judicializa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Os casos podem ser civis ou criminais e s\u00e3o sempre contra pessoas que t\u00eam um lugar relevante nas comunidades ou que ocupam parte do territ\u00f3rio que outros querem\u201d, diz Victoria Almeida, coordenadora da \u00e1rea de direitos dos povos ind\u00edgenas da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental ANDHES.<\/p>\n\n\n\n<p>O Casimir \u00e9 assediado. Eles querem que ele v\u00e1 embora e \u00e9 por isso que o rumor come\u00e7ou a circular de que sua fam\u00edlia n\u00e3o era de Catua, mas de outra cidade, Jamas. Ele \u00e9 culpado pelo conflito e procuram virar \u00e0 comunidade contra ele, diz Chalabe. Ele diz que, por causa dos danos causados desde 2009, seus filhos \u201cser\u00e3o muito prejudicados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Exar diz ser dona do lugar e est\u00e1 procurando assentar de gra\u00e7a. Ele tem sido t\u00e3o picado que nem ele, nem sua fam\u00edlia, nem os animais podem andar\u201d, diz ela.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<p>Sendo o quarto produtor de l\u00edtio no mundo, a Argentina est\u00e1 posicionada como doadora de um recurso b\u00e1sico e estrat\u00e9gico para os pa\u00edses centrais &#8211; diz Bruno Fornillo, especialista em energia e geopol\u00edtica na Am\u00e9rica do Sul. Os d\u00f3lares destas exporta\u00e7\u00f5es, no entanto, representam um baixo percentual: em 2017, dos 58 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em remessas totais, a minera\u00e7\u00e3o contribuiu com 3,52 bilh\u00f5es e o l\u00edtio com apenas 224 milh\u00f5es de d\u00f3lares.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>a Alian\u00e7a Cambiemos &#8211; que governou o pa\u00eds at\u00e9 ao final de 2019 &#8211; aprofundou ainda mais esta atividade extrativa, permitindo indiscriminadamente a entrada de capital nos territ\u00f3rios provinciais<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p><strong>\u00bfY si existieran iniciativas que no vulneraran el ambiente ni los derechos de las comunidades? \u00bfPodr\u00eda el Estado llevar adelante un proyecto para industrializar y agregar valor al recurso?<\/strong> Para los gobiernos de la \u00faltima d\u00e9cada el litio fue sin\u00f3nimo de futuro, aunque ese horizonte tuvo un significado difuso. Durante la \u00faltima presidencia de Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner hubo varios intentos para declararlo mineral estrat\u00e9gico, pero ninguno prosper\u00f3; tampoco se modific\u00f3 su matriz extractiva. Y desde 2015, la Alianza Cambiemos -que gobern\u00f3 el pa\u00eds hasta fines de 2019- profundiz\u00f3 a\u00fan m\u00e1s ese extractivismo al permitir de forma indiscriminada el ingreso de capitales en los territorios provinciales. <strong>Promovi\u00f3 un discurso de miner\u00eda new age flexibilizada y a medida para las trasnacionales. Hoy, el desaf\u00edo es quebrar esa tendencia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>E se houvesse iniciativas que n\u00e3o prejudicassem o meio ambiente nem os direitos das comunidades? O Estado poderia realizar um projeto para industrializar e agregar valor ao recurso? <\/strong>Para os governos da \u00faltima d\u00e9cada, o l\u00edtio era sin\u00f3nimo de futuro, embora esse horizonte tivesse um significado difuso. Durante a \u00faltima presid\u00eancia de Cristina Fern\u00e1ndez de Kirchner houve v\u00e1rias tentativas para declar\u00e1-lo um mineral estrat\u00e9gico, mas nenhuma delas prosperou; a sua matriz extrativa tamb\u00e9m n\u00e3o foi alterada. E desde 2015, a Alian\u00e7a Cambiemos &#8211; que governou o pa\u00eds at\u00e9 ao final de 2019 &#8211; aprofundou ainda mais esta atividade extrativa, permitindo indiscriminadamente a entrada de capital nos territ\u00f3rios provinciais. <strong>Promoveu um discurso de minera\u00e7\u00e3o da nova era flexibilizada e adaptada \u00e0s necessidades das empresas transnacionais. Hoje, o desafio \u00e9 quebrar esta tend\u00eancia.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014 Esta pode ser a \u00faltima oportunidade para sair do lugar da neodepend\u00eancia no padr\u00e3o tecnol\u00f3gico emergente\u201d, disse Fornillo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\">***<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1920\" height=\"1280\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/San-Miguel-de-Colorados.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4332\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados.jpg 1920w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211703\/San-Miguel-de-Colorados-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption><em>Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Melisa Argento, pesquisadora da CONICET que trabalha desde 2011 com a popula\u00e7\u00e3o de Salinas Grandes e Laguna de Guayatayoc, <strong>o conflito do l\u00edtio n\u00e3o gerou apenas rejei\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m um processo de fortalecimento da identidade: as comunidades come\u00e7aram a falar de um territ\u00f3rio \u00fanico, uma bacia com uma divis\u00e3o n\u00e3o subordinada \u00e0 das prov\u00edncias de Salta e Jujuy<\/strong>. Articularam-se