{"id":120,"date":"2019-04-23T03:42:00","date_gmt":"2019-04-23T03:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/tierra.local\/es\/?p=120"},"modified":"2021-04-20T16:31:14","modified_gmt":"2021-04-20T16:31:14","slug":"el-cercado-indigena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/","title":{"rendered":"Opera\u00e7\u00e3o cerca-\u00edndio"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"max-width:860px\"><strong>Em Rond\u00f4nia, os \u00edndios est\u00e3o cercados. N\u00e3o se trata de uma for\u00e7a de express\u00e3o. Abra um mapa e busque localizar o estado brasileiro a noroeste, na fronteira com a Bol\u00edvia: d\u00e9cadas de desmatamento deixaram as terras ind\u00edgenas como as \u00faltimas manchas verdes no territ\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nelas nascem os rios que correm todo o estado. Ali est\u00e3o as florestas que servem de morada para etnias reduzidas a poucas centenas de sobreviventes.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, estas terras s\u00e3o cobi\u00e7adas por sua madeira, min\u00e9rios, por seu \u2018valor de mercado\u2019. Neste cerco n\u00e3o apenas a natureza est\u00e1 acuada; as comunidades ind\u00edgenas est\u00e3o encurraladas.<\/p>\n\n\n\n<p>A grilagem de terras e o roubo de madeira s\u00e3o os crimes que servem para desmembrar as terras ind\u00edgenas. Nos territ\u00f3rios Karipuna e Uru-eu-wau-wau h\u00e1 ataques em v\u00e1rias frentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se assist\u00edssemos a um document\u00e1rio sobre hordas de b\u00e1rbaros tomando Roma de assalto, testemunhamos, em uma viagem \u00e0 Rond\u00f4nia, invas\u00f5es constantes e \u00edndios amea\u00e7ados.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Imagine o jogo: o tabuleiro se chama <\/em>Rond\u00f4nia e o objetivo \u00e9 colocar pe\u00e7as dentro das \u00faltimas ilhas verdes, as florestas. As pe\u00e7as s\u00e3o os grileiros, os madeireiros.<em> Eles avan\u00e7am. Tem o apoio dos pol\u00edticos locais, tamb\u00e9m na C\u00e2mara e no Senado. Os agentes do estado ou representantes da sociedade civil tentam barrar as invas\u00f5es. Mas tamb\u00e9m est\u00e3o amea\u00e7ados.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os Karipuna e Uru-eu-wau-wau ainda assim lutam. Resistem h\u00e1 d\u00e9cadas, na verdade. Mas agora \u00e9 diferente. Com o novo presidente, Jair Bolsonaro, a guerra contra os territ\u00f3rios ind\u00edgenas foi declarada.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-embed-handler wp-block-embed-embed-handler wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"youtube-embed\" data-video_id=\"PIFcHf99cb8\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Uru Eu Wau Wau - Terra em disputa\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PIFcHf99cb8?feature=oembed&#038;enablejsapi=1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O cacique consternado<\/h2>\n\n\n\n<p>Em setembro do ano passado, Andr\u00e9 desapareceu. Ele sa\u00edra para uma ca\u00e7ada no mato com os parentes, quando decidiu por conta pr\u00f3pria averiguar a presen\u00e7a de invasores na terra Karipuna. N\u00e3o voltou mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo da entrada de madeireiros no territ\u00f3rio ind\u00edgena, logo pensou-se o pior: o cacique havia topado com invasores. Chefe da Aldeia Panorama, a \u00fanica restante do povo Karipuna, Andr\u00e9 j\u00e1 havia sofrido amea\u00e7as por denunciar a extra\u00e7\u00e3o ilegal de madeira e a grilagem dentro da terra ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Por dias, seus primos o procuram pelas matas que bordeiam o rio Jaci Paran\u00e1. Voltavam para casa de noite, sem novidades. A m\u00e3e do cacique, Katsik\u00e1, uma senhora sempre falante e sorridente, ficava desconsolada . Seu outro filho, Adriano, tamb\u00e9m uma lideran\u00e7a entre os Karipuna, havia apenas tr\u00eas meses denunciado na sede das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em Nova Iorque, o risco iminente de um ataque aos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim da tarde do terceiro dia, Andr\u00e9 foi encontrado. Estava cambaleante em uma barranca do rio depois de ter andado dentro da mata por 72 horas, sem qualquer comida. O que havia passado, fora mesmo um caso de desorienta\u00e7\u00e3o. A paisagem de \u00e1rvores tombadas confundiu o cacique que n\u00e3o achou mais o caminho por onde tinha vindo. Preocupado com um encontro cara-a-cara com madeireiros, fez in\u00fameros desvios tentando chegar em casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Andr\u00e9 nos recebeu em fevereiro na Aldeia Panorama, ele nos contou sobre o epis\u00f3dio sem muito drama. Para um rapaz de 26 anos, o cacique carrega um semblante s\u00e9rio, de poucos sorrisos. A carga de ser o chefe da aldeia parece pesar. \u201cEu j\u00e1 n\u00e3o tenho a minha paz\u201d, ele contou. As amea\u00e7as come\u00e7aram exatamente quando ele se tornou cacique, h\u00e1 apenas um ano. \u201cPensei em desistir, ir embora daqui. Mas pensei na minha m\u00e3e, na minha fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos dias de nossa visita ao territ\u00f3rio Karipuna, sa\u00edmos em uma longa caminhada com Andr\u00e9 para verificar se havia novos desmatamentos dentro da reserva. A jornada de oito quil\u00f4metros em meio a mata fechada foi aos poucos desembocando em pequenas clareiras com marca\u00e7\u00f5es nas \u00e1rvores; antigos acampamentos de invasores.<\/p>\n\n\n\n<p>Na beira de um rio encontramos mudas de caf\u00e9 plantadas h\u00e1 pouco tempo. A \u00faltima vez que Andr\u00e9 andou por ali havia sido em setembro. Cruzamos o igarap\u00e9 e passamos a andar numa trilha aberta pelos pr\u00f3prios invasores. Apenas poucos quil\u00f4metros percorridos, ouvimos um barulho intermitente de m\u00e1quina. Parecia uma motosserra. A tens\u00e3o se instalou e mesmo sem saber a que dist\u00e2ncia est\u00e1vamos dos poss\u00edveis madeireiros, passamos a nos comunicar por sinais, para n\u00e3o fazer barulho.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-embed-handler wp-block-embed-embed-handler wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"youtube-embed\" data-video_id=\"jlYM1F9UB4A\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"Karipuna - Terra de Resistentes\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jlYM1F9UB4A?feature=oembed&#038;enablejsapi=1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Quando chegamos ao fim da trilha, nos deparamos com uma grande \u00e1rea desmatada. N\u00e3o havia sinal vis\u00edvel de atividade. Mas o barulho seguia. Agora, mais pr\u00f3ximos, pod\u00edamos notar tratar-se de um caminh\u00e3o ou trator. &nbsp;Era um skid, uma m\u00e1quina utilizada para desmatar e abrir estradas, garantiu o cacique.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso apenas confirmava o que ele j\u00e1 sabia: que os madeireiros estavam abrindo mais uma estrada para entrar na Terra Ind\u00edgena e j\u00e1 estavam bem no centro do territ\u00f3rio de 152 mil hectares. No dia seguinte, de volta \u00e0 Aldeia Panorama, Andr\u00e9 contou a sua m\u00e3e, Katsik\u00e1, o que havia visto. Consternada, ela murmurou: \u201cNunca a nossa terra foi t\u00e3o pequena.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O menino cacique e o tio guerreiro<\/h2>\n\n\n\n<p>Bahira ser\u00e1 cacique. Ningu\u00e9m sabe quando, mas como um<em>&nbsp;pequeno pr\u00edncipe<\/em>, seu futuro \u00e9 certo: ele j\u00e1 foi escolhido para chefiar a aldeia. Hoje, seu pai, Taroba, \u00e9 o cacique.<\/p>\n\n\n\n<p>Bahira \u00e9 o ca\u00e7ula de quatro filhos. Na Aldeia Alto Jamari, al\u00e9m dos pais, vivem sua av\u00f3, suas tr\u00eas irm\u00e3s, tios, tias, primos, primas e um sobrinho, Thalison, um beb\u00ea de um ano que vive pendurando-se carinhosamente nas pernas dos adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>Bahira tem 11 anos e na aldeia \u00e9 ele quem pesca. No igarap\u00e9 de \u00e1gua leitosa que margeia as seis casas de madeira existem piabas. N\u00e3o s\u00f3 isso: ele pastoreia os seis bois que possuem os \u00edndios. Logo cedo, todos os dias, ele ordenha as vacas para trazer leite para seus parentes.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro cacique vai \u00e0 escola, constru\u00edda bem na aldeia, ao lado de um posto de sa\u00fade. Ele \u00e9 o \u00fanico menino de sua idade. Embora em outras aldeias dos Uru-Eu-Wau-Wau existam outros garotos de sua idade, eles est\u00e3o a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis aldeias Uru-Eu-Wau-Wau est\u00e3o espalhadas em um territ\u00f3rio de 1,8 milh\u00e3o de hectares. H\u00e1 tamb\u00e9m tr\u00eas aldeias de ind\u00edgenas da etnia Amondawa, al\u00e9m de tr\u00eas grupos de \u00edndios isolados.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-embed-handler wp-block-embed-embed-handler wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<div class=\"youtube-embed\" data-video_id=\"jHS8YuLEUEQ\"><iframe loading=\"lazy\" title=\"BAHIRA  - Uru-Eu- Wau-Wau\" width=\"696\" height=\"392\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jHS8YuLEUEQ?feature=oembed&#038;enablejsapi=1\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/div>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>O amigo mais pr\u00f3ximo de Bahira parece ser o tio Awapu. Aos 28 anos, como um grande menino, ele faz piadas e provoca\u00e7\u00f5es com o futuro cacique. Brincalh\u00e3o, o tio muda de tom quando fala de amea\u00e7as. Awapu foi \u2018alertado\u2019 quando confiscou uma moto de um invasor dentro da terra ind\u00edgena. Um dia, de um propriet\u00e1rio vizinho ao territ\u00f3rio, ouviu: \u201c\u00c9 bom voc\u00ea parar com estas coisas, pois isso vai te dar problema\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o tio de Bahira, o conselho que sempre escutam \u00e9 \u201cn\u00e3o se metam com os invasores, apenas busquem a pol\u00edcia\u201d. E de fato, eles o fizeram. N\u00e3o s\u00e3o poucos os delegados da Pol\u00edcia Federal que compartilham seus n\u00fameros de WhatsApp com os l\u00edderes ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas de uma denuncia a uma a\u00e7\u00e3o efetiva de combate a invasores, parece haver um longo caminho. Os ind\u00edgenas esperam a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o, mas elas demoram a chegar. Por isso, Awapu e outras lideran\u00e7as jovens est\u00e3o quase sempre organizando rondas e miss\u00f5es a \u00e1reas historicamente cobi\u00e7adas por invasores. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro de 2017, junto com seu irm\u00e3o, o cacique Taroba, e outros ind\u00edgenas Uru-Eu-Wau-Wau, ele surpreendeu dois homens em uma cabana constru\u00edda em uma \u00e1rea rec\u00e9m desmatada, a apenas alguns quil\u00f4metros da aldeia Alto Jamari.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles amarraram os invasores e exigiram informa\u00e7\u00f5es sobre quem os tinha enviado. Em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/kanindebrasil\/videos\/1349273738451590\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">v\u00eddeo gravado no dia<\/a>, os dois homens afirmam que estavam ali de boa f\u00e9, pois lhes tinham dito que os \u201clotes\u201d eram documentados, poderiam ser ocupados. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em fevereiro, quando visitamos a Alto Jamari, Awapu nos levou em nova ronda ao local onde h\u00e1 2 anos h\u00e1 2 anos encontraram o acampamento de posseiros, na parte norte da terra protegida. Na trilha, o ind\u00edgena rapidamente notou vest\u00edgios de uma entrada recente. Al\u00e9m dos galhos frescos cortados a fac\u00e3o, havia garrafas de \u00e1gua, latas de cerveja e gal\u00f5es vazios de \u00f3leo de motosserra.<\/p>\n\n\n\n<p>O caminho seguia uma picada nova que j\u00e1 se aproximava do rio Floresta, o mesmo que cruza a aldeia. Na beira do rio, eles viram tamb\u00e9m que, quem quer que fosse que havia entrado ali, jogara sal no barreiro das antas. Uma forma de atrair o mam\u00edfero e outra ca\u00e7a qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p>De volta \u00e0 aldeia, Awapu contou \u00e0 fam\u00edlia o que tinha visto em nossa caminhada. \u201cEles est\u00e3o indo cada vez mais longe\u201d, pontuou depois de mostrar, em seu celular, as fotos da picada aberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Bahira, o futuro cacique, acompanhou a conversa ao nosso lado. Calado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O cerco<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/prismic-io.s3.amazonaws.com\/opendataiii%2F6de239c2-5cbb-4959-8c1e-99d9ffd1290c_8.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>KATSIK\u00c1, M\u00c3E DO L\u00cdDER ANDR\u00c9 KARIPUNA, TEMEU O PIOR QUANDO O FILHO DESAPARECEU EM SETEMBRO DE 2018. Foto: Fabio Nascimiento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00a0As invas\u00f5es nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas em Rond\u00f4nia n\u00e3o s\u00e3o algo novo. Povos que permaneceram em isolamento at\u00e9 os anos 1970,\u00a0<a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Karipuna_de_Rond%C3%B4nia\">os Karipuna<\/a>\u00a0e\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Uru-Eu-Wau-Wau\" target=\"_blank\">os Uru-eu-Wau-Wau<\/a>\u00a0vivem desde ent\u00e3o em constante disputa para manter sua terra protegida.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas as reservas seguem questionadas, embora j\u00e1 reconhecidas e homologadas por decretos presidenciais. Em n\u00edvel local, propriet\u00e1rios rurais disputam os limites da terra dos \u00edndios argumentando, com base em documentos antigos (ou falsos), que h\u00e1 erros de demarca\u00e7\u00e3o. Em uma esfera mais alta, prefeitos, deputados e at\u00e9 senadores defendem propostas de redu\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios. Em comum, estes dois grupos apoiam-se no discurso de que existe \u201cmuita terra para pouco \u00edndio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados de organiza\u00e7\u00f5es da igreja cat\u00f3lica que desde os anos 1980 monitoram os epis\u00f3dios de viol\u00eancia no campo, como assassinatos de lideran\u00e7as e amea\u00e7as a comunidades, revelam o recrudescimento desta briga.