com comunidades do Deserto do Atacama, no Chile, que vivem em cen\u00e1rios semelhantes ou piores, e com assembleias de ambientalistas. Passaram da resist\u00eancia ao protocolo \u201cKachi Yupi\u201d, e da consulta pr\u00e9via \u00e0 exig\u00eancia de que os projetos deixassem os territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A opini\u00e3o do Eloy Quispe \u00e9 parecida ao nomear os morros que rodeiam San Miguel de Colorados, a comunidade que ele presidiu durante um ano e oito meses: \u201cEl Condor\u201d. Huancar. Jarrunco. Todos est\u00e3o em perigo\u201d, diz ele, lembrando as batalhas que seus antepassados travaram pela terra e contra os v\u00e1rios governos que tentaram tir\u00e1-la deles. Ele fala da batalha de Abra de la Cruz, da batalha de Quera. <strong>As duas ocorreram no final do s\u00e9culo XIX na Puna Juje\u00f1a, a mesma que hoje &#8211; diz Quispe &#8211; est\u00e1 mais uma vez sob amea\u00e7a de conquista.\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1200\" height=\"800\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/Foto-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4333\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7.jpg 1200w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-150x100.jpg 150w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-696x464.jpg 696w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211702\/Foto-7-1068x712.jpg 1068w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption>Eloy Quispe. Foto: Mart\u00edn Kraut.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014O estado continua subjugando-nos. Primeiro foram os espanh\u00f3is, depois os governos provinciais, o governo nacional. <strong>O l\u00edtio \u00e9 mais um passo na expropria\u00e7\u00e3o total de recursos.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os cinco filhos de Quispe est\u00e3o ao redor enquanto o pai fala de guerras, medo, resist\u00eancia.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o nosso legado. O que vamos deixar \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es?<\/p><cite>Eloy Quispe.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o nosso legado. O que vamos deixar \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es? <strong>Eu fico com medo de prejudicar a M\u00e3e Terra. Com a polui\u00e7\u00e3o, tudo vai morrer. <\/strong>Faz tempo que aqui o ecossistema est\u00e1 mudando. Chove menos do que antes. Chove em uma \u00e1rea, em outra n\u00e3o. <strong>Parecesse que ir\u00e1 chover, mas no final n\u00e3o cai. A lagoa de Pozuelo vai desaparecer porque os rios que a alimentam est\u00e3o secando.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ele tem 32 anos; \u00e9 funcion\u00e1rio p\u00fablico do Comiss\u00e1rio de Purmamarca, o distrito do que este povo depende, que come\u00e7ou como um povoado de adobe h\u00e1 quase 200 anos e hoje tem cerca de 90 fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Em San Miguel de Colorados quem n\u00e3o trabalha no munic\u00edpio dedica-se ao cultivo de batatas, milho, cevada, alho, cebola; e um pouco de pecu\u00e1ria: cabra, ovelha, lhama, vaca. Outros v\u00eam a Salinas Grandes para trabalhar como guias tur\u00edsticos e vender seus produtos, como In\u00e9s Lamas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quispe tem uma voz suave, mas firme. Uma voz cautelosa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>As empresas procuram sempre o elo mais fraco. Se eles quiserem avan\u00e7ar, vai haver guerra.<\/p><cite>Eloy Quispe.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p style=\"max-width:860px\">\u2014Muitas empresas vieram para nos prometer coisas. Prometeram-nos projetos, empregos. O acordo diz que as tr\u00eas partes t\u00eam de participar: Estado, comunidade e empresa. <strong>O que \u00e9 que o Estado faz? Ele envia as empresas mineiras, que s\u00f3 querem investir rapidamente, tirar todos os recursos naturais e lev\u00e1-los embora.<\/strong> As empresas procuram sempre o elo mais fraco. Se eles quiserem avan\u00e7ar, vai haver guerra.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"Tierra de Resistentes\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>En la puna de Jujuy, en el noroeste argentino, treinta y tres comunidades ind\u00edgenas de Salinas Grandes y Laguna de Guayatayoc, resisten hace una d\u00e9cada el avance de la miner\u00eda de litio. Ni los conflictos judiciales ni las amenazas que son moneda corriente en la provincia paralizaron su reclamo: defienden el agua, quieren sostener su modo de vida ligado a los salares y exigen que las empresas que ponen en riesgo h\u00eddrico la zona se vayan de sus territorios.<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":4287,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[11,44],"tags":[155,156,47,134,157,154],"coauthors":[148,149,150],"class_list":{"0":"post-347","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-argentina","8":"category-reportajes","9":"tag-agua","10":"tag-explotacion","11":"tag-fase-ii","12":"tag-hostigamiento","13":"tag-industria-tecnologica","14":"tag-litio"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.4 - 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