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o&nbsp;<a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI)<\/a>, desde 2016, foram registrados oito epis\u00f3dios de invas\u00e3o para roubo de madeira e abertura de novas \u00e1reas dentro do territ\u00f3rio ind\u00edgena Karipuna. No caso dos Uru-Eu-Wau-Wau, existem quatro ocorr\u00eancias de ataques registradas desde 2012.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra fonte de informa\u00e7\u00e3o, a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.cptnacional.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT)<\/a>&nbsp;incluiu em sua base de dados o registro de uma amea\u00e7a feita a Adriano Karipuna, o irm\u00e3o de Andr\u00e9 e antigo cacique. Ele recebeu em 2017 liga\u00e7\u00f5es an\u00f4nimas com amea\u00e7as de morte. Em abril do ano seguinte, durante a 17\u00aa Sess\u00e3o do F\u00f3rum Permanente sobre Assuntos Ind\u00edgenas na sede da ONU<a href=\"https:\/\/cimi.org.br\/2018\/04\/eu-vim-a-onu-pedir-ajuda-para-que-nao-ocorra-um-massacre-contra-o-meu-povo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;em Nova York ele denunciou<\/a>: \u201cNosso povo foi reduzido a cinco pessoas. Hoje somos 58, com a terra homologada desde 1998. Mas madeireiros, garimpeiros, fazendeiros e grileiros agem de forma incans\u00e1vel. O governo brasileiro n\u00e3o protege o territ\u00f3rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As evid\u00eancias desta hostilidade contra os \u00edndios tamb\u00e9m se traduzem em desmatamento. Uma an\u00e1lise utilizando os dados do&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.obt.inpe.br\/OBT\/assuntos\/programas\/amazonia\/prodes\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Programa de Monitoramento por Sat\u00e9lites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Prodes- INPE)<\/a>&nbsp;indica derrubadas crescentes dentro e no entorno dos territ\u00f3rios. Os \u00faltimo levantamento dispon\u00edvel (de agosto de 2017 a julho de 2018) revela ser este o per\u00edodo com mais alto desmatamento dentro das terras Karipuna e Uru-Eu-Wau-Wau nos \u00faltimos dez anos &#8211; 460 hectares e 690 hectares respectivamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Um hectare equivale aproximadamente a um campo de futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Ampliando-se a an\u00e1lise a um per\u00edmetro de 10 km ao redor dos territ\u00f3rios a press\u00e3o se torna mais vis\u00edvel. Desde 2008, foram cerca de 8.400 hectares desmatados no entorno da terra ind\u00edgena Karipuna e 3.060 hectares ao redor da Uru-Eu-Wau-Wau. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, ocorreram as maiores extens\u00f5es de desmatamento na faixa de 10 quil\u00f4metros ao redor das duas terras ind\u00edgenas: em 2016, foram 1460 hectares; em 2017, 1.660 hectares; e, em 2018, 1.430 hectares.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/prismic-io.s3.amazonaws.com\/opendataiii%2F7519aee9-14c3-4b7a-b751-35e55398c46a_sentinel-2_l1c-timelapse+%282%29.gif\" alt=\"\"\/><figcaption>A ABERTURA DE ESTRADAS PARA EXTRA\u00c7\u00c3O DE MADEIRA ENTRE OS ANOS DE 2016 E 2018 NO TERRIT\u00d3RIO DE KARIPUNA DE UMA PERSPECTIVA DE SAT\u00c9LITE. IMAGENS SENTINEL 2 \/ ESA.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Um dos exemplos recentes da constante disputa pelas terras ind\u00edgenas \u00e9 a presen\u00e7a de &nbsp;propriedades sobrepostas aos limites ou mesmo dentro das reservas. O&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.car.gov.br\/#\/sobre\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cadastro Ambiental Rural (CAR)<\/a>&nbsp;\u00e9 o instrumento de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria criado pelo governo brasileiro ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o do&nbsp;<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/C%C3%B3digo_Florestal_brasileiro\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">novo C\u00f3digo Florestal em 2012<\/a>. A extens\u00e3o da propriedade, bem como suas \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente, s\u00e3o autodeclaradas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados levantados pela reportagem mostram que existem 325 propriedades rurais declaradas dentro do territ\u00f3rio Uru-Eu-Wau-Wau. Al\u00e9m disso, 812 im\u00f3veis rurais t\u00eam intersec\u00e7\u00e3o com ambos os territ\u00f3rios ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para combater o avan\u00e7o do desmatamento, o&nbsp;<a href=\"http:\/\/ibama.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ibama (a ag\u00eancia ambiental brasileira)&nbsp;<\/a>aplica multas e abre processos de embargo \u00e0s propriedades onde se infringiu a lei ambiental. De 10.996 autua\u00e7\u00f5es ambientais registradas no estado de Rond\u00f4nia (atualizadas at\u00e9 15 de novembro de 2018), 1.073 est\u00e3o a um raio de 10km de uma das reservas e 475 est\u00e3o num raio de 3km.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Uru-Eu-Wau-Wau. chama aten\u00e7\u00e3o o fato de que das 21 \u00e1reas embargadas dentro do territ\u00f3rio, mais da metade das san\u00e7\u00f5es (14) foi aplicada ap\u00f3s 2015. Uma atua\u00e7\u00e3o deste per\u00edodo &#8211; Auto de Infra\u00e7\u00e3o 6.944, de 16 de maio de 2017 &#8211; serve como exemplo do tipo de crime ambiental que \u00e9 praticado pelos invasores nas terras ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>A multa de R$ 414 mil reais (~100 mil d\u00f3lares) detalha que se deve ao ato de \u201cdanificar 68,7342 hectares de florestas nativa objeto de especial preserva\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pass\u00edveis de autoriza\u00e7\u00e3o para explora\u00e7\u00e3o ou supress\u00e3o, na \u00e1rea de reserva ind\u00edgena Uru Eu Wau Wau, com a explora\u00e7\u00e3o madeireira.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure><iframe loading=\"lazy\" height=\"700\" width=\"100%\" src=\"https:\/\/rondonia.infoamazonia.org\/\" allowfullscreen=\"true\"><\/iframe><\/figure>\n\n\n\n<p>Estes fatos apontam o padr\u00e3o que se repete na hist\u00f3ria de Rond\u00f4nia: o roubo de madeira e o desmatamento ilegal funcionando como t\u00e1ticas de grilagem de terras. Uma vez desmatadas, as terras se tornam mais valorizadas e por isso loteadas e vendidas. A partir da\u00ed se instalam litig\u00e2ncias para a solu\u00e7\u00e3o do caos fundi\u00e1rio e, n\u00e3o raro, os invasores recebem o apoio dos pol\u00edticos locais e de seus representantes em Bras\u00edlia (DF).<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma entrevista em Porto Velho (capital do estado), a procuradora Gisele Bleggi, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal em Rond\u00f4nia, afirmou que existem evid\u00eancias de que quadrilhas realizam a grilagem sistem\u00e1tica de terras ind\u00edgenas no estado. Sem revelar nomes, ela diz que pessoas foram identificadas agindo para tomar terras em v\u00e1rias \u00e1reas pertencentes aos \u00edndios . H\u00e1 ainda casos de grupos de invasores que partilham o mesmo advogado. \u201cO que podemos dizer \u00e9 que n\u00e3o se tratam de pessoas humildes em busca de terra\u201d, revelou.<\/p>\n\n\n\n<p>O epis\u00f3dio mais recente de invas\u00e3o na terra ind\u00edgena Uru-Eu-Wau-Wau ocorreu no dia 12 de janeiro de 2019. Em&nbsp;<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ro\/rondonia\/noticia\/2019\/01\/14\/indigenas-tem-terras-invadidas-e-sao-ameacados-em-ro-veja-video.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um v\u00eddeo gravado<\/a>&nbsp;por moradores da aldeia Linha 623, um grupo de homens aparece em uma picada aberta dentro dos limites a leste da terra ind\u00edgena. Bem na entrada deste trecho de mata, existe uma placa de metal do \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelo cuidado aos ind\u00edgenas no Brasil,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.funai.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai)<\/a>. A placa, que informa ser ali o in\u00edcio da terra protegida, est\u00e1 crivada de balas.<\/p>\n\n\n\n<p>Juruna, um dos l\u00edderes da etnia, acompanhado de apenas mais tr\u00eas pessoas da aldeia, confrontou os invasores. \u201cAqui n\u00e3o pode n\u00e3o. Aqui n\u00f3s n\u00e3o vamos deixar\u201d, ele diz com arco e flecha nas m\u00e3os. Seu interlocutor no v\u00eddeo afirma que as pessoas que est\u00e3o ali \u201cquerem terra\u201d e pergunta qual seria a solu\u00e7\u00e3o. Ao ouvir Juruna repetir que na terra ind\u00edgena n\u00e3o podiam entrar, o homem magro e barba branca amea\u00e7a: \u201cHoje somos n\u00f3s aqui, amanh\u00e3 ser\u00e3o mais de 200, voc\u00eas podem esperar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-929\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212346\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212346\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1-300x200.jpg 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212346\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1-768x512.jpg 768w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212346\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19212346\/840761e7a5e5d31a7ba8760524b1fbd405eee250_1.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Fabio Nascimiento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O l\u00edder Uru-Eu-Wau-Wau reconheceu aquele que liderava o grupo: um vizinho de pelo menos tr\u00eas d\u00e9cadas, morador da mesma Linha 623 (estrada que corta assentamentos). Fontes mencionaram que, embora as invas\u00f5es fossem frequentes no passado, a grande diferen\u00e7a est\u00e1 no fato de que os vizinhos das terras ind\u00edgenas passaram a apoiar a organiza\u00e7\u00e3o de invas\u00f5es. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele mesmo janeiro, um epis\u00f3dio similar ocorreu na terra ind\u00edgena Karipuna. No dia 20 do m\u00eas, dois moradores da aldeia Panorama viajavam para um tratamento agentes de sa\u00fade do governo federal quando encontraram 20 pessoas dentro do territ\u00f3rio protegido, em uma \u00e1rea conhecida como Piqui\u00e1, que fica a apenas 8 km da aldeia. Os invasores haviam ocupado um posto de vigil\u00e2ncia da FUNAI e se recusaram a sair do territ\u00f3rio. Desde ent\u00e3o, os ind\u00edgenas deixaram de usar a estrada que d\u00e1 acesso \u00e0 terra Karipuna.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto os ind\u00edgenas como seus defensores nas ONGs e nos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos de prote\u00e7\u00e3o dos \u00edndios identificam a crescente amea\u00e7a aos territ\u00f3rios com o discurso inflamado do novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Durante a campanha eleitoral, uma de suas promessas foi a interrup\u00e7\u00e3o dos processos para a demarca\u00e7\u00e3o de novas terras ind\u00edgenas, al\u00e9m da revis\u00e3o das j\u00e1 existentes. Vitorioso, o governante vem anunciando medidas que enfraquecem ainda mais a Funai, transferindo os poderes de demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, antes pertencentes ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, para o Minist\u00e9rio da Agricultura.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A promissora Rond\u00f4nia<\/h2>\n\n\n\n<p>O marechal C\u00e2ndido Rondon (1865-1958) talvez n\u00e3o imaginasse que um s\u00e9culo depois de suas expedi\u00e7\u00e3o \u00e0s matas dos rios Guapor\u00e9, Mamor\u00e9 e Madeira, a terra que hoje leva seu nome se transformaria em um experimento econ\u00f4mico com manchas de genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele mesmo um descendente de ind\u00edgenas, tornou-se o criador do Servi\u00e7o de Prote\u00e7\u00e3o ao \u00cdndio (SPI) em 1910, que anos mais tarde daria origem \u00e0 atual institui\u00e7\u00e3o do governo brasileiro para as quest\u00f5es ind\u00edgenas, a FUNAI. Ap\u00f3s as expedi\u00e7\u00f5es no fim do s\u00e9culo 19 para a instala\u00e7\u00e3o de linhas de tel\u00e9grafo e reconhecimento de territ\u00f3rios brasileiros fronteiri\u00e7os \u00e0 Bol\u00edvia, o militar dedicou-se ao extremo oeste brasileiro com o intento de contatar tribos isoladas.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje Rond\u00f4nia \u00e9 o \u00fanico estado brasileiro que homenageia um personagem da Hist\u00f3ria. O territ\u00f3rio de \u2018\u00edndios bravos\u2019, no entanto, se tornou rapidamente a \u2018porta de entrada da Amaz\u00f4nia\u2019 quando o&nbsp;<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Juscelino_Kubitschek\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">governo de Juscelino Kubitschek<\/a>&nbsp;iniciou a constru\u00e7\u00e3o da rodovia BR-364 ainda nos 60. As linhas de tel\u00e9grafo de Rondon deitaram o caminho que seria seguido para abertura da estrada. Este foi o principal eixo de ocupa\u00e7\u00e3o do oeste da Amaz\u00f4nia brasileira durante os anos 1970, quando a pol\u00edtica de col\u00f4nia agr\u00edcolas foi impulsionada pelo rec\u00e9m instalado governo militar e por seu novo \u00f3rg\u00e3o encarregado de distribuir terras, o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.incra.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">INCRA (Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria)<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada dos colonos significou o contato com diversas etnias, entre elas muitas de grupos de \u201cTupi-centrais\u201d, ou Kawahib, como os Piripkura, os Karipuna e os Uru-Eu-wau-wau. Hoje, estas etnias t\u00eam um fato em comum: est\u00e3o reduzidas a algumas centenas de pessoas. Entre os Uru-Eu, que tamb\u00e9m s\u00e3o conhecidos como Jupa\u00fa, ou \u201cbocas negras\u201d, estima-se uma popula\u00e7\u00e3o de 85 ind\u00edgenas. J\u00e1 os Karipuna, que tamb\u00e9m em algum momento foram conhecidos como bocas negra, por usarem as mesmas tatuagens de jenipapo ao redor dos l\u00e1bios, tiveram uma redu\u00e7\u00e3o mais dr\u00e1stica. Hoje, apenas 58 habitam uma \u00fanica aldeia no rio Jaci Paran\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images.prismic.io\/opendataiii\/eacddf66cfcc743b79f6766e70a6563f3912291d_3.jpg?auto=compress,format\" alt=\"\"\/><figcaption>RIO JACI PARAN\u00c1: UM DOS PRINCIPAIS A CORTAR ROND\u00d4NIA E HABITADO H\u00c1 S\u00c9CULOS PELOS KARIPUNA. Foto: Pablo Nascimiento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os grupos Kawahib (ou Caua\u00edbe) ocuparam a bacia do rio Madeira e seus afluentes no s\u00e9culo XIX e passaram, ainda que de forma involunt\u00e1ria, a proteger terras de grande import\u00e2ncia ambiental. Eles est\u00e3o em uma zona de transi\u00e7\u00e3o entre o Amaz\u00f4nia e o Cerrado, onde a vegeta\u00e7\u00e3o densa mistura-se a gram\u00edneas e \u00e1rvores mais baixas. Por\u00e9m, a caracter\u00edstica ambiental mais importante \u00e9 o relevo montanhoso que abriga as nascentes de todos os rios mais vitais ao estado de Rond\u00f4nia. Alguns, os maiores afluentes de tr\u00eas importantes sub-bacias amaz\u00f4nicas, do Madeira, Guapor\u00e9 e Mamor\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Os antrop\u00f3logos e sertanistas que participavam do contato nos anos 70, sabiam da exist\u00eancia de um ciclo de ataques e contra ataques entre os \u00edndios e os seringueiros. Por isso, quando se anunciou a chegada dos colonos, solicitaram, atrav\u00e9s da FUNAI, a interdi\u00e7\u00e3o das \u00e1reas a oeste de Rond\u00f4nia, por onde perambulavam os Uru-Eu-Wau-Wau e os Karipuna.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento, o ciclo de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia promovido pelos militares e a cria\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias agr\u00edcolas caminhava a todo vapor. Hoje dos 52 munic\u00edpios de Rond\u00f4nia, 48 surgiram a partir de assentamentos agr\u00edcolas. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A homologa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ind\u00edgenas apenas ocorreu nos anos 90, atrav\u00e9s de decretos dos presidente Fernando Collor de Mello, no caso dos Uru-Eu-Wau-Wau em 1991, e de Fernando Henrique Cardoso, em 1998 no caso do Karipuna. No intervalo de 20 anos &#8211; entre o pedido de interdi\u00e7\u00e3o e a efetiva demarca\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios, a disputa entre colonos e ind\u00edgenas pela terra j\u00e1 havia se aprofundado. Ela segue at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPassados 47 anos (<em>da cria\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias agr\u00edcolas<\/em>), estamos vivendo problemas que poderiam ter sido resolvidos, e a coisa foi se acomodando e acomodando por se tratar de terra ind\u00edgena\u201d, disse o antigo superintendente do INCRA em Rond\u00f4nia, Cletho Muniz Britto, ao criticar a FUNAI em uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/legis.senado.leg.br\/comissoes\/reuniao;jsessionid=2E36BC6D5B5B82CF7FDE9C7261AFD494?0&#038;reuniao=7303\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">audi\u00eancia p\u00fablica no dia 27 de mar\u00e7o de 2018<\/a>&nbsp;realizada pela Comiss\u00e3o de Agricultura do Senado Federal. A sess\u00e3o foi convocada pelo ex-governador do estado, o senador Ivo Cassol, para debater a situa\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria conflituosa entre os assentados e os ind\u00edgenas Uru-Eu-Wau-Wau.<\/p>\n\n\n\n<p>O entendimento do INCRA \u00e9 que o pr\u00f3prio governo errou ao demarcar a terra ind\u00edgena em \u00e1rea que j\u00e1 havia sido decretada como assentamento da reforma agr\u00e1ria. Em 1975, um decreto (75.281) desapropriou milhares de hectares pertencentes a oito seringais existentes na \u00e1rea, somando um total de 533,9 mil hectares. Parte deste territ\u00f3rio foi destinado ao Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Burareiro, onde foram assentadas 1500 fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>A FUNAI, no entanto, apoiando os pedidos de seus antrop\u00f3logos e sertanistas, que testemunhavam a morte dos ind\u00edgenas por doen\u00e7as e conflitos, decidiu pela cria\u00e7\u00e3o da terra atrav\u00e9s de uma portaria (508) em 1978, tr\u00eas anos depois que os assentamentos do INCRA tinham sido criados. Mas documentos do \u00f3rg\u00e3o provam que a interdi\u00e7\u00e3o da mesma \u00e1rea destinada a assentamentos j\u00e1 havia sido interditada em 1974. Portanto, antes do INCRA criar Burareiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, 105 fam\u00edlias foram afetadas pela sobreposi\u00e7\u00e3o com a terra ind\u00edgena. O lit\u00edgio em torno desta \u00e1rea abriu uma frente de invas\u00e3o. O INCRA em desacordo com a FUNAI, seguiu emitindo t\u00edtulos para lotes dentro da Terra Ind\u00edgena. Basta comparar os dados dos antigos lotes criados, com os pedidos de Cadastro Ambiental Rural e o atual desmatamento ao norte da terra ind\u00edgena Uru-Eu-Wau-Wau para notar a similitude dos pol\u00edgonos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sess\u00e3o liderada pelo senador Ivo Cassol em mar\u00e7o de 2018, o advogado Ermogenes Jacinto de Souza, representante de assentados do munic\u00edpio do Jorge Teixeira, apresentou um requerimento para o desmembramento de uma \u00e1rea de 52 mil hectares da \u00e1rea ind\u00edgena. \u201cSe voc\u00ea for fazer uma compara\u00e7\u00e3o, de seiscentos e poucos \u00edndios, ou que haja mil \u00edndios, para 2 milh\u00f5es de hectares, dariam 2 mil hectares para cada \u00edndio\u201d, disse enquanto apresentava o argumento pela redu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/prismic-io.s3.amazonaws.com\/opendataiii%2Fce535bfa-323f-437f-bc54-1b5df5af41a5_oficio+15+fev+2018.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>OF\u00cdCIO ENVIADO PELO DEPUTADO FEDERAL L\u00daCIO MOSQUINI DO PMDB DE ROND\u00d4NIA AO PRESIDENTE DA FUNAI EM FEVEREIRO DE 2018 PEDINDO INFORMA\u00c7\u00d5ES SOBRE POSS\u00cdVEL REDU\u00c7\u00c3O DA TERRA IND\u00cdGENA URU-EU-WAU-WAU<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Este mesmo pedido parece ter sido endossado um m\u00eas antes pelo&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/deputados\/178954?ano=2019\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">deputado federal L\u00facio Mosquini do MDB<\/a>&nbsp;de Rond\u00f4nia atrav\u00e9s do Of\u00edcio 110 de seu gabinete, enviado no dia 15 de fevereiro de 2018 ao presidente da FUNAI. No documento, o parlamentar requer uma posi\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o indigenista sobre a possibilidade de redu\u00e7\u00e3o de 52,600 mil hectares da terra Uru-Eu-Wau-Wau. Um m\u00eas depois, na audi\u00eancia p\u00fablica ele defendeu seu ponto de vista: \u201cA Funai deveria flexibilizar a \u00e1rea antropizada (<em>na terra ind\u00edgena<\/em>).\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando est\u00e1vamos em Rond\u00f4nia, na cidade de Jaru, reduto eleitoral de Mosquini, pedimos aos seus assessores uma entrevista com o deputado. Ele n\u00e3o pode nos atender. Mas o assessor parlamentar Sigmar Rodrigues Nunes afirmou em uma conversa por telefone que n\u00e3o existe por parte do parlamentar at\u00e9 o momento uma proposi\u00e7\u00e3o legislativa para a redu\u00e7\u00e3o da reserva ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>No Congresso os senadores cobraram o presidente da FUNAI, o general Franklimberg Ribeiro de Freitas, sobre a demora do \u00f3rg\u00e3o em solucionar conflitos com colonos. Na \u00e9poca ainda sob o governo do presidente Michel Temer, ele afirmou que o \u00f3rg\u00e3o seria incapaz de rever os limites criados por um decreto presidencial. Pela constitui\u00e7\u00e3o, terras ind\u00edgenas homologadas pelo presidente s\u00f3 podem ser revistas com projeto de lei aprovado no Congresso Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, Freitas foi reconduzido, por Jair Bolsonaro \u00e0 presid\u00eancia da FUNAI.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Na linha de frente<\/h2>\n\n\n\n<p>Depois de 35 anos vivendo em Rond\u00f4nia, o frei Volmir Bavaresco ainda mant\u00e9m o sotaque de ga\u00facho. Pouco afeito \u00e0 conversa fiada, o dominicano de longa barba e compridos cabelos grisalhos \u00e9 o coordenador regional do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI) em Rond\u00f4nia. Depois de anos trabalhando em outras frentes do estado, ele abra\u00e7ou a defesa dos Karipuna. Desde 2016, coordena a\u00e7\u00f5es com os ind\u00edgenas desta etnia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNossa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 de que se cair a Karipuna, cai toda a prote\u00e7\u00e3o a terras ind\u00edgenas em Rond\u00f4nia, quem sabe no Brasil\u201d, ele alerta. O CIMI, organiza\u00e7\u00e3o da igreja cat\u00f3lica fundada em 1972, est\u00e1 desde seu in\u00edcio na linha de frente dos conflitos com \u00edndios gerados pela coloniza\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, o Greenpeace est\u00e1 ajudando os ind\u00edgenas. Atrav\u00e9s de um&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.greenpeace.org\/brasil\/blog\/coloque-voce-tambem-os-olhos-na-amazonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">projeto chamado \u201cTodos os Olhos na Amaz\u00f4nia\u201d<\/a>&nbsp;tem monitorado novos desmatamentos na terra ind\u00edgena atrav\u00e9s de sobrevoos e imagens de sat\u00e9lite.<\/p>\n\n\n\n<p>A iniciativa de pedir ajuda ao CIMI e ao Greenpeace partiu do pr\u00f3prio povo ind\u00edgena. Segundo o cacique Andr\u00e9, a solicita\u00e7\u00e3o surgiu no momento em que eles, os Karipuna, se sentiram mais isolados, sem mesmo o apoio da FUNAI. Na percep\u00e7\u00e3o do l\u00edder Karipuna nos anos recentes, o \u00f3rg\u00e3o federal abandonou os \u00edndios. Nos \u00faltimos cinco anos,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.inesc.org.br\/orcamento-2018-funai-respira-mas-nao-se-recupera\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o or\u00e7amento do funda\u00e7\u00e3o caiu<\/a>&nbsp;de cerca de 757 milh\u00f5es de reais (200 milh\u00f5es de d\u00f3lares) para 597 milh\u00f5es de reais (157 milh\u00f5es de d\u00f3lares).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/prismic-io.s3.amazonaws.com\/opendataiii%2F6c58ebc6-db9b-4be7-8532-aa4670474460_rondonia_highres_fabio-nascimento-32.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>\u00a0O CACIQUE ANDR\u00c9 KARIPUNA, DE APENAS 26 ANOS. HERDOU O CARGO E AS AMEA\u00c7AS DE SEU IRM\u00c3O ADRIANO POR DENUNCIAR O ROUBO DE MADEIRA E A GRILHAGEM DE TERRAS. Foto: Pablo Nascimiento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Embora tamb\u00e9m originado pelo conflito com antigos assentamentos, a amea\u00e7a aos Karipuna \u00e9 distinta dos Uru-Eu-Wau-Wau. As invas\u00f5es ao longo dos anos t\u00eam ocorrido para a retirada de madeira e, por essa raz\u00e3o, a abertura de estradas ilegais dentro do territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A frente de destrui\u00e7\u00e3o se concentra a oeste da terra ind\u00edgena, no&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.google.com\/maps?biw=1920&#038;bih=1007&#038;q=distrito+de+Uni%C3%A3o+Bandeirantes&#038;um=1&#038;ie=UTF-8&#038;sa=X&#038;ved=0ahUKEwjc2d64pZ3hAhWNErkGHeaLAGoQ_AUIDygC\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">distrito de Uni\u00e3o Bandeirantes<\/a>. Originalmente uma zona dedicada ao manejo madeireiro sustent\u00e1vel, Uni\u00e3o Bandeirantes teve 10 serrarias licenciadas no in\u00edcio de sua ocupa\u00e7\u00e3o, no come\u00e7o dos anos 2000. Mas o que prevaleceu foi a explora\u00e7\u00e3o ilegal. Madeiras retiradas da terra Karipuna passaram a abastecer as serraria vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>A forma e o teor dos planos de manejo autorizados pelo governo do estado de Rond\u00f4nia n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis ao p\u00fablico. Contatada, a Secretaria de Desenvolvimento Ambiental (SEDAM) do estado afirmou que os dados referentes \u00e0s autoriza\u00e7\u00f5es n\u00e3o poderiam ser enviados.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, no entanto, pediu em<a href=\"http:\/\/www.mpf.mp.br\/ro\/sala-de-imprensa\/noticias-ro\/uniao-funai-e-estado-de-rondonia-tem-30-dias-para-apresentar-plano-de-protecao-da-terra-indigena-karipuna\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">&nbsp;A\u00e7\u00e3o Civil P\u00fablica<\/a>&nbsp;de julho de 2018 uma auditoria nos planos de manejo em funcionamento no entorno da Terra Ind\u00edgena Karipuna. At\u00e9 o fechamento desta reportagem, nem mesmos os procuradores tinham recebido os dados sobre os planos de manejo de Uni\u00e3o Bandeirantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 o surgimento de pleitos sobre a terra Karipuna. \u00c9 poss\u00edvel encontrar na internet, uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=1ciE-6DvEKM\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">s\u00e9rie de v\u00eddeos<\/a>&nbsp;em que o representante da empresa de engenharia Amazon Gel, Ediney Holanda Santos, em encontros com produtores rurais de Uni\u00e3o Bandeirantes, detalha procedimentos para a obten\u00e7\u00e3o de documentos para a posse de terra dentro da terra ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, se trata de \u201calgo grande\u201d que tem gente grande por tr\u00e1s. \u201cO pessoal que critica n\u00e3o sabe as autoridades que est\u00e3o do nosso lado\u201d, diz. &nbsp;E ainda alerta a audi\u00eancia que os grupos de WhatsApp de Bandeirante devem ser mais discretos. \u201cEu vejo o cara postando foto de tora de madeira, o cara nem sabe que est\u00e1 sendo monitorado pela Pol\u00edcia Federal\u201d.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fEFI28eW8AY\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Veja o v\u00eddeo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de participar em reuni\u00f5es como principal representante da empresa, Ediney n\u00e3o figura como s\u00f3cio. Uma busca pelo registro da Amazon Gel na Secretaria da Fazenda de Rond\u00f4nia revela que a empresa com CNPJ 26.244.487\/0001-41 funciona com apenas um s\u00f3cio, em nome da microempreendedora individual Cristiane Gomes da Silva.<\/p>\n\n\n\n<p>Habilitada para fazer servi\u00e7os de engenharia civil, n\u00e3o h\u00e1 no registro autoriza\u00e7\u00e3o da Amazon Gel para servi\u00e7os de topografia, agrimensura e georreferenciamento por sat\u00e9lites. Estas s\u00e3o geralmente as capacidades requeridas para a regulariza\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/prismic-io.s3.amazonaws.com\/opendataiii%2F980f5c0c-ce5b-4a91-8926-b8e372513ab4_10.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>NELSON BISPO DOS SANTOS: PRESO EM 2017 ACUSADO DE VENDAS DE LOTES DENTRO DA TERRA URU-EU-WAU-WAU. Foto: Pablo Nascimiento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00a0A venda ou a facilita\u00e7\u00e3o de terras dentro de territ\u00f3rios ind\u00edgenas \u00e9 uma atividade comum em Rond\u00f4nia. Em Ariquemes, terceira maior cidade do estado, encontramos Nelson Bispo dos Santos. Baiano de nascen\u00e7a, mineiro de cria\u00e7\u00e3o, ele est\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas d\u00e9cadas na terra de Rondon. Em 2017,\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/amazoniareal.com.br\/pf-desmonta-esquema-de-grilagem-que-causou-prejuizo-ambiental-de-r-22-mi-na-terra-dos-indios-uru-eu-wau-wau\/\" target=\"_blank\">ele e outras 19 pessoas foram presas em na Opera\u00e7\u00e3o Jurerei<\/a>\u00a0da Pol\u00edcia Federal que investigou a venda de lotes dentro da terra ind\u00edgena Uru-Eu-Wau-Wau.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo as investiga\u00e7\u00f5es, Santos, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o que coordenava, a Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores Rurais da Comunidade Curupira, estava incentivando a invas\u00e3o da terra protegida. Uma das provas foi encontrada no celular de posseiros apreendidos pelos \u00edndios dentro da reserva em 2017. Em um v\u00eddeo filmado em janeiro daquele mesmo, Santos aparece em um discurso exortando a que propriet\u00e1rios rurais a \u201ctomarem e cuidarem dos seus lotes\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 espera de uma senten\u00e7a, ele vive &nbsp;em um bairro residencial de Ariquemes, onde cumpre pris\u00e3o domiciliar. Ele utiliza uma tornozeleira eletr\u00f4nica. Numa tarde do dia 22 de fevereiro, ele nos recebeu para uma entrevista e nos mostrou os documentos que embasam, em sua vis\u00e3o, o direito \u00e0 terra dentro do territ\u00f3rio dos \u00edndios. Um deles \u00e9 exatamente a emiss\u00e3o de um Cadastro Ambiental Rural, com pouco mais de quatro mil hectares, autodeclarado dentro do territ\u00f3rio Uru-EU-Wau-Wau<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com informa\u00e7\u00f5es da Pol\u00edcia Federal, fazer loteamentos era o modus operandi de uma quadrilha que estava encurralando os ind\u00edgenas. As vendas de lotes s\u00e3o uma fachada para o desmatamento. Nas fiscaliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram encontrados lotes por 1500 a 2000 reais (550 d\u00f3lares) o alqueire (cerca de 24 mil metros quadrados), que \u00e9 um pre\u00e7o \u00ednfimo comparado ao valor da terra na regi\u00e3o. Ali o pre\u00e7o do alqueire \u00e9 pelo menos 20 vezes mais &#8211; 20 mil reais a 40 mil reais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se existe algu\u00e9m em que papo de t\u00edtulos de terra n\u00e3o cola \u00e9 Jo\u00e3o Alberto Ribeiro, 61 anos, atual chefe do Parque Nacional Paca\u00e1s Novos, uma \u00e1rea de 765 mil hectares que est\u00e1 sobreposta ao territ\u00f3rio ind\u00edgena. Em suas a\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o &#8211; que ocorrem a cada 15 dias &#8211; o gestor j\u00e1 encontrou por tr\u00eas vezes um mapa com desenhos de lote que ocupam 60 mil hectares dentro da terra ind\u00edgena. \u201cIsso \u00e9 coisa de profissional\u201d, pontua.<\/p>\n\n\n\n<p>O exemplo citado por ele como o precedente perigoso em Rond\u00f4nia, \u00e9&nbsp;<a href=\"https:\/\/temas.folha.uol.com.br\/projeto-amazonia\/floresta-nacional\/reserva-que-encolhe.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Floresta Nacional do Bom Futuro<\/a>. A \u00e1rea que antigamente possu\u00eda 280 mil hectares sofreu um ataque em massa de madeireiros passou a ter 97,3 mil hectares. Houve falha do Ibama ao n\u00e3o manter uma fiscaliza\u00e7\u00e3o \u00e0 altura.Instalaram-se vilas e at\u00e9 serrarias dentro da reserva. Em 2008, na \u00e9poca do governo Cassol, um escambo legislativo entre o governo estadual e federal permitiu a redu\u00e7\u00e3o da unidade de conserva\u00e7\u00e3o validando a tese de quem ocupa ilegalmente em algum momento pode obter a posse da terra..<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE assim est\u00e1 vindo em domin\u00f3\u201d, diz Ribeiro em refer\u00eancia a constantes invas\u00f5es ocorridas em unidades de conserva\u00e7\u00e3o e terras ind\u00edgenas no estado. Como o frei Volmir Bavaresco e a procuradora Gisele Bleggi, ele acredita em uma a\u00e7\u00e3o concertada para a grillagem de terras em \u00e1reas protegidas em Rond\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Um tra\u00e7o comum encontrado em todos os aliados dos \u00edndios ou funcion\u00e1rios p\u00fablicos encarregados de defend\u00ea-los com quem conversamos \u00e9 que eles tamb\u00e9m se sentem amea\u00e7ados. Jo\u00e3o Alberto tem casos cinematogr\u00e1ficos de como saiu das emboscadas armadas por madeireiros. A situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto, que os fiscais do ICMBIo n\u00e3o podem mais utilizar o posto de fiscaliza\u00e7\u00e3o nas proximidades do parque. \u201cS\u00e3o v\u00e1rias amea\u00e7as, gen\u00e9ricas e espec\u00edficas. A gente fica sabendo por terceiros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ivaneide Bandeira, fundadora da ONG Kanind\u00e9, que h\u00e1 duas d\u00e9cadas defende quest\u00f5es ind\u00edgenas e ambientais no estado de Rond\u00f4nia, n\u00e3o tem d\u00favida que a situa\u00e7\u00e3o se deteriora com a ascens\u00e3o de Bolsonaro ao poder. Segundo ela os invasores se sentem \u201cempoderados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela define sua situa\u00e7\u00e3o como extremamente fr\u00e1gil. Conta que no mesmo dia em que fizemos a entrevista, ela havia encontrado um grupo de ind\u00edgenas que a alertaram para que n\u00e3o usasse uma camiseta de futebol com o logo da Kanind\u00e9. \u201cA gente \u00e9 alvo hoje\u201d, ela lamenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as m\u00e3os espalmadas sobre um mapa que mostra os limites do territ\u00f3rio Uru-Eu-Wau-Wau, Neidinha (como \u00e9 conhecida) explica que o avan\u00e7o pelos dois lados da terra protegida \u00e9 \u201cproblem\u00e1tica\u201d, pois bem no centro da terra ind\u00edgena existem tr\u00eas povos isolados. \u201c\u00c9 uma terra rica e tem um monte de gente querendo acabar com ela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se desde que foi iniciada a coloniza\u00e7\u00e3o de Rond\u00f4nia, os conflito em torno das terras ind\u00edgenas parece incessante, qual seria a diferen\u00e7a com o novo governo de Bolsonaro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO grande diferencial agora \u00e9 que a invas\u00e3o est\u00e1 indo para cima da aldeia\u201d, pondera a ativista.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos dias antes do fechamento desta reportagem, recebemos informa\u00e7\u00f5es da ONG de Neidinha, a Kanind\u00e9, sobre novas invas\u00f5es, ocorridas ao longo de mar\u00e7o e princ\u00edpios de abril. Ou seja, logo ap\u00f3s a nossa visita. Desta vez, as entradas ocorreram na Linha C5 pr\u00f3ximos a aldeia Alto Jamari, ao norte da terra ind\u00edgena. Est\u00e1 \u00e9 a aldeia de Bahira e seu tio Awapu. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/watch\/?v=2269774966612738\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um v\u00eddeo publicado&nbsp;<\/a>no dia 02 de abril, os pr\u00f3prios posseiros falam em 400 fam\u00edlias instaladas na terra ind\u00edgena. Dois dias depois, agentes da pol\u00edcia militar ambiental e do fizeram uma a\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia com sobrevoo e buscas na \u00e1rea. Encontraram o barrac\u00e3o de uma associa\u00e7\u00e3o ainda desconhecida em invas\u00f5es anteriores. At\u00e9 o momento, os invasores n\u00e3o foram retirados e n\u00e3o houve a\u00e7\u00e3o do governo federal.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><em>Esta reportagem recebeu apoio do Rainforest Journalism Fund atrav\u00e9s do Pulitzer Center on Crisis Reporting.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li><em>Agradecimentos por apoio na log\u00edstica: Kanind\u00e9 e Greenpeace-Brasil<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tierra.jerre-dev.xyz\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/eee.png\" alt=\"Tierra de Resistentes\" class=\"wp-image-3766\" width=\"100\" height=\"100\" srcset=\"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee.png 400w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-300x300.png 300w, https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/19211834\/eee-150x150.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 100px) 100vw, 100px\" \/><\/figure><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The continued invasion of native territories in the western part of the Brazilian Amazon rainforest.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":5123,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[296,45,371,259,338,372],"coauthors":[194,191,196],"class_list":{"0":"post-120","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"tag-deforestacion","9":"tag-fase-i","10":"tag-grilagem","11":"tag-madera","12":"tag-pueblo-karipuna","13":"tag-pueblo-uru-eu-wau-wau"},"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v26.4 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Opera\u00e7\u00e3o cerca-\u00edndio<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Written by\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Gustavo Faleiros, Fabio Nascimento, Infoamazon\u00eda\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. reading time\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"92 minutos\" \/>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Opera\u00e7\u00e3o cerca-\u00edndio","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/","twitter_misc":{"Written by":"Gustavo Faleiros, Fabio Nascimento, Infoamazon\u00eda","Est. reading time":"92 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/"},"author":{"name":"Gustavo Faleiros","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/78a3494158767222271d5d1474147abc"},"headline":"Opera\u00e7\u00e3o cerca-\u00edndio","datePublished":"2019-04-23T03:42:00+00:00","dateModified":"2021-04-20T16:31:14+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/"},"wordCount":18392,"commentCount":24,"publisher":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211021\/Rondonia_HighRes_Fabio-Nascimento-09-1200x800-1.jpg","keywords":["deforestaci\u00f3n","Fase I","grilagem","madera","pueblo karipuna","pueblo Uru-Eu-Wau-Wau"],"articleSection":["Brasil"],"inLanguage":"pt","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/","name":"Opera\u00e7\u00e3o cerca-\u00edndio","isPartOf":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211021\/Rondonia_HighRes_Fabio-Nascimento-09-1200x800-1.jpg","datePublished":"2019-04-23T03:42:00+00:00","dateModified":"2021-04-20T16:31:14+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#primaryimage","url":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211021\/Rondonia_HighRes_Fabio-Nascimento-09-1200x800-1.jpg","contentUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/19211021\/Rondonia_HighRes_Fabio-Nascimento-09-1200x800-1.jpg","width":1200,"height":800},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/en\/2019\/04\/23\/el-cercado-indigena\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Home","item":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"Indigenous communities under siege in Rond\u00f4nia&#8217;s land"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#website","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/","name":"Tierra de Resistentes | Consejo de Redacci\u00f3n","description":"Base de datos de defensores ambientales amenazados y asesinados en Latinoam\u00e9rica. Historias, fotograf\u00edas, videos y gr\u00e1ficos para entender la situaci\u00f3n de los resistentes.","publisher":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#organization","name":"Tierra de resistentes","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LogoEspanolAjustado-1.png","contentUrl":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/LogoEspanolAjustado-1.png","width":1568,"height":944,"caption":"Tierra de resistentes"},"image":{"@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/logo\/image\/"}},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/78a3494158767222271d5d1474147abc","name":"Gustavo Faleiros","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt","@id":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/es\/#\/schema\/person\/image\/5221813f9d5ae57cc197ae2e72087c14","url":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/19212036\/Gustavo-Faleiros-Retrato--150x150.jpg","contentUrl":"https:\/\/media.tierraderesistentes.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/19212036\/Gustavo-Faleiros-Retrato--150x150.jpg","caption":"Gustavo Faleiros"},"description":"Gustavo Faleiros es editor de investigaciones ambientales de la Red de Investigaci\u00f3n de la Selva Tropical (RIN) del Pulitzer Center. Basado en S\u00e3o Paulo, Brasil, es un periodista medioambiental y formador de medios de comunicaci\u00f3n especializado en reportajes basados en datos. En 2012, lanz\u00f3 InfoAmazonia, una plataforma digital que utiliza im\u00e1genes de sat\u00e9lite y otros datos disponibles p\u00fablicamente para informar sobre los nueve pa\u00edses de la selva tropical amaz\u00f3nica.","sameAs":["https:\/\/x.com\/@gufalei"],"url":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/author\/gustavo\/"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/120\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5123"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=120"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/tierraderesistentes.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}